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minhas notas

11.02.21

Um pai de Famalicão impediu dois filhos de frequentarem a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento pelo facto de alguns conteúdos da mesma irem contra as suas convicções e valores. A escola ameaçou chumbar os alunos por excesso de faltas. O tribunal suspendeu a decisão da escola, parecendo dar razão ao pai ou, talvez, recomendando mais reflexão e ponderação sobre a disciplina e a decisão. Entretanto, a sociedade mobilizou-se e surge um manifesto a reclamar a liberdade e a responsabilidade dos pais na escolha da educação dos filhos e a possibilidade de existir a objeção de consciência para certas matérias. Surge um contramanifesto a defender a disciplina e a sua obrigatoriedade, com a multiplicação de afirmações e de artigos na imprensa, dos dois lados da barricada, por vezes com algum radicalismo desnecessário e arrastando-se o debate para os velhos lugares comuns esquerda/direita ou conservadores e progressistas, quando não era nada disso que estava em causa. É lamentável a pressa que hoje se nota em classificar ou em desclassificar a posição de quem pensa diferente de nós e já começa a ser insuportável a arrogância de grupos bem pensantes que se acham os donos da modernidade e do verdadeiro progressismo humano e social. Sabemos pela história como acabaram muitas destas arrogâncias.

A Igreja sublinhou, mais uma vez, que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e devem ter liberdade em escolher o melhor para a educação dos seus filhos. E está disponível para uma melhor clarificação e debate dos conteúdos da disciplina. A Igreja já ensina há muito tempo que o cristão tem o dever de ser um cidadão exemplar, de saber viver em sociedade, de ter cultura democrática e cívica, com os seus direitos e deveres, acolhendo e respeitando as regras sociais, de respeitar a justa e legítima autoridade instituída, de contribuir para o bem comum, pagando os seus impostos, de agir sempre com respeito e responsabilidade por si e pelos outros, de cuidar do meio ambiente, de saber aceitar e conviver com a diferença e as díspares formas de viver e de pensar, agindo com tolerância, e tem de ser um defensor e promotor dos direitos humanos.   

Nunca esteve em causa ensinar a ser um bom cidadão e bem saber viver em sociedade. Nunca ninguém esteve contra isto, nem se poderia estar, como alguns artigos deram a entender. O que realmente esteve e está em causa é que alguns conteúdos da disciplina são muito questionáveis, não são consensuais, e estão prenhes de ideologia, em claro confronto com as convicções de uma boa parte da sociedade portuguesa, para não falar da comunidade médica, académica e científica. E as ideologias não devem ser impostas na escola, como manda a nossa Constituição. Poderão e deverão estar presentes no debate escolar, pelo confronto com o contraditório e o fomento do espírito crítico, mas não ser impostas. Nomeadamente, está em causa a ideologia de género, em que se passam teorias que estão envoltas em grande polémica, são muito discutíveis, não devendo, por isso, fazer parte do currículo escolar, para além de outros conteúdos de carácter sexual e antropológico merecedores de reserva. Não há necessidade nenhuma de se estar a intoxicar a mente de crianças e jovens com teorias que não têm sólida sustentação e que podem provocar uma grande perturbação e confusão no seu crescimento humano e social.

A escola sempre foi uma tentação para grupos políticos e sociais formatarem cidadãos de acordo com as suas cartilhas ideológicas para fins políticos e sociais ou outros fins. Há que combater esta tentação. A escola deve servir acima de tudo para ajudar a pensar sem pressa de impor nada, de formar cidadãos livres, com espírito crítico, que sabem pensar e adquirir conhecimento, agir sempre com inteligência e responsabilidade, e não para domesticar meninos e meninas para os interesses de grupos ou doutrinar com modas sociais ou formulações ideológicas de duvidosa certeza e progresso. Parece-me é que se muitos pais fossem pais como deve ser, esta disciplina não precisava de existir na escola. Hoje, infelizmente, educa mais e mal a internet e a televisão.  

