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minhas notas

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Sou Muito Religioso. E Cristão?


25.01.19

Genoveva do Espírito Santo (nome fictício) é uma figura conhecida do bairro da Boa Fama. Já é viúva há dezena e meia de anos, nunca mais se deixou enredar por amores («tive um e chegou-me»), anda sempre bem vestida e perfumada, com um vistoso fio de ouro no pescoço, onde exibe a figura do grande amor da sua vida, que visita diariamente no cemitério, homenageando-o com algumas orações e sentidas lágrimas. Quando o padre Anacleto vem ao bairro celebrar a missa, ela não falha: apresenta a sua intenção e tem sempre terços e outros objetos religiosos para o senhor padre benzer. Já se lhe ouviu dizer muitas vezes, altiva e convicta: «sabe, padre Anacleto, a minha família sempre foi muito religiosa. Como não podia deixar de ser, eu também sou.» Não falha uma missa, festa ou romaria.

Maria Antonieta da Purificação (nome fictício) é uma boa mãe de família e uma avó carinhosa. Não há maior alegria para ela do que ver os netos irrequietos à volta da mesa e ela a contemplá-los embevecida, com um sorriso de orelha a orelha, como um ourives contempla as suas melhores joias. Educou os seus três filhos a ir à missa todos os Domingos e à noite rezava o terço com eles, na companhia do marido, o que tenta fazer com os netos, mas com pouco sucesso. Tem um altar na sala de estar, onde vive as suas devoções e alimenta a sua piedade, com uma bela cruz de prata e várias imagens de santos, quadros com rezas, com uma vela sempre a arder. Todas as manhãs e noites passa por ali, para consolo da sua alma. Não há ano que não faça uma promessa, para ter a benevolência de Deus e dos santos. Está sempre prestável para ajudar o padre Agripino, a quem assegurou: «A minha mãe era uma mulher muito religiosa. E eu também gosto de ser, gosto da Igreja, e morrerei como mulher de Igreja. Não consigo viver sem fé».

De certeza que conheceremos pessoas assim. Não têm nada de errado. Conhecemos muito bem esta educação e cultura católicas, que foram o nosso berço. E muito temos a agradecer. Não tenho qualquer dúvida de que serão pessoas de verdadeira fé, boas e devotas, que procuram ser fiéis à tradição e aos costumes católicos, e que tentam pautar a vida pela boa educação religiosa católica que tiveram. O problema é que, muitas vezes, somos educados a ser muito religiosos e pouco cristãos, o que não pode acontecer. É um salto ou um passo fundamental que muitos cristãos católicos precisam de dar. Há por aí religião a mais, com muitos atos e práticas religiosas ancestrais, embrulhadas com muita superstição e espírito interesseiro, e cristianismo a menos. E não faltam «católicos», que ignoram o que é ser cristão e viver como tal. Ser um bom cristão católico não é ser só fiel a regras, práticas e costumes que a Igreja propõe, férreo cumpridor de ritos e cerimónias e aficionado de devoções e rezas, mas pautar a vida pelos critérios, valores e sentimentos de Jesus Cristo, pela fidelidade ao Evangelho. Corremos o risco de se cumprir em nós o que o padre António Vieira já alertava no seu tempo, «sermos católicos de dogmas, mas hereges de mandamentos», ou seja, acreditar numa série de verdades e praticar uma certa ritualidade e disciplina sacramental, mas depois viver ao contrário daquilo em que se acredita e se afirma diante de Deus, separando-se o culto da vida e a vida do culto, a fé e a doutrina da ética e da moral que devemos praticar todos os dias. É uma contradição inaceitável, que Jesus condenou severamente no seu tempo.

O divórcio entre o culto a Deus (ser religioso) e a vida (ser mesmo cristão) chega a atingir o escândalo, como descreve o escritor católico, João da Silva Gama: «Temos muito povo cristão que ainda está por evangelizar: para ele, a religiosidade só funciona em certas alturas da vida, como o nascimento, casamento e missa aos Domingos. Nos intervalos, o tempo mais importante da vida, há cristãos que chegam a cometer as mais incríveis barbaridades: caluniar e difamar sistematicamente o vizinho, fazer justiça por mãos próprias, à enxada ou linchamento, só porque lhe tiraram um palmo de pinhal ou da horta. No dia seguinte, vemo-los na missa com uma devoção de estarrecer.»

Não temos de ser muito religiosos, enquanto meros consumidores e praticantes de religião, trazendo para a nossa relação com Deus os mesmos hábitos, práticas, ritos, medos e superstições que todas as religiões sugerem ou impõem aos seus sequazes, ou o «animal religioso», que habita o ser humano, dita. Alguns autores católicos até defendem que Jesus Cristo não quis fundar uma religião, tal como é conhecida, quis fundar um movimento de discípulos, que perpetuaria no mundo a sua forma de estar e de viver, contruindo e testemunhando o Reino de Deus, de acordo com os princípios e valores do Evangelho. Religiosizar a fé cristã talvez não tenha sido um bom caminho. O que temos de ser mesmo é cristãos de verdade, imbuídos do Evangelho na mentalidade e no coração, com uma postura digna de cristãos nas relações humanas, na família, no trabalho, nos negócios e restantes âmbitos da vida humana e social, não descurando, certamente, a vida litúrgica, a oração e o encontro com os outros, mas viver só isto, sem a fidelidade diária a Cristo e ao Evangelho, é uma hipocrisia inaceitável para um cristão católico.

Só um Cristianismo Festeiro?


25.01.19

Há uma certa cultura errada instalada nas nossas comunidades cristãs, que tem de ser seriamente refletida: a celebração de festas e sacramentos sem a vivência do Domingo, dia central para os cristãos, e sem a participação na vida da comunidade de que se faz parte. É habitual, mais do que seria expectável, encontrarmos muitas famílias que se apresentam na igreja com filhos para batizar ou para fazer as comunhões, que andam completamente alheadas da vida paroquial e têm uma ligação à Igreja muito pobre, para não dizer nula. Não podemos continuar a alimentar esta vivência errada da fé cristã. Reduzir o cristianismo só a meia dúzia de festas, para se quebrar rotinas e se poder celebrar qualquer coisa com a família e os amigos e fazer bonitos álbuns de fotografias, é uma desfiguração inaceitável da fé cristã e um reducionismo religioso inconcebível. O Cristianismo tem as suas festas, mas é muito mais do que festas, é seguimento de Jesus Cristo, é viver como discipulo, é comunidade e caminhada de fé com os outros, é compromisso com o Reino de Deus, é testemunho audaz e coerente do Evangelho, é oração, relação e comunhão com Deus, na Igreja e com a Igreja. Esquecer isto ou não estar disposto a vivê-lo, querendo-se só a Igreja para festas, é viver uma mentira diante de Deus, instrumentalizar e desvirtuar a religião e viver um cristianismo ilusório e adulterado.

O mesmo se diga para os festeiros e romeiros das romarias de verão, que não aparecem numa missa durante o ano e que pouco ou nada se importam com a vida da comunidade que assumiram e com a qual se comprometeram, ou para os jovens casais, que vêm celebrar o casamento na Igreja e só se voltam a ver nos dias dos batizados dos filhos, ou até para as famílias que pedem missas pelos defuntos durante a semana e raramente participam na Eucaristia do Domingo, centro da comunidade cristã. Aliás, vivemos atualmente uma contradição gritante na Igreja, que deve fazer pôr os cabelos em pé a Jesus Cristo, salvo seja: pedir-se um sacramento ou participar numa festa não para progredir na fé e aprofundar a relação com Deus e com a Igreja, porque é para isso que se celebra um sacramento, mas para se continuar indiferente a Deus e se abandonar a Igreja. Roça o escandaloso e é um testemunho inaceitável e indigno de quem se diz cristão. Ao Crisma até já se chama o sacramento do adeus à Igreja. Pelos vistos, a fé em vez de ser vista como um tesouro e um dom que dá sentido, grandeza e plenitude à vida, ao invés, é entendida, e só pode ser por má ou falta de formação, como uma obrigação ou um estorvo, de que devemos prescindir e de que nos devemos libertar, porque pouco ou nada importa na vida.

Temos de repensar seriamente estes comportamentos e estas práticas, que não são corretas e não ficam nada bem a quem se diz crente cristão. Não há qualquer argumentação que as sustente. Temos de rever as nossas práticas pastorais, apontar novos caminhos e rever o sentido e o significado de alguma tradição cristã, que não cria adesão a Deus e não gera comunidade, presença e intervenção cristã. Assim é que não podemos continuar. A Igreja está de portas abertas e alegra-se pelo facto de as famílias quererem batizar e crismar os seus filhos e de desejarem introduzi-los na comunhão com Deus e com a Igreja, mas ficarmo-nos só por aí, sem se assumir a sério a vivência da fé e um verdadeiro compromisso com Deus e com a Igreja, é patrocinar uma insanável falsificação da vida cristã. Continuarmos no cristianismo das festarolas é nutrir uma certa vivência da fé oca e vazia, aparatosa, mas estéril e sem alma, que Jesus condenou nos judeus do seu tempo, e que jamais aceitará aos seus discípulos e à sua Igreja.

 

Será que criámos uma geração ateia?


25.01.19

Manuel Linda, Bispo das Forças Armadas e Segurança, lançando o projeto pastoral da Diocese Castrense para o ano 2017/18, menciona algumas das características do mundo atual: «o regresso do iluminismo, isto é, a crítica azeda a tudo o que não é digerível pela razão raciocinante; a «tecnologização» do pensamento que leva a uma quase adoração dos «novos deuses» oferecidos pela técnica e pela ciência; a animosidade às religiões instituídas, propondo-se a alternativa de uma vaga espiritualidade panteísta, típica da «new age» ou da «era do aquário»; um certo pansexualismo que desbota a consciência e a torna mais intransitiva ou obstaculiza uma verdadeira relação com os outros e, muito mais, com o «grande Outro»; a cedência, à maneira adolescente, à pressão do grupo que se afirma pondo em causa os «dados adquiridos», comumente aceites; a complexidade e a mutabilidade das sociedades contemporâneas que cortam com o passado em nome do futuro; as incertezas sociais, a vulnerabilidade da vida e a insegurança que criam um sentido de fragilidade, de individualismo e de tristeza e solidão existenciais; a comunicação social que quase apresenta a Igreja como um «bando de malfeitores»; enfim, a multiculturalidade e o pluralismo que criam a ideia de que, se há tantas religiões, é sinal de que são meras criações humanas.» A acrescentar a esta caracterização, ainda verificamos que a «multiculturalidade relativiza as certezas; o pluralismo favorece as escolhas pessoais, muitas vezes ditadas pelo egoísmo; a contínua circulação desvitaliza as raízes familiares e tradicionais e o que estava inerente a essa dimensão; o «mundo virtual», as tecnologias da comunicação e as redes sociais levam os jovens a adquirirem uma conceção do mundo quase sempre e só formada a partir de pessoas do seu grupo etário, ou seja, de colegas e amigos que, também eles, andam à procura.»

