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minhas notas

Católicos Hipócritas e a Legalização da Prostituição

24.01.19 | minhasnotas

1.Anda por aí muito citada, sobretudo em artigos da imprensa e em publicações do Facebook, uma afirmação que o Papa Francisco não proferiu. Segundo é citado, o Papa terá dito que prefere «bons ateus do que maus católicos ou católicos hipócritas.» Na homilia matutina do dia 23 de fevereiro, o Papa Francisco disse o seguinte: «O escândalo é dizer uma coisa e fazer outra; é a vida dupla. Um exemplo? Eu sou muito católico, vou sempre à missa, pertenço a esta associação e àquela; mas a minha vida não é cristã, não pago o justo aos meus empregados, exploro as pessoas, faço negócios sujos, lavagem de dinheiro. Esta é uma vida dupla. Infelizmente, muitos católicos são assim e escandalizam. Quantas vezes ouvimos no bairro ou noutras partes: «Mas ser católico como aquele, é melhor ser ateu». Eis o escândalo».

Como acabámos de ver, o Papa não diz, cita. Diz que se diz no bairro. Usa a expressão para aflorar melhor a sua reflexão, mas jamais a faz sua. Serve-se dela para nos chamar a atenção do abominável escândalo que é dizer-se católico e depois não o ser na vida, vivendo-se na duplicidade e na hipocrisia, estados de vida indignos para um bom católico. O Papa nunca poderia dizer que é melhor ser ateu do que um mau católico, sabendo perfeitamente que os fiéis da Igreja Católica são imperfeitos e não são santos à força. Um Papa não pode preferir bons ateus a maus crentes. Só faltava então ser o Papa dos ateus! Pela afirmação, até parece que os ateus são todos bons e não são hipócritas, o que não se verifica.

Os persistentes detratores da Igreja Católica, os que inventam permanentemente desculpas para não irem à Igreja e aqueles que passam a vida a dizer que vivem rodeados de uma corja de hipócritas e mendazes, precipitaram-se logo a citar erradamente o Papa e a usar irrefletidamente a expressão para lançarem acusações, claro, pouco olhando para si mesmos. Quem é que é totalmente transparente na sua vida, praticando tudo o que diz e mostrando tudo o que sente? Quem pode dizer com verdade que já não teve momentos de hipocrisia na sua vida? Infelizmente, a hipocrisia e a duplicidade podem-nos tocar a todos. Não se trata de ser ateu ou de ser católico. Em vez de lançarmos esta censura fácil, farisaica, maniqueísta e populista aos católicos praticantes, tão do nosso agrado, lembremo-nos de que a integridade e a coerência de vida exige conversão permanente e é trabalho de cada dia e de uma vida, de que ninguém se pode livrar.

2.Quando o país passa por momentos de alguma pacificação e o andamento da economia deixa de ser tão preocupante, a tal agenda «fraturante» vem à tona. Não tenho nada contra. Não há que ter medo de discutir seja o que for, por mais controverso que seja. Não é bonito de ver é o ar convencido de alguns grupos ou fações, que se acham superiormente donos do progressismo da sociedade, acusando como antiquados e obscurantistas quem não concorda com eles ou elas. Em nome de «grandes progressos» sociais, podem-se estar a cometer grandes disparates. Não sei se alguma vez se virá a legalizar a prostituição, mas espero que jamais aconteça. Há dois argumentos que para mim são intransponíveis: vender a sexualidade, que é parte integrante da pessoa humana, nunca pode ser uma forma de ganhar a vida. É humilhante e indigno. Por outro lado, a prostituição reduz a mulher a uma máquina de sexo, um objeto sexual, é uma sórdida instrumentalização da mulher, rebaixada a uma simples fêmea, fonte de prazer fugaz para o machão, o que é um grave atropelo dos direitos humanos e um grande desrespeito pela dignidade humana. E tem razão Pedro Vaz Patto, num artigo do jornal Observador, quando escreve: «Quando se fala na legalização da prostituição como se de um qualquer outro trabalho se tratasse (o “trabalho sexual”), como um “trabalho” que sempre existiu e sempre continuará a existir, ninguém certamente pensa nas suas filhas, pensa sempre nas filhas dos outros…».

