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minhas notas

1.Deixo-vos aqui, antes de mais, um pequeno conto de Sérgio Bocchini, com uma pitadinha de provocação, que diz assim: «Quando o leão morreu, os animais da floresta reuniram-se para eleger um novo chefe. Nos últimos tempos, havia muita anarquia na selva: o velho rei, adoentado e sem forças, já não conseguia fazer respeitar a lei e quase todos os animais se tinham aproveitado para fazer o que lhes apetecia.

Foi então que o rinoceronte, erguendo altivo a sua grande cabeça, disse:

- Chegou a hora de restabelecer a ordem na selva. Não se pode consentir que cada qual faça o que quer. Decidiram então marcar eleições para eleger o novo rei da selva. O convite foi enviado a todos os animais com direito de voto. O urso leu-o e, bocejando, disse:

- Pensarei nisso no fim do letargo. Voltou-se para o outro lado e continuou a ressonar.

O javali pensou que não valia a pena gastar tempo com essas coisas. Enquanto procurava no chão algo para comer, resmungou:

- São todos uns ladrões e aproveitam-se do poder para enriquecer.

O pai e a mãe lobo andavam muito atarefados a cuidar da sua ninhada e não ligaram a isso de eleições. O castor, muito ocupado na construção da sua casa, não estava para perder tempo para ir votar. O elefante que, como se sabe, tem uma memória formidável, lembrou-se das fraudes cometidas nas últimas eleições e decidiu não se deixar de novo enganar. A altiva e aristocrática girafa, que aproveitava toda a ocasião para expressar o seu desprezo pela democracia, olhou de alto para baixo e disse:

- Não quero misturar-me com o povo sujo e ignorante!

Por causa de tudo isto, no dia das eleições, apresentaram-se junto da urna apenas duas macacas, um rinoceronte, um velho camelo e uma raposa tagarela, que convenceu os poucos eleitores a votar na sua amiga hiena, prometendo vantagens e benefícios pessoais. Deste modo, a hiena foi democraticamente eleita, por maioria absoluta, rainha da selva. Já era demasiado tarde quando os outros animais se deram conta de que tinham escolhido como chefe um animal repugnante e sem escrúpulos, orgulhoso e estúpido, pior que o velho rei leão».   

 

 O que a bicharada não sabe de democracia! Ao lermos o pequeno conto, não podemos deixar de nos identificar com algum dos intervenientes. E, no seu todo, é um belo retrato do que se tem vindo a passar com a nossa maior conquista dos últimos tempos: a democracia. De eleição para eleição, tem vindo a crescer o alheamento e a indiferença dos cidadãos. Como acabámos de ver, as consequências podem ser devastadoras: a mediocridade e a incompetência podem tomar conta dos centros de decisão. Compreendo que as pessoas andem desiludidas com a discussão política e frustradas com o fartote de promessas que políticos excitados e delirantes propõem e não cumprem. Veja-se, mais uma vez, a triste e lamentável campanha política a que estamos a assistir: gritaria, insultos, intolerância, malcriadez, ilusionismo, Chico-espertismo, acusações hipócritas, demagogia, mentira, agressividade e sectarismo. Os apelos do Senhor Presidente da República ficam para os anjinhos do céu. Que tristeza, meu Deus! Em vez de se fazer primar na campanha uma séria e esclarecedora discussão de ideias e de projectos, apontando-se caminhos, soluções e saídas para o difícil estado do país, com a devida medida de racionalidade e elevação, prefere-se o desgastante pugilismo pacóvio entre as trincheiras partidárias, a que nos têm habituado nos últimos anos. Mas, ainda assim, não é razão para não se ir votar. Muito pelo contrário. Se a realidade politica não é do nosso agrado, podemos mudá-la com o voto e não ficando em casa, deixando que tudo fique na mesma e não se operem mudanças. Ou confirmar, se se acha que tudo assim está bem. E quem é cristão, porque é cristão, tem um dever acrescido de o fazer. Um cristão não pode viver alheado dos desafios e dos problemas da sociedade em que está inserido. Quem pensa chegar ao céu, sem primeiro construir a terra, não chega ao céu. A fé não é só uma senha para se obter favores ou para se alienar do mundo, como Marx defendia, ou cumprir tradições e entregar-se a devoções. A fé é missão e compromisso, é uma visão da vida e do mundo, é construção do Reino de Deus, já aqui e agora na terra. Um cristão maduro e esclarecido deve viver comprometido com o mundo onde se encontra, tudo fazendo, participando activamente nas estruturas e movimentos, para que o espírito do Evangelho tome conta do rumo da sociedade, não deixando que forças malignas e desumanizadoras ou ideias nocivas para a família humana tomem conta da ordem do mundo.

