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minhas notas

Dois equipamentos ou instrumentos marcam a vida contemporânea: a televisão e o computador. Este revolucionou a nossa capacidade de organização e de trabalho, proporcionou-nos uma comunicação muito mais célere e eficaz, aproximação e construção de redes transversais e globais, para lá do muito lazer que também oferece, sempre à mão com meia dúzia de cliques. A televisão tornou-se a grande animadora dos ambientes sociais e dos serões familiares. Ou até mais do que animadora: a televisão é hoje, em muitas casas, o pão intelectual e a grande formadora das consciências, formatando os hábitos, valores e comportamentos de uma grande massa social.

Passamos muito tempo diante da televisão. Rendemo-nos excessivamente à televisão. Tornámo-nos consumidores de televisão, sem critério e consciência crítica. Isto tem algum mal? Claro que tem. As pessoas deixaram de dar tempo a atividades e ações muito mais enriquecedoras para a sua vida, como ler bons livros, dar tempo a associações e a instituições, dar tempo aos outros, cultivar a amizade, o encontro e a partilha, a exploração da criatividade e de dons e talentos profícuos para a vida social e comunitária, entre outros. E tem, sobretudo, devido ao produto que a televisão oferece, que, na sua maioria, é de média e má qualidade. Compreendo que a televisão também é para entreter, mas, na sua base, não temos uma televisão responsável e exigente, com critérios educacionais, culturais e formativos bem vincados, inspirados na excelência da humanização e da socialização, mas temos uma televisão regida pela mínima preocupação ética e cultural, obcecada por audiências a qualquer preço, geradoras de dinheiro. A televisão oferece muito lixo às pessoas e muitas pessoas não têm suficiente espírito crítico para saberem questionar e recusar a lixeira que lhes oferecem, deixando-se estar anestesiadas e atónitas diante da televisão, adormecidas num entretenimento que pouco ou nada lhes acrescenta à vida. Daqui advém, claro, uma sociedade pouco culta, sem ginástica intelectual, inerte, indiferente, viciada na facilidade e no comodismo. Vivemos numa sociedade dependente da televisão. Tornou-se mesmo um sedativo para ajudar a passar o tempo e a adormecer, sem acrescentar mais cultura e educação à vida das pessoas.

Reparemos até nas causas e nos efeitos do zapping (passar de uns canais para os outros para ir passando o tempo), que, em algumas pessoas, é uma dependência. Tudo nos interessa e nada nos interessa. Sem qualquer objetivo e referência, absorvemos uma cascata de sons, sensações e imagens, numa voracidade tonta por tudo e por nada, captando tudo pela rama, na falsa perceção de que estamos atualizados com o mundo, quando não estamos. No fim, não fica senão uma grande inquietação interior e um grande descontentamento, porque nada ou quase nada interessou, nada ficou para a vida, não se deu dinamite à inteligência e sobressaltos ao coração, tudo foi um passar de tempo entediante, que de forma insuspeita, vai tornando as pessoas sem gosto por nada, amorfas e apáticas, abúlicas e crestadas. Parece um diabético a contemplar um sortido de doces.

Já aqui o disse mais do que uma vez a impressão, que já é uma convicção, que tenho dos tempos atuais: tem-se muita informação para não se saber nada ou quase nada. A informação entrou na órbita do consumismo. Devoram-se notícias e mais notícias, anda-se avidamente atrás de novidades e mais novidades, mas não se questiona e analisa e não se faz uma triagem e uma síntese, porque faltam alicerces e referências, de forma que pouco saber e pouca sabedoria se adiciona à vida. Vivemos numa cultura vaporosa e líquida, que gosta que tudo seja intenso, mas rápido, que nada se firme e que tudo corra, em nome de uma avidez vaga, que não sabe o que quer e para onde quer ir. Até os debates televisivos já nem formam nem informam, porque o que interessa é ganhar a luta e dominar o espetáculo do debate e não esclarecer e apontar caminhos e soluções da parte de quem abarca o saber.

Repensemos o tempo que damos à televisão. Muito desse tempo é tempo perdido. O quadradinho mágico há muito que deixou de o ser. Uma televisão assim faz-nos pouca falta. 

A aparição da televisão é um dos acontecimentos marcantes da idade contemporânea. A ela se devem grandes transformações. Ninguém duvida que é um instrumento poderosíssimo, cheio de virtualidades, de grande utilidade e eficácia. Como permite chegar a muita gente ao mesmo tempo, de forma rápida, pode desempenhar um papel importante na formação e educação das pessoas e na construção da sociedade. É notório que ela, hoje em dia, enforma consciências e comunica uma boa parte dos valores, que estão presentes na vida das pessoas. Ora, porque assim é, devia-se ter mais cuidado com o produto que se oferece ao público. Se na nossa vida, por norma, nos norteamos pelos valores mais sublimes e positivos e pelos princípios mais construtivos e edificantes, que mais nos dignificam e humanizam como pessoas humanas, devíamos ter o cuidado de formatar a produção televisiva pelos mesmos padrões.