As Praxes

24.01.19 | minhasnotas

Os meus amigos vão-me desculpar o facto de eu escrever sobre as praxes, porque, de certeza, que já estão enfadados com tanta notícia e tanto debate sobre elas. Nos últimos dias, não faltaram artigos e crónicas sobre o tema. A informação atual vive de ondas e enquanto sente vento, vai fustigando a costa até quase à náusea. É a informação na era do espetáculo.

A professora de História da Igreja na Idade Média, que tive na universidade, passou as primeiras aulas a desmisticar a vilipendiada Idade Média. Com dados concretos e bem fundamentada, rebateu os muitos mal-entendidos e as teses preconceituosas e caprichosas que muitas escolas de história criaram acerca da Idade Média, considerada a época do obscurantismo, da ignorância, da cegueira, da crendice, a idade das trevas. No meio disto, nem nos lembramos de que a universidade moderna nasceu na Idade Média. Com a universidade, nasceram também as praxes, atividades para integrar todos aqueles que vinham das zonas rurais para a mundividência citadina e para a cultura estudantil. Duvido que fossem piores do que aqueles que vemos hoje.

Como estudante universitário, fui praxado, mas não praxei. Na altura, recordo-me que as praxes foram uma novidade. Numa das primeiras aulas, depois das apresentações, um grupo de veteranos vestidos com capas negras irrompeu sala adentro, com ar autoritário, aos berros, em tom militarista. Foi-nos apresentado o programa da praxe, que durou uma semana ou pouco mais do que isso. Quando questionei a motivação da praxe foi-me dito que era para proporcionar a socialização e a integração dos novos alunos, os caloiros, aprofundar conhecimentos e relações mútuas. Pelos seus fins, até tinha algum sentido. Tivemos uma praxe saudável e galhofeira: cantar músicas populares em público, contar anedotas pouco picantes, jogos, imitações, atividades ordeiras, algumas beneméritas, e encerrámos com o tradicional batismo num fontanário da cidade. No fim, de facto, já sabíamos os nomes uns dos outros, origens, objetivos e havia um maior à vontade com os colegas mais velhos. Recordo também que se gerou um ou outro caso de tensão com alunos, que se recusaram a participar na praxe. Na altura, não gostei, e senti algum sentimento de revolta quando, nos primeiros meses, os via a serem vergastados com vitupérios de vária ordem e quase sempre mal recebidos. Com o tempo tudo passou, mas não achei um ato muito digno de estudantes universitários. De uma forma geral, fiquei com uma boa impressão da praxe e convencido da sua utilidade.

Nas outras faculdades da universidade, vi coisas que me desagradaram. Já era notória alguma humilhação e ouviam-se coisas estúpidas e excessivas. Mas, ainda assim, nada do que tenho visto nas peças jornalísticas e filmes que passaram nos últimos dias, que nos mostraram que as praxes seguiram um caminho impensável, de estupidificação, de humilhação, violência, autoritarismo, javardice e selvajaria. Fiquei perplexo com o mau gosto e a parvoíce que se instalou nas praxes. Como me dizia alguém nestes dias, «parece que esta gente anda a estudar para burro». Como é que estudantes universitários se acham dignos de ações tão idiotas, infantis e primárias? Como também é incompreensível uma certa cultura praxística obscura que se acomodou nas faculdades, em que grupos de estudantes, sem qualquer fundamento, instituíram o direito a poderem fazer o que lhes apetece aos outros, autolegalizando-se, com total indiferença dos corpos diretivos das universidades.   

Ao ponto a que chegaram as praxes, não pode haver qualquer hesitação em proibi-las. Uma atividade que poderia ser cumprida com verdadeiro espírito de amizade, acolhimento, companheirismo, integração, divertimento sadio (como foi a minha), está transformada numa atividade pacóvia, desumana e violenta, onde não se encontra qualquer fim salutar e construtivo. Como já se ouviu, o ideal é promover dentro das universidades dias de integração, com a interação de todos os agentes universitários, dias supervisionados pelos diretores das faculdades. Mas também é bom que se lembre aos estudantes universitários que a integração na universidade não é um bicho-de-sete-cabeças. Não são precisas atividades extraordinárias. Basta que cada um saiba prestar a devida atenção aos outros, cultive o respeito, a entreajuda e a solidariedade e crie um verdadeiro ambiente de companheirismo. 

