Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

minhas notas

lições de um dia de caça (II)

08.12.11 | minhasnotas

Num destes dias, depois de um agradável dia de caça, cheguei a casa tranquilamente. Após colocar tudo no seu devido lugar, procurei o meu telemóvel num bolso do colete de caça e népias, nem vê-lo. Vasculhei cuidadosamente toda a roupa que usei, assim como o jipe, nenhum rasto do telemóvel. Possivelmente, ao passar em alguma vegetação mais densa ou num qualquer salto mais ousado, sem que eu minimamente me apercebe-se, saltou-me do bolso. Mas onde? Experimentei com algum horror o que é ficar incontactável. E logo um padre, que a todo o momento pode ter uma urgência ou ter de tomar uma decisão.

Puxei atrás o filme do dia de caça. Vários poderiam ser os locais onde a perda poderia ter acontecido. Quanto mais pensava, quanto mais sentia a ansiedade a tomar conta de mim. O que me preocupava não era tanto o telemóvel, mas o cartão. Que chatice ter de mudar de número. Depois de minuciosamente analisar o dia, uma cena fixava a minha atenção: já o dia declinava, mandei um tiro a um coelho que se raspava ao dobrar de uma encosta. Após o visível insucesso do tiro, corri desesperadamente pela encosta acima, na esperança de ainda encontrar o coelho, numa parte queimada da encosta. Mais uma vez, népias. Viva o gesto do Zé-povinho! Tinha absoluta certeza de que, na minha sôfrega perseguição, perdi o telemóvel. Bem, já era noite, tomei a decisão de de manhãzinha ir à procura do meu contacto com o mundo.

Chegado à serra, para surpresa minha, senti-me confuso, talvez um pouco toldado pelo desespero. A mata era relativamente densa, os penedos eram muitos e eram visíveis algumas partes queimadas pela serra. Estava montado o cenário para procurar uma agulha no palheiro. Seja como for, defini alguns trilhos e comecei a procurar. Em vão. Nem sombra do telemóvel. Repeti. Nada. O pensamento de desistência, contra a minha moral, começava a impor-se. Decidi fazer uma última ronda mais lenta e aturada. Junto a uma carqueja, encontrei o invólucro do cartuxo que serviu para assustar (não foi outra coisa e desculpem o pecado de ter deixado o cartuxo vazio na serra) o coelho, naquele fim de tarde. Soou o sinal de alarme. Foi a partir dali que comecei a perseguição ao foragido. Rapidamente senti clareza na memória e comecei a palmilhar o mais que certo trajecto da perseguição. Não demorou muito, no meio de uma copiosa urze, encontrei o telemóvel. Ufa, que alívio! Não tinha chamadas perdidas, apenas exibia uma mensagem da operadora a propor novos serviços.

Como tenho o hábito de retirar sempre algo de bom do que vivo, não deixei de pensar em todo o enredo durante algumas horas. Abençoado cartuxo, que me salvou naquela manhã. Sem aquele sinal, a minha procura, possilmente, teria outro desfecho, bem mais desagradável. 

A nossa descoberta de Deus e a nossa relação com Deus é feita com e por sinais, que Deus vai colocando na nossa caminhada individual e comunitária. Como muito bem diz S. João, «a Deus nunca ninguém o viu» e não poderemos ver enquanto homens terrenos. Mas Deus não deixa de se revelar e não deixa de convidar, chamar e interpelar, só que o faz com sinais. Ao homem cabe encontrar e interpretar esses sinais e ir progredindo na confiança, na esperança e na comunhão, vivendo cada vez mais de Deus e para Deus. Dificilmente poderíamos abarcar a grandeza e beleza de Deus em meia dúzia de horas ou de Dias. Por isso, Deus serve-se da pedagogia dos sinais. Por intermédio destes, Deus dá tempo ao homem, deixa ir amadurecendo, dá tempo ao homem para ir aprendendo a amar e a entrar no mistério de Deus, age de forma que a liberdade humana não seja esmagada.

Que sinais Deus nos dá? Tantos. Desde logo a vida, cuja origem é um mistério, mas porque é mistério abre-me para Deus. A personalidade única e irrepetível de cada pessoa humana. A ordem da criação e a sua harmonia. Um coração sedento de vida e de eternidade. As muitas situações interpelantes do dia-a-dia da vida. Entre outros. No campo mais restrito da caminhada da fé, o Baptismo, a Eucaristia e todos os outros sacramentos, a Igreja em si mesma. A autenticidade da vida de um santo. A entrega de tantas pessoas que se empenham em elevar a vida do mundo. Os sinais dos tempos de cada tempo. E não esquecendo, claro, o grande sinal de Deus à humanidade: Jesus Cristo, Filho de Deus incarnado.

A vida é ir caminhando, lendo e aprofundando os sinais de Deus. Ser crente é isso mesmo: ver além de e para além de, sabendo descobrir o bafo de Deus na vida e na história, em ordem a uma plenitude. Não ser crente é viver a vida toda colado às aparências, querendo sempre provas de tudo, não se apercebendo que com Deus não se vive de provas, mas de sinais.

Uma das maiores tontices que muita gente apresenta para não acreditar em Deus é a constatação de «nunca o viu», nem há provas da sua existência. Ainda bem. No dia em que víssemos Deus olhos nos olhos, ficaríamos esmagados como homens. O que dá força e credibilidade à história da salvação é que Deus dá espaço ao homem, guarda distâncias, para que o homem seja homem e aprenda a ser pessoa humana com os outros. Até ao dia da «visão clara», quando formos semelhantes a Ele, Deus fala-nos por sinais.

Está a começar o tempo do advento na Igreja. É tempo para nos lembrar que temos de estar sempre atentos e vigilantes aos sinais de Deus, às suas muitas visitas à nossa vida e à vida do mundo. Infelizmente, o homem facilmente cede ao sono e ao comodismo: entrega-se ao mais fácil, passa a sua responsabilidade para os outros, refastela-se nos prazeres da vida, escraviza-se ao imediato do dia-a-dia, arrumando na gaveta os horizontes da vida. Mas não demorará muito a perceber que constrói uma vida vazia e pobre, porque onde Deus não está ou onde Deus não chega, dificilmente a vida pode ser mesmo vida. Saibamos neste advento abrir as portas da vida e do coração a este Deus, que nos quer ajudar a ser homens e mais do que homens, filhos autênticos, no seu próprio filho, feito homem, grande sinal de Deus a toda a humanidade.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.