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minhas notas

Ainda Os Recasados

24.01.19 | minhasnotas

Jesus nunca iludiu ninguém. Desde a primeira hora, teve o cuidado de alertar quem o queria seguir de que ser seu discípulo implicaria escolher a exigência e a radicalidade na fidelidade a Deus, sem meias tintas e hesitações. Impôs uma escolha: entrar pela porta estreita que leva à vida e à salvação, ou entrar pela porta grande que leva à perdição da vida, em todos os seus sentidos. Mas ao mesmo tempo, Jesus bem sabia que o ser humano cai, erra, desanima, desiste, tropeça e, por isso, aproximou-se da fragilidade humana. Era amigo de pecadores e publicanos, a quem tentou sempre recuperar e apontar caminhos de vida nova. Daí que sempre me surpreenderam as palavras de Jesus sobre o casamento, onde parece intransigente, não permitindo que o homem e a mulher falhem no casamento, nascendo assim a doutrina da indissolubilidade do matrimónio. Como é que foi tão exigente com os casados, quando Ele nunca o quis ser? Não saberia Ele que se o ser humano é falível em tudo, também o seria no matrimónio? Não saberia Ele que unir duas vontades e dois corações num projeto de vida para toda a vida é uma empresa de grande exigência e sempre sujeita ao fracasso? Claro que sabia. O que talvez Jesus nos quer dizer é que o amor é sagrado, exige tudo de nós mesmos, deve ser vivido com uma entrega total, e o amor entre homem e mulher deve ser sério, santo e verdadeiro, sempre preservado dentro do possível, livre de interesses passageiros e de sentimentos vagos e efémeros, para realização dos esposos e para bem dos filhos, e até da sociedade.  

Algumas Dioceses de Portugal, estimuladas pela Exortação Apostólica «A Alegria do Amor» do Papa Francisco, já estão a dar passos firmes para uma integração plena dos recasados na vida da Igreja, percorrendo-se um caminho com algumas etapas e critérios. Não poderia ser de outro modo. Como disse o Papa Francisco, ninguém está condenado para sempre e não se compreenderia que a Igreja recusasse a comunhão a pessoas que falharam, se é que falharam, num primeiro casamento, que é irrecuperável. Não poderíamos continuar a deixar as pessoas presas e marcadas pelo seu passado, mas abrir caminhos para um recomeço e possibilitar a inclusão e não persistir na condenação. «A Igreja não está no mundo para condenar, mas para possibilitar o encontro com a misericórdia de Deus», como assertivamente disse o Papa Francisco. No entanto, esta solução está longe de ser consensual. Há uma fação da Igreja que está claramente contra, tem feito oposição ao Papa, e até considera que a solução roça a heresia. Não deixo de ficar espantado como é que a Igreja se está deixar envencilhar em discussões doutrinais e normativas, à maneira dos embates entre Jesus e os doutores da lei e fariseus. Se há algo que Jesus combateu determinadamente foi o legalismo e o formalismo frio de só se ver a vida pelo cumprimento cego e fiel de uma lei ou de uma doutrina. A vida transborda sempre para lá das regras e dos códigos legislativos. A vida apresenta sempre novos desafios, enquadramentos e problemas que não se podem ver apenas pela mira de um dogma ou de uma norma. E mal da sorte se nós trocámos o legalismo, o formalismo e o dogmatismo dos fariseus e escribas por um dogmatismo e legalismo cristão, que Jesus tanto recusou. As regras, as leis e as doutrinas são indicações e orientações, que devem estar sempre abertas a outras considerações, porque a vida é complexa e original.

Esta abertura da Igreja não seja, no entanto, entendida como um vender o Evangelho a soldo ou um manhoso rodopio do mesmo, porque não é. O Evangelho não é um cardápio fixo de normas e doutrinas. É um dinamismo gerador de vida nova, aberto às novidades e desafios da vida. E esta abertura também não é cedência ao facilitismo e à banalização do casamento, que a sociedade atual promove. Há que repensar a atual e nefasta cultura do provisório e do descarte, que coisifica o outro e despreza a fidelidade e o compromisso, o que é uma fonte perversa de sofrimento, e a imaturidade com que muitas pessoas se apresentam para constituir família, quando não o deveriam fazer. O casamento não é uma simples festa. É um contrato, é um compromisso para ser dignamente vivido e escrupulosamente respeitado.

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