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minhas notas

31.01.19

O Papa Francisco tem apelado à erradicação do clericalismo na vida da Igreja, considerado uma das causas da pedofilia. Já lhe chamou uma peste e uma perversão da Igreja. O clericalismo é organizar a vida da igreja só a partir do clero (Papa, bispos, padres e diáconos) e para o clero, fazer girar toda a atividade e ação eclesial à volta do clero. Por um lado, tem sido promovido pelo próprio clero, que quer ter poder e domínio, mandar em tudo e ter sempre autoridade em tudo. O clero é que sabe, por isso, manda e decide. Daí que a palavra Igreja esteja conotada com o Vaticano, com a cúria romana ou com os bispos e os padres. O «povo» não é a Igreja. O povo obedece, assiste e cumpre. Por outro lado, também tem sido estimulado pelos próprios leigos, porque não sabem agir sem o clero, deixam tudo para os bispos e os padres e não assumem o seu papel e missão dentro e fora da Igreja. São leigos clericalistas. É preciso reformar este estado das coisas na vida da Igreja, conforme é exigência do Concílio Vaticano II.

A Igreja tem de reformar a sua cultura e sua construção piramidal. E todos os cristãos têm de se envolver nesta reforma. Não podemos persistir neste modelo em que Papa, bispos e padres mandam e decidem, são os senhores do saber e do poder, e os leigos obedecem e cumprem, já que são quase uns ignorantes e não sabem fazer nada, são uns incompetentes. Jesus deixou expresso no Evangelho que quer que a Igreja seja uma comunidade de irmãos ao serviço uns dos outros, sem poder e domínio de uns sobre os outros e sem o desvio de uns pensarem que são superiores aos outros, uma Igreja alicerçada na fraternidade e igualdade, na igual condição de todos, na corresponsabilidade, assente no mesmo batismo e Espírito que todos receberam. A hierarquia tem a sua razão de ser, mas a hierarquia não é o centro da Igreja. Cristo é que é o centro e, em nome de Cristo, a hierarquia está ao serviço de todo o Povo de Deus, cabendo-lhe organizar a vida e a missão da Igreja, e não o Povo de Deus está ao serviço da hierarquia, como se esta fosse mais digna e sagrada do que o restante Povo de Deus. Não é só o bispo e o padre que é um alter Christus (outro Cristo). Todo o cristão é um alter Christus, devendo assumir o seu papel e o seu protagonismo na vida e na missão da Igreja.    

31.01.19

Se pudesse, um dia, estar um pouco com o Papa Francisco, em amena cavaqueira, dir-lhe-ia duas coisas: acho, e desculpe-me fazer parte do grupo dos achistas, que não compete à Igreja colocar-se no lugar de Deus e antecipar o que Deus fará ou deixará de fazer. Em Jesus Cristo, Deus revelou-se e deu-se a conhecer. Quem vê Jesus, vê o Pai. Contemplando Jesus Cristo, vemos os sentimentos e atitudes de Deus. Mas isso não quer dizer que tudo seja assim tão mecânico e automático, que possamos manipulá-lo e dispor d’Ele como muito bem entendemos. Deus saberá o que muito bem deve fazer, na sua infinita sabedoria e omnipotência. Ele continua a governar e a reger a vida dos homens e do mundo. Daí que talvez não seja muito correto dizermos que "Deus perdoa sempre". Deus é amor e em Jesus Cristo manifestou que tem sempre uma vontade infinita de recriar e reconciliar a vida das pessoas, mas pô-lo a perdoar sempre e a perdoar tudo, sem mais nem menos, talvez seja um pouco abusivo. Deixemos Deus ser Deus. À Igreja compete falar com Deus e não pôr-se no lugar de Deus, querendo-nos apropriar d'Ele, dos seus dons e das suas bênçãos. Reparemos como as orações da liturgia nos põem sempre numa atitude de súplica. Lembram-nos que a vida é diálogo com Deus e que nada está assegurado, sob pena de reduzirmos a vida a um faz de conta. Falemos com Deus e não em nome de Deus.