 

Muitos alegam que o seu simples voto não muda nada. Não é bem assim. Uma pulga, na linha do comboio, não faz parar o comboio. Mas várias pulgas a morder o maquinista, e quantas mais forem melhor, fazem parar o comboio. O voto de todos opera mudanças. Dia 5 de Junho vão-se realizar as eleições legislativas. São das eleições mais determinantes para o nosso futuro. Por amor ao seu país, seja um cidadão responsável. Não deixe de exercer o seu direito e o seu dever de votar.

 

2. Tenho todo o respeito por uma das tradições emblemáticas do Barroso: a chega de bois. É talvez o ‘desporto’ mais apreciado em Barroso. Mas devia-se perceber que, em certos dias, não tem cabimento. Que dizer dos cristãos que no dia de Páscoa organizam chegas? Estamos a perder o sentido estético da vida: saber o que nos fica bem e o que nos fica mal. A Páscoa é a grande festa do Cristianismo. Convida a celebrar a ressurreição de Jesus Cristo com a família e os amigos. É dia de exultação e celebração. Não deve ser ocupado com distracções que nos desviem do essencial. É o dia do Senhor, e só dele e de mais ninguém. Que cristãos somos, afinal? Ou o nosso Cristianismo não passa de verniz? 

Estão-se a aproximar dois actos eleitorais de extrema importância, que facilmente mobilizam o país de Norte a Sul. Desde já deixo o apelo a todos para que exerçam o seu direito e dever de votar. Como cidadãos activos e responsáveis que todos devemos ser, é injustificável o não exercício do voto. Votar é a única forma de legitimar o que se está a fazer bem ou de mudar o que se está a fazer mal. Reafirmo: passar a vida a criticar tudo e todos e depois não ir votar, colocando-se de fora, é inaceitável e merecedor da maior reprovação. Contudo, eu compreendo alguma desilusão e desencanto de muitos eleitores portugueses e é sobre ele que me vou debruçar. Na verdade, o estado da política actual soma pontos todos os dias como um dos factores mais decisivos para a abstenção. 

De facto, quando contemplamos o panorama político português, as movimentações dos partidos, o debate político e a forma como se faz política em Portugal, não poderemos deixar de abanar a cabeça e de estampar no rosto o desânimo. É óbvio que não estou a generalizar. Há muita gente séria e competente, com espírito de missão, que está no mundo da política com nobreza e que tem prestado um serviço de extrema importância ao país, com grande visão. E que pena é muita gente capacitada não ocupar mais cargos políticos em Portugal. Mas também é verdade que anda muita gente na política que não faz lá falta nenhuma, que não tem senão contribuído para a deterioração e descredibilização da actividade política e do debate político. 

