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minhas notas

Desde há uns tempos para cá que tenho seguido com interesse as conferências ou as sessões da TED, que já muitos devem conhecer. A TED é uma fundação privada americana, fundada em 1990 por Richard Saul Wurman, com o fim de divulgar ideias interessantes. Durante 18 minutos, um conferencista convidado apresenta uma ideia com valor ou originalidade, conferências que estão no Youtube. Uma, de que gostei e que me deixou a pensar, foi a de Ken Robinson, inglês nascido em Liverpool, em tempos consultor internacional em educação nas artes para o governo britânico e professor de educação artística. A sua tese é a seguinte: as nossas escolas matam a criatividade humana, com tudo o que isso traz de infelicidade para a pessoa humana, e formatam as pessoas para o mundo do trabalho, desprezando a sua riqueza humana e artística. Na sua opinião, a criatividade é tão importante como a alfabetização. Acho a tese interessante e provocadora.

O conferencista começa por contar a história de uma menina, que habitualmente não manifestava grande interesse pela aula de desenho, ficando no fundo da sala, mas, num certo dia, a professora notou o seu empenho. E perguntou-lhe: «O que estás a fazer?». A menina respondeu: «Estou a fazer um retrato de Deus». A professora, talvez sorrindo, respondeu: «Mas ninguém sabe como Deus é». Ao que a menina respondeu: «Vão saber num minuto». Daqui Ken Robinson conclui, e com razão, que a pessoa humana nasce com criatividade e sem medo de errar e de ser original, de inovar e de evoluir, sem medo de assumir riscos, e que quando não estamos preparados para errar não temos ideias originais. Reforçou isto mesmo lembrando Picasso que afirmou que todas as crianças nascem artistas e que o problema é continuar artista enquanto se cresce. Somos ensinados a abandonar a criatividade, considerada um estado de imaturidade. Conforme nos vamos tornando adultos vamos perdendo a capacidade de inovar e adquirimos o medo de errar. Estigmatizamos o erro, entendido como a pior coisa que nos pode acontecer ou que podemos cometer. Em grande parte da sua atividade, as nossas escolas produzem indivíduos desprovidos de criatividade e formatam-nos para o mundo laboral e para a produção da riqueza, para o seu «papel funcional» da sociedade, onde devem atuar como meros instrumentos de uma engrenagem. Assim, na sua opinião, tem-se deitado por água abaixo muitos talentos e muita originalidade que poderia dar outra beleza à vida humana.

Ken Robinson acrescenta depois dois dados importantes: não havia um sistema de educação pública antes do séc. XIX e que este nasceu para suprir as necessidades da industrialização. Assim se construiu a hierarquia das disciplinas escolares, universal em todas as escolas: em primeiro lugar matemática e línguas, em segundo as ciências humanas e no fundo as artes. O ensino centra-se na cabeça e despreza o resto do corpo. Tudo o que tem a ver com o trabalho é a prioridade do ensino. Não tem de ser assim? Ken Robinson acha que não e que a escola não devia ter só este sentido único, ou se quisermos, esta ditadura, mas que devia dar espaço para cada um conhecer e aperfeiçoar os seus talentos, com criatividade, onde pode ser brilhante, e não ser aniquilado para uma função ou um papel laboral onde não se realizará e onde não será feliz. Confesso que partilho muito destas ideias.

Em tempos, lembro-me de ter lido um artigo do médico, professor e pintor Abel Salazar, onde ele criticava o ensino do seu tempo, em que o bom aluno era considerado aquele que decorava tudo e que debitava tudo o que o professor lhe ensinava, sem qualquer atitude reflexiva e crítica em relação ao saber e ao conhecimento. Para ele, o bom aluno é aquele que questiona o conhecimento e procura aprofundar e inovar o conhecimento, com reflexão e criatividade. O bom aluno é aquele que assimila para ser um criador. Lembro que a palavra escola vem do grego e significa ócio. Já os gregos entendiam a escola como o lugar para o homem se formar e humanizar, se desenvolver e realizar as suas capacidades e potencialidades, se recriar para ser um criador e um inovador. É preciso talvez refundar as nossas escolas por este caminho, porque, infelizmente, hoje em dia, ter um canudo já não significa entrar no mundo do trabalho. O homem tem na inteligência o seu maior dom, mas é mais do que inteligência. Tem um corpo onde habitam muitos outros dons, que também o realizam como homem. A escola deve ter uma visão mais completa da pessoa humana e centrar-se na sua riqueza global. É preciso focalizar mais a escola na realização da pessoa humana e não no mundo do trabalho.  

