Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Retomo o tema do homem light, pela pertinência e urgência do tema. Seguindo os seus passos, acabaremos por ter uma melhor compreensão da sociedade em que vivemos atualmente. Recordo a ideia base da denominação «homem light»: «um homem sem essência, sem conteúdo, sem valores, entregue ao dinheiro, ao poder, ao êxito e ao prazer ilimitado e sem restrições», um homem «que tem por bandeira uma tetralogia niilista: hedonismo (prazer), consumismo (ter e desfrutar), permissividade (vale tudo) e relativismo (subjetividade). Todos eles impregnados de materialismo.» São estes os traços gerais do homem light que prevalece nas sociedades contemporâneas.

Enrique Rojas, autor do livro com aquela denominação, descreve em seguida o que ele chama o «ideal apático» do homem light: «não há no homem light entusiasmos desmedidos nem heroísmos. Tudo suave, ligeiro, sem riscos, com a segurança pela frente. Um homem assim não deixará marcas. Na sua vida já não há revoluções, dado que a sua moral se converteu numa ética de regras de urbanidade ou numa mera atitude estética. Dessas frinchas surge o novo homem cool, representado pelo telespectador que com o comando à distância passa de um canal para o outro buscado não se sabe bem o quê, ou pelo sujeito que dedica o fim-de-semana à leitura de periódicos e revistas, quase sem tempo – ou sem capacidade – para outras ocupações de maior interesse». Facilmente constatamos esta realidade nos nossos meios: as pessoas já não se entregam a causas ou ideais com os entusiasmos de outros tempos, em que existia uma apurada consciência das metas nobres que a pessoa humana e a sociedade deveriam atingir, não porque não tenham tempo, mas porque não existem padrões e objetivos mais elevados e motivação para os atingir; prefere-se ir deixando passar o tempo sem grandes ondas, em vez de se investir saber e experiência em associações, movimentos, instituições, iniciativas ou ocupações de utilidade para o crescimento humano ou social, ou só se investe se não exige muito e é desportivo. Não há vontade firme, para lá da abnegação e do sacrifício, em se entregar a esforços para melhorar a sociedade, atingir uma maior perfeição humana e acrescentar algo mais à vida dos outros. 

Continua Enrique Rojas: «O homem light é frio, não crê em quase nada, as suas opiniões mudam rapidamente e vive afastado dos valores transcendentes. Por isso se foi tornando cada vez mais vulnerável. Deste modo é mais fácil manipulá-lo, mudá-lo de um lado para o outro, tudo, porém, sem demasiada paixão. Foram feitas demasiadas concessões sobre questões essenciais, e assim os desafios e os esforços já não apontam para a formação de um indivíduo mais humano, culto e espiritual, mas para a busca de prazer e do bem-estar a todo o custo, sem esquecer o dinheiro». Uma das coisas que mais me espanta em muitas pessoas é a facilidade com que se deixam ir atrás das opiniões dominantes. Num dia, defendem com exaltação determinadas ideias e valores, noutro dia, já estão a dizer tudo ao contrário com a mesma exaltação, porque a opinião dominante mudou. Repete-se a mesma atitude: ir atrás do consensual, para não fazer muitas ondas. Para quê entregar-se à aturada tarefa de contrariar e pensar uma pouco mais para além da espuma da vida? Há momentos na vida que é preciso mudar, mas não com esta leviandade e facilidade. Sinal claro de que as pessoas não têm convicções e que se regem pelos megafones do mundo por uma questão de aceitação, segurança ou incapacidade ou preguiça de pensar por si mesmas e de marcar a diferença. Opta-se pelo caminho fácil de fazer consenso com o pensamento predominante, sem reflexão e cunho pessoal. Ter convicções e lutar por elas é maçador, não é? A democracia não tem só coisas boas, também tem algumas menos boas: instala a apatia de pensar por si mesmo e gera o medo de se ir contra a maioria, a opinião pública.

