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minhas notas

No dia 2 de agosto de 2016, o Papa Francisco nomeou uma comissão para estudar o papel da mulher na Igreja, mais concretamente para estudar a existência do diaconado feminino na história da Igreja e a sua reativação na vida eclesial, comissão composta por seis homens e seis mulheres, presidida pelo secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, Luis Francisco Ladarria Ferrer. Tratou-se de pôr em prática o que o Papa já tinha manifestado na sua exortação apostólica «A Alegria do Evangelho», de 2013, pedindo abertura e uma séria reflexão para se dar mais protagonismo às mulheres, leigas e consagradas, nos processos de decisão na Igreja e na pregação. Se repararem bem, tem sido um apelo sempre presente na comunicação e na agenda do Papa.

Aproveitando a investigação já realizada e o mediatismo do tema, a Universidade Católica em Lisboa promoveu no dia 10 de abril a apresentação de um livro sobre a historicidade do diaconado feminino na Igreja e uma conferência sobre a mesma temática, com a presença de dois membros da comissão que o Papa nomeou.  A investigação não deixa dúvidas: desde os inícios da história da Igreja até ao século 12 existiram diaconisas na Igreja. Quem lê as cartas de S. Paulo, nota que o apóstolo refere várias vezes nomes de mulheres que o ajudavam na vida das comunidades, chegando a referir que «trabalhavam juntos». Predominou uma grande liberdade e complementaridade neste campo até ao século 12. A reforma gregoriana e a separação da Igreja em 1054, entre Oriente e Ocidente, conduziu Roma a uma organização racional das leis e do direito canónico, excluindo o passado. A mulher foi remetida para um papel secundário e perdeu protagonismo na vida da Igreja.

Na opinião dos membros da comissão, chegou o tempo de a Igreja se reencontrar com o seu passado e restabelecer o diaconado feminino, um bem precioso de que a Igreja prescindiu. Como diz a coautora do livro, Phyllis Zagano, «esta é a oportunidade de a Igreja dizer que acredita no que ensina e que a mulher é imagem e semelhança de Deus». O Concílio Vaticano II deu um passo importante, na década de sessenta, quando restaurou o diaconado permanente. Seria bom, talvez agora, torná-lo acessível também para as mulheres.

Como sabemos, o Sacramento da Ordem tem três graus: diaconado, sacerdócio e episcopado, só para homens, e os dois últimos só para celibatários. O diácono, palavra de origem grega que significa servidor, que podemos identificar nas celebrações com a estola cruzada no peito, ao lado do bispo ou do sacerdote, é o ministério eclesial que tem por missão conduzir atividades caritativas, exercer funções litúrgicas, como anunciar a Palavra de Deus e dedicar-se à pregação, assistir o bispo e o padre nas missas, administrar o Batismo, presidir a casamentos e funerais, entre outras funções eclesiais. Só não pode celebrar a Eucaristia ou Missa e o Sacramento da Penitência, ações específicas e exclusivas do padre e do bispo.

Já aqui referi que Jesus Cristo, no seu tempo, contribuiu para a promoção da mulher. Falava com elas abertamente na praça pública, teve discípulas e partilhava refeições em casa de amigas, o que para o seu tempo era subversivo. Não vejo que dom a menos tenham do que os homens para não poderem ter um papel mais interveniente e decisivo na vida da Igreja. São, atualmente, a força da Igreja: dão catequese na sua maioria, são zeladoras, integram em grande número os coros paroquiais, presidem ao terço, fazem parte das comissões, entre tantos outros serviços. Não há razões válidas que justifiquem o não acesso ao primeiro grau do Sacramento da Ordem. Faz parte do elementar respeito pela dignidade da mulher, como afirma Phyllis Zagano: «Não preciso tornar o mundo todo cristão, mas gostaria de mostrar ao mundo que as mulheres são valiosas. Em particular para os crentes em Deus, que as mulheres são valiosas, são preciosas, não são um bem para possuir, não servem apenas para cozinhar e limpar. É muito importante fazer estas coisas, mas as mulheres têm um cérebro. E as mulheres são pessoas, humanas, totalmente humanas». E perfeitamente competentes para exercerem o diaconado, digo eu.

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