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minhas notas

Em que ficamos?

10.03.14 | minhasnotas

O que temos escutado e lido nos últimos dias só nos pode deixar confusos e defraudados. A Europa não fala a uma só voz e tem muitas dúvidas quanto ao caminho certo. E pior que tudo: não se vê um rumo claro e uma meta consistente para aquilo que se está a exigir a alguns países europeus. Depois claro, não estranhem em ver crescer o euroceticismo, os extremismos e os nacionalismos, que tanta desgraça já causaram na história da Europa. Começa a ficar transparente que os interesses de impérios económicos e de entidades todas-poderosas, que eles supervisionam, dominam mais uma vez, ao invés de se pensar no real e sustentado desenvolvimento e bem-estar dos povos, na justa distribuição da riqueza por todos e na criação do bem comum.

A Troika, constituída pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu, entrou em Portugal, a pedido da nossa incompetência, com a lição já mais do que estudada: o país andava a viver acima das suas possibilidades e por isso tem de fazer uma série de sacrifícios e de cortes dolorosos para se tornar sustentável. O país precisava de um choque de «realidade», andava a viver na ilusão. O que devia ter sido dito é que o Estado, comandado por políticos irresponsáveis nos últimos anos, é que andou a viver acimas das suas possibilidades, contagiando também os seus penduras e parasitas e muitos empresários e muitas famílias inconscientes. O cidadão que se habituou a viver honestamente com o seu ordenado e que poupa não andou a viver acimas das suas possibilidades.

Num primeiro momento, o país percebeu e aceitou que algum sacrifício tinha de ser feito, que, infelizmente, tocaria a todos, se é que tocou. Adquirimos luxos e regalias à custa de dinheiro emprestado, durante vários anos. Fizeram-se aumentos e concederam-se subsídios de vária ordem apadrinhados pelo crédito externo. Deixou-se andar à solta o despesismo imoral, enquanto tocávamos viola na praça pública, crentes de que uma mão providencial vem sempre resolver-nos os problemas. Até nos demos ao fausto de dar reformas-relâmpago chorudas pela prestação de meia dúzia de anos de trabalho. Continuo a não compreender para que é que se dá uma reforma de quinze mil euros ou mais a um reformado e a um jovem que começa a vida e quer constituir família dá-se-lhe o ordenado mínimo. E já que de jovens falo, convém também que eles pensem um bocadinho: como é que se explica que muitos tenham emigrado amargurados com o país e jovens estrangeiros venham para Portugal e consigam montar negócios? Nem tudo estará assim tão mal em Portugal.

Quando olhámos para o lado, vimos que a mesma receita estava a ser aplicada a países mais ricos do que nós. Interiorizámos que alguma austeridade era necessária. O que mais nos custa a ver é que ela ainda não foi feita onde deve ser feita, que é na despesa do Estado. Os partidos políticos são bons a distribuir dinheiro, mas quando se trata de governar a sério, com cortes e sem excessos, são covardes e não têm coragem, porque o poder interessa mais do que o país. E nós cidadãos também temos muita culpa porque se um partido nos apresentar um programa sério e realista para governar não ganha eleições. Preferimos a fantasia.

Num segundo momento, começamos a perceber que depois da austeridade o que se pede é mais austeridade, e, por muito que ponham rostos compassivos, exigida com muita insensibilidade pela real situação das pessoas ou pelo desconhecimento da vida concreta das pessoas. O último relatório do FMI recomenda que se baixem ainda mais os salários em Portugal. É aviltante propor isto ao país. Juram a pés justos de que é o melhor caminho para Portugal. Ao mesmo tempo que ouvimos estes oráculos da douta troika, já vamos lendo entrevistas de altos chefes e gestores de empresas e organizações económicas e financeiras a afirmarem de que Portugal está a tornar-se um país «apetecível», «atrativo para bons investimentos», ou seja, um país de mão de obra barata, que se resigna a viver na miséria, disposto a dar muitos lucros aos insaciáveis capitalistas que só veem dinheiro. É aqui que a Europa devia levantar a voz: o mal não está nos portugueses, mas no capitalismo selvagem e bulímico que tem carta-branca para prosperar onde quer e muito bem lhe apetece. Quem tem de mudar é o capitalismo, que não pode pensar só em rendimentos e lucros e que deve estar ao serviço do bem da sociedade, e não as pessoas que já ganham o razoável para viverem com dignidade.

O rumo que temos vindo a percorrer até aqui é consensual? Não. Em primeiro lugar, lembro as muitas contradições da troika, que já pudemos ler. Dentro do mundo económico, há economistas para todos os gostos. Peter Praet, economista-chefe do Banco Central Europeu, afirma numa entrevista ao Jornal Expresso que «o custo social e económico do programa em Portugal foi muito maior do que deveria ter sido». Não podemos deixar de nos interrogar: mas esta gente, afinal, sabe o que anda a fazer? Anda-se assim a brincar com a vida das pessoas e dos países? Põe-se em prática um programa de resgate sem estar devidamente pensado e sem se medir com todo o cuidado os seus riscos e efeitos? Pelos vistos, temos andado a trilhar um caminho que poderia ter sido menos duro e doloroso do que tem sido. Em que ficamos? O caminho que seguimos era absolutamente necessário ou trata-se de mais uma jogada de experimentalismo económico à custa das pessoas ou de uma manobra para assegurar os lucros dos grandes impérios económicos? Para arrematar só faltava esta: acaba de sair um estudo sobre as obras públicas alemãs, sob o governo da Senhora Angela Merkel, que nos impôs o rigor da austeridade e que nos acusou de calaceiros, despesistas e indisciplinados, em que se afirma que muitas delas revelam incompetência, má gestão e desperdício. Nem mais, Senhora Angela Merkel.

De uma vez por todas, era bom que os capitalistas e as instituições financeiras e económicas escrevessem em letras garrafais nos seus escritórios: a economia deve estar ao serviço do bem das pessoas e dos povos e não as pessoas e os povos ao serviço da economia. O dinheiro existe para criar a comunhão e a promoção do homem e não para criar a exploração e a opressão e fomentar e alimentar a devassidão de uma minoria extravagante e inconsciente. O dinheiro é bom se serve. É mau se se torna um senhor. Em tudo, o homem e a sua dignidade devem ter o primado.