Temos estado muito preocupados, e bem, com os furacões que andam a fazer estragos na Ásia e na América, mas parece que não nos estamos a aperceber do furacão que está a passar pela nossa cultura, pela nossa educação e pela nossa sociedade, que em pouco tempo está a virar tudo de pantanas, gerando grande instabilidade, perplexidade, confusão, desnorte e insegurança. Alguns profissionais do pessimismo até já afiançam que estamos prestes a dar à luz uma geração ateia, uma geração que vive sem Deus ou completamente indiferente à religião, a geração jovem que temos entre nós. Não será assim tão trágico, mas o assunto merece muita atenção. Cresce, de facto, a indiferença dos jovens para com a Igreja e a fé.

O que mais me custa ver é que os jovens não têm consciência crítica para questionar o ambiente e a cultura que os está a moldar e a formatar, um ambiente que os tem arrastado para o vazio e para a bandalheira dos valores, como é a ideologia do género, e que a família assista impávida e serena e se deixe enrolar imprudentemente pelas modas e valores vigentes, só se preocupando em dar um canudo ou com futebol, e não se preocupe com as grandes questões da vida e em recentrar a vida no essencial, inebriada pelos valores fúteis e imediatos atuais, como o sucesso fácil, o prestígio, o reconhecimento fugaz, o bem-estar material, a diversão. É a educação do contentamento fácil, das palminhas e dos aplausos. Educar bem, dar verdadeira formação e viver a vida com profundidade fica para amanhã.

Aparecem todos os dias imagens de jovens a agredirem-se uns aos outros, até já o fazem em grupos organizados, escrevem-se todos os dias artigos sobre o alcoolismo severo e mórbido entre os jovens, há sinais evidentes de que um bom número deles é malcriado e estão perdidos no meio do deserto, mas levantou-se algum sobressalto? O que é que a sociedade tem para lhes dar em troca desta descrença e desesperança em que vivem? Ainda não percebemos que estão fartos de futilidade e não têm razões para viver? Arrastámo-los para um beco sem saída e para visões da vida insidiosas, desestruturantes e alienantes.

Até outubro do próximo ano, a Igreja vai centrar a sua atenção nos jovens e quer ouvi-los. Está na hora de eles questionarem a ideia distorcida e errada da fé, da Igreja e da Religião, que lhes venderam e lhes impõem pela cultura e mentalidade atuais, quase sempre uma Igreja com rosto tristonho,  bafiento, penitencial, acusatório, expiatório, proibicionista e disciplinador, inimigo da felicidade e da alegria da vida, e se reencontrarem com uma Igreja mãe e amiga, aberta e acolhedora, samaritana, que os quer ajudar a descobrir uma verdadeiro sentido para a vida e a realizar verdadeiramente a humanidade que cada um carrega, com os valores, os princípios e a grandeza que verdadeiramente a podem realizar e preencher.  

Respeitar o Domingo


25.01.19

A organização dos nossos dias semanais tem uma clara influência religiosa judaico-cristã. Primeiro, foram os judeus a criar o Shabat (o Sábado), o sétimo dia, em que Deus descansou depois da obra da criação, numa leitura crente do mundo e da sua história, sendo ainda hoje o dia sagrado para o judaísmo, dia em que privilegiam a oração, a escuta da Palavra de Deus, a memória das maravilhas de Deus, o descanso, a família e a comunhão fraterna. Depois, após a ressurreição de Jesus, foram os cristãos a introduzir o Domingo depois do Sábado, o Dia do Senhor, dia em que Jesus ressuscitou, o oitavo dia, querendo assim manifestar que a ressurreição de Jesus foi a nova criação, o tempo novo, o primeiro dia da vida nova que Jesus Cristo (e n’Ele o homem) alcançou depois da sua morte. Reformularam-se os dias da semana e deu esta configuração que temos agora, sobrepondo-se o Domingo ao Sábado. Notemos as diferentes perspetivas entre judaísmo e cristianismo, que, de alguma forma, também são complementares: os judeus chegam ao fim da semana, os cristãos iniciam a semana. Segunda-feira já é segunda. O primeiro dia da semana é o Domingo, que absorveu o sábado como ponto de chegada da atividade semanal, que o homem contempla com júbilo, mas que é sobretudo ponto de partida. O Domingo é o encontro com Jesus Cristo e com outros para se aprofundar e projetar a vida para a frente, é alimentar o ir mais além e viver mais e melhor com os outros, a partir de Deus.

O Domingo tem assim um significado e um conteúdo próprios e uma importância fulcral para a dimensão religiosa e espiritual da pessoa humana, assim como para o seu enriquecimento e equilíbrio mental, social e humano. Costuma-se dizer que o homem trabalha para viver. Se seis dias (ou cinco) têm um objetivo concreto, que é o trabalho, um dia fica totalmente livre do peso do trabalho para o homem viver as outras dimensões da sua humanidade, para saborear a vida no encontro com Deus, com a família, com os outros, no descanso e no lazer, no convívio, na festa e em tantas outras ações lúdicas e deleitosas que favorecem a sua humanização e a celebração da vida (o Domingo também é o dia do homem). Para os cristãos é o dia sagrado: é o dia de Cristo, por isso se deve ir à missa, dia do dom do Espírito Santo, o dia da fé, o dia da Igreja, da esperança, o dia da alegria, do repouso e da solidariedade e comunhão fraterna. Enfim, o Domingo é o dia em que a vida e o tempo respiram e se procura viver e antecipar o que esperamos viver um dia em plenitude, a eternidade com Deus e com os outros.

Assim sendo, na sociedade atual, seria bom que o Domingo fosse um direito e um privilégio de toda a pessoa humana. Infelizmente, a sociedade do consumo e do lucro, que sobrecarrega a pessoa humana com excesso de trabalho, está, em parte, a destruir o Domingo, com graves consequências para a pessoa humana, para a família e para a sociedade. Não consigo compreender, por exemplo, a necessidade de os hipermercados estarem abertos ao Domingo e como é estranho ver pessoas a passarem horas e horas em hipermercados, quando outras coisas bem mais importantes se poderiam fazer. E quem diz os hipermercados, diz outros trabalhos e serviços que não se deveriam fazer ao Domingo. Por outro lado, seria bom lembrar aos cristãos que a santificação do Domingo não é só participar na Eucaristia dominical. Instalou-se uma certa ideia minimalista de que se «despacha» o preceito dominial em ir à missa e depois fica-se com o tempo livre para o que apetecer. Todo o Domingo é dia do Senhor e da Igreja, ou seja, para se dedicar ao Senhor e para se fortalecer a comunhão d’Ele com os seus discípulos e destes entre si. Todo o Domingo, no seio da família, das relações humanas e na diversão, deve ser vivido com espirito cristão, sendo por isso questionável muitos eventos e atividades e alguma diversão que se faz, que pouco ou nada têm de cristão. O Domingo também deve ser santificado pela reunião familiar mais alargada, em clima de alegria e de festa, pela oração familiar, por mais oração individual e comunitária, pela prática das obras de misericórdia, pela peregrinação a algum santuário, leitura da Escritura, catequese, convívio fraterno.

Alguns cristãos perguntam às vezes sobre o valor da missa vista pela televisão, e ainda bem que as rádios e as televisões o fazem. Não há nada que substitua o estar presente na Eucaristia dominical. O ver a missa pela televisão não serve para satisfazer a santificação do Domingo, mas é um bom meio e uma ajuda preciosa para se criar alguma comunhão com Deus e com a Igreja para as pessoas que estão acamadas ou gravemente doentes ou que sofram de alguma imobilidade. Jamais deve ser uma prática corrente para as pessoas que podem ir à Igreja. Seria desvirtuar o Domingo e os sacramentos da Igreja, assim como a vida. É completamente diferente ver um vídeo de um casamento e participar no casamento. Há uma diferença abissal e intransponível.

Respeitar e Promover a mulher


25.01.19

A edição de março da “Women Church World”, a revista mensal feminina do jornal do Vaticano L’Osservatore Romano, publicou alguns artigos sobre o tratamento que é dado às mulheres por parte de membros do clero e de muitas instituições da Igreja. Uma boa parte delas só importa para as lides domésticas: «Algumas servem nas casas dos bispos e dos cardeais, outras trabalham nas cozinhas das instituições da igreja ou dão aulas. Algumas servem os homens da igreja, levantam-se de manhã para fazer o pequeno-almoço, e vão dormir depois de o jantar ser servido, a casa limpa e a roupa lavada e engomada».

É de assinalar que estes artigos venham à luz do dia através de um suplemento mensal do jornal oficial da Santa Sé, possivelmente com a finalidade de suscitar o debate quanto ao digno papel da mulher dentro da Igreja, no respeito pela sua dignidade, e para denunciar a inferioridade e indignidade como muitas mulheres são tratadas no seio da Igreja.  A denúncia é clara e inquietante: muitas freiras vivem numa situação de servidão e de exploração. São escravas domésticas para o clero e as instituições da Igreja. Persiste a desvalorização e a subalternização da mulher dentro da Igreja Católica, ainda toldada pela mentalidade machista e manietada pelo sistema patriarcal.

Que mal terão feito as mulheres ao mundo e aos homens para serem, de longe, o género humano mais enxovalhado, explorado, violentado, discriminado e desvalorizado na história da humanidade! É notório o peso dos preconceitos históricos e humanos: é um ser humano, por norma, dotado de menos força do que homem, passando logo a ser considerado inferior, quando deveria ser considerado diferente e não inferior. Daqui e não só, terá nascido o conceito da mulher como auxiliar e serviçal do homem. Depois, com grande contributo do livro bíblico do Génesis, a mulher ficou conotada com o pecado e a tentação. Deixou-se levar pela serpente e enganou o homem, corrompendo a história da humanidade. Um manto de desconfiança permanece sobre a condição da mulher, que hoje não tem qualquer sentido.