11.02.21

O teólogo José Maria Castillo, num artigo de opinião num jornal digital espanhol, escrevia há dias, no seu tom frontal e cáustico: «Eu não digo que a Igreja deve mudar ou tem que mudar. O que eu digo é que a Igreja mudará. Porque ela não tem escolha. Ela não tem outra saída. A Igreja que temos agora, como está, não pode durar muito. Todos os dias há menos padres, menos religiosos, menos vocações para seminários e conventos. E todos os dias também mais paróquias sem padre, mais fiéis sem Missa e mais pessoas sem sacramentos». E na parte final do seu artigo, o teólogo sentencia: “A Igreja estagnou - e continua estagnada - em pensamentos, costumes e cerimónias anteriores à Modernidade, a Igreja afunda e aí permanece, presa em ideias, deveres e cerimónias, que quase ninguém entende e nas quais quase ninguém está interessado”.

Não partilho totalmente da opinião tenebrosa e negativa do teólogo espanhol, mas dou-lhe razão quanto à necessidade de mudanças na Igreja. Aliás, diz uma velha máxima da Igreja que a «Ecclesia semper reformanda», a Igreja está sempre a reformar-se, a mudar, a precisar de reforma. E, de facto, é preciso agir rapidamente para que a Igreja possa continuar a bem cumprir a sua missão de anunciar o Evangelho e de levar a salvação de Jesus a todos. Uma das grandes reformas que urge realizar é a promoção do laicado na Igreja. Já assim devia ter sido desde sempre. Devido à clericalização da vida da Igreja, os leigos foram secundarizados na ação e intervenção da Igreja, de tal maneira que ainda hoje quando se fala de Igreja toda a gente pensa no Papa, nos bispos e nos padres, os que pensam, os que sabem e os que «mandam», os outros, os leigos, obedecem. O seu lugar e missão é no mundo, sem dúvida, onde são chamados a levar o espírito do Evangelho e a testemunhar a fé cristã, mas também é na Igreja, onde têm o seu lugar próprio para que a Igreja celebre a sua fé e cumpra a sua missão, e devem ser chamados a participar nas decisões da Igreja.

Como dizia há dias o padre Tony Neves, numa entrevista à Renascença, «o grande desafio para a Igreja em 2020 é a emergência de um laicado forte porque, sobretudo na Europa e no norte da América, que foram os continentes que mandaram na Igreja durante 20 séculos, clericalizámos demais a Igreja, e pusemos tudo muito em cima das costas dos bispos e dos padres, com consequências a meu ver desastrosas, a todos os níveis, mas sobretudo de caráter pastoral», consequências fáceis de comprovar. «De uma vez por todas deixemos de pensar que os bispos e os padres é que têm de fazer tudo na Igreja, é que têm de ter toda a autoridade e tomar todas as decisões, e que se eles não estiverem o mundo acaba. Não é verdade. O que nos caracteriza como cristãos é o nosso batismo, tudo o resto são ministérios, e o Papa e a Cúria podem depois ir distribuindo esses ministérios de acordo com as necessidades pastorais». Nos inícios da Igreja houve uma grande riqueza e variedade ministerial, distribuição de tarefas. Todos eram chamados a contribuir e a participar ativamente na vida da comunidade e todos participavam nas decisões e na resolução dos problemas. O Evangelho assim o testemunha. Com a institucionalização que a Igreja adquiriu com a liberdade do Império Romano e pela Idade Média fora, clericalizou-se a vida da Igreja. Há que regressar aos alvores da Igreja. É urgente formar leigos para se poder assegurar a celebração do Domingo nas comunidades cristãs. O atual ritmo paroquial, centrado na ação do padre, está a espremer os padres, que se sentem cada vez mais perdidos e cansados, a assegurar uma pastoral de manutenção sem futuro. Já temos o bom exemplo da Diocese da Guarda, onde muitos leigos – algumas senhoras - asseguram a celebração do Domingo na ausência do padre, com muitos bons resultados pastorais.  

A primeira e mais difícil mudança é sempre a nossa mentalidade. Para muitos cristãos, a religião só faz sentido com o padre. Foi o modelo que imperou na vida da Igreja. Mas a igreja são todos os cristãos e não apenas o padre. Também há religião para lá do padre. Como diz o padre Tony Neves, «o Papa disse que a memória e a tradição não são armários onde a gente mete e tira coisas. A memória e a tradição também evoluem, também têm de ser evolutivas. E sobretudo temos de acreditar que o Espírito Santo não está a dormir, e portanto, ir renovando, ir mudando é qualquer coisa que devia fazer parte da dinâmica normal da Igreja». Há dois mil anos, foi um leigo judeu chamado Jesus que fez estremecer o Judaísmo e a sociedade do seu tempo. Está na hora de uma emergência laical na Igreja.

