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minhas notas

Retomo o tema do homem light, pela pertinência e urgência do tema. Seguindo os seus passos, acabaremos por ter uma melhor compreensão da sociedade em que vivemos atualmente. Recordo a ideia base da denominação «homem light»: «um homem sem essência, sem conteúdo, sem valores, entregue ao dinheiro, ao poder, ao êxito e ao prazer ilimitado e sem restrições», um homem «que tem por bandeira uma tetralogia niilista: hedonismo (prazer), consumismo (ter e desfrutar), permissividade (vale tudo) e relativismo (subjetividade). Todos eles impregnados de materialismo.» São estes os traços gerais do homem light que prevalece nas sociedades contemporâneas.

Enrique Rojas, autor do livro com aquela denominação, descreve em seguida o que ele chama o «ideal apático» do homem light: «não há no homem light entusiasmos desmedidos nem heroísmos. Tudo suave, ligeiro, sem riscos, com a segurança pela frente. Um homem assim não deixará marcas. Na sua vida já não há revoluções, dado que a sua moral se converteu numa ética de regras de urbanidade ou numa mera atitude estética. Dessas frinchas surge o novo homem cool, representado pelo telespectador que com o comando à distância passa de um canal para o outro buscado não se sabe bem o quê, ou pelo sujeito que dedica o fim-de-semana à leitura de periódicos e revistas, quase sem tempo – ou sem capacidade – para outras ocupações de maior interesse». Facilmente constatamos esta realidade nos nossos meios: as pessoas já não se entregam a causas ou ideais com os entusiasmos de outros tempos, em que existia uma apurada consciência das metas nobres que a pessoa humana e a sociedade deveriam atingir, não porque não tenham tempo, mas porque não existem padrões e objetivos mais elevados e motivação para os atingir; prefere-se ir deixando passar o tempo sem grandes ondas, em vez de se investir saber e experiência em associações, movimentos, instituições, iniciativas ou ocupações de utilidade para o crescimento humano ou social, ou só se investe se não exige muito e é desportivo. Não há vontade firme, para lá da abnegação e do sacrifício, em se entregar a esforços para melhorar a sociedade, atingir uma maior perfeição humana e acrescentar algo mais à vida dos outros. 

Continua Enrique Rojas: «O homem light é frio, não crê em quase nada, as suas opiniões mudam rapidamente e vive afastado dos valores transcendentes. Por isso se foi tornando cada vez mais vulnerável. Deste modo é mais fácil manipulá-lo, mudá-lo de um lado para o outro, tudo, porém, sem demasiada paixão. Foram feitas demasiadas concessões sobre questões essenciais, e assim os desafios e os esforços já não apontam para a formação de um indivíduo mais humano, culto e espiritual, mas para a busca de prazer e do bem-estar a todo o custo, sem esquecer o dinheiro». Uma das coisas que mais me espanta em muitas pessoas é a facilidade com que se deixam ir atrás das opiniões dominantes. Num dia, defendem com exaltação determinadas ideias e valores, noutro dia, já estão a dizer tudo ao contrário com a mesma exaltação, porque a opinião dominante mudou. Repete-se a mesma atitude: ir atrás do consensual, para não fazer muitas ondas. Para quê entregar-se à aturada tarefa de contrariar e pensar uma pouco mais para além da espuma da vida? Há momentos na vida que é preciso mudar, mas não com esta leviandade e facilidade. Sinal claro de que as pessoas não têm convicções e que se regem pelos megafones do mundo por uma questão de aceitação, segurança ou incapacidade ou preguiça de pensar por si mesmas e de marcar a diferença. Opta-se pelo caminho fácil de fazer consenso com o pensamento predominante, sem reflexão e cunho pessoal. Ter convicções e lutar por elas é maçador, não é? A democracia não tem só coisas boas, também tem algumas menos boas: instala a apatia de pensar por si mesmo e gera o medo de se ir contra a maioria, a opinião pública.

