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minhas notas

que festa do senhor da piedade queremos?

26.08.13 | minhasnotas

Nós, barrosões, temos orgulho na nossa cultura e na nossa memória, com todo o seu património humano e social, assim como outras regiões e culturas o têm. Somos conhecidos pela nossa verticalidade e honestidade, pelo nosso carácter, pela nossa rigidez de valores e de princípios, capacidade de sacrifício e de trabalho, numa terra agreste e escabrosa, mas fértil e de grande beleza natural, pela nossa hospitalidade, simplicidade e bonomia. Esta matriz está-nos na alma, e bem. Temos muitos dos traços e das virtudes que ficam bem a todo o ser humano e a todas as culturas. Se alguém não nos leva a sério e nos desprestigia, não somos de falinhas mansas, dentro dos seus limites, ou de silêncios encolhidos, e sabemos unir-nos, com brio e determinação, em defesa do nosso carácter e da nossa cultura. Mas, infelizmente, é pena que esta mesma determinação e raça que temos em enfrentar as ameaças e os descréditos que vêm de fora, não a tenhamos em muitas das ações e atividades que realizamos entre nós, optando-se pela prudência calculista, a indolência, a indiferença, o desinteresse, o comodismo, a desculpabilização saloia, a maledicência e o bota-abaixo fácil que se vende ao desbarato nas tascas e nos cafés. 

Desde há uns anos para cá, noto grande desinteresse, indiferença e falta de união na organização da festa do Senhor da Piedade, na Vila de Montalegre (o que diz muito da nossa coesão e sentido de comunidade), excetuando uma minoria de pessoas, que exultam com a festa e se empenham por organizá-la o melhor que podem, dentro das possibilidades reais, em sacrifício de muito do seu tempo, a quem estou extremamente grato como barrosão e como pároco. Todos os anos informo que a comissão atual já acusa algum cansaço, como é natural, e lanço o apelo para a renovação da comissão da festa com pessoas mais jovens, mas nem uma pessoa se dispõe a aceitar o apelo. Lá tem que a velha comissão ir buscar mais um pouco de forças e testar mais um pouco a sua paciência para se realizar a festa. Onde é que anda a gente forte cá do Norte?

O comércio e a indústria da Vila de Montalegre dão uma contribuição miserável, excetuando-se poucos casos. A desculpa mais habitual é a de que a festa se realiza fora da Vila. Mas então não conseguimos pensar para além dos nossos interesses? Não somos todos habitantes de Montalegre? A festa não é de todos? Outros habitantes da Vila recebem a comissão com sarcasmo e má vontade, quando não com insultos, algo que ninguém tem o direito de fazer, e dão sempre a desculpa de que «a Câmara é que paga a festa». Não, meus senhores. A Câmara Municipal, porque são festas concelhias, paga a sua parte, e a paróquia de Montalegre paga a sua, a parte religiosa da festa, nomeadamente a missa, a procissão, o fogo da procissão e as bandas de música. É para estas despesas que se faz um peditório na Vila de Montalegre e montalegrense que se preze devia ter sempre todo o gosto em receber a comissão e dar a sua oferta. Nas outras paróquias que sirvo, vejo muitas festas a serem organizadas com empenho e com a contribuição de todos, sem se querer viver à sombra de ninguém.

A própria estrutura da festa deve começar a ser repensada quanto à sua forma, quer pela carestia de interesse e de vontade, quer pela carência de meios humanos e materiais. Na hora de sair a procissão faltam sempre pessoas para os andores e o que ainda vale são os cumpridores de promessas, os emigrantes e pessoas de fora, porque pessoas residentes na Vila são muito poucas as que se dispõem a dar o ombro a um andor. Onde é que andam os homens valentes de Montalegre? A procissão tem um percurso exagerado. Com que disposição se chega ao santuário para celebrar a missa, depois de hora e meia de procissão? A procissão parece mais uma prova de resistência do que uma procissão. Começa a ganhar consistência a realização da procissão no santuário do Senhor da Piedade. A Igreja recomenda que as procissões não sejam longas e cansativas. Eu sei que os tradicionalistas dirão que o que sempre se fez é o que sempre se deve fazer. Mas gostaria de lhes lembrar que na Igreja existe a memória e a tradição, mas não deve existir o tradicionalismo, porque este é repetição rotineira, mecânica, fixa e exterior das coisas, sem abertura à novidade e à renovação, e muitas vezes executada sem o espírito e o sentido das coisas. O que conta na realização de uma procissão cristã é o que ela testemunha e manifesta e não o seu percurso. Mas o mais interessante em muitos tradicionalistas é ver que nunca pegam num andor ou numa bandeira, vão de carro para o santuário do Senhor da Piedade e participam na missa debaixo de uma sombra, no exterior da Igreja, em amena cavaqueira. Viva a tradição!

Não só por sermos barrosões, mas sobretudo porque somos católicos, devíamos ter outro ardor e outra dedicação na organização da nossa festa, que neste momento não temos. Diz muito também de como anda a fé e o brio de muitos católicos e do sentido de fraternidade e de comunhão que temos, isto não esquecendo o bom número de contribuintes e de benfeitores que ela tem, na Vila de Montalegre, nas pessoas de Montalegre que vivem noutras terras e nos emigrantes, que com alguma comoção e alegria, vivem e recordam sempre a festa da sua terra.