11.02.21

Estamos a chegar ao fim de um ano que jamais iremos esquecer. Nem o mais astuto dos adivinhos e o mais desperto dos profetas previram que uma pandemia fulminasse a humanidade no ano de 2020. E então para o homem contemporâneo, que se ufana ou ufanava de já ser controlador e dominador de quase tudo, foi um estrondoso rombo no seu orgulho e na sua altivez. O pior de tudo foi a partida inesperada e súbita de um número considerável de pessoas, algumas amadas e conhecidas, que nos deixaram estranhamente num apagar de olhos, e o enfrentamento de uma grave crise económica e social no próximo ano ou anos, que vamos tentar suster à bazucada. Mas o dinheiro não vai resolver tudo, muito longe disso. Chegamos ao fim de 2020 tristes, mais pobres, mais desorientados, letárgicos, inseguros, desconfiados e medrosos. Que as vacinas que aí vêm, o grande presente da ciência, este ano, para a humanidade, nos ajudem a vencer o sigiloso ladrão viral que nos amedrontou e roubou a vida e a alegria de viver nos últimos meses, e quebrem rapidamente o gélido medo que tomou conta da humanidade!

É tempo de fazer contas à vida. Que homem ou mulher somos neste momento? Em que humanidade nos tornámos depois de termos descido às profundezas da nossa fragilidade e da nossa insignificância? Que ser humano queremos agora ser uns para os outros e que novo rumo estamos dispostos a dar à vida e ao mundo? Que homem e mulher vão sair desta fulmínea e colérica pandemia? Mal da nossa sorte se tudo isto não passar de uma forçada intermitência e vamos já a correr para a vetusta e desequilibrada vida que estávamos a viver, assente em valores e pilares inconsistentes e efémeros, geradores de injustiça, desumanidade, solidão, escravidão e infortúnio. Má sorte a nossa se não saímos mais humanos e mais responsáveis deste tenebroso tempo, que suspendeu a vida!

Estaremos dispostos a operar uma verdadeira mudança dentro de nós e no mundo? Como dizia há dias D. José Tolentino Mendonça, «a pandemia não é só um acidente de percurso, é uma aceleração do futuro e vem de encontro àquilo que o Papa tem referido que é, nós não vivemos apenas num tempo com mudanças, nós vivemos numa mudança de tempo, vivemos numa mudança de época». Não podemos persistir «num mundo onde o sonho de liberdade e de igualdade é feito em pedaços. Um mundo onde nos sentimos a voltar para trás, onde alguns fantasmas, algumas ameaças à liberdade, à dignidade da pessoa humana, ao reconhecimento da igualdade fundamental, coisas que julgávamos adquiridas nas nossas sociedades, hoje voltam a ser postas em questão». No mundo que estávamos e ainda estamos a viver, «as sociedades desistiram de construir um projeto social para todos e aceitam-se desigualdades, assimetrias, que há nações de primeira e nações de segunda, que há países descartáveis».

Qual a solução ou o caminho? Diz D. José: «O Papa em alguns momentos diz que precisamos de um sonho. Há na nossa geração déficit de sonho, de capacidade de sonhar, e precisamos juntos de forma polifónica, universal, construir a visão de um mundo mais justo, mais fraterno, onde uma amizade social e vontade de entrar em diálogo seja uma realidade». Há dois mil anos Deus veio partilhar connosco o seu sonho: com o seu Filho enviado ao mundo, construir connosco uma verdadeira fraternidade entre todos os povos e todas as pessoas e edificarmos a civilização do amor para todos, com vida em abundância para todos, o que Jesus chamou o Reino de Deus. Caberá este Reino nos novos tempos que queremos construir? Será que Deus cabe nos nossos prioritários sacrossantos macroprojectos que já andamos a elaborar? Ou vamos remetê-lo, mais uma vez, para uma incógnita hospedaria, reduzindo-o à irrelevância, até arrastarmos a humanidade para outro tempo sem sentido e sem futuro?  

Vamos ter um Natal diferente, é verdade. Que todos os cristãos e todas as famílias se deixem envolver pelo amor sempre novo de Deus e pela verdadeira luz que nos aponta caminhos para uma nova época.

