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minhas notas

Fátima já não é só Fátima

20.03.13 | minhasnotas

Fátima continua a suscitar muitas interrogações e reservas, dentro e fora da Igreja. Diante da realidade das aparições e da sua mensagem, há três grupos: os negacionistas, que negam a sua veracidade e autenticidade, os crentes fervorosos, que aceitam o acontecimento na sua totalidade, e os indiferentes, que passam muito bem ao lado do acontecimento. Ainda me lembro de que, nos meus tempos de universidade, se comentava entre alunos e professores a necessidade de se purificar Fátima, a necessidade de se escrever uma história desapaixonada e objetiva de Fátima, sem fantasias e exageros. Ainda ninguém se interessou a sério por isso. A forma como se realizaram as aparições, a mensagem e os segredos de Fátima não podem deixar de nos levantar muitas dúvidas, é um facto. São legítimas as interrogações de muitos cristãos. Mas repito mais uma vez: Fátima não é dogma de fé. Acredita quem quer. E isto não deve escandalizar ninguém, porque não está em causa nenhuma verdade elementar da fé cristã. E questionar faz bem à fé. A nossa fé não pode ser fideísmo. Há que procurar uma fé desempoeirada e clara, que obedeça às exigências da racionalidade.

A nossa história de Portugal, inclusive a história da Igreja, está cheia de lendas e relatos de fenómenos de aparições de Jesus Cristo, de Nossa Senhora e de santos. Grande parte delas não estão reconhecidas pela Igreja, que as considera do mundo da ficção e impróprias para a vivência da fé cristã, e as que estão reconhecidas estão meticulosamente filtradas. A piedade popular sempre gostou destes fenómenos. Sempre houve apetite por acontecimentos miraculosos e surpreendentes e há quem saiba explorar muito bem este apetite. As exigências do Tomé estão dentro de cada um de nós. Gostamos de ver e tocar, para acreditar. Portanto, Fátima surgiu no seguimento de um grande enrodilhado de aparições da história, não é um fenómeno isolado. E o enrodilhado continua. Não param de chegar ao Vaticano relatos de aparições em muitas partes do mundo, de forma que o Vaticano já informou que anda por aí uma «febre de aparições» à solta, a que não dá grande crédito, apelando à ponderação e à prudência, e lembrando aos crentes – fixemos bem isto - que a fé cristã não precisa e não vive de aparições, mas precisa e vive de Cristo e do Evangelho.

São conhecidos alguns dos argumentos dos negacionistas. Segundo dizem, quem ler a fundo os relatos das aparições e a sua mensagem não pode deixar de sentir e pressentir que há ali muito «material produzido». Em primeiro lugar, muitos dos medos e da piedade da época que se vivia na Igreja está ali retratada. Até que ponto a mensagem de Fátima é genuína? Quis dizer aquilo ou fizeram-na dizer aquilo? Em segundo lugar, que necessidade há de Nossa Senhora vir dizer a umas crianças o que já estava dito? O Evangelho recomenda a oração e a conversão há mais de dois mil anos. Até que ponto não se promove irresponsavelmente a deificação de Nossa Senhora com as aparições? Em terceiro lugar, a «criação dos segredos de Fátima», com toda a sua especulação e com uma oportuna leitura histórica, é muito questionável. Não se vê qual foi o interesse de Nossa Senhora vir revelar acontecimentos futuros, dando a ideia de que a história já está determinada e que os homens pouco ou nada poderão fazer para a mudar e que Deus assiste indiferente, o que não é verdade. A doutrina cristã ensina precisamente o contrário. Que contributo sério deu isto tudo para a fé cristã?, perguntam. Considero que estes argumentos merecem a sua atenção. Há dados à volta do acontecimento de Fátima que prestaram um mau serviço à fé cristã. Serão estas dúvidas suficientes para não se acreditar em Fátima? Cada crente use da sua liberdade.