O importante agora é fazer uma grande reflexão. Para mim, olhando-se ao caminho e à dimensão a que chegaram as praxes, elas manifestam o seguinte: andamos muito alheados uns dos outros, com grande indiferença e desconhecimento da vida concreta uns dos outros; a sociedade do bem-estar e da diversão tem contribuído para um retardamento da maturidade humana, com a consequente infantilização e imbecilização; numa boa parte da juventude há um grande vazio de princípios e de valores, há desnorte; não tem havido crescimento humano e ético juntamente com a aquisição de conhecimentos e de competências. É umas das lacunas das universidades e até certo ponto também das famílias, que não devem só formar profissionais ou técnicos para ganharem dinheiro, mas formarem, primeiro que tudo, homens e mulheres, que devem agir com exigência ética; há uma grande falta de formação e de educação. É nisto que temos de pensar seriamente.

Ainda Os Recasados

24.01.19 | minhasnotas

Jesus nunca iludiu ninguém. Desde a primeira hora, teve o cuidado de alertar quem o queria seguir de que ser seu discípulo implicaria escolher a exigência e a radicalidade na fidelidade a Deus, sem meias tintas e hesitações. Impôs uma escolha: entrar pela porta estreita que leva à vida e à salvação, ou entrar pela porta grande que leva à perdição da vida, em todos os seus sentidos. Mas ao mesmo tempo, Jesus bem sabia que o ser humano cai, erra, desanima, desiste, tropeça e, por isso, aproximou-se da fragilidade humana. Era amigo de pecadores e publicanos, a quem tentou sempre recuperar e apontar caminhos de vida nova. Daí que sempre me surpreenderam as palavras de Jesus sobre o casamento, onde parece intransigente, não permitindo que o homem e a mulher falhem no casamento, nascendo assim a doutrina da indissolubilidade do matrimónio. Como é que foi tão exigente com os casados, quando Ele nunca o quis ser? Não saberia Ele que se o ser humano é falível em tudo, também o seria no matrimónio? Não saberia Ele que unir duas vontades e dois corações num projeto de vida para toda a vida é uma empresa de grande exigência e sempre sujeita ao fracasso? Claro que sabia. O que talvez Jesus nos quer dizer é que o amor é sagrado, exige tudo de nós mesmos, deve ser vivido com uma entrega total, e o amor entre homem e mulher deve ser sério, santo e verdadeiro, sempre preservado dentro do possível, livre de interesses passageiros e de sentimentos vagos e efémeros, para realização dos esposos e para bem dos filhos, e até da sociedade.  

Algumas Dioceses de Portugal, estimuladas pela Exortação Apostólica «A Alegria do Amor» do Papa Francisco, já estão a dar passos firmes para uma integração plena dos recasados na vida da Igreja, percorrendo-se um caminho com algumas etapas e critérios. Não poderia ser de outro modo. Como disse o Papa Francisco, ninguém está condenado para sempre e não se compreenderia que a Igreja recusasse a comunhão a pessoas que falharam, se é que falharam, num primeiro casamento, que é irrecuperável. Não poderíamos continuar a deixar as pessoas presas e marcadas pelo seu passado, mas abrir caminhos para um recomeço e possibilitar a inclusão e não persistir na condenação. «A Igreja não está no mundo para condenar, mas para possibilitar o encontro com a misericórdia de Deus», como assertivamente disse o Papa Francisco. No entanto, esta solução está longe de ser consensual. Há uma fação da Igreja que está claramente contra, tem feito oposição ao Papa, e até considera que a solução roça a heresia. Não deixo de ficar espantado como é que a Igreja se está deixar envencilhar em discussões doutrinais e normativas, à maneira dos embates entre Jesus e os doutores da lei e fariseus. Se há algo que Jesus combateu determinadamente foi o legalismo e o formalismo frio de só se ver a vida pelo cumprimento cego e fiel de uma lei ou de uma doutrina. A vida transborda sempre para lá das regras e dos códigos legislativos. A vida apresenta sempre novos desafios, enquadramentos e problemas que não se podem ver apenas pela mira de um dogma ou de uma norma. E mal da sorte se nós trocámos o legalismo, o formalismo e o dogmatismo dos fariseus e escribas por um dogmatismo e legalismo cristão, que Jesus tanto recusou. As regras, as leis e as doutrinas são indicações e orientações, que devem estar sempre abertas a outras considerações, porque a vida é complexa e original.

