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minhas notas

Um pai de Famalicão impediu dois filhos de frequentarem a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento pelo facto de alguns conteúdos da mesma irem contra as suas convicções e valores. A escola ameaçou chumbar os alunos por excesso de faltas. O tribunal suspendeu a decisão da escola, parecendo dar razão ao pai ou, talvez, recomendando mais reflexão e ponderação sobre a disciplina e a decisão. Entretanto, a sociedade mobilizou-se e surge um manifesto a reclamar a liberdade e a responsabilidade dos pais na escolha da educação dos filhos e a possibilidade de existir a objeção de consciência para certas matérias. Surge um contramanifesto a defender a disciplina e a sua obrigatoriedade, com a multiplicação de afirmações e de artigos na imprensa, dos dois lados da barricada, por vezes com algum radicalismo desnecessário e arrastando-se o debate para os velhos lugares comuns esquerda/direita ou conservadores e progressistas, quando não era nada disso que estava em causa. É lamentável a pressa que hoje se nota em classificar ou em desclassificar a posição de quem pensa diferente de nós e já começa a ser insuportável a arrogância de grupos bem pensantes que se acham os donos da modernidade e do verdadeiro progressismo humano e social. Sabemos pela história como acabaram muitas destas arrogâncias.

A Igreja sublinhou, mais uma vez, que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e devem ter liberdade em escolher o melhor para a educação dos seus filhos. E está disponível para uma melhor clarificação e debate dos conteúdos da disciplina. A Igreja já ensina há muito tempo que o cristão tem o dever de ser um cidadão exemplar, de saber viver em sociedade, de ter cultura democrática e cívica, com os seus direitos e deveres, acolhendo e respeitando as regras sociais, de respeitar a justa e legítima autoridade instituída, de contribuir para o bem comum, pagando os seus impostos, de agir sempre com respeito e responsabilidade por si e pelos outros, de cuidar do meio ambiente, de saber aceitar e conviver com a diferença e as díspares formas de viver e de pensar, agindo com tolerância, e tem de ser um defensor e promotor dos direitos humanos.   

Nunca esteve em causa ensinar a ser um bom cidadão e bem saber viver em sociedade. Nunca ninguém esteve contra isto, nem se poderia estar, como alguns artigos deram a entender. O que realmente esteve e está em causa é que alguns conteúdos da disciplina são muito questionáveis, não são consensuais, e estão prenhes de ideologia, em claro confronto com as convicções de uma boa parte da sociedade portuguesa, para não falar da comunidade médica, académica e científica. E as ideologias não devem ser impostas na escola, como manda a nossa Constituição. Poderão e deverão estar presentes no debate escolar, pelo confronto com o contraditório e o fomento do espírito crítico, mas não ser impostas. Nomeadamente, está em causa a ideologia de género, em que se passam teorias que estão envoltas em grande polémica, são muito discutíveis, não devendo, por isso, fazer parte do currículo escolar, para além de outros conteúdos de carácter sexual e antropológico merecedores de reserva. Não há necessidade nenhuma de se estar a intoxicar a mente de crianças e jovens com teorias que não têm sólida sustentação e que podem provocar uma grande perturbação e confusão no seu crescimento humano e social.

A escola sempre foi uma tentação para grupos políticos e sociais formatarem cidadãos de acordo com as suas cartilhas ideológicas para fins políticos e sociais ou outros fins. Há que combater esta tentação. A escola deve servir acima de tudo para ajudar a pensar sem pressa de impor nada, de formar cidadãos livres, com espírito crítico, que sabem pensar e adquirir conhecimento, agir sempre com inteligência e responsabilidade, e não para domesticar meninos e meninas para os interesses de grupos ou doutrinar com modas sociais ou formulações ideológicas de duvidosa certeza e progresso. Parece-me é que se muitos pais fossem pais como deve ser, esta disciplina não precisava de existir na escola. Hoje, infelizmente, educa mais e mal a internet e a televisão.  

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