 

Alguns dos bons professores que encontrei no ensino, pressentindo algum desleixo e fraca assimilação das matérias por parte dos alunos, que a correcção dos exames comprovaria, a primeira afirmação que proferiam, com ar reverencial e com alguma jocosidade, era: ‘chumbaria velha’. Metade da turma ou quase metade tinha nota negativa nos exames. A afirmação escondia muitos outros nomes com que os professores bem gostariam de chibatar os malandros, amantes da preguiça. Mas, os que tinham negativa, seriam todos preguiçosos? Isso não era verdade. Tive muitos colegas que, apesar de dedicarem muitas horas ao estudo, nem sempre obtinham bons resultados. Mas quando mudavam de método e se organizavam melhor e tinham um colega paciente que se dispunha a dar uma ajuda, os resultados eram positivos.

A afirmação ‘chumbaria velha’ é expressão de um sistema de ensino que foi cristalizado ao longo de séculos, mas que está cheio de lacunas. A escola dá as condições; o professor debita os conhecimentos; o aluno assimila os conhecimentos, pouco importando a motivação e as dificuldades com que o faz; organizam-se exames; quem tem positiva passa, quem tem negativa fica retido; fecham-se as portas e para o ano há mais. E assim se vai afastando muitos alunos da escola e mecanizando outros para saberem passar de ano, para terem um diploma, e não a saber estudar por amor ao saber e ao conhecimento. Ao longo da minha vida estudantil, aprendi uma verdade, que ainda hoje me orienta, e que o nosso sistema de ensino olvida, embora já sejam notórias algumas mudanças: cada aluno tem o seu ritmo e as suas necessidades e apesar de alunos de uma mesma turma terem a mesma idade, a maturidade e o crescimento de cada um é diferente. Alguns até já poderiam estar num ano mais à frente e outros não deveriam estar naquele ano. Uma turma é um conjunto de grupos heterogéneos, que andam a várias velocidades, e não um grupo homogéneo. Além do mais, uma pessoa humana tem que ser encarada como um todo, dotada de inteligência, de afectividade, espiritualidade, que estão em permanente interacção dentro da pessoa e quando essa interacção não é harmoniosa, o rendimento da pessoa humana pode ser pouco satisfatório. Não me esqueço de um jovem colega que tive no segundo ciclo. Era espertíssimo, mas era extremamente tímido. Tinha grandes dificuldades em se relacionar com os colegas e quando era interpelado pelo professor, só não saltava da janela se não pudesse, porque bloqueava, originando quase sempre a irrisão geral. Mas quando estava mais à vontade, o que acontecia poucas vezes, notava-se uma inteligência acima da média. Devido ao fraco desempenho nas salas de aula e a um ambiente pouco favorável na escola e em casa, não demorou muito a deixar a escola. Com outro apoio e outra atenção, o rapaz poderia hoje ter outra formação e serviria melhor o país com a sua inteligência. Quantos jovens como ele não tem o nosso ensino, crescendo num ambiente onde se valoriza pouco a educação e o saber, vida familiar conturbada e mal organizada, vícios de vária ordem.

