Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

minhas notas

A Mundanização dos Casamentos

24.01.19 | minhasnotas

Já celebrei casamentos em que tudo foi exemplar. Deu-me um grande prazer presidir à celebração e ver nascer um casal ou uma família, com toda a assembleia contagiada e participativa, numa atmosfera cristã. Mas estes casos estão-se a tornar uma exceção. A celebração do casamento católico está a entrar por caminhos inconcebíveis e está a chegar a um ponto que vai ser preciso pôr ordem na casa. Estamos a assistir a uma banalização e a uma mundanização do matrimónio católico, que são inadmissíveis. Sabemos qual é a principal razão: a maioria dos casais que pedem o matrimónio e a maioria das pessoas que participam nos casamentos não tem vida de Igreja. Daí que já não se sabe rezar e participar dignamente numa missa, não se tem piedade e reverência diante de Deus e o casamento seja um espetáculo como outro qualquer, mas não é. Para muitos convidados é isso mesmo: o casamento é uma festa social, um espetáculo, ser numa igreja ou noutro lugar qualquer, tanto faz. Ao ponto a que chegámos!

Comecemos por refletir na apresentação e na indumentária. Um casamento na Igreja implica que as pessoas se apresentem com dignidade e respeito diante de Deus. Não se deve estar diante de Deus e numa Eucaristia de qualquer maneira. Mas, pelos vistos, Deus pouco importa. Dia de casamento está-se a tornar dia para dar nas vistas, exibicionismo, mostrar sensualidade, expor um vestido glamoroso, alguns a tocar a indecência, e uma maquilhagem arrebatadora ou um penteado estrondoso. São valores poucos cristãos. De facto, deve imperar a boa e elegante apresentação, mas aqueles exageros, prenhes de vaidade, são dispensáveis.

Depois, destaca-se a atitude e o espírito com que se está na celebração. É pouco notória uma atitude humilde, reverente e compassiva diante de Deus. Pelo contrário, reina a distração, o alheamento e o desinteresse, a aridez espiritual. Poucos prestam atenção às leituras, às orações e ao rito matrimonial e eucarístico. Ao invés, as coisas engraçadinhas ou bizarrices que os noivos se lembraram de acrescentar merecem toda a atenção. Há muitos acrescentos que os noivos solicitam, que não têm sentido num matrimónio católico. Por exemplo, as damas de honor estão a ganhar uma relevância que não tem qualquer justificação no casamento católico, não merecendo, por isso, entradas solenes ou lugares de destaque na celebração, entre outros. Celebrar um casamento católico é louvor e encontro com Deus, é celebrar o amor, a bênção e a graça de Deus, a aliança de Cristo com a Igreja, abrir-se a Deus e aderir aos seus desígnios para a vida e a família, e não apenas «assistir» levianamente a um enlace ou a uma cena graciosa de dois noivos loucamente apaixonados.

Os coros escolhidos pelos noivos, na sua maioria, vêm para dar um concerto ou dar o seu espetáculo e não para ajudar a rezar e a celebrar a liturgia, porque é para isso que há música na liturgia. Muitos cânticos apresentados são inapropriados para a celebração de um matrimónio, porque não têm nada a ver com o espírito e a liturgia do mesmo, não têm raiz na Palavra de Deus e na fé cristã, são de origem pop ou rock e expressam um sentimentalismo vago e redundante, que não condiz com o verdadeiro espirito da celebração cristã. Está para sair um cancioneiro de músicas religiosas para casamento. Espero que os coros, que participam em casamentos, sejam obrigados a acolhê-lo, e até seria bom criar-se um diretório litúrgico e terem uma certificação das dioceses para poder animar as liturgias dos matrimónios.

Por fim, deixo duas perguntas: quantos noivos, que solicitam a celebração do casamento na Igreja, se empenham por conhecer a doutrina da Igreja Católica sobre o matrimónio e a família? E não é por falta de vontade da Igreja. A arte de amar e viver em família tem muito que se lhe diga. Se se pede o matrimónio católico, é para se viver o casamento e em família de acordo com os princípios e os valores cristãos e não ao sabor da moda ou da mentalidade mundana dominante ou segundo os ditames do voluntarismo e dos meros caprichos individuais. E como compreender que um casal se separe ao fim de um ano ou até menos? Vai-se assim para um casamento com tamanha inconsciência e imaturidade? Faz-se um pedido de casamento espalhafatoso, organiza-se um estardalhaço no dia do casamento, gasta-se uma fortuna (e o quanto não custa hoje participar num casamento!), dizem-se coisas tão belas e promovem-se surpresas tão emocionantes e tudo acaba ao fim de meia dúzia de meses? Que fantochada é esta? Será que não temos um bocadinho de vergonha? É uma banalização do casamento inaceitável. Ao menos peçam desculpa aos convidados. Sinais dos tempos: aparências e só aparências. Por dentro, estamos ocos como um cântaro.

Comentar:

CorretorMais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.