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minhas notas

A cremação

09.12.14 | minhasnotas

Durante todo o mês de Novembro, mais uma vez percorremos todas as freguesias do Concelho de Montalegre para se fazer memória e se rezar pelos defuntos, com o canto do ofício dos defuntos, antecipado pela celebração do sacramento da penitência. O objetivo é claro: fortalecer a comunhão entre todos os discípulos de Cristo, os que ainda caminham na terra, Igreja terrena, e os que já se encontram na glória, Igreja celeste. A verdade da comunhão dos santos em Cristo e a fé na vida eterna são a inspiração e as luzes orientadoras para todo um mês de recordação viva e de oração por aqueles que jamais devem ser esquecidos. Enquanto se entoam os salmos a Deus, o pensamento sobre a nossa fragilidade e sobre a morte não podem deixar de estar presentes. Um tema que já começa a suscitar algumas perguntas de cristãos é a cremação, que já começa a ser recorrente e parece que se está a tornar «moda». O que dizer da cremação?
Diga-se antes de mais que a Igreja católica recomenda que «os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade. A sua cremação é permitida, se não puser em causa a fé na ressurreição dos corpos», assim diz o artigo 479 do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. Desde o ano de 1963 que a Igreja permite a cremação a cristãos que assim o entendam, se a prática for feita com fé e não para desacreditar ou provocar a fé cristã. Antes de 1963, a Igreja proibiu a cremação porque foi usada por ideologias, movimentos e correntes culturais para combaterem a fé na ressurreição e na imortalidade da pessoa humana. O nada e o pó seria o destino de todo o ser humano, depois da vida, assim defendiam. Não lhes passava pela cabeça que o poder criador de Deus não tem limites e que até do pó Deus nos ressuscita. Lembro também algo importante: uma pessoa que manifeste em vida que não acredita em Deus, na ressurreição e na vida eterna e que para o testemunhar recorre à cremação, não tem direito a exéquias eclesiásticas (funeral católico), o que faz todo sentido. Não se pede para o defunto aquilo em que ele não acredita.
Para a Igreja Católica, a prática mais digna e nobre continua a ser a sepultura do corpo humano, porque o corpo humano merece respeito e reverência. O nosso corpo não é um mero objeto ou instrumento descartável, que se usa e deita fora, sem mais nem menos. Diz muito da pessoa que somos e sem ele não seríamos pessoas. O corpo é um templo onde habita e se realiza uma pessoa. E para quem é crente, o corpo torna-se templo de Deus. É um lugar digno onde Deus se digna habitar. O corpo humano é o templo por excelência. Se tratamos e cuidamos tão bem dos nossos templos ancestrais, que fazem parte da nossa história, muito mais o temos de fazer em relação ao corpo humano, merecedor de todo o respeito. Assim o fez Jesus, que quis ser sepultado, e nisto também de alguma forma somos convidados a imitá-lo. E notemos como a liturgia é mais rica e bela diante do corpo humano. Fala-nos mais à memória e ao coração.
Certamente que a cremação tem toda a dignidade e não belisca em nada a fé cristã, embora ainda cause alguma estranheza aos nossos costumes mais sagrados. A Igreja permite-a, mas não a incentiva e não a recomenda abertamente e já compreenderam porquê. Sepultar o corpo humano é a prática mais cristã e o gesto mais correto e justo para o corpo humano. A cremação deve ser um recurso para casos excecionais, como epidemias, em que se comprove que o cadáver humano propicia o contágio de doenças, por razões psicológicas (há pessoas que ficam gravemente afetadas psicologicamente por verem uma pessoa a ser sepultada, preferindo a cremação), ou até por razões de espaço, como já se verifica em algumas partes do mundo, ou por qualquer outro motivo sério e consistente.
O destino que se dá às cinzas do defunto merecem a nossa reflexão. Acho que, neste campo, se estão a cometer alguns abusos. Há quem deixe escrito que quer ser cremado e que deseja que as suas cinzas sejam deitadas ao mar ou num qualquer outro lugar que tem uma grande carga simbólica ou sentimental para a pessoa. Transparece, assim, uma certa visão romântica da morte. Não acho que este seja o destino correto a dar às cinzas. O lugar mais digno para o depósito das cinzas são os cemitérios, na sepultura da família, ou num outro espaço digno onde se registe a memória dos defuntos e se lhes possa prestar a devida homenagem. E menos aceitável é ainda conservar as cinzas do defunto em casa, prática um tanto ou quanto macabra. Ninguém tem o direito de privatizar e dispor como muito bem entende da memória de uma pessoa. Pertencemos a uma família, mas também pertencemos a uma sociedade, constituímos um grupo de amigos, desempenhou-se um papel social e laboral. A memória de uma pessoa deve estar num espaço digno de recordação e veneração, onde todos a possam homenagear.