Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

minhas notas

O consumismo, paulatinamente, tem vindo a invadir todos os âmbitos da vida humana e social. Continua a demência do mundo contemporâneo: a convicção de que a felicidade está na abundância de produtos e serviços, no usufruto de rendimentos e de bens e mais bens, na multiplicação e sobreposição de experiências, na realização fugaz de todos os desejos, até dos mais insignificantes, fazendo-se da vida uma experiência de tudo e de nada, uma roda-viva sem sentido, uma vida sem vida. Quando entenderemos que a felicidade está nas pessoas e na vivência da verdade mais profunda de nós mesmos, com espiritualidade e moralidade, e não na satisfação epidérmica que os prazeres e os bens do mundo nos oferecem? O resultado do consumismo está aí estampado todos os dias: pessoas vazias, impacientes, manipuladas, aborrecidas, dependentes, stressadas, empedernidas, agoniadas, deprimidas.

O consumismo persiste porque vivemos numa sociedade individualista. Não nos é difícil verificar que, atualmente, importa mais o individuo do que a família ou a sociedade, importa mais o eu do que o grupo ou a comunidade, importa mais o prazer e a satisfação pessoal do que o amor autêntico. Como não existem grandes causas e grandes projetos sociais que mobilizem as pessoas e não há uma clara conceção de fraternidade, as pessoas refugiam-se mais em si mesmas e procuram rodear-se de toda a espécie de bens e produtos, onde pensam encontrar a realização e a felicidade, que julgam não encontrar em mais lado nenhum. É uma vivência errada da vida.

Até já temos o consumismo religioso, que já fez alguns estudiosos delirar com o retorno ao religioso. Poderá, em alguns casos, ser retorno ao religioso, embora muito núbio e difuso, mas é sobretudo consumismo, ou seja, aquisição e busca de bens e serviços para se ir consumindo e para o mero bem-estar pessoal, não importando donde vêm, e para a resolução imediata de problemas e dificuldades. Não há uma busca e uma adesão séria a Deus e o compromisso com uma comunidade. Apenas se quer bem-estar pessoal. Assim se vêm pessoas a colecionar orações, na convicção de que quem as reza obtém determinados efeitos na sua vida (está boa, não está? A oração é escuta e diálogo com Deus, este é o seu efeito), confissões atrás de confissões para se ter apenas bem-estar psicológico, aquisição de objetos religiosos das várias crenças religiosas, acreditando-se nos seus poderes mágicos e milagrosos, participação em celebrações atrás de celebrações, frequentando-se com toda a normalidade uma missa, logo de seguida uma reunião de uma seita e se houver tempo ainda se vai a um encontro budista ou outro qualquer, frequência de cursos de formação simplesmente para se ter ou dizer que se tem, sem a preocupação de verdadeiramente se comprometer e de acrescentar verdadeiro conhecimento à vida, coleção de romarias e festividades, e por aí fora.

Um consumismo que está muito em voga é o psicológico, não deixando de suscitar um misto de curiosidade e de ironia. Destinado a alimentar o narcisismo (idolatria e culto do eu, com seus caprichos, gostos e sentimentos), que o individualismo gera, tornou-se quase obrigatório ler horóscopos (com que seriedade são lidos e seguidos!), a quiromancia, pedir a opinião do psiquiatra, do psicanalista ou do psicólogo para tudo e para nada. Ouve-se que é preciso conhecer as cavernas recônditas e os meandros da nossa personalidade e libertar o eu das suas tensões e prisões. Eis a nova febre que aí anda: ioga, meditação, zen, terapias de grupo, expressão corporal, filosofias e práticas orientais, e, por vezes, quanto mais exotéricas melhor, para reafirmação de determinadas posturas e satisfação pessoal. São as denominadas «terapias psi», que costumam estar mais ou menos revestidas das cores das filosofias orientais. Nasceu assim o homem psicológico, que busca a libertação e que trabalha pela independência e autonomia do seu eu, início e fim de todo o seu comportamento. Que dizer de tudo isto? Não está em causa o valor enorme da psicologia e das filosofias e práticas orientais, que bem usadas produzem alguns efeitos saudáveis na vida, e de alguns dos seus profissionais. Está em causa a sua instrumentalização para um narcisismo exacerbado e estulto e para um consumismo que só na aparência dá bem-estar e satisfação às pessoas, porque a ausência de bons valores e de verdadeira vida interior, em comunhão e ligação com os outros, persiste. Se por detrás deste interesse pelas práticas e filosofias orientais estivesse uma vontade firme de mudança, quer dizer, conhecer-se melhor para retificar, mudar o rumo e corrigir erros de conduta e dar mais qualidade moral e humana à vida, teria o seu sentido e mereceria aprovação, mas o que se nota é que se busca pura satisfação narcisista e continuar a dar largas ao individualismo, que mais não quer que o seu bem-estar, procurando-se tapar os muitos desequilíbrios que a vida tem.