Do lado dos crentes fervorosos, há a destacar o nascimento dos fatamistas: cristãos que deslocaram o centro da sua fé de Cristo para Nossa Senhora e a vivência da sua fé da comunidade a que pertencem para o santuário de Fátima, com grande indiferença e falta de compromisso para com a Igreja local a que pertencem (não generalizando). Há que dizer que é uma grave distorção da fé cristã e um grave desvio quanto à vivência da mesma e do Batismo. Segundo dizem alguns estudiosos, Fátima cativou as pessoas porque a Igreja hierárquica fomentou uma religiosidade fria e calculista, assente num Deus demasiado paternal, um Deus juiz e autoritário, dispensador de recompensas e castigos, e escondeu o rosto maternal de Deus, a sua ternura e o seu carinho, o Deus próximo e acolhedor, o Deus do amor e da misericórdia. Até aceito o reparo e a hierarquia da Igreja não deve deixar de refletir nele. Mas, se lermos bem o Evangelho, o que se busca em Fátima está lá. Leiam a parábola do filho pródigo. Na minha opinião, o nascimento dos fatamistas vem mais na linha da religião sentimentalista, protetora e interesseira que muitos crentes gostam de cultivar, a «religião dos favores» sem grande exigência de contrapartidas e compromissos, a prática religiosa que busca Deus não pelo que Ele é, mas pelo o que Ele dá. É uma vivência errada da fé cristã.

Eu, pessoalmente, nem sou um negacionista, nem sou um crente fervoroso de Fátima, porque sinto que a história de Fátima devia ser purificada. Se repararmos bem, a Igreja Católica têm feito uma «cristianização» de Fátima, chamando-nos bem atenção que Fátima só se compreende e se aceita se nos fizer chegar a Cristo e à Igreja. Fátima não é para fugirmos de Cristo e da Igreja, e muito menos é uma evasão e um sedativo para a vida, como dá a ideia que é para muitos crentes. É na Fátima cristianizada que eu acredito. Logo à entrada do santuário, temos a Basílica da Santíssima Trindade, que nos recorda que tudo parte de Deus e é para chegar a Deus. Este é o centro da fé cristã. Fé que nos foi transmitida pelos Apóstolos, que dão nome às portas da Basílica. A guiar-nos na vivência e no fortalecimento da nossa fé e na descoberta dos seus desafios e maravilhas, temos Maria, que nos dá a mão quando pisamos aquela terra virgem e experimentamos aquele silêncio que nos enche a alma. Fátima, hoje, é uma escola de verdadeira espiritualidade cristã, é uma escola de oração, é um espaço de encontro com Cristo e por Cristo com Deus Pai, é um espaço de fraternidade, de encontro e comunhão de culturas, de universalidade cristã, é um espaço de verdadeira comunhão entre todos os cristãos do mundo.  É para isto que apelam as imagens de Nossa Senhora de Fátima que temos nas nossas igrejas. É nesta Fátima que eu acredito, devidamente direcionada para o núcleo da fé cristã.

Acredite-se ou não em Fátima, há um respeito e um novo olhar que Fátima nos merece, porque Fátima já não é só a Fátima das aparições e dos pastorinhos. Já é a Fátima de Cristo, do Evangelho, da Igreja. É a Fátima digna dos cristãos. 