A religião, infelizmente, tem contribuído para a discriminação injusta das mulheres. As três principais religiões monoteístas, neste campo, têm tido pouca originalidade: apesar de alguns progressos, todas têm colaborado na menorização e segregação social da mulher. Foi pena que se tenha quebrado a evolução que Jesus introduziu no seu tempo. Ao contrário dos rabis e mestres do seu tempo, Jesus aceitou ter discípulas, conversava com mulheres na praça pública, aceitava a sua hospitalidade e acolhia as afugentadas e indignas pecadoras que dele se aproximavam, consideradas escória pela legalista sociedade de então. Isto não foi pouco no seu tempo, querendo talvez Jesus manifestar-nos que o importante é promover e respeitar a dignidade de todo o ser humano, independentemente de ser homem ou mulher.

Alguns documentos da Igreja, a que grupos de reflexão e o Papa Francisco já fizeram referência, exortam à valorização e promoção da mulher na vida eclesial e social. Já se deram alguns bons passos, mas ainda há muito para andar. As mulheres estão a ser a força da Igreja: são zeladoras, são catequistas, já participam nas comissões fabriqueiras e de festas, presidem à oração, são o grupo mais presente nas atividades eclesiais, entre outras coisas. Quando se trata de subir à capela mor, alto lá que aqui é para homens. Sei que não é fácil mexer em dois mil anos de história, mas a história não é sagrada. Quantas injustiças, abusos, violências e incorreções já não se corrigiram, apesar da força da história. É uma pena ver a Igreja a desperdiçar o talento intelectual, o valor humano e afetivo de tantas mulheres, que dariam um contributo decisivo para o enriquecimento da vida da Igreja, na liturgia e na obra da evangelização, e contribuiriam para uma melhor e mais equilibrada presença da Igreja no mundo, no cumprimento da sua missão. Para uma Igreja que se considera conduzida pelo Espírito Santo (em hebraico, Ruah – espírito, sopro - é uma palavra feminina), esperemos a coragem de se romper com a história e de se dar à mulher a devida promoção, que nunca lhe deveria ter sido negada.

Religião e Sociedade


25.01.19

Esteve em Portugal o imã dos xiitas ismaelitas (uma das fações ou grupos do islamismo), o príncipe Karim Aga Khan IV, descendente do profeta Maomé, líder espiritual de 15 milhões de muçulmanos. Está a pensar, em breve, fixar a sua residência em Portugal pelo respeito e pela boa relação que o nosso jardim à beira mar plantado tem com as confissões religiosas, assim como pelo bom acolhimento e tolerância que o nosso país oferece.

Numa entrevista que concedeu ao semanário Expresso, destaca a importância da religião para o bem-estar geral da pessoa humana e para a sociedade, e sobretudo o contributo que a religião pode dar para a formação ética das pessoas e das instituições. A religião não tem como fim apenas moralizar, mas também tem um papel importante nessa missão. Já o escrevi mais do que uma vez: hoje temos um problema ético e moral na sociedade, bem mais grave do que o económico. Vejam os níveis de corrupção a que estamos a chegar e que dão à estampa todos os dias e os índices de violência e criminalidade que atingimos. Uma boa parte das pessoas, inclusive muitas que estão à frente de instituições que têm o dever de transmitir confiança e respeito aos cidadãos, não têm valores nem princípios, só olham a interesses e não olham a meios para atingir os seus interesses. E reparem como esta imoralidade crescente anda de mãos dadas com o abandono da religião, da prática religiosa e da educação religiosa.  Não estou a querer dizer arrogantemente que uma maior vivência e educação religiosas acabam com a devassidão dos valores e costumes, mas que são umas grandes aliadas não tenho a menor dúvida. É fundamental que, primeiro que tudo, apostemos na formação espiritual e moral das pessoas. Ajudaremos as pessoas agirem com mais seriedade, nobreza, humanidade e responsabilidade.

Aga Khan elogia o regime de concordata que vigora atualmente entre a Igreja Católica e o Estado português, regime em que se inspira para sediar as instituições do seu grupo religioso em Portugal. São concedidas algumas condições e direitos às religiões para poderem desenvolver a sua atividade e atingir o seu fim de contribuir para o bem espiritual do ser humano e de poderem dar um contributo decisivo para o bem das famílias e da sociedade. A religião é um bem para a sociedade, e não um mal ou um estorvo, gerador de obscurantismo e retrocesso humano e social, como já pensaram cegamente pensadores e líderes comunistas ou caudilhos de outros sistemas de pensamento e de prática política.

De facto, é de assinalar que neste momento exista esta boa relação entre o Estado português e a Igreja, assim como com outras religiões. Ambos devem colaborar e dar cada um o devido espaço ao outro para cada um desenvolver a sua ação. Não ignoramos que as relações estado-igreja já passaram, não há muito tempo, por grandes tensões e conflitos, em que o Estado comandou uma vil cruzada com o intento de controlar a religião, se apoderar dos seus bens ou pura e simplesmente neutralizá-la ou eliminá-la. Fundamentalismo e fanatismo da ignorância de muitos líderes políticos e de febris e apressadas intervenções ideológicas, não se percebendo que, ao se estar a combater a religião está-se a combater o ser humano, porque este tem uma dimensão espiritual e religiosa, que nada nem ninguém pode superar ou aniquilar.

Quando se deu o Iluminismo na Europa, no século XVIII, levado à prática pela Revolução Francesa, começou-se a combater e a desprezar a religião, conotada erradamente com a escuridão intelectual e a opressão, e promoveu-se o ateísmo militante. Com o tempo, corrigiram-se os excessos revolucionários e as visões enviesadas da pessoa humana e da vida humana, embora alguns resquícios ainda permaneçam por aí. Já na América, sempre imperou uma visão mais conciliadora e aberta, vendo-se a religião como fator de progresso, de desenvolvimento e de realização para o ser humano, dando-se-lhe o devido espaço para a sua existência, ação e intervenção social. É este o caminho correto, digno da tolerância que apregoamos. A religião deve ser respeitada e promovida, porque vai ao encontro de necessidades fundamentais do ser humano e contribui para o seu maior bem.  

Profissões de Confiança


25.01.19

 

A revista das Seleções Reader’s Digest publicou um estudo sobre as profissões mais confiáveis e menos confiáveis para as pessoas ou sociedade em geral. É uma outra forma de olhar a realidade social e poderá servir como crítica construtiva para muitos profissionais das várias áreas laborais.

É sempre injusto generalizar e meter todos os profissionais de um ofício no mesmo saco, quando sabemos que em todas as artes e profissões há bons e maus, competentes e incompetentes. Por outro lado, o estudo não deixa de transparecer um claro «impacto mediático», como vamos ver. Infelizmente, as pessoas julgam muito acriticamente de acordo com o que vão vendo, lendo e ouvindo, sentadinhas no carrossel dos meios de comunicação social, levadas na onda dos fazedores de opinião.

As profissões que geram mais confiança não são surpresa nenhuma e não há dúvidas de que são dignas de distinta honra: bombeiros, pilotos de aviação, enfermeiros, médicos e professores. São profissões ou ofícios de grande utilidade e responsabilidade para a vida humana e, por isso, são muito respeitadas e consideradas pelas pessoas. Homenagem seja feita aos bombeiros, que ocupam sempre o lugar cimeiro da lista dos vários estudos que já foram feitos, sempre prontos e disponíveis para sacrificarem o seu tempo e a sua vida a favor dos outros. O seu sacrifício e a sua nobreza não podem deixar de ser reconhecidos.

No meio da tabela, estão os padres. É com humildade que aceito esta posição. Já terão gerado mais confiança nas pessoas, mas ainda é um ofício que goza de uma razoável confiança junto da sociedade. A descoberta da pedofilia na Igreja, com dimensões inimagináveis, e a forma como ela foi tratada por alguns bispos e padres, não poderia deixar de fazer mossa na credibilidade da Igreja e do sacerdócio. Mas olho sobretudo para os muitos padres bons e santos que a Igreja teve e tem, que deram e dão um contributo incomensurável e imorredouro na vida da Igreja e na vida de muitas famílias e comunidades e da sociedade em geral. Quem não conhece um padre por quem nutre grande admiração? Um mundo sem padres seria, sem dúvida, um mundo muito mais pobre.

 Às portas do inferno, salvo seja, estão as profissões menos confiáveis: juízes, advogados, banqueiros e políticos. Certamente que há muita gente boa e séria nestas áreas. Não entendo, por exemplo, por que é que os juízes são tão desconsiderados. Quantos juízes vemos a dar mau exemplo comparado com outros profissionais? E quando se fala dos «políticos», quem não admira Barack Obama, António Guterres ou Marcelo Rebelo de Sousa, entre outros? Mas também é verdade, e é bom que muitos não deixem de fazer uma séria reflexão, que muitos profissionais destas áreas tudo têm feito para ocupar esta indistinta honra. Como é que foi possível a alguns banqueiros não terem o mínimo de consciência na destruição das poupanças de uma vida das pessoas? Como foi possível chegar a este grau zero da ética, sem qualquer respeito pela vida dos outros? E alguns políticos, claro, não se queixem: quando hoje dizem uma coisa e amanhã outra, quando mentem descaradamente e não honram a palavra dada, quando mudam de casaca conforme os seus interesses, quando só pensam no partido e nos amigos e não olham ao bem comum, quando não são transparentes na sua ação e nos seus métodos, quando não são justos e retos nos seus procedimentos, não esperem que as pessoas lhes dediquem muita confiança. A politica é das mais belas ações da pessoa humana, mas tem de ser feita com grandeza, honestidade, nobreza, elevação, dedicação e seriedade.

Praticantes ou Peregrinos?


24.01.19

O mundo e a sociedade estão sempre em mudança e em transformação. O ser humano é, por natureza, um ser insatisfeito, quer sempre ir mais além, tem sede de novidade e de renovação, daí que reformule hábitos, práticas, culturas, soluções, esquemas e vivências. As sociedades contemporâneas caracterizam-se pela mobilidade. Sacralizou-se o movimento. Está na ordem do dia caminhar, andar, viajar, sair do seu mundo e ir conhecer novos mundos, buscar novas sensações e emoções no confronto com o desconhecido, e alargar a experiência da vida para lá do cantinho que se conhece e em que se vive.

No campo religioso, está a crescer a prática da peregrinação. Falta saber se é para fugir à rotina entediante e sensaborona de todos os dias, se é pura e simplesmente colecionar mais uma experiência única para contar na biografia, ou se é mesmo busca de Deus e busca de sentido para a vida, no encontro com Deus. Ou seja, se seremos apenas viajantes, que partem de si e apenas querem chegar a si mesmos, ainda que viajar nunca nos deixe na mesma, ou se somos mesmo peregrinos, que procuram alguém ou outra fórmula para renovar a vida e lhe dar outro rumo, outro sentido, outra profundidade, dar à vida outra vivência. 

