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minhas notas

04.01.22

Ainda se lembram das tonitruantes mudanças de vida e de rumo que foram proclamadas aos quatro ventos durante a fulminante investida da pandemia? Certamente que se lembram, porque de tempos a tempos, nuns assomos de consciência, lá as vamos dizendo para parecermos gente séria e responsável. Levá-las a sério é outra coisa. Temos de ter muito medo ou de sofrer muito. Identificou-se que o grande risco estava nos mais velhos e já andamos a viver a mesmíssima vida que vivíamos, lubrificados pelo milagroso álcool gel.  Mudar fica para amanhã. Não quero ser cínico ao ponto de pensar que algumas coisas não mudaram, mas muito mais teríamos a mudar, mas não temos vontade para tal.

Não faltam sinais de que a sociedade tem de mudar. Saiu por estes dias a acusação para todos aqueles que estilhaçaram uma das instituições bancárias mais respeitáveis do país, arruinando a vida de muitas pessoas e deixando como herança um penoso ónus para o país, de que tão cedo não se libertará. Ainda muita tinta vai correr e muita coisa será comprovada e desmentida, num infindável processo judicial à portuguesa. Mas o essencial já nos entrou pelos olhos dentro há muito tempo: sem qualquer respeito pela ética mais elementar, pelo país e pelas pessoas, tentou-se construir um império insano para satisfazer a ambição e a ganância desmedida, a vontade de poder e controle de uma elite política, bancária e empresarial portuguesa, com uma teia corrupta e obscura de jogadas e interesses entre políticos, empresários e  oportunistas de ocasião. E tudo feito sem que as instituições democráticas zeladoras da legalidade e do cumprimento da lei dessem por nada. Nunca pensei que a ganância humana e a falta de ética chegassem ao ponto de se brincar com o suor e as poupanças de quem trabalhou uma vida inteira.  É o cúmulo da vileza humana.

Não nos espantemos se no futuro surgirem mais escândalos destes. Os valores que hoje norteiam a vida das pessoas são os materialistas, quem manda é o deus dinheiro e as suas promessas hedonistas e paradisíacas, vivemos no reino do ter e consumir e quanto mais melhor, dando-se largas à avareza e ao egoísmo humano, sem olhar a meios, sem qualquer respeito pela ética e pela moral, ter para aparentar e exibir é o axioma da conduta da maioria, de modo que estamos no bom caminho para assistirmos a mais tragicomédias como estas. Vivemos num tempo em que os bons valores e princípios humanos faliram. Tenho pena que mesmo com esta pandemia não os recuperemos.

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