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minhas notas

A vitalidade das paróquias

09.08.12 | minhasnotas

As Dioceses de Vic e Solsona, pertencentes à Arquidiocese de Tarragona, Espanha, realizaram, entre os dias 7 e 8 de Janeiro, um congresso dedicado à nova evangelização, tema que tem estado no centro da reflexão e da pastoral da Igreja. Um dos conferencistas convidados foi o Bispo Dominique Rey, que, desde o ano 2000, assumiu o pastoreio da Diocese de Toulon, França, onde implementou linhas de orientação pastoral com alguns resultados significativos, numa Diocese onde a prática cristã andaria pelos 5%. A sua conferência teve alguma repercussão em alguns cenáculos católicos europeus, nomeadamente os sete critérios que apontou para se poder escrutinar o «bom funcionamento», a vida saudável de uma paróquia ou comunidade.

Confesso que, para mim, não são nenhuma surpresa. Mais directa ou indirectamente, já me passaram pela formação. Mas acho que é extremamente útil que cheguem ao conhecimento de todos os cristãos. As nossas paróquias estão a precisar urgentemente de se renovar e revitalizar, na forma e no conteúdo, se querem ser paróquias vivas e fecundas, capacitadas para cumprir a missão de Jesus Cristo. O mundo mudou, com novos apelos e desafios, e muitas comunidades cristãs permanecem no sono do jardim das oliveiras, agrilhoadas a convicções bafientas, esquemas carcomidos, piedades cansadas e insípidas, estruturas lívidas, conquistas e louros do passado.

Muitas das nossas paróquias são paróquias fechadas, muito viradas só para as rotinas que se assimilaram, para as tradições e a piedade, paróquias de sacristia, paróquias centradas na «salvação da alma». Precisamos de regressar às origens da Igreja, onde as comunidades eram abertas e se estruturavam na riqueza dos ministérios eclesiais, num culto e num ensino centrados na Palavra de Deus e na Eucaristia fervorosamente vivida e na aproximação à sociedade, a quem se queria levar o Evangelho e a caridade experimentada na Eucaristia. Cristãos e não cristãos, e até meios cristãos, habituaram-se a viver com o «muro da indiferença», ambos aceitando que têm de seguir caminhos diferentes e que não têm de se preocupar uns com os outros. Mas não pode ser assim. A Igreja não pode deixar de se aproximar dos homens de todos os tempos, a quem é chamada a propor o Evangelho desinteressadamente, a convocar para o Reino de Deus, e a levar a salvação de Deus (vida de Deus), na convicção de que só em Deus o homem é feliz.    

Papel decisivo neste labor, é a própria aragem que as comunidades cristãs (paróquias) transparecem para o mundo e o testemunho que dão do amor e da fé em Jesus Cristo, já que se evangeliza muito mais com o exemplo do que com a palavra. E só comunidades bem organizadas e bem oleadas o poderão fazer. Como organizar bem uma paróquia, para esta ser comunicadora de Cristo e ser exemplo de Igreja? Eis os sete critérios do bispo Dominique Rey, tendo como actor principal o padre, guia e orientador da paróquia:

Delegar funções e tarefas a um grupo de pessoas capacitadas para o fazer, cabendo ao pároco a formação e orientação. Face à nova realidade eclesial, não pode estar tudo centrado no padre, mestre da banda que tocava todos os instrumentos, modelo que imperou nos últimos séculos, que, de certa forma, infantilizou e empobreceu as comunidades cristãs. Uma boa fatia de cristãos ainda se recusa a selar o caixão deste modelo, não se apercebendo que é errado e inexequível.

Discernir os dons e as qualidades de cada membro da comunidade e fazê-las dar fruto, ao serviço do bem comum da comunidade. Não há muito tempo, dois ou três membros à volta do padre, comodamente ao serviço deste, faziam tudo, diante de uma multidão de cegos, coxos e paralíticos… Há que despertar a utilidade de todos, para os vários ministérios que se podem desempenhar na vida eclesial. Quanto maior é a participação e colaboração dos membros da comunidade, mais viva, capaz, interessante, disponível e eficaz ela se torna.

Testemunhar a alegria e que essa alegria seja genuinamente notória. Uma comunidade triste não passa de uma triste comunidade. Quem quer fazer parte de uma comunidade que não manifesta entusiasmo e encanto por aquilo que vive? O quanto as nossas comunidades têm a crescer neste aspecto. Contemplem a cara com que muitos cristãos saem da Eucaristia dominical e o júbilo que transpiram no trabalho e nas actividades quotidianas.

Ter capacidade de renovação, não se deixando arrastar atrás de métodos e formas que já não têm sentido, adequando-se as estruturas à realidade que tem de se enfrentar, mormente a nova evangelização. Já não vivemos em cristandade, onde quase toda a sociedade era cristã. Dava-se um pontapé numa pedra e surgia um cristão. Vivemos em sociedades que têm cristãos. A dinâmica, as estruturas e os esquemas das comunidades têm de ser outros.

Cuidar da beleza e da dignidade das celebrações, sobretudo da Eucaristia, que é o espelho da comunidade e onde a Igreja melhor fala de Deus e o pode dar a conhecer. Ainda há dias o Bispo de Bragança, D. José Cordeiro, afirmava em Fátima que «infelizmente, em muitos lugares a liturgia reduz-se a uma proclamação de textos e execução técnica de gestos, sem cantos, sem uma linguagem verbal e não verbal que manifeste o mistério e a arte de bem celebrar». «É urgente uma liturgia séria, simples, bela, que seja experiência do mistério, e ao mesmo tempo inteligível, capaz de narrar a perene aliança de Deus com os homens, não esquecendo o equilíbrio entre a palavra, o canto, o silêncio e o rito». A Eucaristia é o espaço sublime onde se deve dar a oportunidade de fazer a experiência e o encontro com o sagrado. Quanta rotina árida está para aí instalada.

Organizar a paróquia em pequenos grupos ou células, que dinamizem a pastoral e vão ao encontro das pessoas no terreno, possibilitando uma integração suave e articulada dos batizados não evangelizados ou dos recém-convertidos. A configuração institucional da Igreja gera frieza e cria distanciamento, ressumbra necessidade de reverência e adornos de poder. É preciso mais proximidade e presença no pátio do mundo, junto das pessoas concretas, numa atitude samaritana.

Uma paróquia deve ser um foco de irradiação de verdadeira caridade entre os seus membros e para fora de si mesma, uma genuína teia de relações humanas saudáveis, assentes no respeito, na atenção, no conhecimento e na entreajuda mútua, e que isso se note a quem a contempla de fora. O mais belo testemunho, que dá credibilidade a tudo o que a paróquia celebra e faz, é a caridade. Actualmente, é inquestionável que há uma carência alarmante de fraternidade em muitas comunidades cristãs. Não é difícil constatar que, como dizia há dias o bispo de Beja, D. António Vitalino, «as comunidades cristãs estão muito apáticas, sem relações interpessoais, sem interesse mútuo pelas pessoas». Como estão a funcionar as nossas paróquias?