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minhas notas

o uso do latim

13.04.15 | minhasnotas

No dia 7 de Março, O Papa Francisco assinalou os cinquenta anos da primeira missa celebrada em italiano pelo Papa Paulo VI, visitando a mesma paróquia onde a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II (1962-65) foi inaugurada, a paróquia romana de Todos os Santos. Por determinação do Concílio, a liturgia passaria a ser celebrada nas línguas vernáculas, ou seja, nas línguas próprias de cada país. É apelidada como «a grande mudança». Como sabemos, excetuando-se a homilia do presidente da celebração, toda a liturgia era celebrada em latim, língua que o povo não compreendia. 

O latim deixou de ser rei e senhor na liturgia, mas não foi ostracizado. Aliás, o Concílio sublinhou o grande valor que o latim tem na vida e na história da Igreja e recomendou que «deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos», ou seja, que certas partes da liturgia sejam cantadas e rezadas em latim, recomendação que nem sempre é acautelada nas celebrações cristãs. Continua ainda a ser a língua oficial da Igreja Católica.

A reforma do Concílio foi orientada por um regresso aos inícios e à prática original do Cristianismo. Jesus Cristo falou o aramaico palestinense. Os primeiros cristãos falaram e usaram, sobretudo, o grego. Só no século IV é que surge a tradução da Bíblia para latim, feita por S. Jerónimo. Com o tempo, por força da reforma gregoriana na Idade Média e com o Concílio de Trento no século XVI, o latim monopolizou a liturgia e a vida da Igreja. Não é correto dizer-se, como se ouve muitas vezes, que o latim é o mais genuíno e o mais original da história da Igreja. Não é. É o vernáculo. Os primeiros cristãos falaram e escreveram na sua própria língua.

Como seria de esperar, devido a sensibilidades díspares, não houve unanimidade à volta da reforma. Um bom número de católicos, por vezes denominados de saudosistas ou de conservadores, ou até de tridentinos, defendeu o senhorio do latim na vida da Igreja e na liturgia. Em parte, alguma da sua argumentação tem sentido: o latim dá um certo carácter sagrado à liturgia, isto é, retira a liturgia da vulgaridade e fá-la parecer uma ação de Deus, como realmente é, sobre o povo. Mas esbarra num problema de fundo: não é compreendido.

Não há línguas sagradas. Deus e os seus dons é que são sagrados. Lembro-me de uma entrevista a um jornal da grande Agustina Bessa Luís, aqui há uns anos, quando afirmou que pelo facto de a Igreja deixar de usar maioritariamente o latim, retirou à liturgia muita da sua sacralidade. Por sacralidade entende-se o que é de outro mundo e que não se entende, misterioso. É uma conceção errónea da fé cristã e da liturgia. O Cristianismo não é uma religião misticísta e mistérica. Quando a Igreja usa a palavra mistério quer dizer algo que já se compreende e saboreia, mas não ainda em toda a sua profundidade e plenitude, e não no sentido do mistérico ou do puramente desconhecido.

Cinquenta anos passados da «grande mudança», a Igreja deve rejubilar pelo grande passo que foi dado, sobretudo porque foi um progresso que veio de encontro à identidade e à essência do Cristianismo, que tem na sua base a comunicação, o Verbo, o Logos. A fé é a resposta do homem à iniciativa de Deus em se revelar e comunicar aos homens, para com eles viver em relação e celebrar uma aliança. E Deus fê-lo de forma sublime: fez-se igual a nós. «O Verbo incarnou e habitou no meio de nós». Para haver verdadeira relação é fundamental a comunicação. Não tinha sentido celebrar uma liturgia e ler leituras, que são Palavra de Deus, que a esmagadora maioria dos ouvintes não entendia. S. Paulo, na sua Carta aos Romanos, diz algo de fundamental: «A fé surge da pregação». A liturgia parecia mais uma ação do padre e não de todo o povo, que se habituou erradamente a «assistir à missa» ou a «ouvir a missa». O povo era mero assistente ou espectador, criando o hábito de rezar o terço enquanto o padre se virava para os altares. Agora que todos falamos a mesma língua, sentimos Deus mais próximo e percebemos que somos todos participantes. É todo o povo que celebra. O padre ou o bispo preside.