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minhas notas

19.07.22

Todos temos a sensação de que a vida acelerou e que demos à vida um ritmo que a está a matar. Urge repensar esta voragem desvairada. Vivemos vidas de forma vertiginosa e veloz, em contrarrelógio, num ativismo febril, com agendas muito preenchidas, e demasiado voltados para o elevado rendimento, para a produção e a ação, para a resposta a todo o tipo de estímulos e solicitações, o querer tudo rápido e depressa, num automatismo inconsciente e, muito possivelmente, doentio. Toda a gente anda cheia de pressa e tem muito que fazer. Transformámos a vida numa correria louca. Só que uma sociedade que não tem tempo, muito provavelmente, é uma sociedade que pensa pouco, reflete pouco, vive mal, é uma sociedade sem densidade e profundidade humana, cultural, social e espiritual. Deixámos de ter tempo para aquilo que mais nos estrutura e humaniza, a vida familiar serena, a relação com os outros, o cuidar paciente dos outros, a amizade frutuosa e desinteressada, o convívio tranquilo, o prazer da conversa e do diálogo, o silêncio, o estudo curioso, a criatividade deleitosa, o fruir alegre da vida. Estamos a tornar-nos pessoas mais desumanas, mais superficiais, menos sábias, mais turbulentas e inconsistentes emocionalmente, desidratadas afetivamente, consumidas, mais frágeis e sós.

Deixámos de ter tempos para os vários ritmos da vida, o que leva o Papa Francisco a afirmar “numa sociedade onde os idosos não falam com os jovens, os jovens não falam com os idosos, os adultos não falam com os idosos nem com os jovens, é uma sociedade estéril, sem futuro, uma sociedade que não olha para o horizonte, mas para si mesma. E torna-se sozinha.”

O romancista Ernesto Sábato diz assim no seu livro Resistir: “O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças. Estamos no caminho, mas não a caminhar. “Mas a vertigem não está só no exterior, assimilámo-la na nossa mente que não para de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça”. “Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito”.

Vivemos numa vertigem que nos consome a vida. Há que pôr um travão neste culto da velocidade, que nos leva à pobreza existencial.

19.07.22

Há dias, no seu habitual espaço de opinião no Expresso, a Senhora Isabel Moreira desabafava como é penoso ver vir sempre ao de cima o rançoso discurso defensivo contra as mulheres, quando estas se aproximam de cargos que tradicionalmente têm sido ocupados pelos homens. É o que se tem passado com a eleição do novo presidente da Assembleia da República. As duas personalidades portuguesas que têm sido apontadas são a Senhora Edite Estrela e o Senhor Ministro Augusto Santos Silva. Rapidamente a artilharia antiaérea dos homens se pôs em ação: “ele tem mais autoridade”, “ele inspira mais respeito”, “ele é mais consensual”, enfim, impera sempre o velho mundo normativo, social e político dos homens. Dou toda a razão à Senhora Isabel Moreira, e, de facto, é angustiante e deprimente ver uma mulher ser diminuída diante de um homem com esta soberba argumentação. Que eu saiba, a autoridade e o respeito é uma questão de competência, de formação humana e de educação, e não uma questão de sexo.

Lembrei-me da argumentação que escuto de muitos fiéis cristãos, quando vem à baila, por exemplo, o sacerdócio das mulheres. Se muitos homens preferem o silêncio ou o sorriso expectante ou indiferente, para espanto meu, a maior resistência que vou escutando é das mulheres, algumas até argumentando que a Igreja e a religião perderiam a sua credibilidade. Uma mulher no altar? Nem pensar! Qual a justificação? “Isso é para os homens, um homem mete mais respeito”. Fico boquiaberto diante de tamanha indigência argumentativa, a pensar no respeito que as minhas avós tinham e impunham, e na excelência e credibilidade de muitas professoras que tive. E constatando como é mais fácil mover montanhas do que mudar mentalidades e preconceitos.

Homem e mulher são diferentes. Têm aptidões e características díspares. Mas têm a mesma dignidade. As mulheres têm sido das grandes injustiçadas da história. Já se têm feito alguns progressos sociais, como equiparar os ordenados entre homem e mulher, mas, infelizmente, continuam ainda a ser subvalorizadas, desprezadas e discriminadas sem qualquer fundamento. A Igreja, lentamente, também já vai dando alguns passos, nomeando mulheres para cargos com algum relevo, por ação do Papa Francisco. Em muitos setores, elas são a força motriz da Igreja. Mas há muito a fazer. Se a Igreja reclama para si que gosta de ser pedagógica, então faça, quanto antes, por promover como deve ser a dignidade da mulher, abrindo os olhos a muitos cegos.  