O consumismo, seja de que teor for, é sempre uma servidão. Num tempo em que tanto se fala de liberdade e do direito a ser livre, seria bom notarmos que, afinal, não somos assim tão livres como pensamos. Não faltam ídolos e manipulações que nos tiram a liberdade e nos alienam para fins para os quais não fomos feitos e que a médio e longo prazo nos tornam menos humanos e mais infelizes. Se não tivéssemos deitado fora os valores espirituais da fé cristã, como muitos fizeram, facilmente perceberíamos que toda esta ementa «psicológica» que por aí anda, como nos é proposta, não passa de treta e de verbosidade de candongueiros.

Nos muitos debates a que vamos assistindo entre economistas, uma causa que apontam para a crise económica e financeira actual é o baixo consumo dos povos e cidadãos. Não havendo consumo, as empresas não escoam os seus produtos, os mercados não movimentam capital, e não havendo movimentos de capital não há capitalismo e coisa tal. A verborreia económica que está na moda. Compreendo que os economistas, enquanto economistas, tenham uma visão económica da vida e da organização social. A vida de um cidadão e de um país tem a sua vertente económica. Mas o que tem de se discutir actualmente é o modelo económico-financeiro que tem estado em vigor, que assenta muito no grado consumo exigido e impingido às pessoas. 

A pessoa humana precisa de alguns bens e produtos para viver com qualidade. É um ser de consumo. Sem esses bens, fica gravemente afectada a sua vida como pessoa humana. Mas o facto de a pessoa humana ser um ser de consumo, não significa que deva ser consumista. O consumo é adquirir os bens necessários para viver bem. O consumismo é adquirir viciosamente bens e produtos supérfluos (na sua maioria) que não servem para nada e que pouco ou nada acrescentam à vida, a não ser para proporcionar poder, exibicionismo e conformidade com a moda.

Nos últimos anos, por acção de campanhas publicitárias agressivas e persistentes, o fenómeno do consumismo ganhou forte protagonismo na vida dos povos e das pessoas. Explorando sabiamente os complexos e fragilidades da pessoa humana e metralhando obsessivamente as mentes todos os dias, o consumismo encarregou-se de criar o seu público consumista fascinado e anestesiado, a quem oferece uma enorme variedade de produtos, na sua óptica, fundamentais para a felicidade (podia-se viver sem eles, mas não é a mesma coisa…), virada para a simples curiosidade de experimentar, de querer ter algo diferente que nunca se teve, para se ser igual ou mais do que os outros. Paulatinamente moldou os valores e as crenças das pessoas. Coadjuvado magistralmente por empresas de publicidade e sagaz instrumentalização dos meios de comunicação social, incutiu nas pessoas a necessidade de ter e de usufruir coisas e mais coisas, de ser melhor e mais bonito do que os outros, de ter mais ou ser mais capaz do que os outros, de tal forma que hoje é comummente aceite que ser feliz é ser consumista e quem não consome ou tem coisas é um pobre coitado. Consumo, logo existo.

Os consumistas aí estão. Pessoas que andam todos os dias em alto frenesim e com urticária incurável, procurando a sua realização pessoal no consumo exacerbado de serviços, bens e produtos (viagens atrás de viagens, os últimos gritos da tecnologia, passeios intermináveis por centros comerciais e hipermercados, em contínuo compra, usa e bota fora), não se apercebendo que são vitimas da pressão social e dos meios de comunicação social e até de si próprios. Nunca estão totalmente satisfeitos. Nada chega. Afinal, o consumismo que lhes promete a felicidade, outra coisa não lhes dá que uma permanente infelicidade. Andam atrás de necessidades que não são senão ficção e ilusão. Porque, na verdade, não são necessidades. O consumismo é que lhes insuflou essas necessidades supérfluas, fazendo-os viver uma vida que não é real e verdadeira e desvirtuando a verdade da vida, infundindo-lhes necessidades de que verdadeiramente não têm necessidade.   

Actualmente, o consumismo é um dos grandes causadores de infelicidade para as pessoas, porque muitas caíram no desemprego e por isso não têm dinheiro para consumir como os outros, sentindo-se por isso inferiorizadas, e também é, em parte, o móbil das reivindicações sociais, porque se quer ganhar mais dinheiro para consumir mais e não para melhorar o essencial da vida, isto não pondo em causa quem luta por maior igualdade e justiça entre as pessoas.

É preciso desmontar o consumismo. A crise que actualmente vivemos e que nos vai acompanhar nos próximos anos, em certa medida, é preciosa: vai-nos ensinar a viver com o necessário e a perceber que o necessário chega para viver. E se cada um aprender a viver com o necessário, chega melhor para todos. O ambiente natural para se viver bem como pessoa é a frugalidade. Andamos atrás de muita coisa que não faz falta, que nos faz transpirar muito suor e gastar erradamente muito dinheiro. Os bens existem para as pessoas e não as pessoas para os bens. Ou numa formulação mais apurada para os senhores economistas, os modelos económicos devem estar ao serviço das pessoas e não as pessoas ao serviço dos modelos. Há mais de dois mil anos, Jesus foi muito claro: «nem só de Pão vive o homem, mas de toda a Palavra que vem da boca de Deus». 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub