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minhas notas

O Baptismo de crianças

10.08.10 | minhasnotas

 

 

 

 

 

Nestes meses quentes de Verão, nomeadamente no mês de Agosto, muitas famílias, na sua maioria emigrantes, celebram um dos acontecimentos mais importantes da sua vida: o baptismo dos filhos. As razões porque o fazem são claras: cumprir a tradição – entre nós ainda parece mal não baptizar os filhos - e passar umas horas de farra com a família e alguns amigos. Duvido que muitas o façam com profundas motivações religiosas, para as quais, nós párocos, apelamos na preparação mínima que nos é possível realizar. Baptizar um filho é celebrar um compromisso com Deus e com a Igreja, dispondo-se a viver esse dom em comunhão, com entrega, fidelidade e responsabilidade. Todo o sacramento dentro da Igreja é sempre em ordem a uma maior adesão a Deus e a uma maior inserção dentro da sua família, que é a Igreja. Grande número dos casais que baptizam os filhos não participam assiduamente na eucaristia dominical, o que não dá para entender, depois do que celebraram. E acham-se no direito de exigir o baptismo ao pároco. Ai se este lho nega. Claro que um pároco sente muita relutância em negar um baptismo a uma criança, mas não deixa de ficar estupefacto com o desplante de muitos casais, a quem não conhece pingo de vida cristã, que não se inibem de exigir tudo e mais alguma coisa, quando não têm a mínima autoridade, como se pedir o baptismo não tivesse os seus requisitos e exigências. De uma vez por todas, muitos crentes cristãos têm de resolver a questão religiosa na sua vida: ou se dizem cristãos e assumem-no claramente, com integridade e fidelidade, em profunda comunhão com Cristo e com a Igreja, ou dizem que não querem ser cristãos e seguem outro caminho. Não se pode é querer viver com um pé dentro e outro fora, andando-se a vida toda a dizer a Deus e à Igreja aquilo que não se quer assumir e com o qual não nos queremos comprometer, adoptando-se uma conduta de sornice e quase total indiferença em relação aos compromissos e à vida da Igreja. E não me venham lá com essa treta de que quem vai à Igreja não é melhor do que os outros. Deixemos essa parte para a vida eterna, quando estivermos olhos nos olhos com o Criador.

Noto que, cada vez com mais insistência, se começa a questionar o baptismo das crianças, porque, segundo dizem, é um atentado à sua liberdade. Um ou outro pai já me confidenciou que vai deixar essa decisão para o filho, quando for adulto. Não se sentem no direito de lhe impor algo sobre o qual um dia pode vir a discordar. O filho, mais tarde, pode não querer seguir a Igreja Católica. Até lá, vai andando às quatro pancadas. Alguma modernidade bem-pensante, muito sensível à liberdade individual, considera que é mesmo abusivo, até mesmo violento, o baptismo de crianças. Este nosso mundo moderno está cada vez mais incompreensível: ora achamos que temos todos os direitos, ora achamos que não temos direitos nenhuns. Será que quando não queremos baptizar o nosso filho, estamos mesmo a pensar na sua liberdade? Então se assim é, temos de ser mais coerentes: não se lhe dá um nome, o rapaz pode não gostar do nome que lhe deram; não o obriguem a ir à escola, o miúdo pode não querer estudar e, às vezes, até tem de ir para um curso que não gosta, mas que agrada aos pais; não o intoxiquem com propaganda futebolística para ser do mesmo clube do pai ou da mãe; não o obriguem a comportar-se como deve ser, não vá o miúdo apanhar algum complexo ou ficar traumatizado. Quem são os pais para lhe dizerem o que é bem e o que é mal? Então os pais acham que têm direito em impor umas coisas e outras não? Deixem o miúdo em paz. Desculpem, mas esta da liberdade não pega.

O Baptismo não tira nada à criança e é mais um bem que lhe damos. E se um dia o quiser recusar, poderá fazê-lo na sua liberdade. A Igreja, ou melhor, Jesus Cristo, não impõe nada a ninguém. Um pai ou uma mãe, se são verdadeiros crentes, sabem que a fé é preciosa, de um valor inestimável. E se assim é, sentem a necessidade de a comunicar, quanto antes, ao filho e de o ajudar a valorizá-la e a aprofundá-la, até se tornar adulto na fé. Ela não estorva a liberdade, mas com ela, esclarecida e assumida, é que somos verdadeiramente livres. Por outro lado, a fé também é um conjunto de hábitos e de práticas e quanto mais cedo somos introduzidos nelas, mais frutos vamos colher na vida adulta.

Por detrás deste questionamento do baptismo de crianças esconde-se muito comodismo, aversão a compromissos, próprio da cultura contemporânea e, sobretudo, muita falta de fé e de convicções. A invocação do respeito pela liberdade disfarça a frieza que sentimos diante de Deus e a aridez interior em relação aos valores espirituais e religiosos, que a nossa sociedade actual deturpa e desvaloriza, com consequências imprevisíveis. Mas não esqueçamos: tudo na vida tem um pau de dois gumes. Se é certo que uns se podem congratular pelo facto de os pais não lhe terem dado a conhecer a fé, outros poderão acusá-los porque o podiam ter feito, quando tinham todas as condições para o fazer. Que muitos pais não venham a sofrer deste remorso.

 

 

 

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