Em segundo lugar, noto que, alguns dos discursos mais duros que proferiu, foram para dentro da Igreja. Esta, de facto, é pecadora. Vamos sabendo que a cúria romana aninha dentro de si algumas imoralidades escandalosas e se deixou seduzir pelos valores mundanos. O seu desespero é tal que já afirmou, mais do que uma vez, que é melhor ser ateu do que ser um cristão hipócrita. Mas lembro-lhe que a Igreja tem feito caminho com pessoas pecadoras e miseráveis. Olhemos para os apóstolos. Seguiam Jesus enamorados pelo poder e orgulho pessoal. E o valentão do Pedro, que prometeu dar a vida por Jesus, teve um imponente gesto de covardia, e não deixou de ser o escolhido para pastor supremo da Igreja. É com estas pessoas que temos de continuar a fazer caminho, porque se estamos à espera dos que não são hipócritas e são melhores do que aqueles que vão à Igreja, como dizem, bem podemos fechar as igrejas.

31.01.19

Substituir o Papa Bento XVI não era tarefa fácil. Bento XVI era intelectualmente brilhante, com uma bagagem teológica e cultural notável e uma capacidade analítica e crítica da realidade quase imbatível. Foi com ele que a Igreja começou a enfrentar a pedofilia com coragem e destemor. No entanto, já idoso e debilitado, sentiu-se incapaz de enfrentar este e outros problemas graves, que começavam a ser conhecidos no seio da Igreja. Apresentou a sua inesperada, mas bem ponderada e assertiva, resignação.

Entrou em cena o Papa Francisco, com outro estilo e outra linguagem, desde logo bem acolhido por muitos leigos, por muita imprensa e até por setores sociais hostis ou mais indiferentes à Igreja. A hierarquia ficou na expetativa, mas boa parte dela começou paulatinamente a aderir ao novo pastor, que veio do fim do mundo. Contudo, cedo se percebeu que o Papa Francisco iria ter uma forte resistência interna, na Cúria romana e fora da Cúria, sobretudo da fileira mais tradicionalista e conservadora da Igreja. Começaram por acusá-lo de parecer um pároco de aldeia a falar, com um vocabulário rudimentar, pouco incisivo e estruturado.  De expor o papado a uma certa banalização e a uma exposição mediática exagerada e de começar a ter posições muito criticáveis, quase heréticas. O Papa foi respondendo que alguma Igreja está enferma e prenhe de maus vícios: clericalismo, soberba sacerdotal, elitismo, luxo, vaidade, autossuficiência, funcionalismo, comodismo, apego ao dinheiro e à riqueza, vanglória, maledicência, indiferença, mundanismo e exibicionismo. Críticas assertivas que caíram como raios em alguns setores eclesiais acomodados e reacionários. Estalou a guerra.

A publicação da exortação apostólica Amoris Laetitia, com a possibilidade, e bem, de os recasados poderem aceder à comunhão eucarística após um processo de discernimento, estabeleceu definitivamente o confronto, com ataques duros e impiedosos ao Papa por parte da fação mais conservadora. No entanto, jamais se imaginaria que, num momento tão delicado, como é este dos relatórios sobre a pedofilia, se aproveitasse a própria pedofilia para se desferir uma ataque injusto, abominável e soez ao Papa. Perderam toda a razão e credibilidade e até o respeito, no prélio com o Papa Francisco. Força Papa Francisco.

25.01.19

Quem tem vindo a acompanhar a celebração do Natal nos últimos anos, e por mim falo, certamente, e se habituou a celebrar um Natal genuinamente cristão, não pode deixar de sentir alguma desilusão por esta adulteração e banalização a que tem sido sujeito, reduzido a mais uma mera festa familiar, para comer e beber, brincar aos presentes, esmagado pelo frenesim económico e material, pelo bulício dos enfeites e pelo ruído fastidioso de músicas cantadas até à exaustão, sem qualquer ligação e referência ao nascimento de jesus Cristo. Já nem à missa de Natal se vai. Vejam lá que proeza realizámos: Jesus Cristo tornou-se um marginal do Natal. O fundador do Natal está ostracizado do Natal. Como diz criticamente o nosso bispo, D. Amândio José Tomás, «aproxima-se a Festa do Nascimento de Jesus, que pouco diz a quem trocou o Menino Jesus pelo Pai Natal e pelo consumo desenfreado dos prazeres do mundo secularizado, agnóstico, indiferente e egoísta. O Natal perdeu a conotação religiosa, com o Filho de Deus feito homem. O eclipse de Deus trocou a adoração de Jesus pelo dinheiro, pelos bens materiais, pelo espetáculo e pelo brilho efémero das coisas terrenas.»