Esta abertura da Igreja não seja, no entanto, entendida como um vender o Evangelho a soldo ou um manhoso rodopio do mesmo, porque não é. O Evangelho não é um cardápio fixo de normas e doutrinas. É um dinamismo gerador de vida nova, aberto às novidades e desafios da vida. E esta abertura também não é cedência ao facilitismo e à banalização do casamento, que a sociedade atual promove. Há que repensar a atual e nefasta cultura do provisório e do descarte, que coisifica o outro e despreza a fidelidade e o compromisso, o que é uma fonte perversa de sofrimento, e a imaturidade com que muitas pessoas se apresentam para constituir família, quando não o deveriam fazer. O casamento não é uma simples festa. É um contrato, é um compromisso para ser dignamente vivido e escrupulosamente respeitado.

A Mundanização dos Casamentos

24.01.19 | minhasnotas

Já celebrei casamentos em que tudo foi exemplar. Deu-me um grande prazer presidir à celebração e ver nascer um casal ou uma família, com toda a assembleia contagiada e participativa, numa atmosfera cristã. Mas estes casos estão-se a tornar uma exceção. A celebração do casamento católico está a entrar por caminhos inconcebíveis e está a chegar a um ponto que vai ser preciso pôr ordem na casa. Estamos a assistir a uma banalização e a uma mundanização do matrimónio católico, que são inadmissíveis. Sabemos qual é a principal razão: a maioria dos casais que pedem o matrimónio e a maioria das pessoas que participam nos casamentos não tem vida de Igreja. Daí que já não se sabe rezar e participar dignamente numa missa, não se tem piedade e reverência diante de Deus e o casamento seja um espetáculo como outro qualquer, mas não é. Para muitos convidados é isso mesmo: o casamento é uma festa social, um espetáculo, ser numa igreja ou noutro lugar qualquer, tanto faz. Ao ponto a que chegámos!

Comecemos por refletir na apresentação e na indumentária. Um casamento na Igreja implica que as pessoas se apresentem com dignidade e respeito diante de Deus. Não se deve estar diante de Deus e numa Eucaristia de qualquer maneira. Mas, pelos vistos, Deus pouco importa. Dia de casamento está-se a tornar dia para dar nas vistas, exibicionismo, mostrar sensualidade, expor um vestido glamoroso, alguns a tocar a indecência, e uma maquilhagem arrebatadora ou um penteado estrondoso. São valores poucos cristãos. De facto, deve imperar a boa e elegante apresentação, mas aqueles exageros, prenhes de vaidade, são dispensáveis.

Depois, destaca-se a atitude e o espírito com que se está na celebração. É pouco notória uma atitude humilde, reverente e compassiva diante de Deus. Pelo contrário, reina a distração, o alheamento e o desinteresse, a aridez espiritual. Poucos prestam atenção às leituras, às orações e ao rito matrimonial e eucarístico. Ao invés, as coisas engraçadinhas ou bizarrices que os noivos se lembraram de acrescentar merecem toda a atenção. Há muitos acrescentos que os noivos solicitam, que não têm sentido num matrimónio católico. Por exemplo, as damas de honor estão a ganhar uma relevância que não tem qualquer justificação no casamento católico, não merecendo, por isso, entradas solenes ou lugares de destaque na celebração, entre outros. Celebrar um casamento católico é louvor e encontro com Deus, é celebrar o amor, a bênção e a graça de Deus, a aliança de Cristo com a Igreja, abrir-se a Deus e aderir aos seus desígnios para a vida e a família, e não apenas «assistir» levianamente a um enlace ou a uma cena graciosa de dois noivos loucamente apaixonados.

