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minhas notas

novos (b) ventos

07.03.13 | minhasnotas

«Estando consciente da seriedade deste acto, e em plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de S. Pedro». Assim resignou o Papa Bento XVI. Escusado será dizer que nos apanhou de surpresa, foi um «raio» súbito e insuspeito que fez estremecer a Igreja e o mundo, apesar de Bento XVI já ter dado sinais há muito (desde 2010), em discursos e entrevistas, de que esta decisão poderia estar no seu horizonte. No livro-entrevista de Peter Seewald, editado em 2010, «Luz do Mundo», o Papa afirma que a resignação deve acontecer «num momento de serenidade ou quando já não se pode mais». Manifestava, claramente, que não queria ter um fim como João Paulo II, Papa que, na minha modesta opinião, por muita interpretação humana e espiritual que se possa dar ao epílogo do seu pontificado, deveria ter tido um final de vida mais discreto e tranquilo, face à grande debilidade física que exibia. O Papa é o vigário de Cristo na terra, como também o é todo e qualquer cristão a seu modo ou «pequenino» que por aí ande, cabendo-lhe testemunhá-Lo com toda a verdade e beleza do seu mistério, mas ser Papa também é uma função, é ser pastor de uma multidão de 1200 milhões de fiéis, com todas as suas estruturas, e, quando já não se têm condições físicas e mentais para se desempenhar a missão, o que se exige é a passagem de testemunho a outro mais fresco e idóneo, e não faltam homens idóneos dentro da Igreja. O que talvez nos intrigue mais é que estamos habituados a ver o Papa rodeado de um certa «auréola de sacralidade», alguém que Deus escolheu e que recebeu o encargo de levar o pastoreio até ao fim natural da vida, como quem carrega a cruz até ao calvário, não tendo o direito de recuar. Mas é um exagero, porque é um cargo como qualquer outro cargo dentro da Igreja. Bento XVI assim o dá a entender no início do seu pontificado, «sou um humilde trabalhador da vinha do Senhor».

O seu pontificado, com a duração de quase oito anos, foi conturbado e difícil, com muitos ventos contrários. Debateu-se com alguns problemas de elevada gravidade no interior da Igreja, altamente demolidores para a credibilidade da Igreja Católica, mas respondeu com a sensatez, a sagacidade e a coragem que se espera de um grande Papa. Enfrentou o escândalo da pedofilia nas instituições católicas, que rebentou um pouco por todo o mundo, com mais incidência na América e na Europa. Demitiu 80 bispos que encobriram ou se manifestaram timoratos diante do escândalo. Mandou formular um código com leis duras e exigentes quanto à identificação e combate à pedofilia dentro da Igreja. Ainda a recompor-se do choque da dimensão e dos efeitos devastadores da pedofilia, são dadas a conhecer as suspeitas de que o banco do Vaticano, o Instituto para as Obras de Religião, está envolvido na lavagem de dinheiro. Mandou averiguar com todo o rigor e ordenou uma verdadeira limpeza em todo o banco. Pelo meio deste mar tempestuoso, envolveu-se em duas ou três controvérsias que, a verdade seja dita, surpreendeu pela sua imprudência, mas de que soube sair com destreza e engenho, com gestos concretos de sanação e reconciliação. Possivelmente, já a mirar a acalmia que ansiosamente almejava, irrompe o caso vatileaks, no Vaticano, em que documentos e cartas confidenciais, retiradas do seu escritório pelo seu mordomo pessoal, são dados a conhecer a jornalistas e à praça pública, reveladoras de intrigas, lutas de poder, rivalidades, negócios obscuros, corrupção, hipocrisia no seio da Igreja, nomeadamente na cúria romana. Não teve pejo em dar a entender que se sentia rodeado por um bando de corvos e que se sentia um cordeiro no meio de lobos. Com mil motivos para se sentir abatido e perturbado, e não escondendo o mal-estar e o assombro que o atravessava, nunca perdeu a serenidade e a lucidez nos seus discursos, audiências e homilias, sendo uma voz firme e resoluta na denúncia da «ditadura do relativismo», que, na sua opinião, não poderá deixar de ter consequências desastrosas, na denúncia do secularismo agressivo que prescinde de Deus, não se esperando outra coisa que a «perdição» do homem, na denúncia de um sem número de injustiças e faltas de respeito pela dignidade humana em todo o mundo, na denúncia da falta de moral e de ética na politica e na economia. Grande Papa.