Andamos a celebrar um Natal postiço e mentiroso, com muitas luzes e muitos enfeites exteriores, que não passa de artificialismo, já que, por dentro, infelizmente, estamos às escuras, sem a luz e a palavra de Deus dentro de nós. Um Natal que está reduzido à diversão e ao entretenimento, com a repetição mecânica de costumes e tradições. Enfim, um Natal sem fé, sem vivência cristã, sem espiritualidade, sem vontade de acolher e aderir a Jesus Cristo e ao Evangelho, o sentido mais autêntico e o significado verdadeiro do Natal.

De Norte a Sul de Portugal, desfazemo-nos em campanhas de solidariedade e desfiamos belas arengas sobre fazer o bem e amar o próximo, sobretudo o que mais precisa, ouve-se que o Natal é amor, paz, fraternidade, comunhão, solidariedade, generosidade, batem-se palmas estridentes, numa atmosfera de grande exultação, que rapidamente se esfria. Na verdade, toda a nossa vida deve ser sempre assim, não é só nesta época. O Natal não é um intervalo para os bons valores e os bons princípios, que depois esquecemos no resto do ano.  

Com os belos discursos de Natal não andamos senão a mascarar uma sociedade que está a perder os bons valores, uma sociedade que só pensa na diversão, que desaprendeu a fazer sacrifícios pelos outros, diz que pensa muito no próximo, mas o que se vê crescer é o egoísmo, o individualismo, proclama o propósito da paz, mas promove e alimenta-se de agressividade e de violência, afirma que não há nada de mais belo do que a solidariedade, mas depois o que se vê é a indiferença e a insensibilidade, com níveis gritantes, apregoa o respeito pela dignidade de cada pessoa, mas depois, sem escrúpulos, dedica-se à destruição do outro no trabalho, na empresa ou que mora ao lado e ao desprezo pelo que vem de fora, manifesta apreço pela ecologia, mas depois o que importa é o materialismo e o consumismo, declara a necessidade da inclusão e integração de todos, mas depois condena os mais velhos ao abandono e à solidão e entrega-se friamente ao abandono dos doentes nos hospitais para se ir de férias ou para ser ir viajar, reúne a família no natal, mas depois aprova leis atrás de leis para se destruir cada vez mais a instituição familiar, profere em arrebatadoras alocuções a importância e o respeito pela moral, mas depois o que quer é um estilo de vida sem compromissos e responsabilidades, um estilo de vida low cost pessoal, revestido de hedonismo e facilitismo, com a fuga ao cumprimentos dos deveres. Não haja dúvidas: vale mesmo a pena prestar atenção aos belos discursos de Natal!

O nosso Natal tornou-se uma festarola frívola, um natal de plástico e de hipocrisia, balofo e superficial. Mais uma festa para conviver e nos entretermos uns com os outros, um natal de enfeites e prendinhas, mas, infelizmente, um natal que não transforma e não fecunda a vida. E porquê? Por que o essencial não acontece: abertura e acolhimento do Filho de Deus e da sua palavra. Enquanto não voltarmos a colocar Jesus e a fé no cento do natal, vamos andar entretidos com festarolas.   

25.01.19

O Papa Francisco nomeou cardeal o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, natural da Freguesia de Tronco, Concelho de Chaves. Uma notícia que encheu de alegria e regozijo a Igreja em Portugal e mais concretamente a Diocese de Vila Real, de onde é oriundo e onde se formou como sacerdote e bispo. Um cardeal é um bispo escolhido pelo Papa para o aconselhar e ajudar no governo da Igreja.

O mesmo confessou à imprensa que se sente surpreendido pela nomeação, que nunca lhe passou pela cabeça tal chamamento, e até encara tudo isto com algum humor e sem pós de distinção mundana ou de grandes importâncias, porque nunca o poder lhe subiu à cabeça, sabiamente aconselhado pelo seu pai, que foi guarda fiscal. Na Igreja, a autoridade e o poder é o serviço e não tem qualquer sentido o carreirismo ou o alpinismo carreirista. Quem bem o conhece, atesta esta forma evangélica de estar na vida.

Tive o privilégio e o prazer de o ter como professor e formador, trabalho que exerceu durante vários anos na Diocese do Porto, nomeado pela Diocese de Vila Real. Acompanhou as últimas gerações de padres de Bragança, Porto e Vila Real, todos juntos no Porto, onde se tira o curso de Teologia. Percebia-se facilmente que estávamos diante de um grande teólogo, sábio e competente, um docente sempre atento, dedicado, apaixonado, generoso, mas também rigoroso e exigente. Não nos surpreendeu apenas pela supina racionalidade e inteligência, mas também pela afetividade e pela carga sentimental que punha naquilo que ensinava. Recordo-me que ensinava alguns conteúdos de teologia com as lágrimas nos olhos, o que ainda hoje faz com uma genuinidade desarmante. Une, de forma admirável, a inteligência e o coração.

