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minhas notas

Será que criámos uma geração ateia?

25.01.19 | minhasnotas

Manuel Linda, Bispo das Forças Armadas e Segurança, lançando o projeto pastoral da Diocese Castrense para o ano 2017/18, menciona algumas das características do mundo atual: «o regresso do iluminismo, isto é, a crítica azeda a tudo o que não é digerível pela razão raciocinante; a «tecnologização» do pensamento que leva a uma quase adoração dos «novos deuses» oferecidos pela técnica e pela ciência; a animosidade às religiões instituídas, propondo-se a alternativa de uma vaga espiritualidade panteísta, típica da «new age» ou da «era do aquário»; um certo pansexualismo que desbota a consciência e a torna mais intransitiva ou obstaculiza uma verdadeira relação com os outros e, muito mais, com o «grande Outro»; a cedência, à maneira adolescente, à pressão do grupo que se afirma pondo em causa os «dados adquiridos», comumente aceites; a complexidade e a mutabilidade das sociedades contemporâneas que cortam com o passado em nome do futuro; as incertezas sociais, a vulnerabilidade da vida e a insegurança que criam um sentido de fragilidade, de individualismo e de tristeza e solidão existenciais; a comunicação social que quase apresenta a Igreja como um «bando de malfeitores»; enfim, a multiculturalidade e o pluralismo que criam a ideia de que, se há tantas religiões, é sinal de que são meras criações humanas.» A acrescentar a esta caracterização, ainda verificamos que a «multiculturalidade relativiza as certezas; o pluralismo favorece as escolhas pessoais, muitas vezes ditadas pelo egoísmo; a contínua circulação desvitaliza as raízes familiares e tradicionais e o que estava inerente a essa dimensão; o «mundo virtual», as tecnologias da comunicação e as redes sociais levam os jovens a adquirirem uma conceção do mundo quase sempre e só formada a partir de pessoas do seu grupo etário, ou seja, de colegas e amigos que, também eles, andam à procura.»

Temos estado muito preocupados, e bem, com os furacões que andam a fazer estragos na Ásia e na América, mas parece que não nos estamos a aperceber do furacão que está a passar pela nossa cultura, pela nossa educação e pela nossa sociedade, que em pouco tempo está a virar tudo de pantanas, gerando grande instabilidade, perplexidade, confusão, desnorte e insegurança. Alguns profissionais do pessimismo até já afiançam que estamos prestes a dar à luz uma geração ateia, uma geração que vive sem Deus ou completamente indiferente à religião, a geração jovem que temos entre nós. Não será assim tão trágico, mas o assunto merece muita atenção. Cresce, de facto, a indiferença dos jovens para com a Igreja e a fé.

O que mais me custa ver é que os jovens não têm consciência crítica para questionar o ambiente e a cultura que os está a moldar e a formatar, um ambiente que os tem arrastado para o vazio e para a bandalheira dos valores, como é a ideologia do género, e que a família assista impávida e serena e se deixe enrolar imprudentemente pelas modas e valores vigentes, só se preocupando em dar um canudo ou com futebol, e não se preocupe com as grandes questões da vida e em recentrar a vida no essencial, inebriada pelos valores fúteis e imediatos atuais, como o sucesso fácil, o prestígio, o reconhecimento fugaz, o bem-estar material, a diversão. É a educação do contentamento fácil, das palminhas e dos aplausos. Educar bem, dar verdadeira formação e viver a vida com profundidade fica para amanhã.

Aparecem todos os dias imagens de jovens a agredirem-se uns aos outros, até já o fazem em grupos organizados, escrevem-se todos os dias artigos sobre o alcoolismo severo e mórbido entre os jovens, há sinais evidentes de que um bom número deles é malcriado e estão perdidos no meio do deserto, mas levantou-se algum sobressalto? O que é que a sociedade tem para lhes dar em troca desta descrença e desesperança em que vivem? Ainda não percebemos que estão fartos de futilidade e não têm razões para viver? Arrastámo-los para um beco sem saída e para visões da vida insidiosas, desestruturantes e alienantes.

Até outubro do próximo ano, a Igreja vai centrar a sua atenção nos jovens e quer ouvi-los. Está na hora de eles questionarem a ideia distorcida e errada da fé, da Igreja e da Religião, que lhes venderam e lhes impõem pela cultura e mentalidade atuais, quase sempre uma Igreja com rosto tristonho,  bafiento, penitencial, acusatório, expiatório, proibicionista e disciplinador, inimigo da felicidade e da alegria da vida, e se reencontrarem com uma Igreja mãe e amiga, aberta e acolhedora, samaritana, que os quer ajudar a descobrir uma verdadeiro sentido para a vida e a realizar verdadeiramente a humanidade que cada um carrega, com os valores, os princípios e a grandeza que verdadeiramente a podem realizar e preencher.