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minhas notas

O que temos escutado e lido nos últimos dias só nos pode deixar confusos e defraudados. A Europa não fala a uma só voz e tem muitas dúvidas quanto ao caminho certo. E pior que tudo: não se vê um rumo claro e uma meta consistente para aquilo que se está a exigir a alguns países europeus. Depois claro, não estranhem em ver crescer o euroceticismo, os extremismos e os nacionalismos, que tanta desgraça já causaram na história da Europa. Começa a ficar transparente que os interesses de impérios económicos e de entidades todas-poderosas, que eles supervisionam, dominam mais uma vez, ao invés de se pensar no real e sustentado desenvolvimento e bem-estar dos povos, na justa distribuição da riqueza por todos e na criação do bem comum.

A Troika, constituída pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu, entrou em Portugal, a pedido da nossa incompetência, com a lição já mais do que estudada: o país andava a viver acima das suas possibilidades e por isso tem de fazer uma série de sacrifícios e de cortes dolorosos para se tornar sustentável. O país precisava de um choque de «realidade», andava a viver na ilusão. O que devia ter sido dito é que o Estado, comandado por políticos irresponsáveis nos últimos anos, é que andou a viver acimas das suas possibilidades, contagiando também os seus penduras e parasitas e muitos empresários e muitas famílias inconscientes. O cidadão que se habituou a viver honestamente com o seu ordenado e que poupa não andou a viver acimas das suas possibilidades.

Num primeiro momento, o país percebeu e aceitou que algum sacrifício tinha de ser feito, que, infelizmente, tocaria a todos, se é que tocou. Adquirimos luxos e regalias à custa de dinheiro emprestado, durante vários anos. Fizeram-se aumentos e concederam-se subsídios de vária ordem apadrinhados pelo crédito externo. Deixou-se andar à solta o despesismo imoral, enquanto tocávamos viola na praça pública, crentes de que uma mão providencial vem sempre resolver-nos os problemas. Até nos demos ao fausto de dar reformas-relâmpago chorudas pela prestação de meia dúzia de anos de trabalho. Continuo a não compreender para que é que se dá uma reforma de quinze mil euros ou mais a um reformado e a um jovem que começa a vida e quer constituir família dá-se-lhe o ordenado mínimo. E já que de jovens falo, convém também que eles pensem um bocadinho: como é que se explica que muitos tenham emigrado amargurados com o país e jovens estrangeiros venham para Portugal e consigam montar negócios? Nem tudo estará assim tão mal em Portugal.

Quando olhámos para o lado, vimos que a mesma receita estava a ser aplicada a países mais ricos do que nós. Interiorizámos que alguma austeridade era necessária. O que mais nos custa a ver é que ela ainda não foi feita onde deve ser feita, que é na despesa do Estado. Os partidos políticos são bons a distribuir dinheiro, mas quando se trata de governar a sério, com cortes e sem excessos, são covardes e não têm coragem, porque o poder interessa mais do que o país. E nós cidadãos também temos muita culpa porque se um partido nos apresentar um programa sério e realista para governar não ganha eleições. Preferimos a fantasia.

Num segundo momento, começamos a perceber que depois da austeridade o que se pede é mais austeridade, e, por muito que ponham rostos compassivos, exigida com muita insensibilidade pela real situação das pessoas ou pelo desconhecimento da vida concreta das pessoas. O último relatório do FMI recomenda que se baixem ainda mais os salários em Portugal. É aviltante propor isto ao país. Juram a pés justos de que é o melhor caminho para Portugal. Ao mesmo tempo que ouvimos estes oráculos da douta troika, já vamos lendo entrevistas de altos chefes e gestores de empresas e organizações económicas e financeiras a afirmarem de que Portugal está a tornar-se um país «apetecível», «atrativo para bons investimentos», ou seja, um país de mão de obra barata, que se resigna a viver na miséria, disposto a dar muitos lucros aos insaciáveis capitalistas que só veem dinheiro. É aqui que a Europa devia levantar a voz: o mal não está nos portugueses, mas no capitalismo selvagem e bulímico que tem carta-branca para prosperar onde quer e muito bem lhe apetece. Quem tem de mudar é o capitalismo, que não pode pensar só em rendimentos e lucros e que deve estar ao serviço do bem da sociedade, e não as pessoas que já ganham o razoável para viverem com dignidade.