Prossegue Enrique Rojas: «Podemos dizer que estamos na era do plástico, o novo sinal dos tempos. Dele advém um certo pragmatismo de usar e esbanjar, o que faz com que impere cada vez mais um novo modelo de herói: o do triunfador, que aspira – como muitos homens light – ao poder, à fama, a um bom nível de vida, passando por cima de tudo e de todos».  É esta a cultura que os meios de comunicação social mais promovem e que transparece com toda a clareza na vida dos partidos políticos, das instituições e das empresas: o atleta que ganhou a medalha de ouro e já é uma estrela, o ator que ganhou o óscar e que é admirado por tudo e todos, o gestor do ano, o individuo que subiu depressa na vida e ganhou muito dinheiro, o ambicioso que atingiu os seus objetivos, entre outros, sublinhando-se a ideia de que atingiram o cume da vida, o momento mais importante da sua vida. Assim se doutrina que a vida não é vida se não se consegue viver com triunfo, com fama, com prestígio, com reconhecimento e com dinheiro, com a admiração dos outros, numa loucura voraz para os atingir, o que não é verdade. São valores profundamente ilusórios, que escravizam mais do que libertam e realizam. O homem está feito para muito mais.  

Arremato, com uma última frase de Enrique Rojas: «O homem light não tem referências, perdeu o seu ponto de mira e encontra-se cada vez mais desorientado ante as grandes interrogações da existência. Quando se perdeu a bússola, a única saída é navegar à deriva, sem saber a que agarrar-se no que respeita a temas chave da vida, o que conduz à aceitação e canonização de tudo. É uma nova imaturidade, que foi crescendo lentamente, e que hoje já tem uma nítida fisionomia». A mais difícil constatação, que muitas pessoas estão a colher desta crise que estamos a viver, sem o dizerem abertamente, é que sentem que têm vivido uma vida vazia e sem sentido, vida que é mais sobrevivência do que vida, ao sabor das manipulações e dos impulsos dos poderes instalados do mundo, e não sabem que rumo lhe dar. Que futuro?, gritam as novas gerações. Soluções? Reina a desorientação e a cacofonia. E assim é, porque há muito que nos afastámos de encarar a vida com toda a sua verdade, de a pensar com a profundidade que ela merece, em vez de a termos despachado com a inconsciência das crianças no recreio. Adotou-se o ir vivendo, anestesiado pelo prazer e pelo desfrutar do materialismo, sem nos preocuparmos em construir e pensar um verdadeiro fio à meada da vida e em dar-lhe textura, como pessoas humanas. Eis-nos no meio do deserto e só vemos areia. Para onde ir? O povo hebreu pensava na terra prometida. Tinha um fim, um sentido, uma orientação, a busca de uma plenitude. Como é triste viver sem uma terra prometida! É um dos pratos que a cultura light melhor nos serve. Oxalá aprendamos alguma coisa com tudo aquilo que nos está a acontecer.


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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012

No último número do Notícias de Barroso, o capitão Paulo Delgado chamou a atenção para os muitos problemas que a caça atravessa e as potencialidades que ela tem e que ainda estão por explorar ou maximizar. Espero que as autoridades responsáveis pela caça não deixem de ter em conta mais um alerta e as propostas ali lançadas. Um bom número de caçadores abandona a caça todos os anos, o que é lamentável, porque é menos um pouco de lazer que deixam de ter na vida (a vida não é só trabalhar e gerar dinheiro, como pensa o governo) e é menos receita que se movimenta nos interesses legítimos à volta da caça. Sou um aficionado da caça, como já tiveram a oportunidade de perceber por alguns artigos aqui publicados. Não porque diabolicamente tenha gosto em abater animais ou em causar-lhes sofrimento, mas pelas benesses que me oferece. É uma atividade que alarga o leque das emoções, altamente relaxante e retemperadora, que proporciona exercício físico, contacto com a natureza, um pouco de aventura e surpresa, assim como bons momentos de hilaridade, convívio e camaradagem. Ingredientes importantes para o equilíbrio e o caldeamento da vida.

Nos últimos anos, na minha singela opinião, a caça não tem seguido o melhor rumo. O Estado, que tem gosto em complicar tudo e que preconceituosamente a considera um "luxo" de mandriões e pandilhas (e não é só o Estado que pensa assim, muitas cabecinhas mesquinhas também o pensam), tem feito o favor de a tornar burocrática, cara e inacessível. A vaga associativa, que muitos consideram a salvação da caça, está muito longe dos resultados que se almejavam, e até tenho a firme convicção que só veio suscitar invejas, divisões, mau ambiente entre caçadores e o aparecimento de coutadas habilidosamente geridas ao serviço dos interesses de grupos de caçadores.  

