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minhas notas

Só um Cristianismo Festeiro?

25.01.19 | minhasnotas

Há uma certa cultura errada instalada nas nossas comunidades cristãs, que tem de ser seriamente refletida: a celebração de festas e sacramentos sem a vivência do Domingo, dia central para os cristãos, e sem a participação na vida da comunidade de que se faz parte. É habitual, mais do que seria expectável, encontrarmos muitas famílias que se apresentam na igreja com filhos para batizar ou para fazer as comunhões, que andam completamente alheadas da vida paroquial e têm uma ligação à Igreja muito pobre, para não dizer nula. Não podemos continuar a alimentar esta vivência errada da fé cristã. Reduzir o cristianismo só a meia dúzia de festas, para se quebrar rotinas e se poder celebrar qualquer coisa com a família e os amigos e fazer bonitos álbuns de fotografias, é uma desfiguração inaceitável da fé cristã e um reducionismo religioso inconcebível. O Cristianismo tem as suas festas, mas é muito mais do que festas, é seguimento de Jesus Cristo, é viver como discipulo, é comunidade e caminhada de fé com os outros, é compromisso com o Reino de Deus, é testemunho audaz e coerente do Evangelho, é oração, relação e comunhão com Deus, na Igreja e com a Igreja. Esquecer isto ou não estar disposto a vivê-lo, querendo-se só a Igreja para festas, é viver uma mentira diante de Deus, instrumentalizar e desvirtuar a religião e viver um cristianismo ilusório e adulterado.

O mesmo se diga para os festeiros e romeiros das romarias de verão, que não aparecem numa missa durante o ano e que pouco ou nada se importam com a vida da comunidade que assumiram e com a qual se comprometeram, ou para os jovens casais, que vêm celebrar o casamento na Igreja e só se voltam a ver nos dias dos batizados dos filhos, ou até para as famílias que pedem missas pelos defuntos durante a semana e raramente participam na Eucaristia do Domingo, centro da comunidade cristã. Aliás, vivemos atualmente uma contradição gritante na Igreja, que deve fazer pôr os cabelos em pé a Jesus Cristo, salvo seja: pedir-se um sacramento ou participar numa festa não para progredir na fé e aprofundar a relação com Deus e com a Igreja, porque é para isso que se celebra um sacramento, mas para se continuar indiferente a Deus e se abandonar a Igreja. Roça o escandaloso e é um testemunho inaceitável e indigno de quem se diz cristão. Ao Crisma até já se chama o sacramento do adeus à Igreja. Pelos vistos, a fé em vez de ser vista como um tesouro e um dom que dá sentido, grandeza e plenitude à vida, ao invés, é entendida, e só pode ser por má ou falta de formação, como uma obrigação ou um estorvo, de que devemos prescindir e de que nos devemos libertar, porque pouco ou nada importa na vida.

Temos de repensar seriamente estes comportamentos e estas práticas, que não são corretas e não ficam nada bem a quem se diz crente cristão. Não há qualquer argumentação que as sustente. Temos de rever as nossas práticas pastorais, apontar novos caminhos e rever o sentido e o significado de alguma tradição cristã, que não cria adesão a Deus e não gera comunidade, presença e intervenção cristã. Assim é que não podemos continuar. A Igreja está de portas abertas e alegra-se pelo facto de as famílias quererem batizar e crismar os seus filhos e de desejarem introduzi-los na comunhão com Deus e com a Igreja, mas ficarmo-nos só por aí, sem se assumir a sério a vivência da fé e um verdadeiro compromisso com Deus e com a Igreja, é patrocinar uma insanável falsificação da vida cristã. Continuarmos no cristianismo das festarolas é nutrir uma certa vivência da fé oca e vazia, aparatosa, mas estéril e sem alma, que Jesus condenou nos judeus do seu tempo, e que jamais aceitará aos seus discípulos e à sua Igreja.