O rumo que temos vindo a percorrer até aqui é consensual? Não. Em primeiro lugar, lembro as muitas contradições da troika, que já pudemos ler. Dentro do mundo económico, há economistas para todos os gostos. Peter Praet, economista-chefe do Banco Central Europeu, afirma numa entrevista ao Jornal Expresso que «o custo social e económico do programa em Portugal foi muito maior do que deveria ter sido». Não podemos deixar de nos interrogar: mas esta gente, afinal, sabe o que anda a fazer? Anda-se assim a brincar com a vida das pessoas e dos países? Põe-se em prática um programa de resgate sem estar devidamente pensado e sem se medir com todo o cuidado os seus riscos e efeitos? Pelos vistos, temos andado a trilhar um caminho que poderia ter sido menos duro e doloroso do que tem sido. Em que ficamos? O caminho que seguimos era absolutamente necessário ou trata-se de mais uma jogada de experimentalismo económico à custa das pessoas ou de uma manobra para assegurar os lucros dos grandes impérios económicos? Para arrematar só faltava esta: acaba de sair um estudo sobre as obras públicas alemãs, sob o governo da Senhora Angela Merkel, que nos impôs o rigor da austeridade e que nos acusou de calaceiros, despesistas e indisciplinados, em que se afirma que muitas delas revelam incompetência, má gestão e desperdício. Nem mais, Senhora Angela Merkel.

De uma vez por todas, era bom que os capitalistas e as instituições financeiras e económicas escrevessem em letras garrafais nos seus escritórios: a economia deve estar ao serviço do bem das pessoas e dos povos e não as pessoas e os povos ao serviço da economia. O dinheiro existe para criar a comunhão e a promoção do homem e não para criar a exploração e a opressão e fomentar e alimentar a devassidão de uma minoria extravagante e inconsciente. O dinheiro é bom se serve. É mau se se torna um senhor. Em tudo, o homem e a sua dignidade devem ter o primado.

1º - A primeira de todas as dívidas soberanas, e certamente a mais fundamental, é aquela que cada um de nós mantém para com a Vida. Essa dívida nunca a pagaremos, nem ela pretende ser cobrada. Reconhecer isso em todos os momentos, sobretudo naqueles mais exigentes e confusos, é o primeiro dos mandamentos.

2º - Se a maior de todas as dívidas soberanas é para com um dom sem preço como a vida, cada pessoa nasce (e cresce, e ama, luta, sonha e morre) hipotecada ao infinito e criativo da gratidão. A dívida soberana que a vida é jamais se transforma em ameaça. Ela é, sim, ponto de partida para a descoberta de que viemos do dom e só seremos felizes caminhando para ele. É o segundo mandamento.

3º - O terceiro mandamento lembra-nos aquilo que cada um sabe já, no fundo da sua alma. Isto de que não somos apenas o recetáculo estático da Vida, mas cúmplices, veículos e protagonistas da sua transmissão.

4º - O quarto mandamento compromete-nos na construção. Aquilo que une a diversidade das profissões e as amplas modalidades do viver só pode ser o seguinte: sentimo-nos honrados por poder servir a Vida. Que cada um a sirva, então, investindo aí toda a lealdade, toda a capacidade de entrega, toda a energia da sua criatividade.

5º - A imagem mais poderosa da Vida é uma roda fraterna, e é nela que todos estamos, dadas as nossas mãos. A inclusão representa, por isso, não apenas um valor, mas a condição necessária. O quinto mandamento desafia-nos à consciência e à prática permanente da inclusão.

6º - As mãos parecem quase florescer quando se abrem. Os braços como que se alongam quando partem para um abraço. O pão multiplica-se quando aceita ser repartido. A gramática da Vida é a condivisão. Esse é o mandamento sexto.

7º - O sétimo mandamento resume todos os outros, pois lembra-nos o dever (ou melhor, o poder) da esperança. A esperança reanima e revitaliza. A esperança vence o descrédito que se abate sobre o Homem. A esperança insufla de Espírito o presente da história. Só a esperança, e uma Esperança Maior, faz justiça à Vida.

