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minhas notas

A Inquisição (2)

24.01.19 | minhasnotas

Estudos e investigações de bons historiadores são fidedignamente conclusivos: a esmagadora maioria das pessoas julgadas e condenadas pela Inquisição sofreu penas leves, fisicamente falando, como a excomunhão da Igreja, não acesso a sacramentos e outras penitências eclesiais, penas que poderiam ser revertidas caso a pessoa manifestasse mudança, correção e conversão. Só uma percentagem relativamente diminuta foi condenada à fogueira, cerca de 1 a 2 % das pessoas julgadas (mesmo assim números lamentáveis). Não foram milhares de pessoas condenadas à fogueira como se ouve e lê com relativa facilidade, como se a fogueira fosse uma prática banal. Não era. Era muito excecional. E há um justo esclarecimento histórico a fazer: a fogueira não acontecia no dia do auto-de-fé. Nesse dia, eram lidas as sentenças e as pessoas eram entregues ao poder secular (as autoridades do estado). A fogueira não acontecia na praça pública, não eram espetáculos públicos, como muitos quadros e gravuras de artistas dão a entender. As pessoas eram queimadas de forma muito discreta, fora da área urbana, com uma pequena assembleia a assistir.

Diga-se que não foi a Inquisição que inventou a condenação à fogueira e a tortura. Estas já eram praticadas há muito tempo pelas autoridades policiais e judiciais das sociedades europeias. A Inquisição, sem grande originalidade, adotou os mesmos métodos e práticas que já existiam, mas fê-lo com moderação e com mais benignidade do que o poder secular. A verdade é que o que foi muito excecional e mais macabro nas condenações da Inquisição serviu para caracterizar exageradamente e definitivamente a Inquisição.

Museus que vemos por aí sobre a Inquisição fazem passar a ideia de que a tortura era usual e banal e que a Inquisição era uma máquina trituradora e sádica, que se divertia e comprazia em atormentar barbaramente as pessoas. Não corresponde à realidade. A tortura era muito excecional. Não era admitido o derramamento de sangue. Boa parte dos depoimentos prestados sob tortura não foram validados. O que vemos nos museus é horrível e de certo que foram cometidos excessos, mas não era prática comum. A tortura tinha regras apertadas e era muito vigiada.

A Inquisição foi uma realidade muito complexa. Estava nas mãos da Igreja, mas rapidamente, com a infeliz  conivência daquela, foi instrumentalizada pelo poder político e outros poderes sociais para fins indignos para os quais não foi criada: eliminar adversários políticos, torturar opositores políticos, confiscar dinheiro e bens  de instituições e pessoas, suprimir pessoas inconvenientes, incómodas e agitadores sociais, controlar e impor comportamentos e ideias, segundo a normalidade vigente, coadjuvada por um exército de denunciadores e prestadores de falsas acusações que não tinha qualquer pejo em fazer este trabalho sujo, devidamente premiado pelo poder secular e religioso. Infelizmente, ainda hoje perduram estes traços da mentalidade inquisitorial. D. Carlos Azevedo, numa entrevista ao Público, afirma: «Por vezes vem ao de cima algum espírito de caça ao erro ou ao mal que é típico deste espírito inquisitorial, em que bastava ser denunciado para ser condenado. Isso manifesta um zelo pela verdade que, em vez de fazer aquilo que o evangelho pede – de ir ter com as pessoas e falar diretamente e, se for o caso, levar a pessoa a interrogar-se sobre o que defende –, em vez do debate, se esconde na denúncia.»

Não pretendo branquear a Inquisição. Foi uma instituição hedionda, será sempre uma página negra da história da Igreja, mas também das sociedades que a alimentaram. Não deixemos só para a Igreja o ónus de carregar o peso condenável de uma instituição repugnante como foi a Inquisição.  Se inicialmente teve um bom fim, rapidamente o abandonou e entregou-se a práticas e a valores contrários ao Evangelho, promovendo a intolerância, a perseguição, a morte, o terror, a expulsão. Teve as suas vozes críticas dentro da Igreja, de pessoas com liberdade de consciência, mas rapidamente foram importunadas e perseguidas. Não existiu unanimismo dentro da Igreja relativamente à natureza e ação da Inquisição. Mas também há que desmontar alguma mistificação que foi montada à volta da Inquisição, exagerada e até falsa, quanto aos métodos, aos números e aos atos da instituição, no respeito pela história. Não foi tão macabra, bárbara e sádica como é ideia feita e lida em muitos livros de história ou em escolas de leitura histórica.