Os coros escolhidos pelos noivos, na sua maioria, vêm para dar um concerto ou dar o seu espetáculo e não para ajudar a rezar e a celebrar a liturgia, porque é para isso que há música na liturgia. Muitos cânticos apresentados são inapropriados para a celebração de um matrimónio, porque não têm nada a ver com o espírito e a liturgia do mesmo, não têm raiz na Palavra de Deus e na fé cristã, são de origem pop ou rock e expressam um sentimentalismo vago e redundante, que não condiz com o verdadeiro espirito da celebração cristã. Está para sair um cancioneiro de músicas religiosas para casamento. Espero que os coros, que participam em casamentos, sejam obrigados a acolhê-lo, e até seria bom criar-se um diretório litúrgico e terem uma certificação das dioceses para poder animar as liturgias dos matrimónios.

Por fim, deixo duas perguntas: quantos noivos, que solicitam a celebração do casamento na Igreja, se empenham por conhecer a doutrina da Igreja Católica sobre o matrimónio e a família? E não é por falta de vontade da Igreja. A arte de amar e viver em família tem muito que se lhe diga. Se se pede o matrimónio católico, é para se viver o casamento e em família de acordo com os princípios e os valores cristãos e não ao sabor da moda ou da mentalidade mundana dominante ou segundo os ditames do voluntarismo e dos meros caprichos individuais. E como compreender que um casal se separe ao fim de um ano ou até menos? Vai-se assim para um casamento com tamanha inconsciência e imaturidade? Faz-se um pedido de casamento espalhafatoso, organiza-se um estardalhaço no dia do casamento, gasta-se uma fortuna (e o quanto não custa hoje participar num casamento!), dizem-se coisas tão belas e promovem-se surpresas tão emocionantes e tudo acaba ao fim de meia dúzia de meses? Que fantochada é esta? Será que não temos um bocadinho de vergonha? É uma banalização do casamento inaceitável. Ao menos peçam desculpa aos convidados. Sinais dos tempos: aparências e só aparências. Por dentro, estamos ocos como um cântaro.

A Inquisição (2)

24.01.19 | minhasnotas

Estudos e investigações de bons historiadores são fidedignamente conclusivos: a esmagadora maioria das pessoas julgadas e condenadas pela Inquisição sofreu penas leves, fisicamente falando, como a excomunhão da Igreja, não acesso a sacramentos e outras penitências eclesiais, penas que poderiam ser revertidas caso a pessoa manifestasse mudança, correção e conversão. Só uma percentagem relativamente diminuta foi condenada à fogueira, cerca de 1 a 2 % das pessoas julgadas (mesmo assim números lamentáveis). Não foram milhares de pessoas condenadas à fogueira como se ouve e lê com relativa facilidade, como se a fogueira fosse uma prática banal. Não era. Era muito excecional. E há um justo esclarecimento histórico a fazer: a fogueira não acontecia no dia do auto-de-fé. Nesse dia, eram lidas as sentenças e as pessoas eram entregues ao poder secular (as autoridades do estado). A fogueira não acontecia na praça pública, não eram espetáculos públicos, como muitos quadros e gravuras de artistas dão a entender. As pessoas eram queimadas de forma muito discreta, fora da área urbana, com uma pequena assembleia a assistir.

Diga-se que não foi a Inquisição que inventou a condenação à fogueira e a tortura. Estas já eram praticadas há muito tempo pelas autoridades policiais e judiciais das sociedades europeias. A Inquisição, sem grande originalidade, adotou os mesmos métodos e práticas que já existiam, mas fê-lo com moderação e com mais benignidade do que o poder secular. A verdade é que o que foi muito excecional e mais macabro nas condenações da Inquisição serviu para caracterizar exageradamente e definitivamente a Inquisição.

Museus que vemos por aí sobre a Inquisição fazem passar a ideia de que a tortura era usual e banal e que a Inquisição era uma máquina trituradora e sádica, que se divertia e comprazia em atormentar barbaramente as pessoas. Não corresponde à realidade. A tortura era muito excecional. Não era admitido o derramamento de sangue. Boa parte dos depoimentos prestados sob tortura não foram validados. O que vemos nos museus é horrível e de certo que foram cometidos excessos, mas não era prática comum. A tortura tinha regras apertadas e era muito vigiada.