11.02.21

As alterações climáticas e o meio ambiente estão finalmente na ordem do dia e vão marcar a discussão e a agenda mediática nos próximos anos. Já assim devia ter sido há muito tempo, quando surgiram alertas de muitos estudiosos e especialistas na matéria e de muitas instituições e associações preocupadas com o futuro do planeta. Até os Papas da Igreja, nos últimos anos, foram lançando alguns avisos sobre as agressões à natureza e apelando a maior consciência e responsabilidade no cuidado da criação e da terra, casa comum de todos os seres humanos.

Muitos acharam exagerada e até adiável esta advertência moral e longínquos os cenários catastróficos. Agora que vemos as águas das diabólicas intempéries a invadirem as nossas casas, a arrasarem tudo com gigantescos rios de lama e os nossos telhados a voarem como aviões de papel, percebemos finalmente que temos de aplicar mudanças e urgentes corretivos, e mudar atitudes e comportamentos, sob pena de caminharmos para o precipício e arrastarmos a humanidade para um abismo. É bom ver o envolvimento dos jovens, a agarrarem uma causa, que muito lhes diz respeito, e ainda bem que eles começam a entender que a vida não é só diversão, futebol, fazer noitadas em festivais de verão, passar só o tempo em vídeos jogos ou colados às redes sociais, derreter baterias de telemóveis a jogar uma infinidade de jogos, alimentar sonhos de viagens para países exóticos. Têm um mundo para assumir e construir e está na hora de lutar pelas boas causas da vida e do mundo. Espero que esta preocupação pelo ambiente não seja só fogo de vista e um entusiasmo passageiro, o alinhar com a moda e o pensamento dominante e se tornem mais conscienciosos e comprometidos para a vida.

Uma ingénua certeza ou convicção, ou muitos considerarão uma irresponsabilidade imperdoável, nos trouxe até aqui: pensarmos que os recursos da terra são inesgotáveis e que o planeta tem antídotos e resistência para suster todas as agressões que lhe são feitas. Não é verdade. E os sinais já são visíveis há muito tempo. Teremos de repensar o nosso estilo de vida, que é materialista e consumista, as fontes das nossas economias, o discurso político, que só sabe falar de crescimento, e as políticas desse mesmo crescimento, que terão de ser, obrigatoriamente, mais amigas do ambiente. E estaremos mesmo dispostos a mudar? Vamos trocar o nosso bem-estar e o nosso nível de vida num estalar de dedos? A ver vamos.

Não é preciso é seguir o caminho da acusação fácil e do radicalismo, como se em meia dúzia de dias se recupere o que andámos a fazer erradamente durante décadas. Não é possível. As mudanças que é preciso pôr em prática devem ser implementadas com gradualidade e ponderação, não se comprometendo o presente e não se gerando grande perturbação social, apesar de sabermos que há mudanças que vão exigir grandes sacrifícios. A decisão do Senhor Reitor da Universidade de Coimbra, de decretar o fim da carne de vaca nas ementas das cantinas da Universidade, é do tipo de decisões radicais que, de momento, não são bem-vindas. Porque é complexo e gera perturbação social. Em que é que se baseou o Senhor Reitor para tomar esta decisão? Não faltam estudos que mostram a importância do gado bovino na preservação de ecossistemas, no combate à desertificação, na obtenção de estrume para a agricultura biológica, e é uma legítima fonte de rendimento para muitos agricultores. Agora temos os tratores e quando não tínhamos os tratores como é que lavrávamos as terras? Só falta agora acabar com o gado e os tratores, que também poluem, e quero ver como é que há agricultura para toda a população mundial. A palavra de ordem mais correta seria e será reduzir e gerir de forma mais equilibrada a sua criação e não cortar radicalmente com a criação de gado e com a sua carne na alimentação humana, onde desempenha ainda um papel importante. Para além desta, outras precipitações andam por aí, cabendo-nos refletir melhor e não embarcar acriticamente em modas e convenções.  