19.07.22

Penso que a Igreja Católica fez bem em constituir uma comissão para estudar os abusos sexuais cometidos por membros do clero e por instituições católicas, na senda do que o Papa Francisco tem exigido, depois do encobrimento e silenciamento que se verificaram nas últimas décadas. A Igreja não é uma instituição qualquer, pelos valores e princípios humanos, sociais, morais e espirituais que defende e proclama, tem uma obrigação acrescida de dar o exemplo e de mostrar um compromisso com a justiça e a verdade sem qualquer sombra de ambiguidade e de hipocrisia. E se prega que Deus, preferencialmente, está do lado dos pobres e dos mais frágeis, não pode deixar de estar próxima dos mais frágeis, que foram vítimas de abusos sexuais perpetrados por membros do seu clero e das suas instituições, e lhes fazer justiça, com total transparência e solidariedade. E dar sinais claros de que este ato e crime hediondo será fortemente vigiado e combatido dentro da Igreja, com tolerância zero, como pede o Papa Francisco.  

Contudo, vale a pena recordar que é uma ínfima parte do clero de toda a Igreja que está envolvida na pedofilia. Mesmo assim de lamentar profundamente, sem dúvida, mas também há que ver a situação na sua justa medida e com o devido equilíbrio. E seria bom que esta iniciativa da Igreja, como candeia que vai à frente a alumiar duas vezes, servisse para despertar e comprometer toda a sociedade, porque a pedofilia é um problema social transversal a todas as instituições que trabalham com crianças e com jovens, a começar desde logo pela mais basilar, que é a família, onde está o maior número de abusadores e onde acontecem, possivelmente, a maioria dos abusos e crimes. Não é justo que se passe a impressão de que a pedofilia é só um problema da Igreja e que a Igreja fique sozinha com o ónus de expiar esta imoralidade sórdida. Se, de facto, a sociedade está profundamente escandalizada com a pedofilia, como acredito que esteja, então constituam-se mais comissões para se ouvirem testemunhos de todas as instituições e de todos os lados e hemisférios.  

É inadmissível que esta concentração das atenções na Igreja esteja a servir de júbilo e a ser usada como campanha para alguns setores sociais e forças políticas combaterem a presença da Igreja na sociedade e destruírem a sua credibilidade e autoridade junto das pessoas. E façam o favor de não misturar o celibato com a pedofilia, sabendo-se que a maior parte dos pedófilos são casados.  

19.07.22

Não percebo onde é que muitas pessoas vão buscar tanta certeza de que são de certa raça, como leio em jornais e vejo na televisão em debates. Não sei a que “raçómetro” se submeteram para afirmarem cristalinamente que são de uma raça e não de outra, ou que estudo laboratorial fizeram para afirmarem categoricamente que são de um certo tipo de raça humana. Mas faz algum sentido falar-se de raças humanas entre pessoas humanas? Alguém tem a certeza de onde veio e de que genes é feito? Se nos déssemos ao trabalho de ler aturadamente um pouco de história, prenhe de invasões, diásporas, missões, fugas, movimentações, viagens, cruzadas, descobertas, explorações, expedições, transumâncias de toda a espécie, restar-nos-ia perceber que somos um mistério e uma amálgama de células e genes que só o Espírito Santo poderá decifrar. Sabemos lá nós de que raça somos! Não existem raças humanas, existe é a natureza humana, presente em pessoas de origens diferentes, de etnias diferentes, com línguas e culturas diferentes, mas todas iguais e com dignidade igual, com os mesmos direitos e os mesmos deveres. Como diz Leon Tolstoi, no seu livro Ressurreição: “Os homens parecem-se com os rios: todos são feitos dos mesmos elementos, mas ora são estreitos, ora rápidos, ora largos, ora plácidos, claros ou frios, turvos ou tépidos”.

Considero o discurso à volta das raças humanas uma mistificação e uma construção intelectual com pés de barro, sem qualquer fundamento, um debate estólido, infelizmente, ao serviço de muitos que parece que precisam de arranjar formas de diferenciação dos outros e de se sentirem superiores, de inventar causas e inimigos para combater ou desprezar, de aprovar suposições e narrativas que só existem nas suas cabeças, mas fazem-no absortos no reino da fantasia. E quando ouvimos proclamar que há uma raça humana mais legítima, pura e distinta do que as outras, possivelmente mais apurada e inteligente do que as outras, a glorificação da supremacia de umas pessoas sobre outras, só nos resta responder com uma trovosa gargalhada e uma rotunda reprovação.