Prossegue Enrique Rojas: «Podemos dizer que estamos na era do plástico, o novo sinal dos tempos. Dele advém um certo pragmatismo de usar e esbanjar, o que faz com que impere cada vez mais um novo modelo de herói: o do triunfador, que aspira – como muitos homens light – ao poder, à fama, a um bom nível de vida, passando por cima de tudo e de todos».  É esta a cultura que os meios de comunicação social mais promovem e que transparece com toda a clareza na vida dos partidos políticos, das instituições e das empresas: o atleta que ganhou a medalha de ouro e já é uma estrela, o ator que ganhou o óscar e que é admirado por tudo e todos, o gestor do ano, o individuo que subiu depressa na vida e ganhou muito dinheiro, o ambicioso que atingiu os seus objetivos, entre outros, sublinhando-se a ideia de que atingiram o cume da vida, o momento mais importante da sua vida. Assim se doutrina que a vida não é vida se não se consegue viver com triunfo, com fama, com prestígio, com reconhecimento e com dinheiro, com a admiração dos outros, numa loucura voraz para os atingir, o que não é verdade. São valores profundamente ilusórios, que escravizam mais do que libertam e realizam. O homem está feito para muito mais.  

Arremato, com uma última frase de Enrique Rojas: «O homem light não tem referências, perdeu o seu ponto de mira e encontra-se cada vez mais desorientado ante as grandes interrogações da existência. Quando se perdeu a bússola, a única saída é navegar à deriva, sem saber a que agarrar-se no que respeita a temas chave da vida, o que conduz à aceitação e canonização de tudo. É uma nova imaturidade, que foi crescendo lentamente, e que hoje já tem uma nítida fisionomia». A mais difícil constatação, que muitas pessoas estão a colher desta crise que estamos a viver, sem o dizerem abertamente, é que sentem que têm vivido uma vida vazia e sem sentido, vida que é mais sobrevivência do que vida, ao sabor das manipulações e dos impulsos dos poderes instalados do mundo, e não sabem que rumo lhe dar. Que futuro?, gritam as novas gerações. Soluções? Reina a desorientação e a cacofonia. E assim é, porque há muito que nos afastámos de encarar a vida com toda a sua verdade, de a pensar com a profundidade que ela merece, em vez de a termos despachado com a inconsciência das crianças no recreio. Adotou-se o ir vivendo, anestesiado pelo prazer e pelo desfrutar do materialismo, sem nos preocuparmos em construir e pensar um verdadeiro fio à meada da vida e em dar-lhe textura, como pessoas humanas. Eis-nos no meio do deserto e só vemos areia. Para onde ir? O povo hebreu pensava na terra prometida. Tinha um fim, um sentido, uma orientação, a busca de uma plenitude. Como é triste viver sem uma terra prometida! É um dos pratos que a cultura light melhor nos serve. Oxalá aprendamos alguma coisa com tudo aquilo que nos está a acontecer.

 

Uma Igreja minimamente atenta facilmente se apercebe que a sociedade portuguesa já não é cristã. O que é necessário para se dizer que uma sociedade é cristã? É necessário que uma boa parte dessa sociedade adira formal e concretamente às práticas, princípios e valores do Cristianismo, servindo o Evangelho de inspiração à política, à economia, à educação, à vida artística e à vida social. Formalmente, ainda há um bom número de pessoas que se dizem católicas. O último estudo – veremos o que dizem os censos – revelava que 90 por cento dos cidadãos portugueses se consideravam católicos. É claro que não é verdade. Muita gente ainda se considera católica porque nasceu em ambiente católico, vai cumprindo algumas tradições, vai a meia dúzia de missas por ano (sobretudo em funerais), tem um filho ou um neto na catequese, concorda com o humanismo e algum profetismo da Igreja. Servem-se destes meios exteriores para se integrarem no cristianismo, meios que não servem senão para constatar um cristianismo muito superficial e formal, que se herdou sem grande convicção, uma espécie de cristianismo morninho, que nem tuge, nem muge. Dizer sim a um conjunto de verdades e concordar com uma determinada visão do homem, do mundo e da vida é muito fácil, e muitos ainda se consideram cristãos nesta adesão intelectual, mas viver convicta e livremente de acordo com essas verdades, princípios e valores, na busca de um ideal e de uma perfeição, é outra história. E é aqui que o cristianismo da sociedade portuguesa mostra os seus pés de barro. Andam por aí muitos cristãos que se dizem cristãos, que não são cristãos. Quanto muito, poderão ser um pouco religiosos, mas não cristãos. Somos um país com grande tradição cristã, é certo. Mas a mim interessa-me o cristianismo vivido e consumado todos os dias. Pelos frutos se comprova o nosso cristianismo.

