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minhas notas

Há duas ou três gerações de pais que estão a passar por uma situação ímpar: por um lado, e permitam-me usar uma palavra pesada, foram escravos dos pais, tiveram que se submeter em tudo aos pais, até, muitas vezes, no casamento. A soberana vontade dos pais ditou as suas opções de vida. Muitos desabafam hoje que foi um tremendo tempo de submissão e opressão. Não tiveram liberdade e autonomia para nada. Talvez querendo depois dar aos filhos o que eles não tiveram, e note-se a ironia da vida, acabaram depois por se tornar escravos da vontade dos filhos. Vemos assim, hoje, muitos pais completamente dóceis aos filhos, tudo fazendo para os criar num berço de ouro. Se antes os filhos tinham de fazer tudo para agradar aos pais, hoje os pais fazem tudo para agradar aos filhos. Podemos concluir que há duas ou três gerações que não tiveram tempo para gozar a vida. Tiverem de viver sempre para os outros. E não esperem por grande gratidão dos filhos: muitos vão colocá-los em lares, porque ao ritmo que vivemos poucos serão os filhos que terão tempo para os pais e poucos serão os que quererão cuidar dos pais.

A despenalização da eutanásia em Portugal ainda tem de percorrer uma maratona até ser aprovada. A mim interessa-me vê-la como um sintoma da mentalidade e do estilo de vida que estabelecemos na sociedade atual, estilo de vida muito questionável. Como muito bem diz Henrique Raposo no Expresso, «as pessoas não aceitam a tristeza como uma das partes da vida. Estamos a falar das mesmas pessoas que não estão disponíveis para o amor sacrificial que é criar filhos ou tomar conta de idosos. A sociedade que não quer ter filhos, porque as crianças dão trabalho, é a sociedade da eutanásia. A sociedade que abandona os velhos, porque os velhos dão trabalho, é a sociedade da eutanásia. A sociedade que preenche com os animais ‘humanizados’ estes vazios familiares, é a sociedade da eutanásia. A sociedade do lifestyle, é obviamente a sociedade da eutanásia, porque não tem tempo nem dinheiro para os velhos, para os doentes, para os mais frágeis».

Consagrámos e construímos a sociedade do bem-estar, decretámos o individualismo, vendemos a ideia de que a vida tem ser sempre prazenteira, fácil, cómoda, leve, ao sabor dos caprichos e conveniências de cada um, sem sacrifício, sem dor e sofrimento, livre de todos os empecilhos que possam perturbar a suprema satisfação do indivíduo, de modo que hoje ninguém está disponível para se sacrificar pelos outros e a ser solidário com quem quer que seja, a não ser que seja suave e momentâneo, a não ser por muito dinheiro, e fazemos tudo por esconder aqueles por quem temos o dever de nos sacrificar, porque muito fizeram por nós. A agudizar tudo isto, ainda temos a erosão da família, que desaprendeu a educar e a cuidar, e a desvalorização da vida no sofrimento e na velhice, de tal forma que muitos idosos sentem que são um estorvo e um peso para os outros, pairando sobre as suas apavoradas consciências a sensação de que já não estão aqui a fazer nada, e, pior ainda, já não valem nada. A vida vista pelo lado injusto e infame da utilidade e da eficácia. Já não produzes e não trabalhas, já não prestas.

O eclipse de Deus e a penúria de vida espiritual e religiosa deixam-nos petrificados e encalhados diante dos momentos mais duros e dramáticos da vida, como são o sofrimento e a morte. Como não os queremos viver nem entender, procuramos disfarçá-los ou escondê-los, e afastamos de nós os que estão a passar por eles. Reparem até na nossa educação: já poucos jovens ou crianças se veem nos velórios e nas visitas dos hospitais. Só queremos ver tacanhamente a vida pelo seu lado agradável, hedonista, engraçado, alegre e feliz, e camuflar o outro lado, que no mundo de hoje está proscrito, porque obriga a pensar a vida para lá das respostas simples e cómodas e das convicções e explicações superficiais reinantes.

Todos sabemos que existem momentos e situações de sofrimento dilacerantes na vida e aceito que a vida é muito complexa. Mas percebemos facilmente o berço humano e social que está a dar à luz a eutanásia e é um berço que me deixa profundamente inquieto e apreensivo, ciente do profundo retrocesso quanto à humanidade que deve imperar numa sociedade humana.  

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