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minhas notas

Não havia necessidade, Sr. Saramago

07.12.09 | minhasnotas

1.É bom reflectirmos sempre para lá da espuma dos acontecimentos e das polémicas, onde se descobrem as inconsistências e as contradições, mas também alguns aspectos positivos, que à primeira vista não se notam. É o trabalho do coador que nunca devemos deixar de fazer. Deitar fora as impurezas e aproveitar as coisas boas. Durante uma semana fomos espectadores, mais ou menos incomodados, das imprudências de um prémio Nobel da literatura em relação à leitura da Bíblia, com a esperada contra-ordenação da Igreja Católica. A polémica surgiu porque José Saramago é quem é. Podem-se dizer os maiores disparates, mas quando se é Nobel da literatura toda a gente presta atenção. Ficou logo claro que estávamos diante de mais uma polémica estéril e absurda.

                Num primeiro momento, fiquei perplexo e atónito, como até alguns ateus ficaram: já li quase todos os livros de José Saramago, cujas imagens e forma de contar histórias aprecio, embora a sua escrita seja controversa. Recomendo vivamente os seus livros, nomeadamente o Memorial do Convento. Não esperava uma leitura tão despropositada e leviana dos textos bíblicos como ele fez e muito menos uma apreciação tão pobre e simplória da Bíblia no seu todo, ainda para mais quando se diz «empapado de catolicismo». Que me perdoe, mas uma criança da catequese interpreta melhor os  textos da  Sagrada Escritura. Como escreveu o teólogo e biblista José Carreira das Neves num artigo do Expresso, um escritor da envergadura de José Saramago deveria saber que «com as descobertas linguísticas dos séculos XVIII-XX já não se lêem textos sem os contextos e hipertextos, as pequenas narrativas sem as macronarrativas». A partir de um pequeno texto de um livro interpreta-se e resume-se esse livro e não se tem em conta a globalidade do livro, sua dinâmica e progresso? Se é certo que pode acontecer com alguns livros literários, jamais pode acontecer com a Bíblia, que é uma biblioteca de setenta e três livros, escritos durante onze séculos, por homens crentes que viveram em épocas muito diferentes. Nela encontramos mitos, sagas, lendas, poesia, sabedoria, contos, profecias, romances, evangelhos, cartas, apocalipse, que, como não podia deixar de ser, exigem estudo e interpretação, é Palavra de Deus na roupagem da limitada linguagem humana. Está dividida em duas alianças (Testamentos), sendo o Novo Testamento a base do Cristianismo. Jesus Cristo é a revelação máxima e suprema de Deus. Só a lê única e exclusivamente à letra quem quer servir-se dela para aprovar os seus pontos de vista e defender os seus interesses, como fazem os extremistas e os fundamentalistas. O que faz a literatura senão ler e estudar um livro a partir do seu contexto? Poder-se-ia ler bem «Os Maias» de Eça de Queirós sem conhecer bem a sua forma de escrever e toda a trama política, económica e social em que ele viveu? Mas então é necessário colocar um teólogo junto de cada leitor da Bíblia como sugeriu José Saramago? É claro que não. Cada leitor na sua solidão poderá fazer a sua interpretação de um determinado texto que tem entre mãos, mas a sua interpretação não passa disso, não o livrando de ler a Bíblia em Igreja e com a Igreja. A sua interpretação tem que ir beber à grande interpretação, que é feita pela Igreja. Tirando um ou outro livro de José Saramago, o que seriam os seus livros senão se buscasse uma interpretação para as suas imagens e as suas histórias? Seriam livros banais, com pouca relevância literária. Quem se dê ao trabalho de passar umas boas horas a ler calmamente a Bíblia, não demorará muito tempo a perceber que é um livro onde o homem se lê e vê a si mesmo, capaz da maior nobreza e grandeza como da maior vileza e miséria, mas que do outro lado tem sempre um Deus disposto a sarar e a levantar, a remir e a libertar, a renovar e a humanizar, a perdoar e a dignificar, um Deus bom e cheio de amor porque não é senão amor. Não é a Bíblia que é «um manual de maus costumes e de crueldades», mas a verdade do homem, corrompida pelo pecado,  que o escritor bíblico teve o cuidado de retratar. Um homem como José Saramago, paladino do comunismo, uma das ideologias mais mortíferas da nossa história e autora de barbaridades inolvidáveis, devia saber disso há muito tempo. Alguns argumentaram que a Igreja tem no seu passado a Inquisição, o próprio José Saramago afirmou que a sorte dele era que já não existem as fogueiras do Santo Ofício, e que por isso também não tem muita autoridade na polémica. Pelo amor de Deus, calem-se de uma vez por todas com a treta da Inquisição, que também foi um instrumento político ao serviço de reis e regimes. A Igreja Católica já pediu desculpas há muito tempo pela crueldade e abusos da Inquisição e não me venham dizer que a Igreja Católica de hoje é a Igreja da Inquisição. Qual é o país (olhemos para nós) ou instituição que não tem no seu passado sombras e misérias? E isso faz deles ou delas, actualmente, maus países e más instituições? Assumido o erro, a história continua.

