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minhas notas

Só Deus sabe com que dor e inquietação a Igreja tomou a decisão de suspender as celebrações comunitárias, nomeadamente a Eucaristia dominical e outros eventos de grande amplitude eclesial, mas fez muito bem, sendo até um grande testemunho que a Igreja deu e está a dar, em conformidade com os valores e princípios do Evangelho. D. António Marto lembrou que a decisão se impôs “por exigência de saúde pública para salvar pessoas da doença e da morte por causa do contágio nos grupos de pessoas”, e que “o vírus não permanece fora das portas das igrejas. A confiança em Deus, a oração e a comunhão eucarística são uma realidade muito diferente do tentar a Deus e desafiá-Lo com a pretensão de milagres”. A decisão é histórica e inédita, sem dúvida, como inédita está a ser a história da humanidade. Não seria um bom exemplo a Igreja estar a contribuir para a degradação da saúde das pessoas e para um demolidor agravamento da saúde pública. Passaria a imagem de uma grosseira irresponsabilidade e incoerência, quando o respeito pela vida e o bem das pessoas estão no centro da doutrina católica e do discurso da Igreja, permitindo celebrações em profunda contradição com os valores e os princípios mais sagrados que prega e defende e colaborando na proliferação da pandemia.

Perguntarão alguns conservadores ou até, perdoem-me a expressão, alguns fundamentalistas: mas esta decisão não é tornar a Missa irrelevante e atentar contra a fé? Não. Muito pelo contrário. Ter fé não significa deixar de ser inteligente, de ser responsável e ter prudência neste mundo marcado pela fragilidade e a contingência. Viver como cristão não é ser anjo fora do mundo, mas é continuar a viver num mundo frágil e passageiro, percebendo e gerindo os limites e perigos da nossa condição humana. É importante celebrar a Eucaristia todos os Domingos e todos os dias, mas não é menos importante a vida das pessoas. Não se compreenderia celebrar a Vida que nos é dada por Jesus contra a vida das pessoas. Jesus disse-o muito bem, quer a vida em abundância e não o cumprimento formal de ritos. E neste caso contribuir para a vida em abundância das pessoas é livrá-las do contágio de um vírus que lhes pode tirar a vida. E argumentar que a celebração comunitária da missa serviria para nos ajudar a vencer a guerra contra o vírus não pode ter qualquer sustentação. A missa não é uma poção mágica contra os males do mundo e a comunhão eucarística, permitam-me também a triste comparação, não é um comprimido ou um remédio que nos torna imunes aos contágios perigosos do mundo. A Eucaristia salva-nos, sem dúvida, mas não nos liberta dos perigos da contingência em que ainda vivemos neste mundo. A Missa não é um seguro contra todos os riscos ou um salvo-conduto para agirmos com insensatez e negligência, sem preocupação pelos riscos da nossa condição humana, que nos acompanharão sempre pela vida fora. A fé sensata e prudente prevaleceu sobre a fé sacralista e formalista.

Mas reparemos bem: o facto de as celebrações comunitárias estarem suspensas e de os tradicionais e privilegiados canais de encontro com Deus, de vivência e sustento da fé estarem inacessíveis e interrompidos, como são os sacramentos e a comunidade, contudo, a fé, enquanto permanente adesão e busca de Deus, não está nem pode estar suspensa. Se ainda não viram o filme Silêncio de Martin Scorsese, recomendo que o façam. O filme retrata as vicissitudes do Cristianismo no Japão, onde foi proibido e brutalmente perseguido durante mais de dois séculos, depois da chegada dos primeiros missionários jesuítas. Os cristãos tiveram de se esconder. Seria fácil concluir que esses dois séculos erradicariam o Cristianismo no Japão, mas isso não aconteceu. Quando a vivência da fé cristã foi de novo autorizada, as comunidades cristãs estavam mais vivas do que nunca. Como é que sobreviveram, se não podiam ter igrejas e celebrar a Eucaristia oficialmente? Como conseguiram viver a fé e ser Igreja?