O que nos fica da sua personalidade e do seu discurso? Foi um Papa corajoso, lesto, esclarecido, determinado e audaz. Como não podia deixar de ser, foi um conservador naquilo em que se tem de ser conservador. A Igreja nasceu para «conservar» o Evangelho e a partir dele construir o Reino de Deus. Poderia ter ido mais além na doutrina cristã e em algumas regras e princípios? Deixemos este juízo para a vida eterna. Intelectualmente, oriundo da racionalidade germânica, confirmou o que já se sabia dele: é um pensador sublime, duma inteligência rara (cada livro que leio dele é uma «aparição»), de uma clareza e finura intelectual ímpares, com grande à vontade nos ditames e nas ideias que circulam nas vísceras do mundo da cultura. Tem homilias com um conteúdo e um equilíbrio exemplar. O seu discurso foi sempre um discurso desempoeirado, sem tom pietista e sentimentalista, que tantas vezes roça o ridículo, e, ao mesmo tempo, sem tom etéreo, que, soberbamente fundamentado e transversal a todas as dimensões da vida, falava da agudeza e da subtileza do concreto da vida, das suas múltiplas realidades, dos seus problemas, desafios e necessidades e como Deus está presente e se dá a conhecer e apela nelas todas. Sem medo de cometer o atrevimento, podemos quase chamar-lhe o «Papa da razão», sem deixar de ser um Papa da fé, porque vincou repetidamente a importância e a necessidade da razão na fundamentação e na caminhada da fé. Não basta dizer que se tem fé, é preciso saber porque se tem fé, de que textura e massa ela é feita, e em quem se tem fé. Uma fé sem racionalidade é uma evasão e um perigo. Razão e fé têm de caminhar juntas, sob pena de ficarem ambas cegas. Ao mesmo tempo, uma razão fiel e honesta consigo mesma não pode deixar de perguntar por Deus e pode muito bem tocar as orlas do seu manto. Está feita e capacitada para isso.

A sua resignação é uma lição em muitos sentidos. Em primeiro lugar, ensina-nos a não «sacralizar» nenhum cargo, nem nenhuma figura nesta maravilhosa terra dos homens. Só Deus é que é santo e sagrado. Não existem predestinações divinas. Em segundo lugar, ensina-nos a saber estar e a saber sair no desempenho de missões e de cargos, porque a realidade muda e o homem tem a marca da fragilidade e da caducidade. Ninguém é «dono» e «senhor» de nenhuma função. Tudo é serviço a Deus e aos outros. Em terceiro lugar, ensina-nos a colocar o bem dos outros acima do bem e do prestígio individual. A vida é dom e entrega a Deus e aos outros. Esta é a postura decisiva e assertiva da vida. Em quarto lugar, ensina-nos que regressar à vida comum depois de se ocupar um cargo de grande importância não é «regredir» na vida, mas é sabedoria e humildade, não sendo um estorvo para que outros possam dar o seu contributo à história das instituições e da humanidade.  

Mais para o interior da Igreja, a resignação de Bento XVI é um convite à conversão. Não temos dúvidas de que foi o cansaço e a sua debilidade física que pesaram fortemente na sua decisão, sentindo-se incapaz de responder às exigências e aos desafios do pastoreio da Igreja. Mas, se lermos atentamente os seus discursos, homilias e outras intervenções públicas, possivelmente, outros elementos também pesaram na sua decisão, que devem fazer refletir seriamente a Igreja Católica, elementos que Bento XVI referia sempre com grande estupefação e desilusão. Uma boa parte da Igreja Católica não vive o que prega e ensina. Os valores mundanos dominam e orientam muitos dos seus membros e muitas das suas ações: avareza, poder, influência, ganância, protagonismo, vaidade, fausto, ostentação, comodismo, jactância e elitismo, valores em clara oposição aos valores do Evangelho e do Reino de Deus. Não era uma Igreja assim que Bento XVI esperava servir, com muitas jogadas de bastidores, hipocrisia, lutas e disputas, dividida em fações, infiel ao seu pastor, ávida de vis metais e de honrarias e respeitos terrenos, prenhe de dissimulação, manipulação, maquilhagem de fachada e matreirice. Como andamos tão longe da Igreja simples, humilde, santa, servidora, acolhedora, fraterna, unida, profética, missionária, orante, íntegra, casta, jovial e humana que Jesus Cristo tanto deseja.

É com pena que vemos partir um grande Papa, com qualidades intelectuais excecionais, um Papa que foi um verdadeiro mestre, um papa sábio, clarividente, profético, que transmitia esperança, serenidade e alegria por detrás do seu sorriso tímido, mas honesto. Na mesma linha, esperemos que os senhores cardeais escolham um bom pastor da Igreja.