Os estudiosos do fenómeno sustentam que, atualmente, estamos perante um confronto ou um choque de paradigmas. Começa a ganhar solidez a religiosidade móvel ou itinerante em oposição à religiosidade estável ou regular, que habitualmente se vive na paróquia. O homem contemporâneo quer ser mais peregrino e menos sedentário, trepador de caminhos e itinerários e visitador de lugares santos e santuários, na busca individual de experiência intensa e encontro com Deus, numa vivência mais biográfica, não regular, esporádica, mas intensa, sem um tempo definido e espaço especifico. Já não seduz tanto o crente praticante ou cumpridor da cultura paroquial, observante de práticas, ritos e devoções, interpelado pela consciência de obrigação ou de dever, regulado pela instituição, o crente fiel, participante da vida de uma comunidade, limitado a um espaço concreto, que é a paróquia, e devotado a um tempo sagrado, o Domingo.

A revitalização dos caminhos de S. Tiago, para além de outros caminhos de índole sagrada, e a crescente relevância que muitos santuários começam a adquirir para o homem moderno, como Fátima, estão a contribuir para uma cada vez maior diferenciação e clivagem entre o homem peregrino contemporâneo e o praticante da civilização paroquial.

O choque pode ser inevitável e até pode acontecer uma rutura, mas ambas têm razão de ser e, possivelmente, mais do que se autoexcluírem, deverão é caminhar para a unificação e complementação. Ninguém é peregrino a vida toda. Tem sempre um ponto de partida e um ponto de regresso. A comunidade onde nascemos e nos tornámos cristãos deverá, por isso, merecer sempre atenção e jamais devemos abandoná-la. Foi nela que descobrimos a fé e aprendemos a viver a condição de cristãos. Como a família, a comunidade tem um papel insubstituível na vida de um cristão. Não há verdadeiro cristianismo sem a dimensão comunitária e sem uma forte ligação à comunidade. Por outro lado, o praticante tem de apender a ser mais peregrino. Não foi bom encerrarmos Deus dentro de um catecismo e reduzirmos a vida cristã a ser praticante rotineiro de ritos e devoções, sentadinhos nos bancos das igrejas, num quietismo sonífero e conformista. A fé, mais do que dar respostas, deve suscitar o mistério, a sede, a fome, a procura pelo segredo da vida e das suas razões mais profundas. Deus é uma busca permanente, e realizar-se como filho de Deus é um pôr-se a caminho, é um desafio, é uma luta, é um risco a ser encarado todos os dias com audácia e atrevimento, para se responder a um chamamento contínuo e a uma vocação. Mais do que apontar uma verdade, é preciso suscitar a sede dela e despertar o ser humano para pensar a vida e descobrir as razões para a viver com profundidade, grandeza e beleza, encontrar razões para viver, vivendo. Aqui há uns tempos, um escritor lisboeta dizia que muitos bancos das nossas igrejas deviam ser substituídos por areia, para que muitos crentes percebessem que é preciso abandonar o sonambulismo e a apatia em que vivem e se levantem para caminhar, descobrir, questionar, perguntar, intervir, ir mais além, se maravilharem com as surpresas e apelos para os quais a vida convoca cada pessoa humana. 

Óscar Romero


24.01.19

No dia 14 de outubro, a Igreja Católica canonizou mais sete santos. A saber: O Papa Paulo VI, o arcebispo salvadorenho Óscar Romero, o padre italiano Francisco Spinelli, o padre italiano Vincente Romano, a religiosa alemã Maria Catarina Kasper, a religiosa espanhola Nazária Inácia de Santa Teresa de Jesus, também ligada ao México e à Argentina, e o jovem leigo italiano Núncio Sulprizio.

Destaco o arcebispo de San Salvador, D. Óscar Romero, considerado um mártir pela Igreja, vítima do ódio à fé cristã. Nasceu em 1917, numa família humilde, em Ciudad Barrios, El Salvador, país da América central. Em 1942 foi ordenado sacerdote e em 1970 foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador e, em 1977, arcebispo da capital do país. Nesta altura, El Salvador estava a viver um período conturbado e agitado, na iminência de uma terrível guerra civil. No poder estava um governo autoritário e repressivo, que espalhava a violência e o medo por todo o lado, governo que tinha o apoio dos Estados Unidos da América. Os direitos humanos estavam a ser fortemente violados. O número de vítimas do governo opressor não parava de crescer todos os dias. Profundamente marcado pela morte do seu amigo padre Rutilio e dois camponeses, pelas atrocidades cometidas contra os mais fracos e os mais pobres e confrontado com uma devastadora e chocante matança de padres e catequistas, D. Óscar Romero sentiu um veemente apelo em levantar a voz em defesa do povo oprimido, denunciando os abusos e as graves injustiças que estavam a ser cometidas. Pela rádio e pela imprensa e depois pelas homilias, tornou-se «a voz dos sem voz». Clamava pelo fim da opressão e da violência, a construção da justiça social, o respeito pelos direitos humanos e pelos direitos do povo e a instauração da democracia. No dia anterior à sua morte, na homilia da missa, lançou mais um pungente e contundente apelo às forças opressoras: «Em nome de Deus e deste povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão».

No fatídico dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a missa numa Igreja de San Salvador, foi assassinado por um atirador de elite do exército salvadorenho, instalado num carro no exterior da Igreja, carro que falsamente simulava uma avaria. Um projétil de alto calibre, de fragmentação, atinge o lado direito do peito de D. Óscar Romero, provocando-lhe uma hemorragia inestancável e ferimentos graves e profundos em vários órgãos do corpo. Não havia salvação possível. Em 1992, uma investigação conduzida pela ONU concluiu que o autor moral do assassinato foi o político de direita e ex-oficial do exército Roberto D’Aubuisson.

No dia do seu funeral, seis dias depois, Domingo de Ramos, acontece mais um massacre hediondo e violento: morrem 41 pessoas. Por todo o mundo, rebenta uma onda de protestos contra estes bárbaros acontecimentos e vários líderes políticos mundiais reclamam por reformas justas e mudanças significativas no país. Iniciou-se definitivamente uma guerra civil em grandes dimensões, guerra que chegará ao fim com a assinatura de um acordo de paz em 1992, com um rasto de 80 mil mortos, 9 mil desaparecidos, 1 milhão de desalojados e 1 milhão de exilados. Em 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o dia 24 de março como o Dia Internacional pelo Direito à Verdade acerca das Graves Violações dos Direitos Humanos e à Dignidade das Vítimas em reconhecimento à atuação de D. Romero em defesa dos direitos humanos.

Algumas forças de esquerda tentaram fazer de D. Óscar Romero uma bandeira da sua luta política, criando-se assim alguma confusão à volta do seu pensamento e da sua atuação. Chegaram até a dizer que era comunista. Mas foi um pérfido oportunismo. Nunca D. Óscar Romero manifestou qualquer colagem a partidos políticos ou simpatia por ideologias. A sua causa e a razão da sua conduta foi o Evangelho, os direitos humanos, o elementar respeito pela dignidade humana, a paz, a justiça, a democracia, o bem-estar humano, social e espiritual do seu povo. Foi um homem de Deus e da Igreja, agindo unicamente por fidelidade à sua fé em Jesus Cristo e aos seus valores e princípios. Como afirmou o Papa Francisco na sua canonização, «deixou as seguranças do mundo, incluindo a própria incolumidade, para consumir a vida – como pede o Evangelho – junto dos pobres e do seu povo, com o coração fascinado por Jesus e pelos irmãos.»

É um exemplo e uma referência para todos os cristãos e para todos os homens em geral que se identificam com as mesmas causas pelas quais ele deu a vida e levantou a voz com coragem e audácia, quando era tão fácil permanecer em silêncio nos sóbrios aposentos, contemplando a tragédia da janela do seu quarto. Mas assim não o fez. A paz, a justiça, o respeito pela dignidade humana, a democracia, a liberdade, os direitos humanos são uma causa e uma luta de todos os dias, face aos muitos interesses e poderes que os querem desprezar ou adulterar. E como é lamentável ver que no país vizinho, a Nicarágua, ironicamente ou tragicamente, a história parece querer repetir-se e o resto do mundo pouco ou nada está a fazer. Como demoramos a aprender, pocha!

O Sigilo do Sacramento da Confissão


24.01.19

Continuam a surgir todos os dias denúncias e relatos do hediondo crime de pedofilia. Na Austrália, uma comissão foi encarregue de investigar mais de dez mil denúncias de pedofilia em instituições religiosas, estatais e de caridade no país. Repare-se no número e uma boa parte delas será credível. Escusado será dizer que o crime de pedofilia é inqualificável, que quem o cometeu deve ser chamado a responder perante a justiça cível.

No entanto, a apressada obsessão justiceira e a vertigem persecutória para encontrar rapidamente os pedófilos e os condenar estão-nos a levar ao desvario de exigir e propor estratégias e medidas abusivas, violadoras de valores e direitos fundamentais, até absurdas e aberrantes, como a abolição da confissão secreta, no âmbito religioso. Alguns estados australianos aprovaram novas leis para penalizar com multas de dez mil dólares australianos os sacerdotes que se recusem a denunciar diante da justiça civil casos de pedofilia conhecidos pelo Sacramento da Confissão. Notem bem: casos conhecidos numa confissão na Igreja. É inadmissível uma lei e uma exigência destas. Uma confissão é inviolável. O que se diz e ouve numa confissão exige confidencialidade absoluta e não há nenhuma lei humana e cível que a possa quebrar, sob pena de ser pôr em causa a integridade, a natureza e a verdade do Sacramento da Confissão.

A Igreja Católica, nos artigos 983 e 984 do Direito Canónico, lei que rege a vida da Igreja, diz assim: «O sigilo sacramental é inviolável; pelo que o confessor não pode denunciar o penitente nem por palavras nem por qualquer outro modo, nem por causa alguma. É absolutamente proibido ao confessor o uso, com gravame do penitente, dos conhecimentos adquiridos na confissão, ainda que sem perigo de revelação».

A Confraternidade Australiana dos Padres Católicos, num comunicado que emitiu, já expressou a sua profunda objeção às novas leis aprovadas e lamentou esta grave intromissão do Estado na esfera da religião e uma perigosa violação da liberdade religiosa, intromissão e atrevida provocação que assenta num equivocado entendimento da Confissão, como se esta tenha como fim vasculhar e saber a vida das pessoas, descobrir crimes ou desvendar mistérios e segredos. Jamais pode ser celebrada e usada para estes fins. O clero australiano, em bloco, já fez saber que não teme as novas leis e que jamais deixará de respeitar o sigilo da Confissão.