Há que desmascarar e manifestar uma profunda repulsa por todo e qualquer discurso que sustente diferentes raças humanas. Uma pura falácia. Existem pessoas. O rasto tenebroso e bárbaro que este tipo de teorias mistificadoras e diabólicas, levadas ao extremo, deixou na história humana, já nos deveria ter ajudado a abdicar destes discursos e a termos mentes mais arejadas e menos pérfidas.   

19.07.22

Já existiam vários conflitos ativos, onde populações estão a ser forçadas a fugir ou são dizimadas com a mesma barbaridade que está a acontecer na Ucrânia, a viver em condições degradantes, no maior dos infernos, sem roupa e alimentação, com muitas crianças e jovens, mas não se vê um direto dessas terras esquecidas, nem suscitam ondas de solidariedade com a mesma pujança da resposta à guerra na Ucrânia. 

Desfazemo-nos agora em mediáticas ondas de solidariedade, muito emotivas, para com o povo ucraniano e fizemos emergir uma desenvoltura surpreendente para arranjar refúgio e condições de integração para todos, quando, não vai há muito tempo, se bem se lembram, pouco ou nada fizemos para receber os refugiados que vinham de África, cometendo a loucura de atravessar o mediterrâneo num bote, e quantos não se afogaram e serviram de alimento aos tubarões! E quantos corpos não deram à costa, para nossa imorredoira vergonha! Viram os europeus a agilizarem céleres corredores humanitários ou a lançarem uma frota ao mar para ir em socorro destes desventurados refugiados que fugiam da miséria, da barbárie e da guerra como fogem os ucranianos? Com a agravante de fugirem de conflitos que os europeus geraram ou alimentam. Bem teve o Papa Francisco de se deslocar a Lesbos e apelar à gélida indiferença europeia, afirmando que o «O Mediterrâneo está a tornar-se um cemitério frio sem lápides», condenando a falta de compaixão europeia, que pouco ou nada fazia, e que os recebia à paulada e os recambiava para a morte, ou levantava muros ou gigantescas armações de arame farpado para os conter, os amontoava em campos de migração, oferecendo-lhes uma pobre tenda. O que se ouvia então? «Não podemos receber toda a gente», «não temos condições», «muitos são delinquentes». Enfim, desculpas para não ficarmos mal na fotografia e parecermos gente civilizada, mas a vida encarregou-se de fazer justiça e de desmascarar a nossa hipocrisia, incoerência e injustiça, e como nós europeus também só sabemos ver muito para o nosso lado e temos muitas falhas para lá dos belos discursos que proferimos. Num ápice, todas aquelas condições aparecem para os ucranianos, não faltando agora quem não queira aparecer bem junto de ucranianos, proclamando os belos princípios da solidariedade e do humanismo. O que está a ser feito aos ucranianos está bem feito. Não dá é para compreender a diferença de tratamento e solidariedade que tivemos com outros refugiados, que foram mal recebidos.

19.07.22

Não fiquei surpreendido quando li a notícia do Expresso, informando que, segundo um inquérito conduzido pela Fundação Gulbenkian e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 61% dos portugueses não leram um único livro durante o ano. Sempre tive a impressão que somos um povo que lê pouco, persistindo aquela ideia com forte enraizamento cultural que ler livros é para ociosos afetados, extravagantes candidatos ao pedantismo, e que é uma completa perda de tempo. Os livros e a leitura são perfeitamente dispensáveis, quem se dedica a trabalhos sérios não quer saber de livros. O importante é a escola da vida, os livros são ficção prescindível. É esta atmosfera cultural que ainda nos mantém divorciados da leitura e preconceituosos para com os livros. Mas não só, claro. Ainda temos razoáveis níveis de analfabetismo, a internet, a televisão e a imprensa vieram ocupar muito tempo às pessoas, são mais frescas e exigem menos esforço, privilegia-se, hoje, mais a leitura de conteúdos instantâneos e concisos, o debate e partilha de ideias nas redes sociais, a vida apressada e ocupada deixa pouco tempo para a reflexão e o silêncio, fundamentais para a leitura. Já se fala até de estarmos num tempo pós-literário. Já quanto ao argumento de que os baixos rendimentos desfavorecem a leitura e a compra de livros é discutível, porque temos hoje uma boa rede de bibliotecas públicas, onde se podem ler e alugar livros. Portanto, não faltam livros para ler e só não lê quem não quer.