Como formador, deixou uma marca indelével pela forma humana e adulta como tratava os seminaristas, paladino da liberdade responsável. Tinha sempre o cuidado de nos alertar para a beleza da liberdade, vivida com responsabilidade. Uma tem de andar a par da outra. E não deixava de testemunhar todos os dias a vivência de um sacerdócio alegre e feliz, que não podia deixar de contagiar e estimular, o que continua a exibir como bispo.

Já teve o cuidado de elencar à imprensa os possíveis motivos da sua nomeação: pela sua experiência, sabedoria e competência, dar o seu contributo ao Papa e à Cúria romana no governo da Igreja Católica; aproximar mais as dioceses do Papa, desejo há muito manifestado pelo Papa Francisco, tendo grande peso a importância do santuário de Fátima para a Igreja e para o mundo, enquanto espaço de evangelização e encontro dos povos e culturas de todo o mundo, importância que o Papa experimentou na celebração do centenário; a confiança que o Papa deposita na sua pessoa para reformar a Igreja, existindo sintonia de ideias na edificação de um igreja mais evangélica, mais próxima e misericordiosa, mais serva, mais pobre, mais aberta, mais descentrada de si mesma e mais preocupada com os problemas do mundo.

Exultamos pela feliz e acertada escolha que o Papa Francisco fez. Passa a contar no seu colégio cardinalício com uma pessoa excecional, um padre e um bispo exemplares, um pastor sagaz e um teólogo notável, que muito o pode auxiliar na renovação da Igreja Católica.

25.01.19

O Frei Herculano Alves, capuchinho, que tive como professor de Escritura na Universidade Católica, concedeu uma entrevista à revista Mensageiro do Sagrado Coração de Jesus de janeiro, onde faz uma análise realista à atual realidade da Igreja e os desafios que se lhe colocam. Face ao acelerado processo de secularização que se está a verificar nas sociedades, as comunidades cristãs estão a ficar mais pequenas e mais envelhecidas. Muitas vão ficar reduzidas a pequenos grupos, lembrando os inícios da Igreja. Já lá vai a Igreja de massas, da majestosa cristandade. Diluídos os automatismos e os apoios familiares e socias de outros tempos, temos uma imensidão de «cristãos» que passou pela Igreja, mas não tem fé, nem convicções cristãs. Desertou. Já estamos a conviver com gerações, que estão a aprender a viver sem Deus e sem fé. Como chegámos até aqui?

Aconteceram mudanças significativas na família e na sociedade. Mas importa, sobretudo, olhar para dentro da Igreja. Nas últimas décadas, as comunidades cristãs alimentaram um cristianismo sacramentalista, lúdico e tradicionalista, e até de grande e fecunda ação social, mas não se deu a devida importância à iniciação cristã, que não estava a consciencializar e a comprometer os cristãos, ao analfabetismo cristão de muitos cristãos, à formação e à evangelização dos leigos na Igreja, com muita gente religiosa, mas pouco cristã, quase pagã. Não podemos persistir nesta senda. O Cristianismo tem a sua vertente sacramental e litúrgica, festiva, é criador de cultura e gerador de costumes e tradições, tem um papel insubstituível e impreterível nos desafios e dificuldades da sociedade, mas é importante que seja testemunhado por cristãos adultos na fé, bem formados e esclarecidos na sua condição de discípulos de Cristo, cristãos convencidos que sabem o que são e o que querem. Até o consumismo religioso se instalou em muitas comunidades, sacramentos atrás de sacramentos, festas e mais festas, sem crescimento e compromisso verdadeiramente cristão.

Só temos um caminho a seguir: apostar numa formação pastoral séria, recuperar o protagonismo da evangelização nas comunidades, à volta da Bíblia, formar doutrinalmente e espiritualmente os leigos, que se sintam evangelizados para evangelizar, com convicções. Sem formação, não haverá salvação, diante deste vendaval de secularização, que tudo leva na frente. Urge, por isso, uma nova educação cristã e uma revolução nas nossas comunidades cristãs, à imagem dos primórdios do Cristianismo: eucaristia e ensino, ou seja, evangelização e formação. Só as árvores robustas e com grandes raízes resistem às tempestades.

