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minhas notas

Não há paz sem liberdade religiosa

30.01.11 | minhasnotas

Um dos valores que mais desejamos uns para os outros, no início de cada ano, é a paz. E não é por acaso. Tudo o resto também é importante, mas sem paz na consciência, na vida e no coração, a vida não tem sabor, tornando-se uma experiência insuportável. Na Bíblia, são muitos os pedidos de paz que o povo faz a Deus. Paz que não é mera ausência de guerra e de conflitos, porque pode não haver guerra e mesmo assim não haver paz, mas o somatório de todos os bens que ajudam o homem a realizar-se como homem e a ser feliz, englobando assim, a prosperidade, a segurança, a liberdade, o respeito entre povos e pessoas, a justiça e a igualdade, a verdade, a vida e a salvação de Deus. E Deus foi prometendo ao povo que, um dia, teria a sua «terra de paz» e que, um dia, nasceria o ‘Príncipe da Paz’, que ajudaria a construir a paz, afastando de vez todos os inimigos da verdadeira paz. Esse Príncipe nasceu, mas parece que gerou mais divisão do que paz. E toda a gente quer paz, mas não quer seguir os seus caminhos.

Em muitas regiões do mundo, persistem inúmeros conflitos entre nações e grupos. Nada disso nos é estranho. A nossa história humana está cheia de rores de disputas e guerras sanguinárias entre povos e não será descabido afirmar que dificilmente atingiremos uma sociedade global sem um único conflito. Infelizmente, a todo o momento, cometem-se injustiças e desrespeitos pelos direitos humanos. O egoísmo individual ou colectivo e a maldade humana não deixam de semear rastilhos para novos embates. Quer isto dizer que a paz e harmonia entre todos são uma utopia? Como cristão, tenho de acreditar que Deus tudo pode. A Deus nada é impossível. Mas o caminho é árduo e é preciso lutar todos os dias com as boas armas que temos ao nosso alcance, com coragem e persistência. A paz é, primeiro que tudo, um dom de Deus, mas todo o dom pede uma resposta do homem, sendo, por isso, também uma tarefa dos homens.

Na construção da paz, as religiões têm um papel decisivo. Todas têm mensagens de paz, mas têm credos diferentes. Quando as religiões não se respeitam mutuamente e enveredam pelo caminho da intolerância e do fanatismo, dificilmente se constrói a paz. Todas as grandes religiões sabem isso e todas também sabem que cometeram e cometem graves pecados neste campo. Todas sofrem do tique de diminuir as outras e acharem que são a verdade e que têm a verdade e, por isso, as outras devem converter-se (para os islamitas, os europeus e os americanos são os ‘infiéis’, que devem obedecer a Alá; os islamitas, para nós europeus e americanos cristãos, são os ignorantes que ainda vivem nas trevas e no obscurantismo). Mais uma vez, com a ajuda da história, sabemos onde é que isto acaba. Já era tempo de as religiões, de uma vez por todas, encetarem plataformas de entendimento e de mútuo respeito e não agressão e estabelecerem entre elas uma verdadeira cultura de diálogo. Embora não esqueçamos que, muitas vezes, a religião é instrumentalizada por quem está no poder ou por interesses políticos e económicos. Mormente na Ásia, África e Palestina, perduram conflitos religiosos sem fim à vista e que não deixam de causar escândalo, que prevejo irreparável, por serem conflitos em nome de Deus e entre religiões que propõem a paz. O caso mais preocupante, neste momento, é no Iraque, onde se está a verificar uma diabólica perseguição aos cristãos, com intuitos de linchamento total.

O Papa Bento XVI, nos últimos meses, lançou vários apelos, para que se instale um ambiente de tolerância e respeito entre os crentes das diversas religiões (note-se a atenção que os meios de comunicação social deram ao tema. Se o Papa falar do preservativo ou da pedofilia, não faltam microfones à sua frente. Morrem cristãos estupidamente no Iraque, e quem diz os cristãos, diz o fiéis de outra religião numa outra qualquer parte do mundo, quase ninguém lhe dá atenção). A culminar os seus apelos, dedicou a mensagem do Dia Mundial da Paz deste ano à liberdade religiosa, com o tema Liberdade Religiosa, Caminho para a Paz. É necessário que se faça uma séria promoção da liberdade religiosa. Todo o homem tem direito a viver de acordo com a sua fé e a testemunhar publicamente a sua religião. É inadmissível que se exerça perseguição, discriminação e violência sobre as pessoas por causa da sua religião. E quando se fala de perseguição, fala-se de toda a espécie de perseguição, desde a mais descarada à mais subtil. Na nossa Europa, não se anda com a espada a perseguir os cristãos, mas no mundo laboral e nas instituições vai-se instalando alguma hostilização ao catolicismo, começando-se logo por uma releitura da história, ou até negação da mesma, esquecendo-se as raízes judaico-cristãs. Depois, não são poucos os católicos que se queixam de danos na sua vida pelo facto de serem católicos, por puro preconceito. Várias instituições católicas manifestam amiúde que o Estado, que deve ser laico, mas não laicista, não lhes dá o devido apoio. Guerra aos símbolos religiosos, que não tem o mínimo cabimento. Como é que se consegue compreender que os símbolos religiosos da maioria de uma população de um país não possam ser expostos? A sociedade actual, que é tão sensível às discriminações – se um qualquer homossexual se queixar, merece todas as compreensões e atenções – em relação a outro tipo de discriminações, pouco ou nada se importa. Mas devia importar. Os católicos não devem ter mais direitos do que os outros, mas também não podem deixar de ter os direitos que merecem. Toda e qualquer forma de discriminação contra os crentes, seja de que religião forem, é inaceitável. Só uma liberdade religiosa efectiva, promotora do respeito concreto por cada credo e por cada moral professada pelas diversas religiões, leva à verdadeira paz.

Escutemos o forte apelo que o Papa Bento XVI nos faz este ano: “O mundo tem necessidade de Deus; tem necessidade de valores éticos e espirituais, universais e compartilhados, e a religião pode oferecer uma contribuição preciosa na sua busca, para a construção de uma ordem social justa e pacífica a nível nacional e internacional. A paz é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, um projecto a realizar, nunca totalmente cumprido. Uma sociedade reconciliada com Deus está mais perto da paz, que não é simples ausência de guerra, nem mero fruto do predomínio militar ou económico, e menos ainda de astúcias enganadoras ou de hábeis manipulações. Pelo contrário, a paz é o resultado de um processo de purificação e elevação cultural, moral e espiritual de cada pessoa e povo, no qual a dignidade humana é plenamente respeitada. Convido todos aqueles que desejam tornar-se obreiros de paz e sobretudo os jovens a prestarem ouvidos à própria voz interior, para encontrar em Deus a referência estável para a conquista de uma liberdade autêntica, a força inesgotável para orientar o mundo com um espírito novo, capaz de não repetir os erros do passado”.

Um bom ano.