A Inquisição foi uma realidade muito complexa. Estava nas mãos da Igreja, mas rapidamente, com a infeliz  conivência daquela, foi instrumentalizada pelo poder político e outros poderes sociais para fins indignos para os quais não foi criada: eliminar adversários políticos, torturar opositores políticos, confiscar dinheiro e bens  de instituições e pessoas, suprimir pessoas inconvenientes, incómodas e agitadores sociais, controlar e impor comportamentos e ideias, segundo a normalidade vigente, coadjuvada por um exército de denunciadores e prestadores de falsas acusações que não tinha qualquer pejo em fazer este trabalho sujo, devidamente premiado pelo poder secular e religioso. Infelizmente, ainda hoje perduram estes traços da mentalidade inquisitorial. D. Carlos Azevedo, numa entrevista ao Público, afirma: «Por vezes vem ao de cima algum espírito de caça ao erro ou ao mal que é típico deste espírito inquisitorial, em que bastava ser denunciado para ser condenado. Isso manifesta um zelo pela verdade que, em vez de fazer aquilo que o evangelho pede – de ir ter com as pessoas e falar diretamente e, se for o caso, levar a pessoa a interrogar-se sobre o que defende –, em vez do debate, se esconde na denúncia.»

Não pretendo branquear a Inquisição. Foi uma instituição hedionda, será sempre uma página negra da história da Igreja, mas também das sociedades que a alimentaram. Não deixemos só para a Igreja o ónus de carregar o peso condenável de uma instituição repugnante como foi a Inquisição.  Se inicialmente teve um bom fim, rapidamente o abandonou e entregou-se a práticas e a valores contrários ao Evangelho, promovendo a intolerância, a perseguição, a morte, o terror, a expulsão. Teve as suas vozes críticas dentro da Igreja, de pessoas com liberdade de consciência, mas rapidamente foram importunadas e perseguidas. Não existiu unanimismo dentro da Igreja relativamente à natureza e ação da Inquisição. Mas também há que desmontar alguma mistificação que foi montada à volta da Inquisição, exagerada e até falsa, quanto aos métodos, aos números e aos atos da instituição, no respeito pela história. Não foi tão macabra, bárbara e sádica como é ideia feita e lida em muitos livros de história ou em escolas de leitura histórica.

A Inquisição: verdades e mentiras

24.01.19 | minhasnotas

De vez em quando, em entrevistas, programas e artigos de opinião, são desferidos duros ataques à Igreja com a seta da Inquisição. Habituámo-nos a ouvir impávidos e serenos a história muito bem contada de que a Inquisição foi uma máquina mortífera, horrenda, cruel e desumana, terrivelmente torcionária, digna de constar nos anais das maiores barbaridades realizadas na história da humanidade. No entanto, investigações e estudos despretensiosos, neutros e sérios de grandes historiadores negam inequivocamente os exageros e as muitas distorções que envolvem a Inquisição e obrigam-nos a corrigir muitas imprecisões, mal-entendidos e dados históricos sobre a Inquisição. Muito bem aproveitada pelos detratores da religião e da Igreja Católica, não há qualquer dúvida de que a Inquisição foi vítima de uma mistificação e de uma campanha de difamação com o fim de denegrir a Igreja e a descredibilizar perante a sociedade.

Remotamente, a Inquisição foi lançada com a criação do primeiro Tribunal Público Contra a Heresia, em França, no século XI, mas foi plenamente constituída no século XIII, com o Papa Gregório IX, ficando sob a alçada da Ordem Dominicana, também nascida nesse século. Nasceu com um fim benévolo e nobre: inquirir (daí o nome inquisição), de facto, o que era verdade e mentira, para se evitar condenações injustas e abusivas e perseguições e linchamentos populares implacáveis de possíveis inocentes. Mais tarde desviou-se desta rota, é verdade, mas primeiramente até se pode dizer que foi um progresso assinalável, na senda dos direitos humanos: dar a possibilidade às pessoas de se poderem defender de falsas acusações, de difamações e calúnias, nomeadamente do delito de heresia contra a sã doutrina cristã e os costumes que a normativa social e religiosa considerava certos e corretos.   

