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minhas notas

Tempo da Pós-Verdade

25.01.19 | minhasnotas

Dois conceitos fundamentais na nossa cultura e na nossa vida são a verdade e a mentira. Há uma verdade contra uma mentira, uma fantasia ou uma invenção. As nossas ideias e a nossa vida exigem um fundamento real, certo, uma objetividade inquestionável a que se dá crédito e que serve de alicerce à vida e ao pensamento. A vida exige a verdade para ser uma vida de verdade. No entanto, atualmente, estamos a assistir a este conturbado, nebuloso e insidioso tempo a que os estudiosos chamam o tempo ou era da pós-verdade, ou seja, o tempo em que a verdade deixou de ser a conformidade com os acontecimentos e os factos e cada um passou a ter o direito de construir a sua própria verdade, a sua interpretação da realidade e dos factos. Já não é o tempo de uma única verdade real e objetiva incontestável, respeitadora dos factos, aceite por todos, mas o tempo das meias-verdades ou verdades alternativas, conforme a ótica e a perspetiva de cada um, distorcendo-se a realidade. Depois de se ter ingloriamente decretado a morte de Deus, está a ser agora proclamada a falência ou a morte da verdade e a promover-se o admirável mundo das várias verdades, das narrativas, das perspetivas, das versões, das interpretações da realidade conforme os interesses e as conveniências de pessoas e grupos. Ainda nos lembramos do ridículo que foi ver o atual presidente americano defender que teve tantos ou mais americanos a assistir à sua tomada de posse como teve Barack Obama, quando as imagens o desmentiam inequivocamente. Contudo, arrogantemente apresentou imagens e dados «alternativos», ou seja, sejamos honestos, distorcidos e inventados, para confirmar a sua verdade.

Dois grandes fatores estão a contribuir para esta confirmação: a ascensão do populismo na política e na economia e a grande relevância dos meios de comunicação social e das redes socias nas sociedades contemporâneas. A estratégia de definir uma verdade conveniente e de saber manipular o povo para a aceitar não é de agora. Sempre foi um recurso a que os vários poderes que constituem a sociedade souberem recorrer com mestria e sem escrúpulos morais. Mas agora tornou-se ainda mais fácil fazê-lo, com um impacto e uma velocidade impressionantes. Está aí em força o fenómeno das fake news ou falsas notícias, com um poder incrível, um número incalculável de estragos, com dimensões inacreditáveis, ao ponto de já poderem ter influenciado eleições e decisões importantíssimas de povos, como as eleições na América, no Brasil e o referendo do Brexit no Reino Unido. Impensável.

Segundo o investigador brasileiro da Universidade do Minho, Sergio Denicoli, existem grupos, com milhares de seguidores, que se dedicam a espalhar conteúdos e dados falaciosos, a desconstruir, a rebater e a relativizar com enredos falsos a própria história e a verdade como a conhecemos, os temas sociais, através de sites, do Facebook e do Youtube, por exemplo, fazendo passar sempre uma forte impressão de que estão a transmitir a verdadeira verdade como nunca foi contada até agora, verdade que a conspiração dos poderes instalados e opressores sempre esconderam e manipularam até hoje, quando, na verdade, quem o está a fazer com uma ominosa imoralidade são eles mesmos. Um sem número de mentiras anda por aí a ser assimilado como factos verídicos. Alerta o investigador que os próximos atos eleitorais em Portugal não estão imunes a este vírus das notícias falsas e muitos eleitores poderão ser levados a tomar a sua decisão com base em invenções e falsidades espalhadas nos vários canais da internet. Dá que pensar!

Reparemos no pântano e nas águas lodosas em que nos movemos! Vivemos, de facto, tempos preocupantes e perturbadores, que exigem de nós muita prudência e perspicácia. Lá no fundo, tudo pode ser verdade. Mas quando tudo pode ser verdade, acabamos por edificar um mundo de mentiras e falsidades, de meias-verdades e de inverdades. Podemos andar a ser levados por «narrativas» proclamadas pelos profetas e malabaristas da pós-verdade, anunciadas como o último grito da verdade, que não passam de belas construções completamente descolocadas da verdade histórica e da verdade dos factos.

É fundamental para a nossa civilização que recuperemos o respeito pela verdade e que combatamos esta trágica deriva contemporânea de misturar ou trocar a verdade por mentiras, invenções, ficções ou oportunas versões ao serviço de interesses. Que voltas o mundo dá: a sociedade da informação que foi promulgada aos quatro ventos com grande otimismo e com grande fervor progressista, arrisca-se a ser a sociedade geradora da maior desinformação e contrainformação jamais imaginada, a maior propagadora de mentiras, de falsificações e fraudes informativas.  

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