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minhas notas

O Reino da Irrazão

03.04.11 | minhasnotas

O que São Basílio Magno (séc. IV) escreveu sobre a usura é temível: "Os cães, quando recebem algo, ficam mansos; mas o usurário, quando embolsa o seu dinheiro, irrita-se tremendamente. Não cessa de ladrar, pedindo sempre mais... Mal recebeu o dinheiro e já está a pedir o dinheiro do mês em curso. E este dinheiro emprestado gera mal atrás de mal, e assim até ao infinito." Por isso, o Concílio de Latrão, em 1179, proibiu aceitar esmolas dos usurários, admiti-los à comunhão e dar--lhes sepultura cristã.

Hoje a isto chama-se os mercados financeiros, com a sua lógica devoradoramente insaciável. Portugal sabe-o por experiência. Quem não viu veja e quem viu reveja Inside Job.

De qualquer modo, estamos na União Europeia e temos de honrar compromissos quanto ao défice e à dívida. O que aí vem é arrasador. Como foi possível ter-se chegado à beira deste abismo? Como escreveu Daniel Bessa, "o Estado português está há muito em processo de falência. A culpa é de todos nós, a começar por mim, que nunca o disse de forma audível, com esta clareza".

Em Portugal, deu-se o triunfo da irrazão. Ele foi a sementeira acéfala de instituições de ensino superior, com consequências desastrosas por décadas. Ele foi, sem respeito pela famosa "navalha de Ockam", a multiplicação dos entes sem necessidade: na Administração central, nas câmaras, nas juntas de freguesia, nos institutos públicos. Ele foi o encosto geral aos dinheiros públicos, que todos se habituaram a reclamar em todas as circunstâncias. Não se fez a transformação do aparelho produtivo para a competitividade. Destruiu-se a agricultura e as pescas. Numa euforia tola, foi o consumo esbanjador, que os bancos estimularam. Parte dos portugueses pensou que já não era preciso trabalhar. A corrupção banalizou-se. A Justiça quase faliu. Não há confiança nem horizonte de futuro.

Vêm aí eleições. Mais uma vez, o País encontra-se numa crise mortal. Esperar-se-ia, pois, o fim do reino da irrazão. Esperar-se-ia que as forças políticas pensassem, finalmente, mais no bem nacional do que nos interesses partidários e nas clientelas. Depois de tanta aldrabice, que dissessem a verdade, dura, crua, aos portugueses, para eles poderem saber onde realmente se encontram. Que às arruadas da campanha antepusessem a argumentação racional, serenamente e sem insultos. Que, no quadro da razão comunicativa, se entendessem para um consenso mínimo em temas fundamentais: Justiça, Educação, relançamento da Economia, Estado Social mínimo, reformas político-administrativas.

 

Autoria: P. Anselmo Borges 

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