Isto para dizer que não acho descabida de todo a proposta da Senhora Ministra da Educação de acabar com os chumbos no ensino, como parece que um chorrilho de especialistas da educação, de membros partidários e de comentadores da imprensa acham, vociferando, na sua maioria irreflectida e apressadamente, que a medida da Senhora Ministra é a auto-estrada para o facilitismo e o laxismo dentro das escolas, a não ser que a medida só tenha um intuito economicista. Porque se é certo que há alguns chumbos que são ‘justos’, mandriões que não puxam pelas suas capacidades, também há muitos que são injustos, porque não se respeitam as necessidades e o crescimento de cada aluno. A prioridade da escola deve ser proporcionar a todos os seus alunos condições para aprender, acompanhando-os e auxiliando-os nas suas dificuldades e problemas, para que cresçam como pessoas e adquiram conhecimentos, com caminhos diferentes e ritmos diferentes. Os exames devem continuar a existir, como é óbvio, mas para se avaliar o sucesso na aquisição dos conhecimentos e a progressão na aprendizagem e incentivar os alunos que estão no bom caminho e identificar os que precisam de mais apoio, e não tanto para dividir as turmas entre inteligentes e menos inteligentes, levando muitos ao abandono, sem terem uma educação razoável. Contam-se pelos dedos os chumbos que são benéficos, em todos os sentidos, devendo ser uma prática muito ponderada. Facilitismo pode ser o sistema que está instalado: olhando para todos os alunos de forma igual, o que não se deveria fazer porque são diferentes, apenas apresentar um caminho e uma estratégia, deixando-se depois os alunos que não tiveram sucesso para outro professor, obrigado a explicar tudo outra vez, com muito tédio e desmotivação à mistura do aluno. Exigência é apresentar ao aluno o seu próprio caminho para absorver as matérias, naquele mesmo ano, tendo-se em conta as suas dificuldades e lacunas.

Algumas medidas poderiam desde já ser tomadas: diminuir a carga horária dos alunos, ao que me parece é consensual, eliminando disciplinas cuja utilidade é muito duvidosa e criar uma interacção mais rigorosa e responsável entre família e escola. A família desempenha um papel fundamental no sucesso escolar dos alunos. Temos muito a crescer neste campo. Muitas famílias só querem é que o filho passe de ano. Se aprendeu muito ou pouco ou se está a adquirir métodos de trabalho pouco importa. Não pode ser assim. É preciso acompanhar de perto a evolução educativa do filho e criar em casa, em articulação com a escola, um ambiente de amor ao estudo e de valorização do saber.

É tempo de nascer um novo conceito de escola e de educação, mais versátil, abrangente, dinâmico, multifacetado, mais rica em apoios e recursos, e sobretudo mais humanizado, que vá de encontro ao colorido da realidade humana, custe muito ou pouco dinheiro. Não entendo como é que se questiona o dinheiro que se tem que investir na educação. Que se tenha que investir e gerir bem, estou de acordo, agora que se ponha em causa não compreendo. Para além de reflectir uma grande insensibilidade pela humanização das pessoas, porque o saber humaniza, manifesta também um grande desprezo pela democracia, porque não há democracia sem educação e sem cultura. A democracia tem sentido se tivermos cidadãos com livre acesso ao saber, que sabem pensar, dotados de consciência crítica, capacitados para o diálogo e para a sã discussão e partilha de pensamento.

A nossa educação

Os últimos acontecimentos relativos ao terrorismo não podem deixar de suscitar a nossa estupefacção e convidam-nos a entrar pelos meandros da irracionalidade. Graças a alguma inabilidade e precipitação, Umar Farouk Abdulmutallab, um nigeriano de 23 anos, com ligações à Al-Qaeda,  não conseguiu fazer explodir uma bomba que tinha armadilhada contra o seu próprio corpo, visando destruir um avião da Delta Airlines, que fazia a ligação entre Amesterdão e Detroit, em pleno dia de Natal. O que é que moveu um jovem a realizar um acto tão bárbaro? É pobre? Não. É filho de um proeminente banqueiro. Não terá em si a revolta contra os «exploradores» dos ricos. É iletrado e sem formação académica? Não. Estudou num colégio particular inglês. Não é ou não seria um ignorante facilmente manipulável pelos pregadores do fundamentalismo. Tem tudo para ser um jovem bem sucedido e feliz. Tem dinheiro e estudos. Não lhe devia faltar nada na vida. No entanto, em segundos estava disposto a abdicar da sua vida e arrastar atrás de si um bom número de inocentes, que não têm culpa da sua vida entediante e do seu radicalismo absurdo. Os estudiosos do fenómeno do terrorismo disseram, durante vários anos, que os suicidas da Al-Qaeda eram recrutados em bairros miseráveis e ignorantes, que cresceram a cultivar o ódio e o ressentimento para com os «colonizadores» que não os deixaram sair da miséria. Não é o caso deste jovem e de outros tantos da Al-Qaeda, que viveram e conviveram em países ocidentais. Chamam-lhe o terrorista perfeito, porque por força de viver no meio de nós durante anos, jamais suspeitamos que nos atraiçoe um dia. Mas é o que está a acontecer.

