Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

minhas notas

Comunicação e misericórdia

28.06.16 | minhasnotas

O ser humano é um ser relacional e social. Está feito para ser para os outros e para se relacionar com os outros, para partilhar, para conviver e comunicar. E quanto mais o faz, mais se realiza como ser humano e mais humano se torna. Como é um ser inteligente, dotado da capacidade de pensar e verbalizar, e portador de emoções e sentimentos, tem uma grande necessidade de comunicação. Esta tem dois grandes movimentos: falar e ouvir. Quem não sabe exercer os dois, não sabe comunicar e terá uma grande dificuldade em estabelecer «empatia» ou «simpatia» com os outros. Facilmente cairá na «antipatia» dos outros e com os outros. E não esqueçamos o silêncio, que é necessário para se comunicar bem, e, não raras vezes, é a forma mais sublime e perfeita de comunicar.
Na mensagem que dirigiu ao mundo e à Igreja para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Francisco chama a atenção para a necessidade de viver a misericórdia na comunicação social, assim como em toda a comunicação humana. Há pouca misericórdia na nossa comunicação social. Basta ver que as más notícias prevalecem sobre as boas notícias, há um gosto mórbido pelo escandaloso, o imoral e o negativo, vasculha-se e divulga-se a vida privada das pessoas sem qualquer respeito pelas pessoas e pela sua dignidade, nesta sociedade que se tornou incompreensivelmente consumista da desgraça alheia, com diretos atrás de diretos às portas dos tribunais, espalham-se sem escrúpulos a mentira e as meias verdades sobre pessoas, instituições e acontecimentos, em nome de interesses, com graves consequências para os atingidos, clama-se por justiça severa e linchamentos públicos para falhas e erros humanos. Até na nossa imprensa local, penso que se abusa dos ataques pessoais, do falar mal só por falar mal, por inveja ou ódio, seja de pessoas ou instituições, mais só para destruir do que para construir ou melhorar, dá-se demasiado espaço a querelas e discussões estéreis, que pura e simplesmente só vão azedar as relações e cavar maior distância entre os envolvidos, não estando em causa a leitura crítica que cada um tem direito a fazer da realidade. Até na comunicação politica, há muita falta de misericórdia. Repare-se na nossa Assembleia da República: em vez ser um espaço de comunicação com elevação e serenidade, pelo contrário, impõe-se a gritaria, o tom agressivo e acusatório, a troca permanente de argumentos bélicos, sem capacidade de ouvir o outro e entrar na sua razão, há uma busca contínua pelo denegrir e deitar abaixo o outro, não se reconhecem os méritos e os sucessos dos outros, prevalece a cultura de trincheira e o fundamentalismo partidário, exploram-se até ao tutano as contradições e as falhas alheias. Quantas sessões da Assembleia da República, casa da democracia, são um espetáculo lamentável!
Atualmente verifica-se um grande deficit em escutar os outros, para o qual o Papa também alerta. Vivemos num mundo de surdos. E não me digam que é por falta de tempo. O individualismo atual está-nos a tornar frios e indiferentes para com os outros. É uma questão de atitude e de humanidade. Vou encontrando muitas pessoas, que têm uma grande necessidade de falar, porque, pelos vistos, ninguém está para as «aturar», pessoas que precisam de encontrar um caminho, de redimir um fracasso, de contar um sucesso, de relatar uma vida cheia de sacríficos e conquistas extraordinárias, e não têm um familiar ou um amigo que se queira maravilhar com as suas palavras. Os mais velhos têm tanta experiência e sabedoria para partilhar e o que faz a modernidade? Presta-lhe cuidados, faz umas coisas engraçadas, mas não tempo para os ouvir.
Mesmo a Igreja, e quando falo da Igreja falo de todos os cristãos, não pode deixar de comunicar com misericórdia. Diz o Papa: «Palavras e gestos duros ou moralistas correm o risco de alienar ainda mais aqueles que queríamos levar à conversão e à liberdade, reforçando o seu sentido de negação e defesa.» Seria bom evitar o tom sentencioso, o julgamento fácil e o moralismo frio, que facilmente andam na ponta da língua, e apostar mais na proximidade e na proposta de caminhos positivos para a vida.