25.01.19

Dentro de pouco tempo, vai começar uma das atividades ou ações mais importantes das comunidades cristãs: a catequese. Nos últimos tempos, foi proposto aos agentes eclesiais desta importante área da Igreja um documento de trabalho para reflexão e renovação da catequese, a partir da Carta Pastoral «Catequese: A Alegria do Encontro Com Jesus Cristo», que os bispos portugueses apresentaram no dia 13 de maio deste ano.

O ponto de partida para toda esta movimentação dentro da Igreja foi a visita dos bispos portugueses a Roma, onde ouviram do Papa Francisco, no dia 7 de setembro de 2015, alguns reparos à pastoral portuguesa, manifestamente deficiente no campo catequético, acusando alguma desatualização face às exigências e desafios dos tempos atuais, verificando-se um abandono precoce das novas gerações. O repto ficou logo lançado pelo pastor supremo da Igreja: «Ao catequista e à comunidade inteira é pedido para passar do modelo escolar ao catecumenal: não apenas conhecimentos cerebrais, mas encontro pessoal com Jesus Cristo, vivido em dinâmica vocacional segundo a qual Deus chama e o ser humano responde.(…) Precisamos de conferir dimensão vocacional a um percurso catequético global que possa cobrir as várias idades do ser humano, de modo que todas elas sejam uma resposta ao bom Deus que chama».

A escolarização da catequese, como a «redução da catequese a um encontro semanal, por vezes em apertados horários pós-escolares e a par ou mesmo em concorrência com atividades formativas ou recreativas talvez mais aliciantes; uma calendarização idêntica à da escola, com os catequizandos ausentes das maiores celebrações, como as da Páscoa e do Natal, por se realizarem em tempo de férias; a instrumentalização das celebrações ao longo do percurso catequético, incluindo a do Crisma, para segurar os catequizandos até, uma vez crismados, deixarem a Igreja como deixam a escola; a linguagem usada, predominantemente escolar – “matrículas”, “exames” “aulas”, “alunos” e a identificação destes por anos, como na escola», foi um caminho errado. Argumentaremos que foi prático e que não deixou de dar os seus frutos numa sociedade marcadamente católica e com grande presença e intervenção familiar. Mas, atualmente, não está a fazer cristãos, discípulos de Cristo e membros da Igreja.

A escola seguirá o seu ritmo e o seu caminho e a catequese terá de encontrar outra configuração, outro ritmo e outro caminho, apostando no modelo catecumenal, isto é, um modelo que não aposte só na transmissão de fórmulas, verdades, conceitos, ideias e conhecimentos sobre Deus, religião e a Bíblia, mas se centre, sobretudo, na experiência e na vivência da fé, na relação e no encontro com Deus, formando todas as dimensões do crente e possibilitando uma adesão livre e madura de seguir Jesus Cristo e fazer parte da Igreja. O fim da catequese não é fazer sabichões de doutrina ou dum catecismo, como quem aprende uma tabuada, mas formar discípulos, pessoas que de verdade assumem a fé, que vivem o que aprendem, comprometidas, dispostas a caminhar na fé, numa relação convicta e madura com a Cristo e com a Igreja, na resposta a um chamamento permanente. E o catequista não é um mestre ou um professor de fé e religião, que passa conteúdos. É ou deve ser uma testemunha, que ensina não só o que sabe, mas sobretudo o que vive e experimenta, como aquele que acompanha um processo de iniciação, como alguém que é um mediador, um facilitador do encontro do catequizando com Deus», nas palavras da Irmã Isabel Martins, do Patriarcado de Lisboa.

Nas nossas comunidades de Barroso, persiste o esquema escolar. Mas como a família está a deixar de cumprir a missão de transmitir e acompanhar o crescimento da fé, temos de nos abrir a um novo modelo de catequese, dito catecumenal. Que as nossas comunidades se preparem e estejam abertas a esta renovação da catequese, fundamental para o futuro da vida cristã e das nossas comunidades.