O Sacramento da Confissão existe para um penitente ou um pecador se converter a Deus e suplicar o seu perdão e a sua misericórdia, devidamente arrependido dos seus erros e dos seus pecados, e assim renovar a sua relação com Deus, com a Igreja e com os outros e a vivência das exigências da sua fé. O que ali se passa é sagrado, só a Deus e a ele diz respeito. O confessor é um mero instrumento ao serviço do encontro e da misericórdia de Deus, guardando segredo completo da celebração. Perante um pedófilo, um confessor não poderá deixar de chamar a atenção para a gravidade do ato e de propor uma justa penitência e um sério caminho de conversão e mudança, mas jamais pode denunciar a pessoa. Não tem esse dever e esse direito, a partir da confissão.  

Era o que faltava agora, numa pérfida e ignóbil deturpação do ministério clerical e da religião, transformar o clero em bufo da justiça ou uma brigada pidesca ao serviço da voragem justiceira dos intolerantes pelourinhos sociais ou fazer dos padres um exército de denunciadores ao serviço de sua majestade ou de uma regime!

O Dinheiro Não é Tudo


24.01.19

Li, por estes dias, duas entrevistas na imprensa, nomeadamente na revista Visão, que me sensibilizaram. Ainda há pessoas que se regem por princípios e valores e não se deixam submeter ao império do deus dinheiro e procuram viver para lá do seu pequeno mundo e do seu egoísmo. São pessoas de grande humanismo, que fazem a diferença e que testemunham uma forma de estar na vida mais digna e humana, para lá da espuma que o mediatismo e imediatismo estipulam. Pessoas que fazem parte da reserva moral e espiritual da humanidade, contribuindo para uma interpretação mais profunda da vida e ajudando-nos a ver o caminho certo para ela, enquanto busca de verdadeira realização humana e plenitude . Vidas de meias tintas não nos interessam nada.

 

João Ermida, de uma família abastada do Porto, tinha um emprego de sonho como responsável global dos mercados financeiros num banco espanhol, em Madrid. Com ordenado, prémios e bónus, auferia um rendimento de 2,5 milhões de euros anuais. A um determinado momento, apercebe-se de que os valores começaram a mudar, não concordando com as práticas e o modelo que o banco, ou o sistema bancário e financeiro, estava a seguir: produtos financeiros pouco claros, despedimento de funcionários, lucros e mais lucros. O desencanto passou a dominá-lo: «Chegava a casa, após ganhar 20 milhões. Porque é que não estava feliz? Porque é que não me apetecia ir no dia seguinte trabalhar? Alguma coisa estava errada.» Confrontado com a vontade do banco de despedir mais alguns funcionários que faziam falta, algo que na sua opinião não fazia sentido, porque se podia reverter diminuindo os prémios ou os bónus dos gestores ou poupando em qualquer outra coisa, toma uma das grandes decisões da sua vida: depois de um momento de oração numa igreja madrilena, dirige-se ao diretor-geral do seu banco e pede a demissão, sugerindo assim que os funcionários não fossem despedidos. Abandonou a atividade bancária, hoje faz trabalhos de consultadoria independente para investimentos, na área financeira, escreve livros de espiritualidade, dedica algum tempo ao trabalho social, apoiando a gestão e a supervisão financeira de duas organizações, de forma solidária, um centro paroquial em Lisboa e uma ONG. Fez alguns sacrifícios e nem de longe nem de perto tem os rendimentos do ofício bancário. Mas decidiu abdicar deles em nome dos seus princípios e valores.

James Doty, neurocirurgião, professor e filantropo americano, nasceu numa família pobre e disfuncional. O pai era alcoólico e a mãe inválida. Na escola foi vítima de bullying. Perdeu cedo os irmãos. Filho de ambientes traumatizantes, possivelmente todos esperariam que aninhasse dentro de si um vulcão de raiva, vingança e revolta. Como nunca teve nada, procurou ter tudo, sobretudo dinheiro e reconhecimento profissional, convencido de que era este o caminho da felicidade. Rapidamente se desiludiu: «Quando os alcancei, senti-me mais miserável». Recordou-se de um encontro com uma senhora misteriosa e carinhosa numa loja de magia, que lhe revelou que o segredo da vida passa por abrir o coração, ou seja, ser generoso, empático e estar ao serviço dos outros. É o que tem dado sentido à sua vida. Fundou nos Estados Unidos o Centro de Investigação e Educação da Compaixão e Altruísmo, convencido de que só a generosidade e a compaixão podem transformar o mundo.

Não dá senão razão ao Papa Francisco, que há muito reclama uma revolução de ternura e misericórdia para o mundo. Até a medicina o comprova. Temos de pôr a compaixão na ordem do dia e no centro das nossa vidas.

Martinho Lutero e a Reforma Protestante


24.01.19

Neste ano de 2017, a Reforma Protestante ou o Protestantismo, criado por Martinho Lutero, celebrou 500 anos. Foi uma reforma que impulsionou uma profunda reflexão e renovação na Igreja Católica, em clara decadência no fim da Idade Média, uma revolução política, económica e social na Europa, e até progressos para o pensamento humano e para a consideração do indivíduo e da sua consciência e liberdade.

Quem foi Martinho Lutero? Começando por querer satisfazer as expectativas dos seus pais, foi um jovem estudante alemão de direito, para ser advogado. Numa noite de grande tempestade, em que raios rachavam uma densa e medonha escuridão, isolado na floresta, teve a sensação de que iria morrer e que não poderia salvar a sua alma. Prometeu a Deus que se o livrasse da morte naquela noite, se tornaria monge. Assim aconteceu. Deixou o curso de direito e tornou-se um disciplinado, devoto e ascético monge agostiniano, entregue à oração e ao estudo, sobretudo da Sagrada Escritura, à penitência, à leitura e à escrita.

Pelo ano de 1510, dá-se o acontecimento que marcaria decisivamente a sua vida. Foi convidado pela ordem a fazer uma peregrinação à cidade eterna e sagrada: Roma, centro da Igreja Católica. O que lhe foi dado a contemplar deixou-o em choque: uma Igreja completamente revestida de mundanismo, inquilina de palácios e edifícios sumptuosos, seduzida pelo poder e corrompida pelo dinheiro, uma Igreja opulenta, tirânica e corrupta, centrada nos lucros e nos negócios, que explorava os fiéis com impostos e taxas, uma Igreja que se conspurcava nos vícios e nos prazeres mundanos, atolada em devassidão, o Papa e todo o clero entregues às honrarias e vaidades mundanas. Chegou a escrever que Roma parecia um bordel. Este cenário de grande superficialidade espiritual e de abominável traição ao Evangelho, que se vivia em Roma, teve um impacto decisivo em Lutero. Era preciso reagir.

Retirado no Mosteiro de Wittenberg, Alemanha, em 31 de outubro de 1517 fixou as famosas 95 Teses na porta da igreja, pondo em causa a autoridade do Papa e o seu estilo de vida e alguns ensinamentos da Igreja, atacando a doutrina e o comércio das indulgências, pagamento de uma taxa à Igreja para se livrar do purgatório, como se pudéssemos comprar a salvação. Adquirindo, com o tempo, cada vez mais adeptos das suas ideias, muito graças também à aparição da prensa ou imprensa criada umas décadas antes por Gutenberg, iria nascer o movimento que ficou conhecido por Reforma, dando-se mais uma cisão na Igreja, com o nascimento do Protestantismo. Nascia uma outra forma de viver a fé cristã, distinta da católica.

A Igreja Católica reagiu com a Contrarreforma, para rebater as ideias de Lutero e seus seguidores, preservar a integridade dos princípios da fé católica e para renovar a vida da Igreja, convocando o Concílio de Trento em 1545. Lutero morreria em 1546.

Apesar de alguma aproximação, ainda hoje a Igreja Católica não concorda com os fundamentos do Protestantismo e algumas ideias de Lutero. Mas não podemos deixar de reconhecer a aura cativante da personalidade de Lutero: foi fiel à sua consciência; era idealista, lutou por aquilo em que acreditava, não escondeu as suas ideias; ousou questionar as ideias instaladas e passivamente assumidas; enfrentou os poderes instituídos, que em vez de libertar, oprimiam; foi livre-pensador, não se vergando a nada nem a ninguém sem mais nem menos; era inventivo e corajoso; teve o atrevimento de ser criativo e original. Virtudes que não podemos deixar de admirar, que tornam os homens distintos, singulares e marcantes num tempo e na história do mundo, no progresso das ideias e da humanidade.

Martin Luther King


24.01.19

Desde que foi descoberta por Cristóvão Colombo, a América, ou mais concretamente, Os Estados Unidos da América, o Novo Mundo, têm seduzido muitas pessoas dos quatro cantos do mundo, admiradoras da sua prosperidade e liberdade, palco propício para a realização de todos os sonhos.  Para lá têm confluído pessoas de todos os povos e culturas. No entanto, a convivência e a integração desta disparidade humana e cultural tem sido marcada por muitas tensões e a tão sonhada e proclamada liberdade para tudo e para todos, na idílica e pacífica América colorida, ainda é uma conquista a ser alcançada. O racismo está sempre na ordem do dia, no cenário mediático americano.

A «raça» negra foi sempre menorizada e foi escrava durante décadas. A lei da escravatura esteve na origem de uma sanguinária e violenta guerra fratricida, entre 1861 e 1865, entre o Norte e o Sul, a Guerra da Secessão. Venceu o Norte, a favor da abolição da escravatura para os negros. Contudo, os negros continuaram a ser discriminados no Sul e a cultura esclavagista perdurou. Os direitos civis ainda eram uma miragem para muitos negros e assim persistiu durante o século XX. Foi desaparecendo a escravatura, mas ficou sempre o ódio entre brancos e negros.

Com o tempo, decretou-se que a segregação racial era inconstitucional e inaceitável, mas não se criavam leis que impunham efetivamente o fim dessa marginalização. No dia 1 de dezembro de 1955, uma jovem costureira negra, Rosa Parks, provoca um incidente num autocarro, na cidade de Montgomery, Alabama: não cedeu o seu lugar a um branco, como mandava a lei. O seu julgamento e a sua prisão despoletaram um movimento antisegregação racial, exigindo o mesmo tratamento e os mesmos direitos civis para brancos e negros. Dentro deste movimento, emerge um líder carismático: Martin Luther King, um pastor protestante batista e ativista político, defensor da luta não violenta pela igualdade entre brancos e negros. Em agosto de 1963, proferiu o seu célebre discurso «I have a dream», onde condensa os anseios mais profundos dos negros na sociedade americana, a plena integração dos negros, com a mesma liberdade e os mesmos direitos dos brancos, a sã convivência entre brancos e negros, o pleno acesso à prosperidade americana. No dia 4 de abril de 1968, foi assassinado num hotel de Memphis, antes de mais um protesto não violento. Quanto ao seu sonho, registou alguns avanços, depois de aturadas e árduas negociações entre os presidentes e as instituições políticas americanas, mas ainda está longe da sua plena realização. Registe-se a eleição de Barack Obama como um marco decisivo desse sonho.