É um bom exemplo para nós agora, que nos vemos privados dos mesmos meios. Até nos fará bem questionar comodismos e rotinas domingueiras e há que olhar para esta nova realidade sem dramatismos e abandonar o exercício do lamento. Há dias, o escritor Líbano-francês, Amin Maalouf, afirmava que "o que está a acontecer é aterrador, mas também é fascinante”. Fascinante porque é tempo para a criação, a invenção e a renovação. Pela parte que nos toca, a Igreja e cada cristão têm em mãos um desafio fascinante: inventarmos e construirmos novas formas de nos relacionarmos com Deus, de estarmos com Deus, que não está só dentro da Igreja, de testemunharmos a fé, de estarmos uns com os outros, de nos relacionarmos com o mundo e criarmos fraternidade e comunhão, de a Igreja estar presente e fazer passar a sua mensagem, de ser próxima e solícita. Uma ferramenta única para o fazermos é este admirável mundo novo da internet e das redes sociais, os areópagos e as ágoras dos tempos modernos, onde podemos manter viva a fé dos cristãos e estar com muitas pessoas, evangelizar, escutar, aconselhar, debater, acompanhar e até celebrar, como o estamos a fazer agora e bem. Tem as suas exigências, temos de cuidar da forma e do conteúdo, mas é um instrumento espantoso para comunicar e despoletar dinamismos sociais e eclesiais e manter a proximidade. O Cardeal D. José Tolentino Mendonça escreveu, há dias, num artigo do Expresso: “Podemos reaprender a utilizar as redes sociais não só como forma de divertimento e de evasão, mas como canais de presença, de solicitude e de escuta. Sem nos tocarmos, podemos reaprender o valor da saudação, o estímulo de um cumprimento, a incrível força que recebemos de um sorriso ou de um olhar. Sem que os nossos braços se estendam na direção uns dos outros podemo-nos abraçar afetuosamente, como já o fazíamos ou de um modo mais intenso ainda, transmitindo nesses abraços reinventados o encorajamento, a hospitalidade, a certeza de que ninguém será deixado só. Sem nos conhecermos podemos finalmente reaprender a não votar ninguém à indiferença ou a não tratar os nossos semelhantes como desconhecidos”.

Uma esperança e dois pequenos êxitos saltam já à vista: a esperança é a de que nos poderemos reencontrar com uma multidão que abandonou a fé e as igrejas e se autointitulou como ateia e agnóstica orgulhosamente convencida das infindáveis e omnipotentes capacidades do progresso e da ciência e que agora se sente inquieta, frágil e só; um primeiro êxito é o encontro com o tesouro da Palavra de Deus, onde a Igreja pode fazer um bom trabalho no mundo digital, fazendo crescer os cristãos que só pensam na liturgia e se preocupam pouco com uma vida espiritual de qualidade e com a sua forma de ser e de estar na vida e no mundo; o segundo êxito é a valorização de uma estrutura que nos é cara e que agora está a ser a mais bela presença e representação da Igreja, que é a família. Nos últimos anos, a Igreja também enveredou pelo caminho dos grandes eventos, que, talvez, tenha de ser repensado: jornadas nacionais e internacionais, dias para tudo e mais alguma coisa, encontros atrás de encontros. Multidões. Ficou na penumbra a vivência e o testemunho da fé no quotidiano e o dinamismo da vida familiar, fundamental para o crescimento da fé e para a edificação da Igreja. Esta é uma família de famílias, uma comunidade de comunidades. Temos agora o tempo oportuno para dar o devido espaço e protagonismo à família, de aprofundarmos a sua identidade de verdadeira igreja doméstica e de a reintegrarmos coerentemente na pastoral da Igreja, ajudando-a de facto a ser uma verdadeira comunidade de vida e de amor, de vivência da fé, de oração, de leitura e escuta da Palavra de Deus, de experiência e interiorização dos valores cristãos. Alguns setores da Igreja até já perguntam como poderemos transportar a sacramentalidade da Eucaristia para dentro da família. É bom assistir à Eucaristia pela internet ou pela televisão, mas poderíamos pensar como é que podemos dar o salto do mero espetador para o participante. Que outra competência se poderá dar à família neste campo?

E já que de sacramentos estamos a falar, deixo outra provocação, que já anda aí nos ambientes eclesiais: poderá o sacramento da confissão ser celebrado por videoconferência ou por telefone? A Igreja ainda não o permite. Mas se é verdade que as pandemias vieram para ficar e vamos ter de passar períodos isolados uns dos outros, não é despiciendo refletir na razoabilidade e eficácia destes meios, sem desbaratar a recomendável normalidade da vida e da vivência da fé.  

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