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minhas notas

Jesus não quis fundar uma nova religião. Esta é uma tese sustentada, hoje, por muitos teólogos e estudiosos de religião. Muito pelo contrário. Jesus manifestou forte repugnância pela mentalidade religiosa e suas práticas e foi um crítico severo dos sacerdotes do seu tempo e seus comportamentos, revestidos de vaidade, poder, manipulação e sovinice. A religião não era libertadora e humanizadora, mas opressora, comandada por interesses humanos, e, sobretudo, por uma lógica de poder. O templo de Jerusalém, com todos os interesses que o rodeavam, mereceu sempre violentas censuras de Jesus. E não deixou de apontar uma alternativa: Ele mesmo e o seu Evangelho do Reino de Deus, uma outra forma de viver centrada em Deus e nos outros, sem as desnecessárias roupagens e os dispensáveis desvios da religião, que Ele repudiou. Colocamos então a pergunta: se assim foi, como é que se transformou o cristianismo numa religião?

A resposta é muito longa. Tal como o francês Alfred Loisy desabafou e lamentou, um dia, que «Jesus anunciou o Reino, mas o que veio foi a Igreja», quase também podemos concluir que Jesus propôs uma filosofia de vida e um movimento de discípulos guiados pelo Evangelho, e afinal o que veio foi uma nova religião, muitas vezes em profunda contradição com o Evangelho. Como diz o teólogo Jose Maria Castillo, «o maior erro da Igreja foi fundir e confundir a Religião com o Evangelho. Assim, como sabemos, o Evangelho é lido, na liturgia da Igreja, como um componente ou uma (breve) parte da Religião. E assim, com isso, o que se conquistou é viver uma contradição incessante, que se traduz e se materializa em milhares de contradições».

Seja com for, o caminho está feito e não é fácil agora formatar mais de dois mil anos da história da Igreja e da fé cristã e purifica-las de um dia para o outro da configuração e da mentalidade religiosa. Mas podemos e devemos fazê-lo dentro de nós e na nossa forma de viver a fé. Podemos e devemos fazer uma séria reflexão sobre o assunto e dispormo-nos a uma conversão permanente ao Evangelho. Reparo, como padre, que temos tendência para sermos muito religiosos e pouco cristãos, ou seja, gostamos de obedecer a todo um conjunto de práticas, costumes e tradições para nos sentirmos bem com Deus e conquistarmos a sua bênção e benevolência, de termos um sem número de santos que intercedam por nós e nos ajudem a vencer as necessidades e medos da vida, termos bênçãos para nos sentirmos seguros e confiantes (esta é a natureza radical da religião, em que, no fundo, nós estamos no centro), mas depois esquecemos os valores evangélicos mais básicos nas relações humanas, no trabalho, na família, nos negócios, no convívio social, na nossa moral pessoal, na nossa presença e intervenção no mundo, nas várias formas de o fazer.

Mais do que suspirarmos, durante a pandemia, pelo facto de não podermos cumprir os nossos deveres e preceitos religiosos, ou até as tradições que mecanicamente cumprimos, devemos é suspirar por ainda vivermos um cristianismo superficial, não termos no coração os sentimentos de cristo e por os seus valores evangélicos não estarem presentes nas nossas atitudes e no nosso testemunho diário de cristãos. Que testemunho os católicos deram durante a pandemia? Quem viu o sal, a luz e o fermento dos católicos? Tivemos e ainda vamos ter um tempo excecional para percebermos que temos de trocar uma certa religiosidade interesseira por uma vivência da fé verdadeiramente mais cristã e evangélica.

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