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minhas notas

Anda por aí agora a moda de fazer-se concursos de tudo e mais alguma coisa. Vá-se lá saber porquê, tudo passou a ser votado para o melhor de não sei o quê, como se haja o melhor, quando tudo é original e tudo é diferente. E basta que os habitantes de uma região votem em massa e ganhem o concurso e ficam com o rótulo da melhor proeza ou maravilha cultural. A cultura não é feita para concursos e parece-me muito pouco sensato andar a promover competições culturais. A cultura é tão rica e variada, tão heterogénea e singular, tão multifacetada e colorida, tão diversa e única para caber num concurso. É impensável colocar-se a concurso coisas que são únicas e originais. De certeza que este marketing anda a servir alguns interesses, para inglês ver, que facilmente identificamos, e duvido que estejam a prestar um bom serviço à cultura e à identidade portuguesa. Faz-se muito show televisivo, mas gostaria de saber o que é que se vai continuar a fazer pelas coisas que são levadas a concurso, muitas delas já com muito poucos guardiões e aprendizes.

Lá se inventou também o concurso das sete maravilhas da cultura popular, sendo levada a concurso a sexta-feira 13, noite das bruxas, que se realiza em Montalegre. Tenho todo o respeito pelas pessoas que neste momento lutam pela sobrevivência do interior e da sua economia, o que cada vez mais é uma missão hercúlea, e o que nos está a custar ver crescer de forma galopante o despovoamento, o empobrecimento e o abandono das nossas terras, tenho um enorme respeito pelo Pe. Fontes, que gosta de partilhar a sua boa disposição com os outros, mas vi com enorme surpresa a sexta-feira 13 ser integrada no concurso das sete maravilhas da cultura popular. Vejam estas minhas palavras como uma crítica construtiva. Sejamos claros: a sexta-feira 13 não tem nada de Barroso e de Montalegre, não vejo ali cultura nenhuma. A cultura exige um cultivar que o tempo consagra no povo ou num povo. O que eu vejo no dia do evento é um circo de uma amálgama de coisas dispersas, uma invasão de pessoas para as mais variadas participações, de que sobra fumaça na aurora do dia seguinte e se fosse só fumaça. Não vejo contar uma história de Barroso, não ouvimos um autor de Barroso, não se vê uma forte participação da tradição genuína do povo de Barroso e do próprio povo de Barroso, que se deita cedo, porque no dia seguinte tem de trabalhar, não se celebra Barroso, celebra-se uma festa de rua, como tantas outras, num cenário único, com muito convívio e ruído, com muitos enfeites e figuras, com um sortido de personagens fantasmagóricas, mas que de cultura genuína pouco tem. O evento é recente e até a ladainha que o Pe. Fontes profere no momento da queimada, com a facécia que todos lhe reconhecemos, é de origem galega. Vender-se a ideia de que uma grande noite de convívio e diversão é uma maravilha da cultura popular é uma traição à cultura popular. Se me falarem de um cancioneiro do povo, de uma dança folclórica única, de uma forma de cantar e de cantares populares que fazem parte da história e atravessaram gerações, de uma tradição que expresse verdadeiramente o sentir do povo, de usos e costumes que o povo muita preza e que expressam a alma e a identidade de um povo ou de uma região e por aí fora, sabemos que estamos a navegar nas águas da verdadeira cultura popular.

Inserir a sexta-feira 13 na categoria das festas de rua ou das meras festas populares de diversão poderá ter algum sentido. E teve algum sentido comparar a sexta-feira 13 com as grandes romarias religiosas do país? Já o disse mais do que uma vez: a imagem das bruxas não tem nada a ver com Barroso e quem lhe tenta colar este rótulo presta um mau serviço a Barroso. O nosso povo sempre acreditou em maus olhados, mezinhas, poderes obscuros, curandice, superstição, mas não foi só em Montalegre, foi em todo o lado. Não há nenhum substrato cultural singular em Barroso ligado ao bruxedo para se justificar a sexta-feira 13 e não faz qualquer sentido dizer-se que a sexta-feira 13 é expressão da ancestral cultura de Barroso. Tivemos de inventar estórias e contos mágicos para passarmos os nossos grandes serões hibernais, o que se fez e faz em muitos países e culturas. Quem vai ouvindo as pessoas pelas aldeias de Barroso, não deixam de manifestar estranheza pelo aparecimento do evento com o nome que tem e consideram uma bizantinice sem perdão ligá-la à verdadeira cultura do povo de Barroso. Não digo que o evento não se continue a realizar, oferece diversão, tanto melhor, e, segundo dizem, tem uma grande importância para a viabilidade económica de Barroso, mas chamemos-lhe o nome certo, não exageremos nas suas considerações e tenhamos mais respeito pela cultura de Barroso e da cultura popular em geral.

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