25.01.19

Dois conceitos fundamentais na nossa cultura e na nossa vida são a verdade e a mentira. Há uma verdade contra uma mentira, uma fantasia ou uma invenção. As nossas ideias e a nossa vida exigem um fundamento real, certo, uma objetividade inquestionável a que se dá crédito e que serve de alicerce à vida e ao pensamento. A vida exige a verdade para ser uma vida de verdade. No entanto, atualmente, estamos a assistir a este conturbado, nebuloso e insidioso tempo a que os estudiosos chamam o tempo ou era da pós-verdade, ou seja, o tempo em que a verdade deixou de ser a conformidade com os acontecimentos e os factos e cada um passou a ter o direito de construir a sua própria verdade, a sua interpretação da realidade e dos factos. Já não é o tempo de uma única verdade real e objetiva incontestável, respeitadora dos factos, aceite por todos, mas o tempo das meias-verdades ou verdades alternativas, conforme a ótica e a perspetiva de cada um, distorcendo-se a realidade. Depois de se ter ingloriamente decretado a morte de Deus, está a ser agora proclamada a falência ou a morte da verdade e a promover-se o admirável mundo das várias verdades, das narrativas, das perspetivas, das versões, das interpretações da realidade conforme os interesses e as conveniências de pessoas e grupos. Ainda nos lembramos do ridículo que foi ver o atual presidente americano defender que teve tantos ou mais americanos a assistir à sua tomada de posse como teve Barack Obama, quando as imagens o desmentiam inequivocamente. Contudo, arrogantemente apresentou imagens e dados «alternativos», ou seja, sejamos honestos, distorcidos e inventados, para confirmar a sua verdade.

Dois grandes fatores estão a contribuir para esta confirmação: a ascensão do populismo na política e na economia e a grande relevância dos meios de comunicação social e das redes socias nas sociedades contemporâneas. A estratégia de definir uma verdade conveniente e de saber manipular o povo para a aceitar não é de agora. Sempre foi um recurso a que os vários poderes que constituem a sociedade souberem recorrer com mestria e sem escrúpulos morais. Mas agora tornou-se ainda mais fácil fazê-lo, com um impacto e uma velocidade impressionantes. Está aí em força o fenómeno das fake news ou falsas notícias, com um poder incrível, um número incalculável de estragos, com dimensões inacreditáveis, ao ponto de já poderem ter influenciado eleições e decisões importantíssimas de povos, como as eleições na América, no Brasil e o referendo do Brexit no Reino Unido. Impensável.

Segundo o investigador brasileiro da Universidade do Minho, Sergio Denicoli, existem grupos, com milhares de seguidores, que se dedicam a espalhar conteúdos e dados falaciosos, a desconstruir, a rebater e a relativizar com enredos falsos a própria história e a verdade como a conhecemos, os temas sociais, através de sites, do Facebook e do Youtube, por exemplo, fazendo passar sempre uma forte impressão de que estão a transmitir a verdadeira verdade como nunca foi contada até agora, verdade que a conspiração dos poderes instalados e opressores sempre esconderam e manipularam até hoje, quando, na verdade, quem o está a fazer com uma ominosa imoralidade são eles mesmos. Um sem número de mentiras anda por aí a ser assimilado como factos verídicos. Alerta o investigador que os próximos atos eleitorais em Portugal não estão imunes a este vírus das notícias falsas e muitos eleitores poderão ser levados a tomar a sua decisão com base em invenções e falsidades espalhadas nos vários canais da internet. Dá que pensar!

Reparemos no pântano e nas águas lodosas em que nos movemos! Vivemos, de facto, tempos preocupantes e perturbadores, que exigem de nós muita prudência e perspicácia. Lá no fundo, tudo pode ser verdade. Mas quando tudo pode ser verdade, acabamos por edificar um mundo de mentiras e falsidades, de meias-verdades e de inverdades. Podemos andar a ser levados por «narrativas» proclamadas pelos profetas e malabaristas da pós-verdade, anunciadas como o último grito da verdade, que não passam de belas construções completamente descolocadas da verdade histórica e da verdade dos factos.

É fundamental para a nossa civilização que recuperemos o respeito pela verdade e que combatamos esta trágica deriva contemporânea de misturar ou trocar a verdade por mentiras, invenções, ficções ou oportunas versões ao serviço de interesses. Que voltas o mundo dá: a sociedade da informação que foi promulgada aos quatro ventos com grande otimismo e com grande fervor progressista, arrisca-se a ser a sociedade geradora da maior desinformação e contrainformação jamais imaginada, a maior propagadora de mentiras, de falsificações e fraudes informativas.  