Cinquenta anos depois da sua morte, Luther King não pode deixar de continuar a ser um ícone e uma figura inspiradora na luta contra todo o tipo de racismo execrável, de discriminação e segregação de povos e culturas, no combate ao tratamento diferenciado entre pessoas humanas, revestidas da mesma dignidade. O racismo não tem qualquer justificação. Na sua base, parte logo de um princípio errado: não existem raças, existem pessoas. Com culturas e cores diferentes, é verdade, mas são todas pessoas humanas, com o mesmo valor e dignidade. Depois, o racismo assenta em muitos preconceitos fantasiosos e descabidos, sem qualquer razão de ser, bem trabalhados pelo poder político e económico ou pelo medo humano, que, infelizmente, têm intoxicado as relações entre povos e culturas. Há que os desmontar e promover a educação para a aceitação e integração da diferença, que é um bem e não uma ameaça, uma riqueza e não um estorvo.

Ainda se veem ações racistas de bradar aos céus, que não têm qualquer sentido. Como é possível escorraçar ou não aceitar uma pessoa humana só porque é de outra cor ou de outra cultura? Como é que não percebo que é um ser humano igual a mim mesmo, com direito ao mínimo respeito elementar, a ter uma vida digna como eu e a ser feliz como eu quero ser? Que escamas nos impedirão de ver estas verdades elementares? Num tempo em se vê tristemente tantos refugiados a serem mal recebidos em alguns povos europeus, os ingleses, que se gabam da sua etiqueta e fina educação, a maltratarem os estrangeiros, com laivos da mais pura baixeza humana, governos europeus a promoverem o ódio e a rejeição do forasteiro ou de certos povos e culturas, o ressurgimento de focos de racismo em algumas partes da Europa e do resto do mundo, a consolidação de extremas-direitas que fomentam a expulsão do imigrante, a diabolização da diferença ou do estranho e a sã integração de pessoas de origens diferentes, temos de proclamar bem alto: CHEGA DE RACISMO.

Mais Uma Morte de Deus


24.01.19

Quando peregrinámos a Fátima, no dia 7 de outubro, com a Diocese de Vila Real, ao chegarmos ao Centro Pastoral Paulo VI, estava mesmo a começar a catequese jubilar sobre os pilares fundamentais da mensagem de Fátima, proferida por uma jovem irmã. Sensivelmente a meio da catequese, fez-se referência, por alto, à «história» de Deus ao longo da história: na Idade Média, tudo girava à volta de Deus. Quase não se fazia nada sem mencionar Deus. O Teocentrismo em todo o seu esplendor. Deus no centro da vida humana e da vida social; Com a Modernidade e o Renascimento, Deus saiu do centro, que passou a ser ocupado pelo homem. Passámos para o Antropocentrismo. O homem no centro da vida e do mundo. Deus foi destronado e mais destronado seria pelo Iluminismo do século 18, ou 17 e 18, ganhando estatuto quase divino a razão humana e o seu admirável poder. Deus tornou-se invisível e passou para a clandestinidade; Em pleno século 19, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche dá a estocada final e proclama solenemente a «morte de Deus», já sugerida também por outros pensadores. Chegou o tempo do super-homem ou de além do homem, Deus morreu, não temos de nos preocupar mais com Ele e não há que esperar mais nada d’Ele. A força transformadora do mundo é o homem e a sua vontade poderosa e determinada. Outros filósofos do mesmo tempo reforçavam e expandiam as mesmas ideias, desacreditando Deus como uma mera criação humana. A verdade é que Deus estava muito longe de estar morto, revelando uma capacidade intransponível e surpreendente de resistir às intempéries provocadas pelo orgulho e pela inteligência humana e até pelo delírio humano. Ainda aí está no meio de nós e bem vivo, como não podia deixar de ser, como até Nietzsche reconheceu, tendo afirmado «quem te pede um cigarro, não demorará muito a perguntar-te por Deus».

Na minha vida estudantil, ainda tive pachorra para ler um livro de Nietzsche, «Assim falou Zaratustra», por puro diletantismo, livro de que não guardo grande memória, parecendo-me fruto de um espírito louco, alucinado e perturbado, como o autor acabaria os últimos dias da sua vida.

Agora é o escritor norte-americano Dan Brown que afirma que Deus não vai conseguir sobreviver à ciência e que o seu fim está para breve. Na sua opinião, os avanços da tecnologia vão ser demolidores, de tal forma que «nas próximas décadas a nossa espécie vai conectar-se a um nível a que não estamos habituados. Nessa altura vamos encontrar as nossas experiências espirituais nessas interconexões. É isso que vai passar a ser o nosso divino. A nossa necessidade como espécie do divino ou de um Deus exterior que nos julga ou a quem colocamos questões ou pedimos ajuda, essa necessidade, vai diminuir ou mesmo desaparecer.»

Sendo exatos, não diz que Deus desaparecerá, mas que a nossa necessidade de Deus, tal como o concebemos, desaparecerá. No fundo, até poderá existir um Deus, mas não precisaremos d’Ele para nada. A ver vamos. O que é certo é que antes de pôr um livro à venda, o escritor cria polémica e lança algumas afirmações bombásticas, engodo já mais do que batido, para vender os livros, e, pelos vistos, não lhe faltam leitores dispostos a ler os best-sellers cheios de fantasias, invenções, balelas, suposições, futilidades e boatos históricos, destituídos de fundamentação e comprovação histórica consistente. Mas quem quer saber hoje da verdade? Não estamos no tempo da pós-verdade? E porque não cada um criar a sua verdade?

Certamente que Deus subsistirá para lá destes devaneios dos profetas contemporâneos. Talvez aqui se aplique o que Mark Twain retribuiu à notícia sobre a sua morte, quando ele estava vivo: «São notícias manifestamente exageradas». Proclamar que o fim de Deus ou da sua necessidade estão próximos, fim que já foi anunciado várias vezes, é manifestamente exagerado. Duvido que a nossa necessidade de Deus seja substituída pela tecnologia e que o mero horizontalismo intercomunicativo, por muito sofisticado que seja, nos preencha definitivamente como seres humanos. Há uma dimensão vertical, para a relação com Deus, que é fundamental.

Justiça na Praça Pública


24.01.19

Há casos que devem servir para fazermos uma séria e pertinente reflexão. Um deles é o caso de Paulo Pedroso e o aturado e escabroso contencioso que teve de aguentar com a justiça portuguesa durante 15 anos, acusado erradamente de ter cometido crime de pedofilia com jovens da Casa Pia de Lisboa. Ao fim deste tempo todo, chegou-se à conclusão de que foi vítima de uma investigação desastrada da justiça portuguesa, de uma acusação tonta e precipitada e de um juiz de instrução inepto na garantia dos direitos, da liberdade e defesa do arguido. O Estado português foi condenado pelo Tribunal Europeu a indemnizá-lo em 68 mil euros, pelos quatro meses e meio que esteve preso. Um pérfido erro judicial, que marca profundamente a pessoa para o resto da vida.

Não há dinheiro nenhum que pague e apague as marcas profundas que ficam na sua reputação e o estigma social que o acompanhará para o resto da vida. Politicamente, a sua carreira ficou completamente arruinada. Durante vários anos, teve de levar com os vitupérios e os insultos na rua de muitos portugueses, que se deixam levar pelos julgamentos sumários e populistas que os meios de comunicação social servem friamente na praça pública. E tudo, afinal, não passou de um grave erro judicial e de uma perversa injustiça, decepadora de uma carreira e de um futuro. Quem é que se importa agora?

Há quem diga que a justiça é o grande falhanço depois do 25 de Abril. Não sei se é ou se não é, mas casos como este devem fazer refletir seriamente a justiça, um tanto ou quanto inquinada pela espetacularização e pela mediatização das sociedades contemporâneas.  A justiça é feita por homens e mulheres que podem errar, mas, como se vê, tem de lutar afincadamente contra o erro, sobretudo contra o erro clamoroso, e não ser apressada e imprudente nos seus processos e métodos, a reboque de opiniões ou perceções pessoais ou de avaliações insensíveis e infundadas servidas no espaço público, alimentadas pelos meios de comunicação social, ou até vergada à vertigem mediática de produzir uma sentença que acautele a sua credibilidade e a sua sobrevivência ou que vá de encontro à sede justiceira da sociedade. Confesso que a justiça, por vezes, assusta-me. Pobre do pobre ou do inocente inábil que caia nas malhas da justiça! Tem um severo purgatório pela frente e se tem o azar de enfrentar um poderoso escritório de advogados, luxo dos endinheirados, é calvário e insucesso garantido. É preciso garantir que a justiça é mesmo acessível para todos os cidadãos, imparcial, inviolável, despreconceituosa, impenetrável por interesses, competente e séria, defensora das liberdades e direitos de todos, por igual.

Se a justiça não fica nada bem neste caso trágico e nefasto, os meios de comunicação social também não ficam. O que eu espero de uns bons meios de comunicação social é que produzam informação verdadeira e desinteressada e não de meios de comunicação social que aumentem o ruído e o falatório, para consumo de plebes justiceiras, lançando a confusão, sem nada informar, ou direcionando a investigação injustamente só numa direção, com coscuvilhices, ficções oportunas e meias verdades, sem se valorizar a defesa do suspeito, alimentando-se sempre a suspeita de que é culpado. Infelizmente, hoje contam mais as audiências e o dinheiro do que o respeito pelas pessoas, pela sua dignidade e pela sua vida, princípios fundamentais numa democracia.   

E quem o insultou também não fica nada bem na fotografia. Como é que se tem o descaramento de insultar alguém sem primeiro lhe dar a oportunidade de se poder defender em tribunal? Quem é que não pode ser vítima de uma mentira ou de uma maquinação? Insulta-se porque «parece que é verdade» ou «tenho cá para mim que é verdade»? O que sabemos de verdade para julgar? Quem faz justiça são os tribunais e não os jornais. Se acreditamos em tudo o que os jornais dizem, temos muito a crescer como cidadãos.  