O que cada um poderá fazer melhor, neste momento, é fazer um exame de consciência sobre a forma como trata os bens do mundo e como se relaciona com o ambiente e a natureza. Abusamos de muitos recursos da terra, destruímos e desperdiçamos estupidamente muita coisa. Todos conhecemos valetas cheias de lixo, estaleiros ao ar livre que servem de lixeiras, buracos a céu aberto para onde se deitam animais mortos, tornando o espaço irrespirável, rios poluídos, paisagens devastadas, onde vemos a natureza a sagrar pelos golpes que o dito ser humano inteligente e bem educado, que tem a missão de ser bom administrador e cuidador da criação, lhe inflige.

11.02.21

Estou espantado pela forma acrítica e leviana como estamos a importar e a assimilar costumes e tradições alheias à nossa cultura e ao nosso património humano, social, religioso e espiritual, de duvidoso interesse e valor, e pela forma como estamos a ceder à lassidão e ao desinteresse ou quase total indiferença face aos valores e à cultura em que sempre fomos educados e formados, que sempre considerámos a mais correta, a mais valiosa e digna para o bem e a realização das pessoas.

Com os meios de comunicação social, os inúmeros instrumentos tecnológicos que temos à mão e pela fácil e rápida mobilidade das pessoas, ganhou força o fenómeno da globalização. Os usos e costumes, as tradições e práticas, as culturas e hábitos de todos os povos passaram a ser conhecidos e partilhados por todos. Mas como seria de esperar, os povos mais poderosos e ricos mais facilmente se iriam impor aos povos mais pobres e menos poderosos. A globalização tem sido sabiamente conduzida por grandes grupos de interesses e por centros de poder que querem estender os seus tentáculos por todos os cantos do mundo. Uma série de ideias, de causas, de produtos, de modas e de manifestações culturais passaram a ser veiculadas com engenhosa comunicação e hábil manipulação, ganhando atenção e espaço em muitas sociedades humanas, a nível mundial.

Portugal não foge à regra. Anda por aí agora este fascínio, segundo dizem, pelo oculto, pelo místico, que, na verdade, de oculto e de místico não tem nada, não vejo que experiência misteriosa as pessoas fazem a não ser divertirem-se, mas divertimento não é misticismo, com grande influência americana, como é a sexta-feira treze e o Halloween, este com grande expressividade nas terras do tio Sam, processo liderado por algumas multinacionais e indústrias do «mistério», que argutamente vão conquistando cada vez mais adeptos para estas importadas atividades culturais. No nosso povo sempre persistiu alguma crença difusa por poderes estranhos e figuras bizarras e algum encantamento pelo desconhecido, mas nunca ao ponto de se poder dizer que é uma marca clara da nossa cultura. Dizer o contrário é uma falácia. Sempre foi uma questão lateral e menor da nossa cultura portuguesa, da cultura do nosso povo, agora estranhamente ou habilmente promovida a grande tema da cultura popular.  

Como me custa ver dar tanto interesse a um tema menor da vida e não se dar o devido interesse às coisas importantes da vida, como é ainda a nossa cultura e a nossa formação cristã. Se se pede a muitos cristãos e a muitos pais cristãos que organizem alguma coisa na Igreja para enriquecerem e aprofundarem a fé dos filhos, é notório o alheamento, o desinteresse, a desistência, o forçamento, a indolência. No entanto, quando se trata de participar e organizar estas americanizações que nos andam a impingir, há um entusiasmo, um interesse e uma desenvoltura que nem um gato tem. Quando se pede a muitos, que ainda se dizem cristãos, que apostem mais na sua formação e na descoberta da beleza da sua fé, reina a procrastinação e a apatia. No entanto, quando se trata de saber historietas e lendas de figuras imaginárias, há um forte empenho e uma supina dedicação.

Não sou contra o divertimento das pessoas e, diante do avançado e avassalador processo de globalização a que estamos a assistir, seria ingénuo pensar que estas coisas mais tarde ou mais cedo não passariam por aqui, o que eu não acho bem é que nós não tenhamos o mesmo empenho e determinação para as coisas mais importantes do que estas, como é a formação e a vivência da fé, o compromisso com a Igreja, a formação cristã e a vida cristã dos jovens e das crianças, a educação humana e moral, a curiosidade e o apreço pela nossa cultura cristã. A troco disto, andamos para aí atrás de fantochadas galhofeiras e pagãs, que divertem, mas não trazem nada de belo, de sábio, de profundo e consistente à vida.