25.01.19

Genoveva do Espírito Santo (nome fictício) é uma figura conhecida do bairro da Boa Fama. Já é viúva há dezena e meia de anos, nunca mais se deixou enredar por amores («tive um e chegou-me»), anda sempre bem vestida e perfumada, com um vistoso fio de ouro no pescoço, onde exibe a figura do grande amor da sua vida, que visita diariamente no cemitério, homenageando-o com algumas orações e sentidas lágrimas. Quando o padre Anacleto vem ao bairro celebrar a missa, ela não falha: apresenta a sua intenção e tem sempre terços e outros objetos religiosos para o senhor padre benzer. Já se lhe ouviu dizer muitas vezes, altiva e convicta: «sabe, padre Anacleto, a minha família sempre foi muito religiosa. Como não podia deixar de ser, eu também sou.» Não falha uma missa, festa ou romaria.

Maria Antonieta da Purificação (nome fictício) é uma boa mãe de família e uma avó carinhosa. Não há maior alegria para ela do que ver os netos irrequietos à volta da mesa e ela a contemplá-los embevecida, com um sorriso de orelha a orelha, como um ourives contempla as suas melhores joias. Educou os seus três filhos a ir à missa todos os Domingos e à noite rezava o terço com eles, na companhia do marido, o que tenta fazer com os netos, mas com pouco sucesso. Tem um altar na sala de estar, onde vive as suas devoções e alimenta a sua piedade, com uma bela cruz de prata e várias imagens de santos, quadros com rezas, com uma vela sempre a arder. Todas as manhãs e noites passa por ali, para consolo da sua alma. Não há ano que não faça uma promessa, para ter a benevolência de Deus e dos santos. Está sempre prestável para ajudar o padre Agripino, a quem assegurou: «A minha mãe era uma mulher muito religiosa. E eu também gosto de ser, gosto da Igreja, e morrerei como mulher de Igreja. Não consigo viver sem fé».

De certeza que conheceremos pessoas assim. Não têm nada de errado. Conhecemos muito bem esta educação e cultura católicas, que foram o nosso berço. E muito temos a agradecer. Não tenho qualquer dúvida de que serão pessoas de verdadeira fé, boas e devotas, que procuram ser fiéis à tradição e aos costumes católicos, e que tentam pautar a vida pela boa educação religiosa católica que tiveram. O problema é que, muitas vezes, somos educados a ser muito religiosos e pouco cristãos, o que não pode acontecer. É um salto ou um passo fundamental que muitos cristãos católicos precisam de dar. Há por aí religião a mais, com muitos atos e práticas religiosas ancestrais, embrulhadas com muita superstição e espírito interesseiro, e cristianismo a menos. E não faltam «católicos», que ignoram o que é ser cristão e viver como tal. Ser um bom cristão católico não é ser só fiel a regras, práticas e costumes que a Igreja propõe, férreo cumpridor de ritos e cerimónias e aficionado de devoções e rezas, mas pautar a vida pelos critérios, valores e sentimentos de Jesus Cristo, pela fidelidade ao Evangelho. Corremos o risco de se cumprir em nós o que o padre António Vieira já alertava no seu tempo, «sermos católicos de dogmas, mas hereges de mandamentos», ou seja, acreditar numa série de verdades e praticar uma certa ritualidade e disciplina sacramental, mas depois viver ao contrário daquilo em que se acredita e se afirma diante de Deus, separando-se o culto da vida e a vida do culto, a fé e a doutrina da ética e da moral que devemos praticar todos os dias. É uma contradição inaceitável, que Jesus condenou severamente no seu tempo.

O divórcio entre o culto a Deus (ser religioso) e a vida (ser mesmo cristão) chega a atingir o escândalo, como descreve o escritor católico, João da Silva Gama: «Temos muito povo cristão que ainda está por evangelizar: para ele, a religiosidade só funciona em certas alturas da vida, como o nascimento, casamento e missa aos Domingos. Nos intervalos, o tempo mais importante da vida, há cristãos que chegam a cometer as mais incríveis barbaridades: caluniar e difamar sistematicamente o vizinho, fazer justiça por mãos próprias, à enxada ou linchamento, só porque lhe tiraram um palmo de pinhal ou da horta. No dia seguinte, vemo-los na missa com uma devoção de estarrecer.»