Interior Em Movimento


24.01.19

Finalmente, depois do imperdoável esquecimento a que foi votado nos últimos anos, da incúria e desconsideração do poder central, desfazendo-se em promessas que nunca cumpriu, e de uma tragédia histórica e inesquecível provocada pelos incêndios do verão passado (lamentável o facto de estarmos sempre à espera que algo de trágico aconteça para agirmos), o interior tornou-se o centro das prioridades da atual governação e tema de debate para a intelectualidade política e económica. O interior tornou-se uma causa nacional. Mas estamos a chegar tarde. O interior está envelhecido, sem juventude, sem população, depauperado de serviços, instituições e estruturas. Temos de agradecer ao anterior governo a amabilidade que teve pelo interior, ao mandar fechar serviços do Estado a que os cidadãos têm direito para ter uma vida estável e digna. Foi uma ação completamente errada, que só agudizou a esclerose e a agonia do interior. Só mantendo os serviços representativos do Estado podemos segurar e atrair mais pessoas para a zona interior do país. Se a troika o exigiu, havia que bater o pé à troika.

Um grupo de políticos, economistas, empresários e pensadores, denominado Movimento pelo Interior, onde constam nomes como Miguel Cadilhe, Jorge Coelho, Álvaro Amaro, Silva Peneda, entre outros, resolveu fazer umas reuniões de trabalho e sessões de debate público por algumas cidades do interior. Acabam de publicar um relatório, onde apresentam uma série de medidas para que se abata o desiquilíbrio gritante entre o litoral e o interior e se promovam «políticas públicas de natureza radical e discriminatória a favor do interior». A maioria das propostas vai no sentido da radicalidade fiscal efetiva contra as banais promessas para inglês ver. Oferecer incentivos fiscais para as pessoas e as empresas se fixarem no interior. Mas já as propostas mal nasceram e já estão a ser consideradas ineficazes, insuficientes, dispersas, desgarradas e pouco inovadoras. Não basta só dar incentivos, é preciso criar condições de vária ordem para se criar riqueza. E alguns até estranham o discurso caritativo de dar isenções fiscais para se vir para o interior, não fazendo sentido, segundo dizem, subsidiar pessoas para virem para o interior. Cada pessoa tem de saber custear as suas opções. Ainda assim, todos os contributos são sempre bem-vindos.

Segundo informa o governo, muito em breve estará disponível uma linha de financiamento para a criação de empresas e de projetos no interior. O dinheiro parece ser sempre a solução para todos os problemas. Onde está o resultado de muito dinheiro que veio da União Europeia? Rebentaram-se foguetes com a chegada do dinheiro fácil da pródiga Europa, para hoje constatarmos que somos um concelho menos desenvolvido, mais desertificado e pobre, onde muitos filhos da terra não têm prazer em viver. Só dinheiro não chega. É preciso lançar um plano bem estruturado, consistente, abrangente, profundo, paciente, para se operar uma grande transformação e uma séria intervenção de fundo, com que os governos pouco se importam, que fomente verdadeiro desenvolvimento e crie boas condições para a fixação das pessoas, que revitalize a agricultura e a pecuária, os grandes motores da economia de Barroso, não se esquecendo também o turismo.      

Chamar pessoas para o interior é bom e esperamos que nos próximos tempos muitas venham. Se o Estado mobilizar alguns institutos e serviços para o interior, será bom. Se alguns bons empresário para cá vierem, será ótimo. Mas são as pessoas que sempre viveram no interior, que amam e conhecem a terra, que terão uma grande palavra a dizer. E quanto a isto o que é que vamos vendo? Vamos deambulando entre a lamúria e a esperança numa solução milagrosa, vinda do olimpo dos deuses. Culpar sempre a autarquia por todos os males do concelho parece-me exagerado e redutor. A Câmara não tem nem pode ter todas as soluções para todos os problemas. Todos clamam por industrialização para o concelho. O que é que os empresários da terra podem fazer por isso? Estarão dispostos em constituir uma associação empresarial, uma ou várias, para se lançarem empreendimentos inovadores, criadores de emprego? O futuro passa por sermos mais empreendedores e organizados, com capacidade de correr riscos e inovar.

Maledicência, resignação, lamentação e saudosismo de um tempo que já não volta, acho que já temos que chegue. Faltam ideias, projetos, cooperação, união, coragem, mais organização, vontade de mudança e capacidade de assumir novos desafios. Mãos à obra. 

Georges Lemaitre e o Big Bang


24.01.19

Faz este ano noventa anos que o padre belga, Georges Lemaitre, lançou os primeiros fundamentos (1927) da teoria cientifica que hoje é conhecida por Big Bang. Não domino por completo a teoria, que postula o seguinte: uma única partícula (átomo primordial, a partícula de Deus) está na origem de tudo, partícula que libertou uma grande explosão de energia, dando origem a todas as partículas que existem no universo.  E se o universo está estável, é porque ainda está em expansão.

Para chegar a esta conclusão cientifica, Lemaitre serviu-se das ideias do seu amigo alemão, o físico Albert Einstein, aproveitando ambos os conhecimentos científicos que já vinham do pai da ciência moderna, o italiano Galileu Galilei, e de outros cientistas notáveis. Quem mais tarde desenvolveu e formulou oficialmente a teoria do Big bang, como momento criador do mundo, foi o astrónomo americano Edwin Hubble. Segundo Carlos Fiolhais, físico, professor universitário em Coimbra, «a teoria, apesar de ter ainda muita coisa por explicar, não perde o estatuto de ser não só a nossa melhor teoria sobre a criação do mundo como até a única». Neste momento, não tem alternativa.

Hoje é aceite pela Igreja Católica, assim como a teoria da evolução. Aliás, a Igreja tem tido a sensatez de ir acompanhando e aceitando as descobertas científicas que manifestem solidez e um alto grau de comprovação, apesar de no passado ter condenado cientistas, erro de que já pediu perdão, nomeadamente a condenação de Galileu Galilei. Os relatos da criação, que a Bíblia nos apresenta nos primeiros capítulos do livro do Génesis, são parábolas, relatos poéticos e imaginários que procuram dar uma explicação religiosa da vida e do mundo e não uma explicação cientifica. Têm como único fim apresentar Deus como a origem e o fim de todas as coisas. Não se devem ler à letra. Deus não foi nenhum mágico, que fez surgir todas as coisas num estalar de dedos. O «como» tudo surgiu, cabe ao homem procurá-lo, sobretudo, através da ciência, no exercício da sua razão e da sua inteligência. O Papa Francisco chamou atenção para isto mesmo, num encontro que teve com cientistas.

A ciência já esteve sob a tutela da Igreja. Depois, conquistou a sua autonomia, fazendo o seu caminho, sem ter de passar pelo crivo do tribunal eclesiástico. Nos últimos séculos, gerou-se animosidade e algum conflito, por vezes aceso e fanático, e oposição inflexível entre ciência e fé, oposição que ambas as partes, sobretudo de muitos cientistas crentes e até agnósticos, reconhecem hoje não ter grande razão de ser, porque são duas maneiras de procurar a verdade, que podem perfeitamente coexistir. O padre Georges Lemaitre é um bom exemplo. Somos todos peregrinos da verdade e é bom que fé e ciência se aproximem para a encontrarmos. Não faz sentido que fé e ciência se combatam, mas que dialoguem. Como afirma o atual Diretor do Observatório Astronómico do Vaticano, o jesuíta Guy Consolmagno, “o maior desafio à aproximação entre ciência e fé é lembrar-nos de que não existe nenhuma forma de olhar para o Universo, nenhum entendimento de Deus ou da natureza que seja perfeito ou definitivo. Nunca podemos deixar de aprender nem deixar de trabalhar e, sobretudo, não devemos pensar que já temos tudo esclarecido».

É preciso que se evite o sectarismo e o integrismo religioso e cientifico. Se a Bíblia não é um livro de ciência, é preciso interpretá-la com sabedoria e prudência, recusando-se interpretações literais, como fazem por exemplo os criacionistas, que negam as teorias cientificas que já estão mais do que provadas. Ao mesmo tempo, a ciência não pode extremar para o cientismo, apenas considerando como válido e certo o que obedece e passa pelas leis do método cientifico e encaixa no poder comprovativo e demonstrativo da ciência. Há outras dimensões no ser humano para lá da cientifica. O rigor verificativo e a exatidão da ciência são muito importantes, contudo, não são absolutos e não se podem converter no método exclusivo na procura da verdade.

Filhos por Encomenda


24.01.19

Soubemos por estes dias que Cristiano Ronaldo vai ser pai de gémeos, recorrendo a uma barriga de aluguer, ação permitida em alguns estados americanos. É uma escolha que me causa muita confusão. Tenho o maior respeito por Cristiano Ronaldo, tem feito uma carreira estrondosa, para muitos é um herói e um exemplo, é um profissional exemplar, revela virtudes humanas apreciáveis. Porque é que Cristiano Ronaldo não constitui uma família, dita «normal» e «tradicional», e não dá aos seus filhos uma mãe e um ambiente natural para o crescimento dos filhos?

Olhando ao percurso da sua vida, mais confuso fico, porque se há alguém que tem tido um papel importante na sua vida é a sua mãe, sempre presente ao lado do filho, sustentáculo nas desilusões, nas vitórias e nas derrotas, mãe que ele não dá e esconde aos filhos. Toda a criança tem direito a ter um pai e uma mãe e, sempre que possível, nascer de uma relação e dum compromisso de amor de um casal. Este direito é ou devia ser inalienável e jamais deveria ser ultrapassado ou rodopiado. Toda a criança tem direito a ter uma mãe presente, com quem vive e se relaciona todos os dias. É do mais elementar respeito pela dignidade humana. É o ambiente natural da vida. Não sei porque Cristiano Ronaldo o faz, mas se é uma cedência a esta moda ou deriva acéfala atual de questionar a família tradicional e de enveredar por outras formas de família, ditas modernas, sem mais nem menos, é uma triste decisão. E se é uma excentricidade de menino rico, que pensa que o dinheiro pode comprar tudo, ou que tudo é permitido a quem é abençoado por dotes excecionais e tem um sucesso invejável, pior ainda.

Fica a sensação que já se pode adquirir um filho como um produto ou outro bem qualquer, numa imoral deriva individualista e egoísta, que a sociedade atual promove, e que a vida humana é perfeitamente mercantilizada à vontade do freguês, assim como a mulher, sendo um gravíssimo atentado à dignidade de ambas. Não se colecionam filhos como se colecionam carros de luxo e não se devem adquirir filhos por puro capricho ou realização pessoal, por muito boas condições materiais que tenha para se lhe oferecer. Os filhos não são «direitos» dos pais. Não são brinquedos para satisfazer sonhos ou desejos pessoais. Os filhos são pessoas. Uma vida humana não pode estar ou não deveria estar tão banalmente ao serviço do egoísmo e da vontade de outrem.