A sua primeira grande empresa foi combater a heresia dos Cátaros e Albigenses, disseminada no sul de França, uma heresia maniqueísta composta de crenças erróneas e estultas, acompanhada de alguma criminalidade, que era, de facto, uma ameaça à ordem e à estabilidade social, assim como à unidade da Igreja e à ortodoxia da doutrina cristã. A Inquisição pôs-se a caminho para evitar a propagação da heresia e corrigir os hereges, chamando-os à conversão dos verdadeiros princípios e dogmas cristãos e à correção de práticas inaceitáveis. Mais tarde, procurou combater a divulgação das ideias da reforma protestante protagonizada por Lutero (heresia protestante), no século XVI, assim como outras heresias, que a Igreja considerava grandes erros face à verdadeira doutrina cristã ou às regras cristãs. Em Portugal e Espanha, assumiu alguns contornos sociais e políticos, perseguindo outros fins para os quais não foi criada, mormente em Portugal procurou impor a fé cristã a judeus e a muçulmanos, fiscalizando as suas práticas e costumes. Em Espanha, atingiu contornos e níveis de crueldade inimagináveis. Paulatinamente, a Igreja foi reduzindo a sua atividade, sendo extinta no século XIX.

A Igreja pode orgulhar-se do bom fim para o qual a Inquisição foi criada. Mas o que é verdade é que rapidamente se desviou desse fim e passou a perseguir fins e a adotar práticas, claramente contrárias ao Evangelho, que jamais uma instituição da Igreja deveria ter adotado. Foram cometidos alguns abusos e praticadas algumas injustiças, com requintes de desumanidade e de intolerância inconcebíveis, que marcam indelevelmente uma página negra da história da Igreja, mas também do poder político e das sociedades que a alimentaram e promoveram. Contudo, também é verdade que se construíram algumas teses e narrativas à volta da Inquisição que não correspondem à verdade histórica, de acordo com boas investigações que têm sido feitas com competência por historiadores católicos e não católicos.  Andam por aí muitas mentiras, falsidades, inexatidões e enganos que é preciso corrigir em nome da verdade. Há que dar lugar ao rigor e à precisão histórica. Abordarei isso no próximo artigo.

A Humanidade do Padre

24.01.19 | minhasnotas

Durante este mês de novembro, decorreu a Semana dos Seminários. Já é do conhecimento geral o número muito baixo de seminaristas na maioria, senão na totalidade, das dioceses portuguesas, por muitas e variadas razões que não vamos aqui escalpelizar. Espero que as paróquias se comprometam e se preocupem decisivamente com esta necessidade da Igreja.

Durante a referida semana, fiz um balanço da minha ainda pequena caminhada sacerdotal (está quase na maioridade), pensei nas lições que a vida já me vai dando, e refleti um pouco sobre a condição sacerdotal, embalado pela apresentação de um livro, Senhor Bispo, o Pároco Fugiu, realizada pelo Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada e pelo cronista João Miguel Tavares, livro da autoria de Jean Mercier.

Que pensamentos me invadiram? O estatuto do padre mudou. Já não tem a autoridade de outros tempos. Ainda é ouvido, mas depois cada um faz o quer e deixa o padre a falar sozinho. No meio deste relativismo, o padre sente-se um pouco perdido e com um trabalho muito mais dificultado, o que não deixa de ser um grande desafio. Mas, por outro lado, muitas pessoas ainda procuram o padre, porque vivem num turbilhão de dúvidas, incertezas, angústias, dificuldades, vazio existencial e desnorte moral e espiritual, que a sociedade atual oferece, e a voz do padre ainda é valorizada. 