Não temos de ser muito religiosos, enquanto meros consumidores e praticantes de religião, trazendo para a nossa relação com Deus os mesmos hábitos, práticas, ritos, medos e superstições que todas as religiões sugerem ou impõem aos seus sequazes, ou o «animal religioso», que habita o ser humano, dita. Alguns autores católicos até defendem que Jesus Cristo não quis fundar uma religião, tal como é conhecida, quis fundar um movimento de discípulos, que perpetuaria no mundo a sua forma de estar e de viver, contruindo e testemunhando o Reino de Deus, de acordo com os princípios e valores do Evangelho. Religiosizar a fé cristã talvez não tenha sido um bom caminho. O que temos de ser mesmo é cristãos de verdade, imbuídos do Evangelho na mentalidade e no coração, com uma postura digna de cristãos nas relações humanas, na família, no trabalho, nos negócios e restantes âmbitos da vida humana e social, não descurando, certamente, a vida litúrgica, a oração e o encontro com os outros, mas viver só isto, sem a fidelidade diária a Cristo e ao Evangelho, é uma hipocrisia inaceitável para um cristão católico.

25.01.19

Há uma certa cultura errada instalada nas nossas comunidades cristãs, que tem de ser seriamente refletida: a celebração de festas e sacramentos sem a vivência do Domingo, dia central para os cristãos, e sem a participação na vida da comunidade de que se faz parte. É habitual, mais do que seria expectável, encontrarmos muitas famílias que se apresentam na igreja com filhos para batizar ou para fazer as comunhões, que andam completamente alheadas da vida paroquial e têm uma ligação à Igreja muito pobre, para não dizer nula. Não podemos continuar a alimentar esta vivência errada da fé cristã. Reduzir o cristianismo só a meia dúzia de festas, para se quebrar rotinas e se poder celebrar qualquer coisa com a família e os amigos e fazer bonitos álbuns de fotografias, é uma desfiguração inaceitável da fé cristã e um reducionismo religioso inconcebível. O Cristianismo tem as suas festas, mas é muito mais do que festas, é seguimento de Jesus Cristo, é viver como discipulo, é comunidade e caminhada de fé com os outros, é compromisso com o Reino de Deus, é testemunho audaz e coerente do Evangelho, é oração, relação e comunhão com Deus, na Igreja e com a Igreja. Esquecer isto ou não estar disposto a vivê-lo, querendo-se só a Igreja para festas, é viver uma mentira diante de Deus, instrumentalizar e desvirtuar a religião e viver um cristianismo ilusório e adulterado.

O mesmo se diga para os festeiros e romeiros das romarias de verão, que não aparecem numa missa durante o ano e que pouco ou nada se importam com a vida da comunidade que assumiram e com a qual se comprometeram, ou para os jovens casais, que vêm celebrar o casamento na Igreja e só se voltam a ver nos dias dos batizados dos filhos, ou até para as famílias que pedem missas pelos defuntos durante a semana e raramente participam na Eucaristia do Domingo, centro da comunidade cristã. Aliás, vivemos atualmente uma contradição gritante na Igreja, que deve fazer pôr os cabelos em pé a Jesus Cristo, salvo seja: pedir-se um sacramento ou participar numa festa não para progredir na fé e aprofundar a relação com Deus e com a Igreja, porque é para isso que se celebra um sacramento, mas para se continuar indiferente a Deus e se abandonar a Igreja. Roça o escandaloso e é um testemunho inaceitável e indigno de quem se diz cristão. Ao Crisma até já se chama o sacramento do adeus à Igreja. Pelos vistos, a fé em vez de ser vista como um tesouro e um dom que dá sentido, grandeza e plenitude à vida, ao invés, é entendida, e só pode ser por má ou falta de formação, como uma obrigação ou um estorvo, de que devemos prescindir e de que nos devemos libertar, porque pouco ou nada importa na vida.

Temos de repensar seriamente estes comportamentos e estas práticas, que não são corretas e não ficam nada bem a quem se diz crente cristão. Não há qualquer argumentação que as sustente. Temos de rever as nossas práticas pastorais, apontar novos caminhos e rever o sentido e o significado de alguma tradição cristã, que não cria adesão a Deus e não gera comunidade, presença e intervenção cristã. Assim é que não podemos continuar. A Igreja está de portas abertas e alegra-se pelo facto de as famílias quererem batizar e crismar os seus filhos e de desejarem introduzi-los na comunhão com Deus e com a Igreja, mas ficarmo-nos só por aí, sem se assumir a sério a vivência da fé e um verdadeiro compromisso com Deus e com a Igreja, é patrocinar uma insanável falsificação da vida cristã. Continuarmos no cristianismo das festarolas é nutrir uma certa vivência da fé oca e vazia, aparatosa, mas estéril e sem alma, que Jesus condenou nos judeus do seu tempo, e que jamais aceitará aos seus discípulos e à sua Igreja.

 

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