O que eu mais estranho nesta irracionalidade toda, é que ela põe em causa os valores que imperam nas nossas sociedades actuais. Não ensinamos todos os dias que ser rico é ser feliz? Não ensinamos todos os dias que ter um curso académico realiza as pessoas e que ter tudo que se deseja é o cume da felicidade? É nisto que ainda acreditamos, mas, como vemos, não chega e acho que até já cansa. O que dá sentido à vida há-de ser sempre um mistério e é relativo. Este jovem viveu num país civilizado e tinha formação refinada, como é atributo dos colégios ingleses. De que lhe valeu toda a boa educação que recebeu? Isto deve-nos fazer reflectir no tipo de educação que as nossas escolas realizam e nas grandes lacunas que a nossa educação apresenta actualmente. Temos uma educação excessivamente intelectualista. A principal preocupação de uma escola ou da educação deve ser formar pessoas e não sabichões, crânios, académicos ou especialistas do conhecimento. Não basta saber muito, mas saber para interagir com o mundo, saber para estar ao serviço do bem e da busca da verdade, saber para ser e saber estar e conviver com os outros. O conhecimento é um bem que deve estar ao serviço das pessoas, para que as pessoas sejam pessoas e cresçam como pessoas. Se é certo que é fundamental formar a inteligência e, sobretudo, ensinar a pensar, não é menos importante formar o coração, formar as pessoas interiormente, inculcar disciplinadamente valores e princípios que humanizam e ensinam a ser verdadeiramente livre. Uma educação autêntica tem que ser uma educação integral, que ajuda a crescer o homem no seu todo e a ser um todo harmónico. A formação moral do ser humano nunca poderá deixar de ser um dos objectivos centrais de uma verdadeira educação, ao lado da formação intelectual. Será que o tem sido? Em alguns meios do dirigismo escolar e do Ministério da Educação, e até em alguns meios académicos, ai de quem pronuncie as palavras religião ou moral. Cai o carmo e a trindade. Não resolveremos tudo, certamente, mas damos um grande contributo para humanizarmos mais o mundo.

 

O Magalhães

 

 Todos os governos gostam de medidas emblemáticas. Já sabemos no que dá: fomos nós que fizemos isto, fomos nós que fizemos aquilo. Pronto, está bem. O actual governo não fugiu à regra. Com a altivez de ser modernista e progressista e com muito folclore à mistura, deu o «Magalhães» a muitos alunos portugueses. Alguns, infelizmente, já andam pela feira da ladra. Foi uma boa medida? Sim e não. A entrada em força das novas tecnologias no espaço escolar, mais tarde ou mais cedo, era inevitável. Sem dúvida. Estou de acordo que assim aconteça. O computador é um instrumento de trabalho insubstituível. Mas o seu lançamento em força no ambiente escolar devia ter sido precedido de um estudo das suas consequências e dentro de orientações claras. O computador, hoje em dia, não é só um instrumento de trabalho. Também é um instrumento de entretenimento. O seu uso no meio escolar implica uma nova forma de nos relacionarmos com o conhecimento, de o trabalhar e adquirir. Um estudo feito na Roménia concluiu que os alunos que adquiriram um computador dedicam menos 3 horas ao estudo por dia. Mas o pior, ao que me é dado a observar, são as consequências físicas do computador, de que todos até já seremos vítimas: os jovens e as crianças exibem níveis de falta de atenção e concentração alarmantes. O silêncio aterroriza-os. Não conseguem pensar sem imagens e sem estar a mexer em qualquer coisa. Isto é preocupante. Além do mais, o computador, ligado à internet, convida ao facilitismo. Faz-se pouco esforço por pensar e investigar. Recorre-se ao Google e pronto, está tudo feito. Ainda há dias o grande Umberto Eco – filósofo e escritor italiano - dizia que o Google está a fazer muito mal às novas gerações. E tem muita razão. Poderemos estar a formar jovens e crianças que só querem divertimento e que estão a perder capacidade de esforço e de sacrifício, valores fundamentais ao longo da vida.

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