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minhas notas

Não sei se acompanharam a correspondência e o diálogo que o Papa Francisco e Eugenio Scalfari, cofundador e editor do Jornal italiano La Repubblica, não crente assumido, empreenderam nos últimos dias ou meses. Scalfari, depois de ler a última encíclica papal, Lumen Fidei, sobre a fé, resolveu questionar o Papa, em forma de carta aberta, sobre alguns temas relacionados com a fé e a laicidade, em dois artigos a 7 de Julho e 7 de Agosto, publicados no referido jornal. O Papa Francisco respondeu com uma carta, a 4 de Setembro, publicada no mesmo jornal. Posteriormente, encontraram-se no Vaticano para aprofundarem o diálogo e o conhecimento. Chegou o tempo, nas palavras do Papa Francisco, «de fazer um pedaço de estrada juntos».

Scalfari apresentou-se diante do Papa com uma identidade bem vincada: «sou um não crente que, há muitos anos, está interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José, judeu da estirpe de David. Eu tenho uma cultura iluminista e não busco a Deus. Penso que Deus é uma invenção consolatória e fascinante da mente dos homens.». Eis um não crente no seu estado puro, mas inquieto e fascinado pela figura e pelo Evangelho de Jesus Cristo, porta que permitiu o encontro e o diálogo dos dois, «aberto e sem preconceitos».

 

Não temos aqui espaço para abordarmos todos os temas tratados. Centrarei o meu enfoque na carta do Papa Francisco, que recomendo a todos os crentes. Há dois ou três aspectos que vale a pena sublinhar. Em primeiro lugar, o Papa Francisco explica a forma como chegou à fé e o que é a fé: «A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus: um encontro pessoal, que tocou o meu coração e deu uma direção e um sentido novo à minha existência; mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou possível pela comunidade de fé em que vivi e graças à qual encontrei o acesso ao entendimento da Sagrada Escritura, à vida nova que flui, como jorros de água, de Jesus através dos sacramentos, à fraternidade com todos e ao serviço dos pobres, verdadeira imagem do Senhor». A fé é a adesão a Jesus Cristo, na e com a Igreja. Dei por mim a pensar: quantos cristãos poderão dizer o que o Papa escreve? A nossa vivência cristã resultou de um encontro fulminante com Jesus Cristo? Será que Cristo incendiou de verdade o coração de muitos cristãos? Tenho muitas dúvidas. A fé entrou na vida de muitos cristãos como o ar entra nas casas quando se abrem as janelas, com a maior das naturalidades, sem grande questionamento e estremecimento, sem a mínima «inquietação», com o trabalho quase todo feito. Não foi preciso nenhum «encontro» especial e nenhuma busca, bastou seguir as pegadas de uma tradição e de uma cultura dita cristã. Não se tomou uma decisão pessoal, com a inteligência e o coração, fascinado pela mensagem e pela figura de Jesus Cristo, escondido por detrás das fórmulas catequéticas que mal se entendiam e que tinham de se decorar, ou por detrás de celebrações «a que se tinha a obrigação de ir», estranhas à vida, onde se deveria encontrar e celebrar esse fascínio. Conclusão: temos uma multidão de cristãos mornos, amorfos, descomprometidos, insípidos, que de cristãos só têm o nome. Ao mesmo tempo, o Papa também explica que a fé cristã só se vive com e na Igreja, onde Cristo está. Não existe fé cristã de alfaiate, à medida de cada um e como cada um bem entende, sem verdadeira comunhão com a Igreja.

 

Em segundo lugar, coloca-se a pergunta: quem não acredita em Jesus Cristo, ou por outras palavras, quem não chega à fé não se salva? Noutros tempos, quem não acreditava estava condenado e excomungado. Não tinha qualquer hipótese de salvação. Fora da Igreja não existia salvação, nem mesmo para as outras ramificações cristãs. Mas o Concílio Vaticano II reformulou esta doutrina dogmática e rígida: salientou a consciência. Assim o faz o Papa Francisco: «para quem não crê em Deus a questão está em obedecer à própria consciência: acontece o pecado, mesmo para aqueles que não têm fé, quando se vai contra a consciência. De facto, ouvir e obedecer a esta significa decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal; e é sobre esta decisão que se joga a bondade ou a maldade das nossas ações». Um não crente, que não tenha encontrado a razoabilidade para acreditar em Deus, se for fiel à sua consciência ao longo da vida, salva-se. Esta mesma doutrina já está patente no que a Igreja chama os «cristãos anónimos», homens e mulheres de boa vontade, que não assumem a fé cristã e não fazem parte da Igreja, mas que comungam e agem na vida de acordo com muitos princípios e valores do Evangelho, na fidelidade à sua consciência. Convinha vincar que é preciso ouvir mesmo a consciência, sendo necessária a devida formação, onde «o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faz isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado» (Gaudium et Spes, nº 16). Hoje em dia a palavra consciência anda num mar de confusões, confundida, muitas vezes, com arbitrariedade individualista ou sendo máscara de puro subjetivismo. Convinha também salientar que todo o homem é «capaz» da fé e está feito para a relação com Deus. Entende-se que determinadas pessoas tenham mais exigências intelectuais do que outras para acreditar em Deus e até podem mesmo, com verdade, não conseguir chegar lá. Mas não confundir isto com a teimosia ou o comodismo de não querer acreditar. Estes casos ficam entregues à misericórdia de Deus.

