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minhas notas

entrevista do papa francisco

09.02.17 | minhasnotas

Tendo como pano de fundo a avaliação do Ano da Misericórdia já concluído, o Papa Francisco concedeu uma entrevista ao Semanário católico belga Tertio. Deixa-nos algumas considerações e reparos, tanto à Europa como à Igreja, de que vale a pena tomar nota.
Questionado sobre o laicismo agressivo adotado por algumas sociedades europeias, que procura afastar a religião da vida social e da atividade educativa, remetendo-a para a vida privada e encarcerando-a na sacristia, o Papa Francisco coloca a questão na ordem dos direitos humanos, no respeito pelo ser humano, e sublinha: «É uma posição antiquada. É uma herança que nos deixou o iluminismo, considerando-se que o facto religioso é uma subcultura. Uma coisa é a laicidade e outra coisa é o laicismo. O laicismo fecha as portas à transcendência. A abertura à transcendência faz parte da essência humana. É parte do homem. Uma cultura ou um sistema político que não respeite a abertura à transcendência da pessoa humana, poda, corta a pessoa humana. Ou seja, não respeita a pessoa humana. Mandar qualquer ato de transcendência para a sacristia é uma assepsia» (podemos talvez traduzir aqui por limpeza ou negação).
É opinião agora muito difundida que na raiz das atuais guerras está a diferença entre as religiões. Não é essa a opinião da Igreja, assim como do Papa Francisco: «Nenhuma religião como tal pode fomentar a guerra. Não se pode fazer a guerra em nome de Deus. O terrorismo e a guerra não estão relacionados com a religião. Usam-se deformações religiosas para a justificar. O religioso é amor, unidade, respeito, diálogo. Todas as religiões têm grupos fundamentalistas. Nós também. Destroem a partir do seu fundamentalismo. Deformam e enfermam a própria religião».
Depois da primeira guerra mundial, gritou-se em uníssimo na Europa: «Guerra nunca mais». Mas, infelizmente, o Papa lamenta que isso não se tenha cumprido, e acusa muitos líderes da Europa de lá para cá de hipocrisia e covardia, deixando que os interesses se sobreponham aos valores e aos princípios: «Estamos a viver a terceira guerra mundial aos pedaços. Dissemos da boca para fora «guerra nunca mais», mas continuamos a fabricar armas e vendemo-las. Creio que a Europa disse o «guerra nunca mais» sinceramente. Schumann, De Gasperi, Adenauer disseram-no sinceramente. Mas hoje fazem falta líderes. A Europa precisa de líderes que vejam mais além.»
Quanto ao futuro da Igreja, o Papa Francisco não tem dúvidas de que se deve construir uma Igreja sinodal: «A Igreja nasce das comunidades, nasce da base, nasce do batismo, e organiza-se em torno de um bispo. Ou há uma Igreja piramidal, em que se faz o que o Papa diz, ou há uma Igreja sinodal, onde Pedro (o Papa) é Pedro, mas acompanha a Igreja e a faz crescer, escuta-a, discernindo o que vem das comunidades e devolvendo-o. A sinodalidade é a unidade na diferença. Uma Igreja sinodal significa que se dá o movimento de cima para baixo e de baixo para cima. Pedro (Papa) é o garante da unidade da Igreja».
A atuação e os critérios dos meios de comunicação social merecem do Papa um juízo severo. Começa por considerar que são importantes: «Têm uma responsabilidade grande, têm a possibilidade de formar opinião, são bons para construir a sociedade, edificar, fazer bem, partilhar, fraternizar, educar e fazer pensar, são positivos». Mas atualmente deixam-se levar por quatro tentações, que deveriam procurar vencer: a calúnia (só falar mal), a difamação (criar más famas às pessoas por factos que já passaram, chafurdar no passado da pessoa), a desinformação (alimentar as meias-verdades, só dizer uma parte da verdade e esquecer a outra, não se permitindo às pessoas ajuizar devidamente diante da verdade completa, vergando-se a opinião pública numa certa direção), a enfermidade da coprofagia (só informar o que é escandaloso e polémico, comunicar só as coisas feias, «ainda que sejam verdade»). Os meios de comunicação social devem «ser limpos e transparentes».
Perante a indiferença, a agressividade e a violência que grassam no mundo, o Papa aponta um antídoto: «Hoje faz falta uma revolução de ternura e de misericórdia. O mundo sofre de cardioesclerose.»