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minhas notas

o que é a salvação?

21.12.15 | minhasnotas

Estamos no mês de Novembro, em que se ouve muitas vezes que é um mês para se sufragar as almas dos defuntos e se rezar pela salvação dos falecidos. Sobressaltou-me a pergunta: que ideia fazemos da salvação? Saberão muitos cristãos qual é a salvação que a fé cristã anuncia e oferece ao mundo?

A palavra em si, salvação, tem dois grandes significados: em sentido corrente, significa libertar de um perigo que ameaça a vida (religiosamente, uma escravidão ou uma perdição). Mas também significa dar saúde, fazer com que o homem viva bem, viva são e salvo, de boa saúde mental, física e espiritual, fazer com que o homem se realize a partir da sua verdade mais profunda e genuína: como pessoa humana, e na fé, como filho de Deus.

O significa mais enraizado é o primeiro. No entanto, reparo que muitos cristãos têm uma ideia muito incompleta e pobre, uma ideia parcial da salvação. Escutamos: fazer isto ou aquilo para «salvar a minha alma». É errado dizer isto e viver a fé cristã a partir desta convicção. É uma visão individualista e desencarnada, com desprezo pelas dimensões comunitária e corpórea do ser humano, que não existe na doutrina e na vivência do Cristianismo. Certamente que temos a nossa responsabilidade na nossa salvação, mas tem de ser integrada noutras dimensões. Também se ouve com frequência: «o que importa é evitar o pecado, para não sermos condenados». Que visão tão pobre e negativa da salvação! Entende-se a salvação a partir do inferno e não do céu. Ainda andam por aí muitos resquícios desta doutrina e desta espiritualidade deformada que se entranhou no espírito de muitos cristãos, que fomentou o calculismo, o legalismo e o mero cumprimento formal de regras na vivência cristã, disseminando a ideia de que para se salvar o que importa é ter a documentação em dia. Devia dizer-se: «o que importa é amar e fazer o bem, para um dia se estar em comunhão plena de amor com Deus e com os outros». Para a salvação, o importante é que o ser humano se aperfeiçoe e atinja o máximo das suas capacidades, sendo proactivo, buscando a excelência da sua humanidade, que é a santidade, em união com a ação de Deus sobre nós, e não que se prenda ao cumprimento frio de uma disciplina ou de uma lei, vivendo no medo de uma perdição. Outros afirmam que não precisam dos outros ou da Igreja para se salvarem: «falo diretamente com Deus e confesso-me diretamente a Deus». Se foi a Igreja que nos fez cristãos, é pela igreja e pelos sacramentos que também nos salvaremos. Ninguém se salva sozinho, sem os outros. Por fim também anda por aí difundida a ideia de que a salvação será algo de sobrenatural, mas sobrenatural entendido de forma errónea, como um piso superior em relação ao natural, uma realidade nova que não tem nada a ver com o que já se vive atualmente. O sobrenatural para o cristianismo é um aprofundamento do ser do natural e uma maior participação no ser de Deus. A nossa história pessoal e comunitária, a história do mundo, acompanham-nos sempre. A salvação vai-se realizar em progresso e consumação e não em separação e aniquilação do que está para trás.

Nestas conceções distorcidas de salvação são facilmente percetíveis influências de algumas correntes filosóficas e antropológicas, alheias ao pensamento bíblico e cristão, como o platonismo, o maniqueísmo, o individualismo greco-romano que o Renascimento promoveu na Europa, correntes que urge depurar na vivência cristã.

Aqui chegados, põe-se a pergunta: qual é a salvação que o Cristianismo oferece ao homem? Libertação da servidão e da escravidão do mal e do pecado que o homem introduziu no mundo, e consequente alienação, a que fica sujeita toda a pessoa humana que vem ao mundo, libertação realizada por Jesus Cristo e oferecida no batismo; integração da pessoa humana numa relação de amor com Deus e com as outras pessoas, centro da saúde plena do ser humano; realização plena e total da condição humana, pela ação de Cristo e do seu Espírito; a plenitude da vida, a que são chamados a participar a história e o mundo, uma felicidade suprema em plena comunhão com Deus e com os outros, o que denominamos vida eterna, eterna não só porque não tem fim, mas porque realiza totalmente o ser humano, a ser vivida desde já pela adesão a Jesus Cristo e à sua Igreja, em tensão para o seu estado definitivo.