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minhas notas

Já vimos filmes sobre hipotéticas epidemias avassaladoras para a humanidade, embora inspiradas nalguns surtos históricos que fazem parte da nossa história. No fim das películas cinematográficas ficou-nos sempre a sensação que a fantasia humana é sempre exagerada e que experimentar o furacão de uma epidemia seria uma hipótese muito remota. O que é verdade é que nos últimos dias, com uma celeridade surpreendente, vimo-nos transportados para dentro de uma obra holiodesca, mas com a agravante de estar a acontecer na realidade. Ainda estamos a tentar perceber como é que tudo mudou tão rapidamente, antevendo idênticos períodos futuros.

Informada pelas autoridades de que o contacto social seria o grande veículo da propagação do vírus, a Igreja tomou velozmente a dolorosa decisão de suspender as celebrações comunitárias, nomeadamente a Missa com o povo, pedindo aos padres para celebrarem de forma privada. Num primeiro momento, imperou a surpresa. Nunca tal decisão foi tomada na história da Igreja e poderia parecer um grave atentado à vivência da fé, nesta fase tenebrosa da humanidade. Mas também rápido se percebeu que a Igreja estava a ir pelo caminho certo, apesar de uma minoria ter achado a decisão muito duvidosa, para não dizer escandalosa. Mas até os constituintes desta fação já estarão convencidos da justeza da determinação da Igreja. Mais do que um atentado à fé, pelo contrário, a Igreja deu um bom testemunho da sua fé, que tem de ser sempre responsável, prudente e sensata. Sendo as missas encontros comunitários, não seria bom exemplo a Igreja estar a contribuir para a degradação da saúde das pessoas e para um demolidor agravamento da saúde pública. Passaria a imagem de uma grosseira irresponsabilidade, quando o respeito pela vida e o bem das pessoas estão no centro da doutrina católica e do discurso da Igreja. Seria um contrassenso intransponível celebrar a vida de Deus contra a vida das pessoas, permitir celebrações em profunda contradição com os valores e os princípios mais sagrados da Igreja.  

Não se pode dar deferimento ao argumento de que a celebração da missa com a participação das pessoas seria um grande auxílio e um remédio para se vencer a pandemia, dando-se quase uma natureza mágica à Missa. A Eucaristia salva-nos, sem dúvida, mas não nos liberta dos perigos da contingência em que ainda vivemos neste mundo. A Missa não é um seguro contra todos os riscos ou um salvo-conduto para agirmos com insensatez e negligência, sem preocupação pelos riscos da nossa condição humana, que nos acompanharão sempre pela vida fora. Em nome do bem maior da vida e da saúde das pessoas, abdicou-se bem da celebração comunitária. Nunca aconteceu na história da Igreja. Pois não. Mas se calhar já devia ter acontecido. A nossa fé e a nossa criatividade não deixarão de ter inspiração para inventar novas formas de nos relacionarmos com Deus e de estarmos uns com os outros.

Agora que esta pandemia nos está a atingir em força, apostei comigo mesmo que não demoraria muito a aparecerem os tribunos justiceiros a proclamarem que esta desgraça é um justo castigo de Deus e que os tempos apocalíticos estão a chegar. Alguns até jurarão que é mais do que merecido o que nos está a acontecer. Pensemos o que quisermos, mas não metamos Deus nas nossas levianas suposições humanas. É uma triste transgressão do segundo mandamento da lei de Deus, que nos pede para não invocar Deus em vão e atribuir a origem de uma pandemia ao Deus de Jesus Cristo é uma gravíssima invocação de Deus em vão. Na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, vemos a rápida retribuição de Deus, castigador para o pecado e pródigo e benévolo para quem lhe é justo. Mas Jesus Cristo superou irremediavelmente esta visão de Deus, mostrando-nos e ensinando-nos que Deus é amor e não é senão amor, querendo sempre a vida em abundância e o bem do ser humano. «Deus enviou o seu Filho ao mundo para salvar e não para condenar». Neste momento, mais do que ninguém, Deus está a sofrer com a humanidade e está ao lado do seu povo sofredor a preparar um caminho de salvação. Prestamos-lhe um mau serviço e uma imerecida e gravosa traição se lhe atribuímos a autoria desta tragédia humanitária, que outra origem não tem do que as leis da natureza e a incúria humana.

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