Não escondo que gosto de ler e sou apaixonado por livros. Gostaria que mais portugueses partilhassem desse douto prazer, em vez de perderem muito tempo só a ver jogos de futebol, novelas, as parangonas dos jornais, e programas de televisão onde abunda a mediocridade. Ler e escrever é do mais estruturante para o ser humano. A escritora Lídia Jorge dizia aqui há uns tempos: “a literatura é a arte mais densa de todas, a mais exigente de todas. Está a acontecer uma perda de leitores e de literatura, que encaminha as sociedades para um estado de selvajaria, porque é na literatura, na leitura, que se aprende a criar valores, porque a leitura vem ao encontro da necessidade que temos de exercitar um cérebro lento, um cérebro onde é possível evitarmos o correr do tempo, minuto a minuto, e entrarmos num tempo subjetivo, onde é possível fazer comparações, tirar ilações, e isso é lento, muito lento, a arte que faz isso melhor é a literatura”.

Ler também nos salva e humaniza.

19.07.22

De certeza que já nos deparámos com algum cartaz da campanha “aprender faz parte” da Fox Life numa paragem de autocarro ou até nalguma folha de jornal. Este canal televisivo aproveita os intervalos das suas séries para oferecer um “momento de aprendizagem” sobre as terminologias relacionadas com a identidade de género e sexualidade. Assim se presta, segundo dizem, uma “homenagem e um compromisso com a promoção da literacia de identidade de género e combate à intolerância e ao preconceito”. É de ficar espantado como é que nasceram, ultimamente, tantas identidades de género e orientações sexuais como cogumelos, como por exemplo: Não binária; Queer; Trans; Cis ou Cisgénero; Aliada; Pansexual; Misgendering, entre outras. Pelo que vejo, atualmente, no campo da sexualidade, vale tudo, e todas as combinações são possíveis e aceitáveis. O que importa é o que se vai sentindo no momento e tudo sacrificar e mudar pelo prazer e o fruir rápido e imediato. Deves ser o que sentes a cada momento. E, claro, continua-se com a desconstrução ideológica do masculino e do feminino. A natureza não vale nada, nem tem que te impor nada. Tu és o que queres, quando queres e com quem queres.  

Sinceramente, isto não me parece orientação, mas caos e desorientação sexual. E não venham já com a conversa do não julgar. A primeira atitude de um cristão é acolher as pessoas e não julgá-las, mas temos de nos perguntar até que ponto tudo isto tem sentido e se não estamos a contrabandear a natureza humana e educar as pessoas numa autêntica trampa ideológica, bem servida por interesses e poderes bem instituídos. Já está mais do que comprovado e aceite que existem pessoas homossexuais e bissexuais, homens com personalidade feminina e mulheres com personalidade masculina. O mais que se anda a inventar parece-me pura manipulação de uma grande franja da sociedade que é individualista, vive muito só, não tem referências, e vive muito centrada no consumo e no prazer da vida. Por isso, é muito volátil e manobrável para muitos fins e interesses.

Não é aceitável que se entenda o ser humano como um produto que se pode ir moldando ao sabor do sentimento e do fruir do momento. Há uns anos, a morte e a eternidade estavam no centro das preocupações das pessoas, o sexo era tema tabu, era pudor. Hoje a morte está transformada no tema tabu e a sexualidade ocupa o centro das atenções, ao ponto de se estar a tornar doentia. A sexualidade é uma dimensão importante da vida, mas não é o centro da vida.

19.07.22

No dia 7 de maio, a senhora Inês Menezes, no seu programa Fala com Ela, na Antena 1, convidou a fadista Aldina Duarte. A um certo momento da entrevista, diz assim Aldina Duarte: “O meu Deus é um Deus pleno de amor incondicional. Por isso é que não sou católica, porque a parte do sacrifício, do sofrimento e da culpa não. Sou profundamente cristã, não tenho o culto do sacrifício e do sofrimento. Acho horrível isso. O meu Deus vem pela via da doutrina do Cristianismo, e não é uma razão. Encanta-me a ideia de que há uma forma de existência para o amor incondicional. O meu Deus é o Deus que vem pela via cristã, pleno de bondade e amor incondicional”.

