Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

minhas notas

A Inquisição: verdades e mentiras

24.01.19 | minhasnotas

De vez em quando, em entrevistas, programas e artigos de opinião, são desferidos duros ataques à Igreja com a seta da Inquisição. Habituámo-nos a ouvir impávidos e serenos a história muito bem contada de que a Inquisição foi uma máquina mortífera, horrenda, cruel e desumana, terrivelmente torcionária, digna de constar nos anais das maiores barbaridades realizadas na história da humanidade. No entanto, investigações e estudos despretensiosos, neutros e sérios de grandes historiadores negam inequivocamente os exageros e as muitas distorções que envolvem a Inquisição e obrigam-nos a corrigir muitas imprecisões, mal-entendidos e dados históricos sobre a Inquisição. Muito bem aproveitada pelos detratores da religião e da Igreja Católica, não há qualquer dúvida de que a Inquisição foi vítima de uma mistificação e de uma campanha de difamação com o fim de denegrir a Igreja e a descredibilizar perante a sociedade.

Remotamente, a Inquisição foi lançada com a criação do primeiro Tribunal Público Contra a Heresia, em França, no século XI, mas foi plenamente constituída no século XIII, com o Papa Gregório IX, ficando sob a alçada da Ordem Dominicana, também nascida nesse século. Nasceu com um fim benévolo e nobre: inquirir (daí o nome inquisição), de facto, o que era verdade e mentira, para se evitar condenações injustas e abusivas e perseguições e linchamentos populares implacáveis de possíveis inocentes. Mais tarde desviou-se desta rota, é verdade, mas primeiramente até se pode dizer que foi um progresso assinalável, na senda dos direitos humanos: dar a possibilidade às pessoas de se poderem defender de falsas acusações, de difamações e calúnias, nomeadamente do delito de heresia contra a sã doutrina cristã e os costumes que a normativa social e religiosa considerava certos e corretos.   

A sua primeira grande empresa foi combater a heresia dos Cátaros e Albigenses, disseminada no sul de França, uma heresia maniqueísta composta de crenças erróneas e estultas, acompanhada de alguma criminalidade, que era, de facto, uma ameaça à ordem e à estabilidade social, assim como à unidade da Igreja e à ortodoxia da doutrina cristã. A Inquisição pôs-se a caminho para evitar a propagação da heresia e corrigir os hereges, chamando-os à conversão dos verdadeiros princípios e dogmas cristãos e à correção de práticas inaceitáveis. Mais tarde, procurou combater a divulgação das ideias da reforma protestante protagonizada por Lutero (heresia protestante), no século XVI, assim como outras heresias, que a Igreja considerava grandes erros face à verdadeira doutrina cristã ou às regras cristãs. Em Portugal e Espanha, assumiu alguns contornos sociais e políticos, perseguindo outros fins para os quais não foi criada, mormente em Portugal procurou impor a fé cristã a judeus e a muçulmanos, fiscalizando as suas práticas e costumes. Em Espanha, atingiu contornos e níveis de crueldade inimagináveis. Paulatinamente, a Igreja foi reduzindo a sua atividade, sendo extinta no século XIX.

A Igreja pode orgulhar-se do bom fim para o qual a Inquisição foi criada. Mas o que é verdade é que rapidamente se desviou desse fim e passou a perseguir fins e a adotar práticas, claramente contrárias ao Evangelho, que jamais uma instituição da Igreja deveria ter adotado. Foram cometidos alguns abusos e praticadas algumas injustiças, com requintes de desumanidade e de intolerância inconcebíveis, que marcam indelevelmente uma página negra da história da Igreja, mas também do poder político e das sociedades que a alimentaram e promoveram. Contudo, também é verdade que se construíram algumas teses e narrativas à volta da Inquisição que não correspondem à verdade histórica, de acordo com boas investigações que têm sido feitas com competência por historiadores católicos e não católicos.  Andam por aí muitas mentiras, falsidades, inexatidões e enganos que é preciso corrigir em nome da verdade. Há que dar lugar ao rigor e à precisão histórica. Abordarei isso no próximo artigo.