novos (b) ventos

07.03.13 | minhasnotas

«Estando consciente da seriedade deste acto, e em plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de S. Pedro». Assim resignou o Papa Bento XVI. Escusado será dizer que nos apanhou de surpresa, foi um «raio» súbito e insuspeito que fez estremecer a Igreja e o mundo, apesar de Bento XVI já ter dado sinais há muito (desde 2010), em discursos e entrevistas, de que esta decisão poderia estar no seu horizonte. No livro-entrevista de Peter Seewald, editado em 2010, «Luz do Mundo», o Papa afirma que a resignação deve acontecer «num momento de serenidade ou quando já não se pode mais». Manifestava, claramente, que não queria ter um fim como João Paulo II, Papa que, na minha modesta opinião, por muita interpretação humana e espiritual que se possa dar ao epílogo do seu pontificado, deveria ter tido um final de vida mais discreto e tranquilo, face à grande debilidade física que exibia. O Papa é o vigário de Cristo na terra, como também o é todo e qualquer cristão a seu modo ou «pequenino» que por aí ande, cabendo-lhe testemunhá-Lo com toda a verdade e beleza do seu mistério, mas ser Papa também é uma função, é ser pastor de uma multidão de 1200 milhões de fiéis, com todas as suas estruturas, e, quando já não se têm condições físicas e mentais para se desempenhar a missão, o que se exige é a passagem de testemunho a outro mais fresco e idóneo, e não faltam homens idóneos dentro da Igreja. O que talvez nos intrigue mais é que estamos habituados a ver o Papa rodeado de um certa «auréola de sacralidade», alguém que Deus escolheu e que recebeu o encargo de levar o pastoreio até ao fim natural da vida, como quem carrega a cruz até ao calvário, não tendo o direito de recuar. Mas é um exagero, porque é um cargo como qualquer outro cargo dentro da Igreja. Bento XVI assim o dá a entender no início do seu pontificado, «sou um humilde trabalhador da vinha do Senhor».

O seu pontificado, com a duração de quase oito anos, foi conturbado e difícil, com muitos ventos contrários. Debateu-se com alguns problemas de elevada gravidade no interior da Igreja, altamente demolidores para a credibilidade da Igreja Católica, mas respondeu com a sensatez, a sagacidade e a coragem que se espera de um grande Papa. Enfrentou o escândalo da pedofilia nas instituições católicas, que rebentou um pouco por todo o mundo, com mais incidência na América e na Europa. Demitiu 80 bispos que encobriram ou se manifestaram timoratos diante do escândalo. Mandou formular um código com leis duras e exigentes quanto à identificação e combate à pedofilia dentro da Igreja. Ainda a recompor-se do choque da dimensão e dos efeitos devastadores da pedofilia, são dadas a conhecer as suspeitas de que o banco do Vaticano, o Instituto para as Obras de Religião, está envolvido na lavagem de dinheiro. Mandou averiguar com todo o rigor e ordenou uma verdadeira limpeza em todo o banco. Pelo meio deste mar tempestuoso, envolveu-se em duas ou três controvérsias que, a verdade seja dita, surpreendeu pela sua imprudência, mas de que soube sair com destreza e engenho, com gestos concretos de sanação e reconciliação. Possivelmente, já a mirar a acalmia que ansiosamente almejava, irrompe o caso vatileaks, no Vaticano, em que documentos e cartas confidenciais, retiradas do seu escritório pelo seu mordomo pessoal, são dados a conhecer a jornalistas e à praça pública, reveladoras de intrigas, lutas de poder, rivalidades, negócios obscuros, corrupção, hipocrisia no seio da Igreja, nomeadamente na cúria romana. Não teve pejo em dar a entender que se sentia rodeado por um bando de corvos e que se sentia um cordeiro no meio de lobos. Com mil motivos para se sentir abatido e perturbado, e não escondendo o mal-estar e o assombro que o atravessava, nunca perdeu a serenidade e a lucidez nos seus discursos, audiências e homilias, sendo uma voz firme e resoluta na denúncia da «ditadura do relativismo», que, na sua opinião, não poderá deixar de ter consequências desastrosas, na denúncia do secularismo agressivo que prescinde de Deus, não se esperando outra coisa que a «perdição» do homem, na denúncia de um sem número de injustiças e faltas de respeito pela dignidade humana em todo o mundo, na denúncia da falta de moral e de ética na politica e na economia. Grande Papa.