Um dos aspectos que mais contribuem para o actual desencanto da política é que não há pensamento. Não há ideologia, não há uma reflexão séria e um debate sério de ideias dentro dos partidos, em primeiro lugar, e depois no debate público (embora pareça que se está a recuperar algum confronto ideológico, mas mesmo assim é muito tímido). Impera um deserto de ideias. Se a politica tem algo de cativante e apaixonante é que permite o exercício da inteligência e o confronto e diálogo de ideias. Os partidos políticos têm-se limitado a propor soluções e medidas correctivas e pontuais para os problemas, mas sem grande sustentabilidade intelectual. Leiam-se os programas eleitorais dos partidos. Estão ali horas e horas de transpiração intelectual…A democracia vive de ideias e de soluções para o futuro e não de tentativas de culpabilização pelo estado do país, como fazem os partidos políticos. Os debates televisivos e parlamentares, por norma com pouca elevação, confundindo-se arrogância com espírito combativo e determinação, são medíocres e frouxos, sobrando em gritaria o que falta em ideias. Acabam sempre na crítica fácil, no bota a baixo sem qualquer sentido, no passadismo (o que se fez ou deixou de fazer), parecendo às vezes que a principal preocupação dos partidos é mostrar o que foi menos desastroso, e no contradizer por contradizer para atrapalhar e embaraçar o adversário. Alguém tem memória de um bom debate a que tenha assistido, com ideias e substância?   

A vida política é um serviço e uma missão, não é uma carreira. Quem vai para a política deve ir com o intuito de servir os outros e não de à custa dos outros atingir objectivos individuais e egoístas e enriquecer um currículo. É repugnante ouvir-se falar de “homens de sucesso” na vida política. O sucesso que importa é o sucesso de todos, o do país. É repugnante ouvir-se falar em “homens com ambições políticas” na vida política. Só há uma ambição: o bem-estar de todos e o progresso do país. Há que limpar a política de quem a não quer servir como deve ser ou de quem a só quer para êxitos pessoais. É inadmissível que os partidos políticos cedam à tentação de serem agências de emprego para uns quantos oportunistas que estão sempre à espreita de um “lugarzito”, para governarem a vidinha e obterem facilidades para outros objectivos.

O poder tem de ser exercido por alguém e só por si não tem grande valor senão estiver ao serviço de um grande projecto de ideias e soluções. Querer o poder pelo poder é obsceno. Mas infelizmente, hoje em dia, os partidos políticos mais não parecem que máquinas de assalto ao poder. É facilmente perceptível que o que se pretende é ter poder, dominar e impor. Poder fazer meia dúzia de decretos e poder dar meia dúzia de ordens, para se mostrar quem manda, põe muita gente da política nas nuvens.

A política tem a obrigação de dar exemplo e de se pautar pelos mais altos padrões morais, para merecer a confiança das pessoas, e por isso é inaceitável a banalização da mentira e da desonestidade na actividade política. De quatro em quatro anos abre-se a feira das fantasias e das ilusões: em grande alvoroço, fazem-se campanhas eleitorais onde se promete tudo e mais alguma coisa e se apresentam programas eleitorais com boas intenções, mas que outra finalidade não têm que caçar votos e iludir os mais incautos (e que medíocre é a qualidade e a forma dos discursos nas campanhas eleitorais). Passados uns dias e obtida a possibilidade de estar no poder, rasgam-se com toda a tranquilidade e outros interesses mais altos, que todos sabemos quais são, se levantam. Mas, com toda a prontidão e destemor, as mesmas pessoas, que venderam mentiras, sem qualquer remorso, apresentam-se de novo a eleições (escrevo isto tendo em conta os últimos trinta anos de Portugal). Isto é normal? Até quando permitiremos que a política seja um circo sem graça? Neste aspecto, todos temos muita culpa. Por muita cegueira partidária e ferrenhice bacoca, temos legitimado este estado da política. Há que imprimir maiores níveis de exigência, rigor e seriedade à actividade política e a quem quer fazer parte dela.   

Diante desta realidade, persiste a pergunta: em quem votar? Claro que se deve votar, e em quem cada um é que sabe, mas o quanto vai ser difícil escolher um quadradinho para pôr uma cruz…

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