                Num segundo momento, sorri: todos percebemos que o que estava em causa era a venda de um livro considerado menor pela crítica, dentro do universo literário de Saramago e o livro já vai na 4ª ou 5ª edição. José Saramago já sabe que é um autor que não precisa de publicidade para ser lido e não havia necessidade nenhuma de criar uma polémica sem sentido e quase gratuita com a Igreja Católica, ofensiva para muitos crentes cristãos que exibiram uma tolerância, que muitos, mediaticamente ditos defensores dela, não têm quando são criticados. António Lobo Antunes, na sua entrevista a Judite Sousa, afirmou que estava estupefacto como José Saramago «tinha tão pouco espírito crítico naquela idade». Talvez tenha muita razão.   

O que ficou para nós, católicos, disto tudo? É incompreensível que a Bíblia seja um livro desconhecido para a maioria dos católicos. Quando se propõem cursos bíblicos nas paróquias, só uma minoria adere.  A Bíblia é para o padre, o bispo ou para os teólogos. Depois vem um vendaval alimentado pelos meios de comunicação social e muitos cristãos católicos não sabem a quantas andam e muitos até se consideram traídos pela Igreja. É preciso investir mais tempo no conhecimento da Bíblia. É um dos maiores tesouros da Igreja.

2. Já que falamos de tolerância, o Tribunal Europeu para os Direitos Humanos, sediado em Estrasburgo, deu ordem para se retirarem os crucifixos das salas de aula das escolas italianas, decidindo assim a favor da queixa de uma mãe ateia que considerava ofensiva a presença de um crucifixo na sala de aula do seu filho. A decisão apanhou de surpresa os italianos, esmagadoramente católicos. O próprio governo chamou logo a atenção para o exagero da decisão e já manifestou a intenção de não a respeitar. Será que a decisão faz algum sentido? Mas afinal de que tolerância ou liberdade falamos, quando países maioritariamente católicos são obrigados a esconder os seus símbolos nos espaços públicos? Todos nós estudámos em escolas que tinham nas salas de aula crucifixos e o que é que isso nos influenciou? Além do mais, a cruz é muito mais do que um símbolo religioso, convida à abertura, à fraternidade, à não-violência, ao amor, ao respeito pela dignidade humana, valores essenciais para qualquer civilização. Por respeito à cultura dos outros, não temos de abdicar da nossa cultura e o Cristianismo faz parte da matriz cultural da Europa. É uma decisão que vem no seguimento de outras tantas que visam sanear a presença da religião no espaço público e remetê-la o mais possível ao privado e às igrejas e sacristias. Anda por aí uma «entidade oculta», ou melhor, uns falsos progressistas, que, em nome da tolerância, da igualdade e do progresso, e profundamente sensíveis a qualquer vestígio de ofensa,  promovem precisamente o seu contrário. O Vaticano lamentou mais uma vez a falta de razoabilidade de uma decisão e o  Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, lamentou que a Europa do terceiro milénio troque os seus “símbolos mais queridos” pelas “abóboras” do Halloween. Por este andar, nem os sinos ao Domingo se vão poder tocar.

 

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