O que nos fica da sua personalidade e do seu discurso? Foi um Papa corajoso, lesto, esclarecido, determinado e audaz. Como não podia deixar de ser, foi um conservador naquilo em que se tem de ser conservador. A Igreja nasceu para «conservar» o Evangelho e a partir dele construir o Reino de Deus. Poderia ter ido mais além na doutrina cristã e em algumas regras e princípios? Deixemos este juízo para a vida eterna. Intelectualmente, oriundo da racionalidade germânica, confirmou o que já se sabia dele: é um pensador sublime, duma inteligência rara (cada livro que leio dele é uma «aparição»), de uma clareza e finura intelectual ímpares, com grande à vontade nos ditames e nas ideias que circulam nas vísceras do mundo da cultura. Tem homilias com um conteúdo e um equilíbrio exemplar. O seu discurso foi sempre um discurso desempoeirado, sem tom pietista e sentimentalista, que tantas vezes roça o ridículo, e, ao mesmo tempo, sem tom etéreo, que, soberbamente fundamentado e transversal a todas as dimensões da vida, falava da agudeza e da subtileza do concreto da vida, das suas múltiplas realidades, dos seus problemas, desafios e necessidades e como Deus está presente e se dá a conhecer e apela nelas todas. Sem medo de cometer o atrevimento, podemos quase chamar-lhe o «Papa da razão», sem deixar de ser um Papa da fé, porque vincou repetidamente a importância e a necessidade da razão na fundamentação e na caminhada da fé. Não basta dizer que se tem fé, é preciso saber porque se tem fé, de que textura e massa ela é feita, e em quem se tem fé. Uma fé sem racionalidade é uma evasão e um perigo. Razão e fé têm de caminhar juntas, sob pena de ficarem ambas cegas. Ao mesmo tempo, uma razão fiel e honesta consigo mesma não pode deixar de perguntar por Deus e pode muito bem tocar as orlas do seu manto. Está feita e capacitada para isso.

A sua resignação é uma lição em muitos sentidos. Em primeiro lugar, ensina-nos a não «sacralizar» nenhum cargo, nem nenhuma figura nesta maravilhosa terra dos homens. Só Deus é que é santo e sagrado. Não existem predestinações divinas. Em segundo lugar, ensina-nos a saber estar e a saber sair no desempenho de missões e de cargos, porque a realidade muda e o homem tem a marca da fragilidade e da caducidade. Ninguém é «dono» e «senhor» de nenhuma função. Tudo é serviço a Deus e aos outros. Em terceiro lugar, ensina-nos a colocar o bem dos outros acima do bem e do prestígio individual. A vida é dom e entrega a Deus e aos outros. Esta é a postura decisiva e assertiva da vida. Em quarto lugar, ensina-nos que regressar à vida comum depois de se ocupar um cargo de grande importância não é «regredir» na vida, mas é sabedoria e humildade, não sendo um estorvo para que outros possam dar o seu contributo à história das instituições e da humanidade.  

Mais para o interior da Igreja, a resignação de Bento XVI é um convite à conversão. Não temos dúvidas de que foi o cansaço e a sua debilidade física que pesaram fortemente na sua decisão, sentindo-se incapaz de responder às exigências e aos desafios do pastoreio da Igreja. Mas, se lermos atentamente os seus discursos, homilias e outras intervenções públicas, possivelmente, outros elementos também pesaram na sua decisão, que devem fazer refletir seriamente a Igreja Católica, elementos que Bento XVI referia sempre com grande estupefação e desilusão. Uma boa parte da Igreja Católica não vive o que prega e ensina. Os valores mundanos dominam e orientam muitos dos seus membros e muitas das suas ações: avareza, poder, influência, ganância, protagonismo, vaidade, fausto, ostentação, comodismo, jactância e elitismo, valores em clara oposição aos valores do Evangelho e do Reino de Deus. Não era uma Igreja assim que Bento XVI esperava servir, com muitas jogadas de bastidores, hipocrisia, lutas e disputas, dividida em fações, infiel ao seu pastor, ávida de vis metais e de honrarias e respeitos terrenos, prenhe de dissimulação, manipulação, maquilhagem de fachada e matreirice. Como andamos tão longe da Igreja simples, humilde, santa, servidora, acolhedora, fraterna, unida, profética, missionária, orante, íntegra, casta, jovial e humana que Jesus Cristo tanto deseja.

É com pena que vemos partir um grande Papa, com qualidades intelectuais excecionais, um Papa que foi um verdadeiro mestre, um papa sábio, clarividente, profético, que transmitia esperança, serenidade e alegria por detrás do seu sorriso tímido, mas honesto. Na mesma linha, esperemos que os senhores cardeais escolham um bom pastor da Igreja.