Diga-se, em primeiro lugar, que o Deus católico é um Deus de amor incondicional e assim se deu a conhecer em Jesus Cristo. A cruz de Jesus, que Ele livremente aceitou, é a maior prova e sinal do amor infinito e incondicional de Deus pela humanidade.

Não ser católica porque o catolicismo propõe o sacrifício e o sofrimento para expiar a culpa, é uma afirmação incorreta. O Deus de Jesus Cristo não exige sacrifícios cruentos e dolorosos, como eles existiam noutras religiões ou práticas religiosas, em que se ofereciam vítimas esquartejadas a Deus, num altar, para pedir misericórdia, a bênção de Deus ou aliviar a ira de Deus. Isto não existe no Cristianismo. Deus não exigiu o sacrifício de Jesus Cristo para remir os pecados do mundo, nem a morte de Jesus, tal como aconteceu, fazia parte de um plano sanguinário e maquiavélico de Deus para salvar a humanidade. Uma conceção cristã que sustente esta ideia é descabida. Os acontecimentos encaminharam-se para uma paixão violenta e, diante da paixão, Jesus Cristo não recuou e ofereceu a sua vida, e Deus aceitou-a. Portanto, quando no Cristianismo se fala de sacrifício estamos a falar de entrega livre e amorosa, estamos a falar de oferta, dom de si a Deus e aos outros, por amor, e não exigência cruel de Deus para expiar o pecado ou a culpa humana.

Quanto ao sofrimento, é outro equívoco. Jesus no seu tempo combateu o sofrimento e foi um libertador para as pessoas. Portanto, o sofrimento não agrada a Deus, nem Deus quer o sofrimento da pessoa humana, e se alguém pensa que agrada a Deus impondo-se a uma dilacerante experiência de sofrimento, está-se a desviar do caminho e do Evangelho de Jesus. O amor é que importa. Por vezes, o amor pode implicar sacrifícios e sofrimento. Mas isso é outra coisa. E quem ama de verdade sabe do que estou a falar.

19.07.22

Os últimos dados confirmam uma tendência dos últimos anos: os casamentos na Igreja estão em queda livre. São dados que não me suscitam apreensão e angústia. Claro que, como padre, gosto de ver os casais a abraçar o matrimónio da Igreja e constituírem uma família, mas prefiro que quem case na Igreja o faça bem, por poucos que sejam, do que termos muitos matrimónios celebrados sem espírito cristão e sem adesão aos valores e ensinamentos da fé cristã, num mero cumprimento cultural ou de tradição religiosa e social.

Infelizmente, o casamento está transformado numa mera festa social, para juntar família e amigos, fazer um álbum de fotografias vistosas e chiquérrimas, dar largas à gula e cumprir uns tantos rituais e momentos de diversão, ditos inesquecíveis, com que temos vindo a atafulhar os casamentos. Oportunidade única para mais consumismo, exibicionismo, doses transbordantes de emoção e folia.

Quem dá uma vista de olhos pelo caderno de encargos dos noivos, não pode deixar de ficar assombrado. Uns quantos meses antes começam as festividades, mil e uma preocupações tomam conta dos noivos e amigos mais próximos. Orçamentos para tudo e mais alguma coisa, com empresas muito bem preparadas para satisfazerem todos os caprichos e prestimosas extravagâncias dos noivos e as etiquetas e praxes imprescindíveis dos tempos modernos, onde não faltam despedidas de solteiro ou solteira exóticas e inéditas, e algumas, diga-se, aberrantes. Pobres noivos, quando deveriam passar um tempo sereno de ponderação, descoberta e aprofundamento do seu amor, são metidos num furacão de preocupações e necessidades estultas e desgastantes! Tem sentido tanta coisa?

Depois de tanto ruído e de tanto aparato, de tanto frenesim e de tanta festança, temos uma taxa de divórcios impensável, para não dizer vergonhosa, bem servida pela imaturidade, o individualismo e hedonismo reinantes. Temos uma sociedade que transformou o divórcio numa moda e normalizou o divórcio. Afinal, que espécie de casamentos são estes que andamos a celebrar? Que sentido têm muitos dos casamentos atuais? Tudo parece reduzido ao negócio, à diversão, à realização de um sonho pueril ou o cumprimento inconsciente e fugaz de um costume social.

É incompreensível o que se passa com os casamentos. É preciso mais seriedade, compromisso e maturidade. É preciso mais substância e menos aparência, mais verdade e menos diversão, mais simplicidade e autenticidade e menos encenação e quinquilharia desnecessária.

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