 

Em terceiro lugar, o problema da verdade absoluta, diante da postulação moderna de que só existem verdades relativas e subjetivas. O Papa Francisco sublinha que a verdade não é tanto um produto intelectual, uma teoria, uma tese soberbamente pensada, que todos têm de aceitar inquestionavelmente, mas é algo que se encontra caminhando na vida, porque a verdade é uma relação: o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Chegar à verdade implica caminhar. A verdade não é algo que se tem para sempre adquirido e se atira ou impõe aos outros, como é tendência do agir humano, mas é algo que continuamente e humildemente deve ser procurado, acolhido e expresso. Claro que para nós, cristãos, existem absolutos: Deus, o homem, entre outros, e devemos afirmá-los sem medos e cedências. Mas façamo-lo com humildade. Ainda há muito para caminhar. Não caíamos na sobranceria de pensar que temos a verdade na mão e temos o direito de silenciar quem pensa diferente. Podemos saber muitas coisas de Deus e estar muito longe dele e da sua verdade, que é o Amor. Quem ama está mais perto da verdade.

 

Por fim, o Papa Francisco lembra-nos que «a Igreja não tem outro sentido e outra finalidade que não seja viver e testemunhar Jesus Cristo». Andam por aí muitas coisas a distrair-nos desta razão de ser da Igreja.  

Decorre em alguns países europeus, e parece que em breve chegará a Portugal, uma campanha publicitária ateísta curiosa, mas ao mesmo tempo intrigante. Foi lançada o ano passado pela Associação Humanista Britânica, que colocou cartazes em trinta autocarros de Londres. O slogan lacrado nos autocarros, inspirado no cientista ateu Richard Dawkins e criado pela jornalista Ariane Sherine, diz o seguinte: «Deus provavelmente não existe. Deixe de se preocupar e goze a vida». A mesma campanha está a chegar a outras grandes cidades europeias, como Barcelona, Madrid, já chegou inclusive a Washington, capital americana, e até já foi adoptada nalgumas cidades australianas, embora os slogans sejam diferentes: em Washington é «Para quê acreditar num Deus? Seja bom por amor da bondade», e na Austrália é «Ateísmo – fique a dormir no Domingo de manhã». As organizações ateístas são livres de expressar as suas “crenças”. Mas já se percebeu que todas estas campanhas têm na sua base um ateísmo cool, que não se reveste da mesma ferocidade e agressividade do ateísmo militante de outros tempos. Basta tomar atenção ao “provavelmente”. É um ateísmo de forte pendor comodista. Não se trata de negar a existência de Deus, mas de O afastar da vida, eliminando toda e qualquer influência que possa exercer sobre o homem moderno, que quer viver ao sabor da sua vontade e do seu comodismo, que quer ter todo o tempo do mundo para desfrutar o que muito bem lhe apetece. Os slogans não podem deixar de levantar muitas perguntas, mas concentro-as numa: é necessário prescindir de Deus para se gozar a vida? Mais uma vez está em causa a imagem que se faz de Deus. Em vez de se ver Deus, e aquilo que Ele propõe, como Alguém que dá transcendência e densidade à vida, Alguém que possibilita viver a vida na sua verdade e profundidade, logo verdadeiramente feliz, pelo contrário, Deus é visto como um inimigo da vida e da felicidade, que parece que tem gosto em complicar a vida ao homem e em sobrecarregá-lo com regras e pesos que vão contra o seu maior bem e realização. Nada mais inverosímil. Pergunto: Deus não deixa gozar a vida. Ou será que sem Deus a vida não é um gozo? Seria bom que muitos destes ateus confessos (alguns até serão baptizados) lessem com serenidade a parábola do Filho Pródigo, que se encontra nos Evangelhos, no Novo Testamento, que é considerada um resumo da obra de Jesus Cristo e do seu Evangelho. À imagem do filho mais novo que abandonou a casa paterna, uma das ilusões modernas, que mais tarde ou mais cedo é fonte de grande sofrimento para o homem, é de que só será feliz quando viver livre de tudo e de todos, sem qualquer amarra, quando puder mandar sozinho no seu destino e só por si decidir o que é bom e o que é mau para si, como se se bastasse a si mesmo. É a tentação do homem moderno. A parábola descreve magistralmente a degradação e o desnorte a que o homem chega, fazendo esta opção, esquecendo a sua dependência e fragilidade. Após tomar consciência da baixeza e infelicidade a que chegou a sua vida, o filho empreende o regresso à casa paterna. Afinal, em casa do pai era verdadeiramente feliz. Quando era obediente, era livre. Quando amava, humanizava-se. Quando fazia comunhão com os outros, era digno e respeitado. E como é que o pai o recebeu? Abraça-o, recupera-lhe a dignidade e organiza uma festa. Repito: organiza uma festa. Onde é que está o Deus que é hostil à alegria de viver? O perigo desta campanha ateia, que se está a organizar em várias grandes cidades mundiais, não é o de pôr em causa a crença em Deus ou lançar a confusão nas mentes mais incautas e sensíveis, que até poderá acontecer: é o de vender um ideal que empobrece e degrada o homem, transmitindo a ideia de que a felicidade está no prazer, sob todas as suas formas, na irresponsabilidade, no descompromisso, na libertinagem, na facilidade, no fugir ao esforço e ao sacrifício, no satisfazer de todo o tipo de apetites, sem qualquer exigência moral e ética. Não tenho dúvidas de que é o pior caminho que podemos escolher para nos realizarmos como pessoas humanas.  

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