Não deixa de ser perturbador como hoje se passa por cima tão facilmente de valores e princípios fundamentais, que deveriam jamais ser questionados e adulterados e que deveriam estar devidamente acautelados nas regras e nos códigos legislativos, não se permitindo estas leviandades e extravagâncias da mais que duvidosa e perversa moral individualista, e que em nome do negócio, já que é de negócio que também estamos a falar para mulheres, clínicas e profissionais de medicina, se enxovalhe desta forma a vida humana e a sua dignidade, que é sagrada.

Outro fenómeno questionável na sociedade atual é o casamento em segredo, que algumas figuras públicas escolhem, para dar um romantismo e um mistério singular.  A nossa criatividade e a nossa vontade de buscar o imperscrutável e de superar a rotina é espantosa. Um casamento nunca pode ou nunca deveria ser celebrado em segredo, enquanto casamento. «Segundo se consta», «segundo fontes que estiveram presentes», escrevem alguns jornais. Como é que é? Um casamento tem implicações sociais, é um facto social, deve ser do conhecimento de todos. Não é a mesma coisa eu saber que estou diante de duas pessoas solteiras ou casadas. Um casamento deve ser público ou tornado público e quanto ao essencial, se duas pessoas estão casadas ou não, não deve haver qualquer segredo ou ocultação. Deixemo-nos destas bizarrices.

Enfermidades da Igreja: O Clericalismo


24.01.19

Com os recentes escândalos da pedofilia dentro da Igreja Católica, ferida que, infelizmente, demorará muito a sarar, não param de aparecer relatórios todas as semanas, o Papa Francisco voltou a apelar à erradicação do clericalismo na vida da Igreja, considerado uma das causas da pedofilia. Na carta que dirigiu ao Povo de Deus, o Papa afirma: «É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do Povo de Deus. Além disso, toda vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas. Isto se manifesta claramente num modo anômalo de entender a autoridade na Igreja - tão comum em muitas comunidades onde ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência - como é o clericalismo, aquela «atitude que não só anula a personalidade dos cristãos, mas tende também a diminuir e a subestimar a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo». O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma rutura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo.»

Desde a primeira hora em que chegou à liderança da Igreja, o Papa tem sido um crítico feroz do clericalismo, a que já chamou uma peste e uma perversão da Igreja, motivo para o afastamento de muitos cristãos da vida eclesial. O clericalismo é organizar a vida da igreja só a partir do clero (Papa, bispos, padres e diáconos) e para o clero, fazer girar toda a atividade eclesial à volta do clero. Por um lado, o clericalismo tem sido promovido pelo próprio clero, que quer ter poder e domínio, mandar em tudo e ter sempre autoridade em tudo. O clero é que sabe, por isso, manda e decide. Daí que a palavra Igreja esteja conotada com o Vaticano, com a cúria romana ou com os bispos e os padres. O «povo» não é a Igreja. O povo obedece, assiste e cumpre. Por outro lado, o clericalismo também tem sido estimulado pelos próprios leigos (todo o cristão batizado), porque não sabem agir sem o clero, deixam tudo para os bispos e os padres e não assumem o seu papel e missão dentro e fora da Igreja. São leigos clericalistas. É preciso reformar este estado das coisas na vida da Igreja, conforme é exigência do Concílio Vaticano II.

A mentalidade clericalista favoreceu muitos dos abusos perpetrados por bispos e sacerdotes, que se acharam no direito de mandar e dispor de adultos, jovens e crianças como muito bem entenderam, com o dever de serem obedecidos, e muitos leigos assim fizeram porque assim se pensa, a mentalidade clericalista criou uma infinidade de pessoas bajuladoras e sabujas, com um servilismo doentio em relação ao clero, a mentalidade clericalista permitiu o encobrimento dos abusos durante décadas, porque se colocou o prestígio e a imagem do clero e da Igreja conotada com o clero acima de tudo e mais alguma coisa, indo-se no sentido contrário ao Evangelho.

A igreja tem de reformar a sua cultura e sua construção piramidal. E todos os cristãos têm de se envolver nesta reforma. Não podemos persistir neste modelo em que Papa, bispos e padres mandam e decidem, são os senhores do saber e do poder, e os leigos obedecem e cumprem, já que são quase uns ignorantes e não sabem fazer nada, são uns incompetentes. Jesus deixou expresso no Evangelho que quer que a Igreja seja uma comunidade de irmãos ao serviço uns dos outros, sem poder e domínio de uns sobre os outros e sem o desvio de uns pensarem que são superiores aos outros, uma Igreja alicerçada na fraternidade e igualdade, na igual condição de todos, assente no mesmo batismo e Espírito que todos receberam. A hierarquia tem a sua razão de ser, mas a hierarquia não é o centro da Igreja. Cristo é que é o centro e em nome de Cristo, a hierarquia está ao serviço de todo o Povo de Deus, cabendo-lhe organizar a vida e a missão da Igreja, e não o Povo de Deus está ao serviço da hierarquia, como se esta fosse mais digna e sagrada do que o restante Povo de Deus. Não é só o bispo e o padre que é um alter Christus (outro Cristo). Todo o cristão é um alter Christus, devendo assumir o seu papel e o seu protagonismo na vida e na missão da Igreja.     

No fundo, trata-se de ver a Igreja pelo sacerdócio comum dos fiéis que todos os cristãos assumem no dia do Batismo. Como afirmou o P. José Nuno Ferreira da Silva ao Diário de Notícias: «Os cristãos não desistem de ser Igreja porque os seus padres e bispos não souberam estar à altura deste drama. Quem estiver mais atento ao que se está a passar nos países mais assolados por esta situação, como a Irlanda, os EUA e o Chile, percebe que já há uma nova Igreja, uma nova consciência a fermentar. Aquilo que o Concílio do Vaticano II propôs há 50 anos sobre o sacerdócio comum dos fiéis e que tão pouco andou está agora a receber um intenso impulso positivo. A crise da hierarquia acaba por ser o momento para uma das instituições fundamentais do Concílio do Vaticano II crescer e progredir. Os leigos são Igreja. Amaram melhor a Igreja do que os seus pastores.» Está na hora de desclericalizarmos a Igreja e todos os cristãos, como seus membros e discípulos de Jesus Cristo, iguais em dignidade, contribuírem para o seu enriquecimento e vitalidade, no cumprimento da sua missão de anunciar o Evangelho e construir o Reino de Deus.  

Enfermidades da Igreja: a Beatice


24.01.19

A palavra beato é uma palavra positiva, significa feliz, bem-aventurado, porque se está em plena comunhão com Deus no céu. Apela para algo belo e muito respeitável na vida da Igreja, a excelência da vida cristã: a santidade. Após um processo de beatificação, ser considerado beato pela Igreja é ser considerado santo num país, numa diocese ou até numa família religiosa, um modelo de vida cristã para os outros cristãos e um intercessor junto de Deus no céu, sendo, por isso, merecedor de culto público. Depois da beatificação, segue-se a canonização, o reconhecimento e culto estendido a toda a Igreja Católica. Assim aconteceu com a esmagadora maioria dos santos que estão nos altares das nossas igrejas. E bom seria que todos atingíssemos o estado da beatitude, da felicidade plena, fruto da nossa profunda união e comunhão com Deus, já e depois da morte.

Contudo, a palavra beato também passou a ser aplicada às pessoas que se entregam às devoções religiosas e que participam assiduamente na vida litúrgica da Igreja, muitas vezes, aplicada com um sentido pejorativo e mais negativo, de crítica e de escárnio.  Há que deixar um sério esclarecimento: conforme a Igreja muito bem o recomenda, todo o bom cristão, dentro do possível, deve participar diariamente na missa, rezar ao longo do dia, rezar o terço, realizar atos de piedade segundo as possibilidades de cada um, participar nas celebrações cristãs que lhe seja permitido participar. Isto não é beatice. É o que se espera de um cristão ativo e participativo na vida da Igreja, como todos os cristãos devem ser. A vida litúrgica tem uma importância vital na vida espiritual de todo o cristão.

Outra coisa bem diferente é a beatice que anda na Igreja com segundas intenções e é esta beatice ou falsa beatice que deve ser fortemente combatida na Igreja, porque traz muitos males e gera conflitos e maus ambientes nas paróquias, até para bem dessas mesmas pessoas, que vivem fora do verdadeiro espírito religioso.  Ser beato ou beata passou a ser aplicado aos crentes ou pessoas religiosas que dedicam muito tempo à vida na Igreja, à oração, à piedade e à liturgia, mas que depois, na sua vida concreta, manifestam uma vida pouco consentânea com aquilo que celebram ou com a santidade que exibem diante dos outros, concluindo-se que a sua frequência na vida litúrgica da Igreja se deve a fins pouco cristãos ou nobres. Lá no fundo, quando se lança o epíteto beato sobre alguém é acusá-lo de ser um fingidor ou um hipócrita, alguém que nas aparências procura exibir uma entrega e conformidade a Deus, que depois a sua prática e postura de vida desmentem, percebendo-se facilmente que a religiosidade que vive é balofa e a santidade que demonstra não é verdadeira, mas bem produzida para cair bem nos outros e atingir fins pouco claros. 

Há que combater esta beatice dentro da Igreja. Um beato, neste sentido desfavorável, é um falso cristão, que só vive nas aparências e no culto de uma boa imagem, sempre centrado em si mesmo, vivendo uma relação superficial com Deus e com a Igreja. Um beato transforma a religião num passatempo e num espaço de promoção pessoal e de projeção de si mesmo sobre os outros, procurando atingir sempre objetivos ou vantagens pessoais, como cair nas boas graças do pároco, satisfazer os anseios da sua vaidade, conquistar crédito diante dos outros, fazendo passar uma boa imagem, poder até mandar e ter domínio sobre os outros, ter influência, já que na vida não tem essa possibilidade.  

A Igreja não precisa de cristãos que se refugiam num fervor pietista e no aturado cumprimento de regras e deveres religiosos, mas que depois escandalizam pelo mau exemplo e pela incoerência em relação ao Evangelho que deviam testemunhar e praticar. É o farisaísmo que Jesus tanto condenou. Andar na Igreja só para se ocupar o tempo ou para se encontrar consolos para os vazios da vida ou até para se obter benefícios, seja de que ordem for, não é a forma correta e digna de um cristão estar na Igreja.

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