Temos uma formação vincadamente humana, intelectual, moral e espiritual, centrada na liturgia e na pregação, mas quando chegamos às paróquias percebemos que temos de ter alguma plasticina, moldada pelo engenho e pela carolice de cada um: ser secretário, burocrata, empreiteiro, cozinheiro, dono de casa, sacristão, maestro, assistente disto ou daquilo.  Como se isto não chegasse, ultimamente ainda lhe arranjaram o cargo chique de ser presidente de centros paroquiais. Muitos párocos aceitam, porque assim também mandam as regras, dá poder e visibilidade social, mas acho que os padres não são ordenados para serem presidentes de centros paroquiais, para o qual não tiveram nenhuma formação. É um cargo com alguma exigência. No meio desta azáfama toda, pergunta-se: o padre ainda terá tempo para ser padre? É ordenado para ser padre e depois é quase tudo menos padre. Certamente que deve dar o seu contributo no campo social e no serviço às instituições, mas não deve ser o padre a liderar. Há leigos com formação neste campo, que perfeitamente podem ocupar o cargo. O trabalho de «funcionário» das paróquias e da Igreja, infelizmente, traz muito prejuízo para a vida espiritual e para a disponibilidade que o padre deve ter para os outros como padre. Duvido que agendas sobrecarregadas, com muitas atividades, reuniões e ações, façam dos padres bons padres.  Há um excesso de preocupação pelo fazer e não pelo ser e estar, que é o fundamental da vida de um padre. Até o povo já se habituou a comentar que «o senhor padre tem muito que fazer e, coitado, anda tão cansado». Se assim é, alguma coisa não está bem na vida do padre atual.

Ser padre exige alguma prudência, equilíbrio e humildade, para não se cair no vedetismo, que é sempre uma tentação. O padre indica, deve apelar sempre e ser ponte para algo muito maior do que ele: Jesus Cristo. Na Igreja, o centro das atenções é Jesus Cristo e não o padre. Mete-me alguma confusão e impressão ver padres armados em vedetas e nas paróquias grupos de pessoas alinhados com certos padres e com outros não, ou multidões dominicais com uns padres e desertos com outros. São sinais evidentes de grande superficialidade e imaturidade cristã. O padre que é vedeta, com agenda e objetivos pessoais, é um mau padre, e uma comunidade que se centra muito no estilo do padre, é uma má comunidade. Uns têm mais talentos do que outros e alguns serão mais apelativos do que outros, mas uma boa comunidade cristã e um bom cristão centra-se em Cristo e não no padre que tem.

Mas o que mais refleti, durante a semana, foi o encontro com a minha pobreza e a minha fragilidade no exercício do sacerdócio. Julgamos que vamos ser sempre jovens e que vamos ter sempre novidade, criatividade e frescura espiritual e pastoral para dar e vender, mas não é bem assim. O encanto por ser padre e servir Cristo e a Igreja não se perdeu, mas vive-se na fragilidade da nossa humanidade. Construímos a imagem de que o padre é quase o senhor todo perfeito, um anjo de Deus na terra, sem defeitos, sem dificuldades, sem problemas, sem angústias e sem dúvidas. Não tem dramas, nem complexos, muito menos vícios e manias. Tem bons conselhos para tudo e todos, possivelmente viverá sempre uma vida espiritual elevada, nunca perde o equilíbrio e nunca precisa de ajuda, está capacitado para ter uma performance quase perfeita. O padre é encarado como um ser extraordinário que vive quase incólume ao que os outros experimentam. Um padre sem humanidade. Lamento, mas este padre não existe. Aquela imagem faz até com o padre se sinta pressionado e passe algum tempo a esconder os seus medos, as suas fragilidades e as suas angústias, porque o padre tem de ser sempre imperturbável, forte e certinho, não pode ser fraco ou manifestar fraqueza. Nada mais ilusório e desumano. O padre também falha, erra, engana-se, chora, sofre, ri, cora, irrita-se, treme e distrai-se, adoece.  

Há que assumir a nossa humanidade. As comunidades cristãs têm se habituar a gostar do padre que têm, um ser humano com as suas virtudes e os seus defeitos. E o padre não ter medo de mostrar o que é e o que vive, confessando-se de vez em quando à comunidade, para também ser ajudado e não viver no drama de alimentar falsas imagens e recusar a sua humanidade, na unicidade e especificidade de cada um.

E, por favor, façam-me um obséquio: não me falem mal dos padres velhos por serem velhos. Quem não vai para velho? As comunidades cristãs, e a Igreja em geral, não podem querer só a parte melhor das pessoas, o seu tempo de maior vigor e criatividade, e depois quererem facilmente arrumá-las, como se já não tivessem qualquer valor. Os critérios da Igreja não são a produtividade e a eficácia, mas o amor e o serviço. As pessoas devem ser sempre amadas e respeitadas, acolhidas na sua mais pura humanidade, independente do que fazem e produzem. A igreja, primeiro que tudo, tem de ser uma casa de humanidade.

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