Vejamos mais em pormenor. Em primeiro lugar, acho que o Estado, na concessão da carta de caçador e licenças afins, devia adotar uma atitude mais preventiva e formativa e não tanto autoritária, legalista e repressiva. O exame para tirar a carta de caçador é desnecessariamente exigente. Passado um mês poucos se lembrarão do muito que tiveram que decorar para o exame. Tendo-se em conta o nível de alfabetismo real do nosso país, era preferível que o Estado organizasse sessões de formação obrigatórias para os caçadores, promovendo o conhecimento das espécies cinegéticas e a sua atividade, a conduta moral do caçador, o respeito e o cuidado pela caça, a segurança, entre outras coisas. Julgam que muitos dos que reprovaram nos exames deixaram de caçar? É claro que não, e poderão até agir com desprezo e revolta.

Em segundo lugar, a burocracia que rodeia o caçador e a caça é inexplicável. Compreendo que se tenha de ter alguma prudência, porque muitas pessoas não podem ter uma arma na mão, e que é preciso agir com muita responsabilidade. Mas isto não deveria ser motivo para massacrar o caçador com papelada, quase se dando a ideia de que se quer fazer marcação cerrada ao caçador, que devia era ter juizinho e estar a fazer outra coisa "mais útil à sociedade", ou então é jogada de bastidores para deixar a caça à mercê de um punhado de privilegiados. Como é que se justifica que na renovação de um documento, em Portugal, se tenha de apresentar sempre de novo todos os documentos, como se tivéssemos nascido à pouco do seio da nossa mãe? O Estado não tem memória e não tem arquivo? É desesperante. Já assisti a abandonos de processos, em plena secretaria da PSP, pela impaciência que provoca nas pessoas. Poderíamos e deveríamos ter outra maleabilidade e outra simplificação. O mesmo se diga em relação aos custos. Injustificadamente, a caça começa ser uma atividade cara, originando descriminação e desigualdade. A caça é um direito do cidadão, desde que devidamente legalizado, e não um privilégio, e os direitos promovem-se com justiça e não se dificultam. 

Em terceiro lugar, acho que caímos numa "febre associativista", que só veio trazer mais prejuízos do que benefícios, a agudização de algumas dificuldades e problemas, dando-se um machadada decisiva no carácter aventureiro e livre de que a caça se deveria revestir. Não vejo qual é o sentido e a importância de se criar tanta associação. Como é que se podem atrair caçadores para os nossos concelhos se estão todos retalhados em coutadas? Bastava só haver associações municipais, e quem quisesse caçar numa determinada associação municipal, dirigia-se à respetiva Câmara. Como é caricato andar sempre a esbarrar com placas limítrofes, que fazem andar, muitas vezes, os caçadores em avanços e recuos incompreensíveis e absurdos.

Menos compreensível ainda é o regime exclusivista de que gozam muitas associações, que só permitem a inscrição e a caça a residentes ou oriundos daquelas Freguesias. Isto tem algum cabimento? Será que temos o direito de vedar uma determinada região do país aos outros cidadãos, sem motivo de elevada importância? E se agora os algarvios se apropriassem das praias e estipulassem que só os residentes no Algarve poderiam tomar banho e usufruir das praias? Não entendo a lógica que preside à atividade de determinadas associações. Não tem qualquer sustentabilidade o argumento de que os residentes é que tratam da caça e que por isso é que têm direito à mesma e os «de fora» que se arranjem por outras paragens. Ponham-se no papel de um cidadão citadino ou no dum cidadão que reside num concelho devastado pelos incêndios (num país democrata uns não podem ter mais direitos e deveres do que outros). Até, deixem que lhes diga, salvo raras exceções, vejo pouco cuidado e pouca atenção das comunidades residentes em relação à caça e mau seria que não fizessem alguma coisa por ela. Por vezes, os maiores destruidores da caça são alguns residentes, que não se inibem de usar todo o tipo de armadilhas para apanhar caça ou de passarem noitadas em perseguição da caça. Que eu saiba, não são pessoas de fora que fazem estas coisas.

Esperemos que esta época venatória seja proveitosa a todos os caçadores e que nos desperte para as mudanças e para as más escolhas que se fizeram nos últimos anos, na minha modesta opinião. Devemos defender uma caça responsável, livre, gerida com equilíbrio e equidade.  


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