É muito simples de verificar. Podia até exemplificar com a aprovação do aborto e dos casamentos homossexuais, em clara ruptura com o Evangelho e com a doutrina da Igreja Católica. Podia até ilustrar com a corrupção e o enriquecimento ilícito, que saltam à vista de todos, não se olhando a meios para atingir os fins. Para muita gente não há qualquer problema em ser desonesto e ir à missa. Podia elucidar com a onda de violência e de agressões de vária ordem, que varrem o país de norte a sul. O amor ao próximo é para os outros. Podia até pintar com a desumanidade que é visível nas relações laborais. O que importa é o lucro, as pessoas que se lixem. Podia até comprovar com a pouca assiduidade aos sacramentos, nomeadamente à missa dominical, para a qual se inventou comodamente a palavra católico não praticante, que é o mesmo que chamar quadrado a um triângulo. Podia até argumentar com a total indiferença como certos feriados religiosos são encarados. São bons dias de folga. E podia ainda reforçar com as romarias religiosas de norte a sul do país, que têm como objectivo farra e diversão e não compromisso e adesão a Deus. Olhando aos números do estudo, tudo isto é feito por «cristãos». Tínhamos pano para mangas. Mas não. Vou-me limitar ao dar a vida pelos outros, valor cimeiro do Cristianismo. Ser cristão é fazer da sua vida um dom, para que os outros, aceites como irmãos, tenham vida e a tenham em abundância. Ser cristão é dar-se pela vida e pela salvação do mundo. Mas, pelos vistos, isto não foi bem entendido por muitos que se dizem cristãos. O dar-se aos outros realiza-se de várias formas, inclusive e de forma sublime no ofício que se exerce socialmente. Mas, repare-se na forma egoísta e interesseira como muita gente está na vida. Em alguns sectores da sociedade, bastou o Estado mudar um pouco as regras da reforma e dos vencimentos e não demorou muito a acontecer uma debandada, com pedidos de reformas antecipadas e uso de diversas escapatórias, de gente que ainda poderia dar muito à sociedade. Afinal, importa mais o ordenado e as vantagens pessoais do que servir os outros. Afinal, parece que muita gente ocupa determinados cargos e exerce certos ofícios porque dão bons ordenados e boas reformas e não porque são um lugar privilegiado para servir condignamente a sociedade. Certamente que argumentarão que algumas mudanças foram injustas. Mas mesmo assim, um bom cristão, por amor aos outros, supera a injustiça, com mais alguma capacidade de sacrifício e de entrega …A questão é que, contrariamente aos princípios cristãos, o que norteia a nossa vida é o nosso bem individual ou familiar e não o bem dos outros, ou, se quisermos, o bem comum da sociedade.  

Afinal, no dia-a-dia, os «cristãos» não fazem a diferença. No palco da vida, onde se pode testemunhar uma outra forma de estar na vida e valores diferentes dos mundanos, os ditos cristãos não mostram senão que o que os norteia são os mesmos critérios materialistas e mesquinhos que norteiam qualquer cidadão. Se não fazemos a diferença nestas coisas, no que é que fazemos?  

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