11.02.21

Quem anda por algumas zonas de Barroso ainda se confronta com alguns estaleiros, ruínas, algumas crateras e buracos que ficaram da extração de minério de outros tempos, como o volfrâmio, entre outros. Não se teve o cuidado de acautelar a beleza do espaço e da paisagem e perigos futuros, deixando-se tudo atabalhoado, desfigurado, atestado da incúria e da incompetência do Estado português, que não soube, e não sei se já sabe, zelar devidamente pelo seu território, pelos seus recursos naturais e pelo património natural. Há zonas que os caçadores, e até os pastores, evitam, porque se sabe da existência de buracos sem fundo, fatais para a queda de um caçador ou de um animal. Quem explora devia ter a estrita obrigação, com a devida fiscalização das autoridades responsáveis, de deixar o espaço sem armadilhas, bem cuidado, minimamente vistoso para o olhar humano, se ainda é possível. O que importava era fazer dinheiro fácil, com um povo que assistia impávido e sereno, sem a sensibilidade e as preocupações ambientais que hoje, felizmente, já tem.

O povo de Barroso tem tido uma história marcada com algum infortúnio. Já não bastando viver numa terra fria e pouco fértil, comparada com outras, há umas décadas atrás viu um bom número de terras serem engolidas pelas águas puras das barragens, a troco de uma bagatela, levando ao êxodo de algumas famílias e de algumas pessoas, e não se esquecendo os encargos climatéricos que as barragens oferecem para sempre. Também se ganhou alguma beleza pelos grandes lagos de água, mas a custo de muitos prejuízos. Agora toma a dianteira a saga da extração do lítio, mineral importantíssimo para a transição energética que as sociedades contemporâneas estão a promover, suscitando, por isso, o interesse de muitas empresas, por, neste momento, ser um mineral valioso e muito rentável. E, pelos vistos, as reservas de lítio em Barroso são muito boas. Estão identificadas três grandes jazidas: Sepeda, em Carvalhais, Cepeda de Sarraquinhos e Covas do Barroso, no Concelho de Boticas.

O que mais me impressionou neste processo todo, que agora está no centro de um necessário e obrigatório debate público, foi a forma como tudo se fez até agora, sobretudo por parte do governo. É de ficar pasmado com a indiferença com que a região de Barroso é tratada. Autorizaram-se prospeções e assinaram-se contratos com empresas sem se ter feito qualquer esclarecimento à população e sem se apresentar estudos sobre o impacto ambiental, sabendo-se perfeitamente que a extração do lítio não é limpa, tem grandes custos ambientais, e tem efeitos perniciosos para a paisagem e o bem-estar das populações. Para Lisboa só importa que se assegurem empregos nos grandes centros e que o dinheiro das cauções entre nos cofres do governo, e pergunto quanto dinheiro dessas cauções chegará a Barroso, para desenvolvimento da região. Estamos mesmo a adivinhar. Já não espantam estas desconsiderações de lisboa.

Alguns dirão que temos uma enorme riqueza debaixo de terra e que é pecaminoso não a extrair, podendo ser aplicada no crescimento dos Concelhos interiores e sendo de grande utilidade para o mundo atual nas próximas décadas. E que se o lítio não for extraído em Barroso, será extraído noutras regiões do mundo, não nos preocupando com o bem-estar dessas regiões também. Queremos ter telemóveis, computadores e carros elétricos, mas não queremos contribuir para a sua fabricação. Isto vai-se ouvindo, mas a questão é como tudo tem sido realizado. Não se convocou o povo ou as entidades que o representam para se avaliar os benefícios e os malefícios da exploração e ter uma palavra a dizer, porque tem, não se apresentaram a tempo e horas formas de exploração apropriadas e sustentáveis de forma a minorar os efeitos devastadores da extração, com a devida informação às pessoas, não se apresentou um estudo do impacto ambiental digno desse nome, não se apresentaram contrapartidas e garantias para se oferecerem algumas beneficiações para as populações e as regiões, acenando-se apenas com a parca criação de alguns empregos. Muito pouco.

Em boa hora a população sentiu um sobressalto e com maturidade democrática e cívica reagiu, solicitando informação e uma séria discussão, que, primeiro que tudo, lhes deveria ter sido prestada, e manifestando que se os seus interesses e o seu bem-estar não estiverem acautelados, irá combater o avanço dos investimentos e o esventrar das suas terras e dos seus montes.  

