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minhas notas

O teólogo José Maria Castillo, num artigo de opinião num jornal digital espanhol, escrevia há dias, no seu tom frontal e cáustico: «Eu não digo que a Igreja deve mudar ou tem que mudar. O que eu digo é que a Igreja mudará. Porque ela não tem escolha. Ela não tem outra saída. A Igreja que temos agora, como está, não pode durar muito. Todos os dias há menos padres, menos religiosos, menos vocações para seminários e conventos. E todos os dias também mais paróquias sem padre, mais fiéis sem Missa e mais pessoas sem sacramentos». E na parte final do seu artigo, o teólogo sentencia: “A Igreja estagnou - e continua estagnada - em pensamentos, costumes e cerimónias anteriores à Modernidade, a Igreja afunda e aí permanece, presa em ideias, deveres e cerimónias, que quase ninguém entende e nas quais quase ninguém está interessado”.

Não partilho totalmente da opinião tenebrosa e negativa do teólogo espanhol, mas dou-lhe razão quanto à necessidade de mudanças na Igreja. Aliás, diz uma velha máxima da Igreja que a «Ecclesia semper reformanda», a Igreja está sempre a reformar-se, a mudar, a precisar de reforma. E, de facto, é preciso agir rapidamente para que a Igreja possa continuar a bem cumprir a sua missão de anunciar o Evangelho e de levar a salvação de Jesus a todos. Uma das grandes reformas que urge realizar é a promoção do laicado na Igreja. Já assim devia ter sido desde sempre. Devido à clericalização da vida da Igreja, os leigos foram secundarizados na ação e intervenção da Igreja, de tal maneira que ainda hoje quando se fala de Igreja toda a gente pensa no Papa, nos bispos e nos padres, os que pensam, os que sabem e os que «mandam», os outros, os leigos, obedecem. O seu lugar e missão é no mundo, sem dúvida, onde são chamados a levar o espírito do Evangelho e a testemunhar a fé cristã, mas também é na Igreja, onde têm o seu lugar próprio para que a Igreja celebre a sua fé e cumpra a sua missão, e devem ser chamados a participar nas decisões da Igreja.

Como dizia há dias o padre Tony Neves, numa entrevista à Renascença, «o grande desafio para a Igreja em 2020 é a emergência de um laicado forte porque, sobretudo na Europa e no norte da América, que foram os continentes que mandaram na Igreja durante 20 séculos, clericalizámos demais a Igreja, e pusemos tudo muito em cima das costas dos bispos e dos padres, com consequências a meu ver desastrosas, a todos os níveis, mas sobretudo de caráter pastoral», consequências fáceis de comprovar. «De uma vez por todas deixemos de pensar que os bispos e os padres é que têm de fazer tudo na Igreja, é que têm de ter toda a autoridade e tomar todas as decisões, e que se eles não estiverem o mundo acaba. Não é verdade. O que nos caracteriza como cristãos é o nosso batismo, tudo o resto são ministérios, e o Papa e a Cúria podem depois ir distribuindo esses ministérios de acordo com as necessidades pastorais». Nos inícios da Igreja houve uma grande riqueza e variedade ministerial, distribuição de tarefas. Todos eram chamados a contribuir e a participar ativamente na vida da comunidade e todos participavam nas decisões e na resolução dos problemas. O Evangelho assim o testemunha. Com a institucionalização que a Igreja adquiriu com a liberdade do Império Romano e pela Idade Média fora, clericalizou-se a vida da Igreja. Há que regressar aos alvores da Igreja. É urgente formar leigos para se poder assegurar a celebração do Domingo nas comunidades cristãs. O atual ritmo paroquial, centrado na ação do padre, está a espremer os padres, que se sentem cada vez mais perdidos e cansados, a assegurar uma pastoral de manutenção sem futuro. Já temos o bom exemplo da Diocese da Guarda, onde muitos leigos – algumas senhoras - asseguram a celebração do Domingo na ausência do padre, com muitos bons resultados pastorais.  

A primeira e mais difícil mudança é sempre a nossa mentalidade. Para muitos cristãos, a religião só faz sentido com o padre. Foi o modelo que imperou na vida da Igreja. Mas a igreja são todos os cristãos e não apenas o padre. Também há religião para lá do padre. Como diz o padre Tony Neves, «o Papa disse que a memória e a tradição não são armários onde a gente mete e tira coisas. A memória e a tradição também evoluem, também têm de ser evolutivas. E sobretudo temos de acreditar que o Espírito Santo não está a dormir, e portanto, ir renovando, ir mudando é qualquer coisa que devia fazer parte da dinâmica normal da Igreja». Há dois mil anos, foi um leigo judeu chamado Jesus que fez estremecer o Judaísmo e a sociedade do seu tempo. Está na hora de uma emergência laical na Igreja.

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