José Tolentino Mendonça

Pelos vistos, este ano a quaresma começa mais cedo (quaresma salvo seja…). A austeridade está na ordem do dia. Vêm aí tempos de penitência e de frugalidade. Estamos em crise. Há que fazer sacrifícios. Com tanta gente a bufar não admira que de vez em quando andem por aí umas ventanias (desculpem esta malandrice, estão a ser cometidas algumas injustiças). Nos próximos anos vai estar na moda o ideal franciscano e tenho para mim que nos vai fazer muito bem. Alguém, em seu perfeito juízo, tinha dúvidas de que esta intempérie não iria acontecer mais dia, menos dia? Nos últimos anos, andámos a viver com empréstimos do exterior, muito acima das nossas posses, à custa de querermos viver com poucos sacrifícios e com um nível de vida de país rico (altas remunerações, casa faustosamente apetrechada, férias três ou quatro vezes ao ano e por aí fora). Os senhores governantes assobiaram para o lado, como se nada se passasse (a não ser que mexessem com os seus ordenados ou estágios sobriamente remunerados em institutos e empresas públicas, como pelos vistos se consta…), prometendo tudo e mais alguma coisa, por vezes roçando a total irresponsabilidade, adiando o rigor e a disciplina de um pais que se leva a sério. O estar no poder a todo o custo sobrepôs-se à responsabilidade governativa. As coisas duras não são para se dizer e fazer. Os bancos armaram-se em promotores de satisfação e felicidade pessoal e familiar, dando ao desbarato créditos para tudo e mais alguma coisa, com total anuência do Estado. Consuma, depois logo se vê. Aí está o resultado: uma boa parte das famílias portuguesas está endividada e com famílias e empresas endividadas não há país que se aguente. Não se pode viver à custa dos outros e acima das posses eternamente.

A Europa olha para nós com compunção: como é possível que um país, que nos últimos anos foi um sorvedouro de fundos comunitários, esteja neste estado? Será que já percebemos, então, porque é que chegámos a este ponto? Estão em causa os valores que erigimos como basilares das sociedades contemporâneas, obcecadas com o dinheiro e o bem-estar e com o enriquecimento fácil, para se viver com o mínimo esforço e sacrifício. Os senhores economistas, que agora alardeiam teorias e teses para todos os gostos, não se questionando a razoabilidade das suas propostas - algumas talvez tardias - , muito além dos seus rácios e percentagens, não dizem o que é preciso: temos de mudar de vida. Temos de repensar as nossas opções e as bases da nossa vida pessoal, familiar e social. Temos de escolher outro modelo de desenvolvimento e refazer o figurino dos nossos valores. A actual crise económico-financeira (que não é só nossa) é um reflexo de uma profunda crise de valores, facilmente verificável desde há una anos para cá. Parafraseando o Doutor Jorge Sampaio, temos de perceber que há mais vida para além do dinheiro e do bem-estar. Muita gente acusa os reguladores financeiros de incompetência. Mas a actual crise não é só fruto da desregulação, mas também do excessivo culto do dinheiro e da falta de sentido de justiça e de solidariedade. Veja-se a debandada de muitas empresas que estavam em Portugal para outros países europeus ou asiáticos, sem qualquer preocupação social, contribuindo para a miséria de muitas famílias. Querem lá elas saber do bem dos empregados? Querem é os lucros. A nossa cultura actual assenta em valores errados.

Nas últimas décadas, mormente a partir da Segunda Guerra mundial, com uma industrialização em progresso e estabilizada e um desenvolvimento apreciável (entre nós foi depois do 25 de Abril), estabeleceu-se por toda a Europa uma cultura de procura desenfreada do lucro, para usufruto meramente egoísta, não se olhando a meios para atingir os fins. Acumular cada vez mais dinheiro, de forma célere e fácil, tornou-se o objectivo e a meta do cidadão europeu, muitas vezes, numa sofreguidão devoradora. O dinheiro tornou-se o centro e o senhor do mundo, obrigando ao sacrifício de tudo, até do mais sagrado. Atrás do culto do dinheiro, vierem mais dois comparsas: o consumo e o bem-estar. Ter dinheiro, consumir e gozar a vida – em sentido hedonista -, eleitos os valores «della vida bella», passaram a andar de mãos dadas. Como não podia deixar de ser, «o culto do efémero e do imediato, a exaltação do egoísmo, a prevalência das aparências, a desvalorização da criação e da partilha de responsabilidades – tudo isso conduziu à ganância, ao esgotamento dos recursos disponíveis e à afectação dos meios que deveriam caber às gerações futuras», nas palavras do Gabinete de Estudos Pastorais da Conferência Episcopal Portuguesa.

Não basta só o lamento e o esperar uma retoma que nos encaminhe de novo para o abismo. É preciso repensar tudo, redefinindo valores, prioridades e o ideal de vida por que estamos obcecados. Temos de construir uma nova cultura mais desmaterializada, onde impere a responsabilidade, a justiça e a solidariedade entre povos e pessoas, relativizando-se o vil dinheiro e colocando-se tudo ao serviço da dignidade da pessoa humana. Está na hora de desconstruir um conceito errado de vida e de organização social. Venha a mudança.

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