Temos de ser mais transparentes sobre o que queremos para Barroso: por um lado, exultámos porque foi declarada património agrícola mundial pela FAO, trazendo-nos a valorização da região e seu património, dos nossos produtos, turismo, uma alavanca para o desenvolvimento económico, social e cultural das nossas terras. Depois permitimos investimentos que podem destruir a nossa riqueza paisagística, a qualidade das nossas terras, das nossas águas e dos nossos produtos, e pôr em causa a permanência e o bem-estar das pessoas que mais respeitam e amam a região. Há que refletir muito bem sobre o que queremos.

11.02.21

É verdade que em muitos períodos da história os brancos subjugaram e inferiorizaram os negros, nunca lhes reconhecendo os mesmos direitos e a mesma dignidade, obrigando-os a viver em situação de escravatura para as lides domésticas e os trabalhos mais duros na agricultura e construção civil, entre outras atividades e serviços. É verdade que muito branco se habituou a olhar com desdém para o negro e adotou continuamente atitudes de aversão, discriminação e menorização do negro, atitudes que se entranharam na cultura ocidental. O branco, por norma mais rico e desenvolvido, achou-se sempre superior e no direito de ser patrão e dono dos outros, sobretudo dos negros. Todos sabemos disto e não o podemos deixar de relatar na história. Pode-nos entristecer profundamente, mas a história é a história, já não se pode mudar. Podemos e devemos é aprender com ela. E repito o que alguém dizia por estes dias, que a história quer ensinar, mas não tem alunos. E é uma tragédia que assim seja. Por outro lado, não se deixe também de mencionar que nem tudo foi tenebroso na relação entre brancos e negros e que há brancos que também fazem parte da história da escravatura.

Não faz sentido e não alinho agora nesta onda de se andar a julgar a história segundo os critérios, os valores e os padrões éticos e sociais da sociedade atual e muito menos só na perspetiva redutora do racismo. Esperando-se que esteja bem escrita e bem contada, a história é a história. Está feita, segundo cada mentalidade, cada tempo e cada contexto, com homens e mulheres com virtudes e defeitos, com grandeza e devassidão, com heroicidade e covardia, com luzes e sombras. Cada homem e cada mulher agiu segundo as suas circunstâncias e dentro de conjunturas muito díspares das nossas, procurando dar o seu melhor pelo progresso humano, económico e social do mundo até chegarmos aos níveis em que hoje nos encontramos. É um lamentável ato de estupidez querermos hoje que há muitos séculos atrás já tivessem o nosso desenvolvimento humano e ético e julgar as grandes figuras da nossa caminhada histórica por aquilo que hoje consideramos inaceitável, desprestigiando e deitando ao esquecimento os grandiosos contributos que essas figuras deram à nossa admirável saga coletiva e ao mundo.

Mas urge perguntar: quem nos constituiu juízes da história? Que autoridade legítima e excelsa terá a atual geração para decepar e insultar as estátuas das grandes figuras da nossa história e da nossa memória coletiva? Não estaremos a cair num lastimável ato de soberba humana e geracional ao nos consideramos os donos da verdade e os detentores dos valores mais puros e sublimes, com o duvidoso direito de maltratar e arrasar a história daqueles que edificaram o mundo em que vivemos? E se a Igreja agora se lembrasse de julgar a história pelo prisma do anticlericalismo e pedisse a retirada das estátuas dos anticlericais ou das placas de nomes de ruas de personagens históricos que perseguiram a Igreja? Só é legitimo que a luta antirracista o faça? Se por acaso alguma figura histórica não gera consenso, abra-se um debate social alargado, mas não assim, só se olhando a história pelo seu lado negativo e sombrio, injuriando-se levianamente e fazendo-se pouco dos antepassados e da sua ação e intervenção positiva e progressista na história do país e da humanidade.

O racismo resulta de preconceitos estultos, que não têm qualquer justificação, e sobretudo de uma profunda falta de educação e de formação humana nas pessoas. Se o queremos combater, temos de investir na educação dentro da família, na escola e na sociedade, promover a convivência e o encontro de povos e culturas, e não com violência ou insultando a nossa história e as suas grandes figuras. Curar as feridas do passado e promover a igualdade e o respeito por todo o ser humano, por cada povo e por cada cultura é o caminho certo a seguir.

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