De uma forma geral, a maioria dos programas, que fazem parte do cardápio que a televisão hoje nos oferece, é pobre e medíocre e assim o é porque a televisão está muito reduzida ao entretimento e à questionável ideia que temos de entretenimento. Nem os telejornais se salvam, com hora e meia de informação, abusando-se excessivamente do directo e da espetacularização dos acontecimentos. O lema é ir informando, entretendo. Tirando um ou outro telejornal e os documentários e um ou outro programa de qualidade, o que se oferece ao público é sempre a mesma papa: futebol, concursos, novelas e filmes, que já passaram não sei quantas vezes. Certamente que este tipo de produção teria de fazer parte da televisão, mas deve-se ir muito mais longe na forma e no conteúdo, e nós, cidadãos, devíamos ser mais exigentes e reclamar outros gostos e outra qualidade. Aliás, uma boa parte dos programas, na minha modesta opinião, são autêntica trampa cultural, lixo de 24 quilates, que outra utilidade não tem que nos fazer chafurdar na futilidade e aumentar a demência e a decrepidez mental e cultural.

Neste momento estão em exibição, ao serão, dois belos exemplos da lixeira televisiva: o peso pesado e a casa dos segredos. Não vejo a utilidade de um nem do outro, com a agravante de um ser degradante e outro uma completa nulidade, respectivamente. Fico espantado como é que ainda existem pessoas que se dispõem a participar nestes teatros mediáticos e nestas comédias sem graça. Ou melhor, espantado de todo até nem estarei, tendo em conta os valores balofos a que as pessoas se entregam, hoje em dia, como ser famoso a todo o custo, estar no centro das atenções e ganhar uns trocados fáceis, sem grande esforço, mandando-se à fava a dignidade e o respeito que se deve ter por si próprio.

Se o objectivo do peso pesado é contribuir para a educação alimentar e para a valorização do exercício físico, não é necessário expor à humilhação 14 obesos, sem pejo em escancarar as banhas diante das câmaras de televisão, mais não se contribuindo que para a chacota, a repulsa e a discriminação saloia a que os obesos são votados nesta sociedade, que se gaba de lutar contra as discriminações, e para o «fundamentalismo alimentar» que hoje impera na sociedade. Um bom nutricionista e um bom mestre em exercício físico, em trinta minutos diários, valiam muito mais do que ver 14 obesos a serem massacrados e a desabafarem narrativas deprimentes, um tanto ou quanto exageradas. Quanto ao programa a casa dos segredos, com o pretexto de se levar um segredo, o objectivo é sempre o mesmo: espiar cenas de sexo, namoricos efémeros, picardias e berrarias, cenas de exaltação e estupidez, fantochadas atrás de fantochadas, devidamente sugadas por uma apresentadora excitada e piegas. Que nulidade e que enfado! Segundo dizem os autores destas produções mirabolantes, «isto é que interessa à populaça». Honestamente, que fracos gostos andam por aí! Já estava profetizado há muito que os canais privados, mais tarde ou mais cedo, ficariam reféns da mediocridade e da pirosidade social, não olhando a meios para terem audiências. É um programa que retrata muito bem a pantominice, a bagunça de sentimentos e valores, a imaturidade humana e o retrocesso cultural, que se verificam na nossa sociedade. 

Ao invés desta escória televisiva, repare-se na qualidade do programa MasterChef, que passa na RTP 1, aos sábados à noite. Repare-se na qualidade, na competência, na elegância, no «tempero», no carácter instrutivo e na graciosidade que o programa tem. Na minha opinião, dos melhores programas que apareceram nas televisões, nos últimos anos. Um bom programa onde se aprende, se conhece, se ganha amor à nossa gastronomia e à nossa cultura. Um programa que nos transporta para o «charme» que a cozinha tem.

Se a televisão nos pode mudar a nós, também nós podemos mudar a televisão. Basta que elevemos os nossos padrões de exigência e façamos ver às chefias que estão à frente das televisões que é preciso uma televisão diferente, mais virada para a cultura e para a educação e a formação, sem deixar de propor algum entretenimento sadio. Uma televisão que não ajude a passar o tempo, sem mais nem menos, mas que nos faça sentir que o tempo que lhe dedicamos está bem empregue, contribuindo para o crescimento das pessoas e da sociedade. 

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