Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

minhas notas

Magistral...um dia isto tinha de acontecer

29.02.12 | minhasnotas

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. 

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. 

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

 

Mia Couto

o desvario dos feriados

21.02.12 | minhasnotas

1.O mistério adensa-se: que musa inspiradora terá sussurrado ao ouvido do Senhor Ministro da Economia, que a eliminação de alguns feriados contribuirá para um palpável crescimento económico do país? Que intuição cintilante o sobressaltou numa noite de compenetrada meditação, para não duvidar que mais quatro dias de trabalho permitirão fazer renascer o país das cinzas da crise? Que honrosa lucubração o Senhor Ministro fez, à luz da lua, para se sentir assaz convencido de que o país tem feriados a mais e que arrumando alguns «isto» vai começar a andar? Já perceberam que estou a recorrer à ironia para manifestar a minha não concordância, até estupefacção, com a decisão do Governo em abolir alguns feriados civis e religiosos, com a colaboração da Igreja, fazendo, assim, coro fácil, admita-se, com um bom número de cidadãos portugueses. Futuramente, serão suprimidos o 5 de Outubro e o 1 de Novembro e o Corpo de Deus e o 15 de Agosto. É um disparate. Até um iletrado em economia não terá dificuldade em perceber que o impacto desta decisão na economia real será ínfimo. E cheira a tique de capataz carrancudo, que está sempre à espreita para chibatar o mandrião ou para sorver mais umas gotas de suor ao calaceiro.  As pontes, sim, precisavam de uma nova abordagem, porque eram um exagero. Os feriados, não tem o mínimo sentido.  

É verdade que muitos portugueses, que agora manifestam uma indignação irreprimível, não ligam patavina a estes feriados. Muitos, aproveitam-nos para dormir, passear, ir às compras, ir à caça, fazer não sei que mais, sem qualquer ligação à sua celebração. Muitos nem saberão a razão da sua existência. Desde que não se trabalhe, está tudo bem. Mas, seja como for, estão lá para servirem de marcos à nossa caminhada histórica e à construção da nossa identidade, estão lá para comunicarem valores fundamentais e serem apelativos à união, pelo menos nas intenções, apesar de Vasco Pulido Valente opinar que nunca deveriam ter sido proclamados, porque não celebram o que parecem querer celebrar. Tanto ardor e aferro em celebrar os 100 anos da República, não há muito tempo, e sem a mínima hesitação acaba-se com o feriado que recorda a sua implantação. Pior do que estarmos pobres, é não termos memória e perdermos o fio à meada da nossa razão de ser e a gratidão que devemos aos que nos ajudaram a chegar à nossa condição histórica. Bom ou mau, o passado está lá e não devemos esquecê-lo, quanto mais não seja para aprendermos com ele. Os feriados são para isso. E, honestamente, esperava que a cúpula da Igreja pudesse ter recomendado mais sensatez ao governo nesta decisão incompreensível. Os verdadeiros problemas económicos do país são outros: baixa produtividade; pouca qualificação de empresários e trabalhadores; má gestão e organização empresarial; colagem excessiva ao Estado; uma educação insuficiente; incompetência e corrupção; entre outros. Já está dito e redito: os dias de trabalho já são suficientes. Temos é de trabalhar melhor e melhorar a nossa cultura de trabalho. Não são mais quatro dias de trabalho, ainda por cima promovendo amnésia histórica e cultural, que vão minorar milagrosamente os efeitos nefastos daqueles factores e catapultar o país para os níveis que os mercados aplaudam.

2.Continua o flagelo dos nossos idosos. Como vivemos numa sociedade materialista, comodista e do bem-estar, da produção e do capital, não era difícil adivinhar que esta realidade iria surgir mais tarde ou mais cedo. Os idosos já não têm força, não produzem, estão cheios de maleitas, são embirrentos e impacientes, dão um trabalhão dos diabos, não têm autonomia. Claro, não interessam a ninguém, a não ser que ainda não tenham assinado os papéis e revelado as contas que interessam aos seus «digníssimos familiares». A nossa sociedade não o diz, mas há muito que os considera um peso e um estorvo, material descartável. A uns, arruma-os como pode e, em muitos casos, bem, a outros despreza-os e abandona-os. Como não podia deixar de ser, aparecem mortos em suas casas. Repito: isto revela muito a crise de humanidade que estamos a viver, numa cultura doentiamente egoísta, materialista, individualista e relativista. É esta a consideração e o fim que merecem os idosos? O que se pode dizer de uma sociedade que abandona e despreza os que mais contribuíram para ela? Que mundo andamos a construir, se os que mais respeito e amor deveriam ter são quase tratados como lixo?

Está na hora de repensarmos o nosso modelo de sociedade e a nossa forma de sermos pessoas e de interagirmos uns com os outros. Uma sociedade em que a mulher não tem tempo para a gravidez e as famílias não têm tempo para cuidar dos seus idosos, é uma sociedade mal concebida desde os alicerces e humanamente desestruturada e alienada. No mundo, o mais importante são as pessoas. Tudo deve estar ao seu serviço e toda a organização social deve favorecer os meios e as estruturas para se atingir o bem de todas as pessoas e a sua interacção. Hoje em dia, impera uma cultura que privilegia o dinheiro e o consumismo. Quanto mais dinheiro se tem, mais se quer consumir e quanto mais se consome e se quer consumir, mais dinheiro se tem que ter. E anda-se assim neste círculo vicioso, não se apercebendo as pessoas de que são escravas desta lógica, que as empobrece e afasta umas das outras. Anda tudo a correr. Não há tempo para nada. Porque o que importa é o seu dinheiro e o seu bem individual, as pessoas fogem umas das outras, porque «têm mais que fazer». A atenção aos outros é residual. E assim se vai andando, faltando a consciência de que estamos cada vez mais sós e definhados humanamente. Não privilegiamos o amor e atenção aos outros, que deveria ser um dos valores cimeiros da nossa hierarquia de valores.

Podemos multiplicar os mecanismos e as estruturas para se identificarem e sanarem os problemas e as necessidades dos idosos. Mas não nos esqueçamos que esse não é o «problema». O problema está em nós e na cultura humana e social que erigimos nas últimas décadas, que tem de ser reconstruída, colocando-se as pessoas e as suas relações em primeiro lugar.

Vaclav Havel

04.02.12 | minhasnotas

No dia 18 de Dezembro de 2011, Domingo, alvores da semana de Natal, uma notícia sobressaltou os espíritos e lançou pesar em muitos rostos: acabava de falecer Vaclav Havel, antigo presidente da Checoslováquia, depois República Checa. Vaclav Havel é uma das grandes figuras do séc. XX. Um pensador político de grande prestígio. Apesar de ter desenvolvido toda a sua actividade política, intelectual e social no seu país natal, era um «cidadão da Europa e do mundo», admirado e respeitado por todos. Ao longo de 75 anos, entregou-se a uma intensa actividade literária, como escritor e dramaturgo, e a uma coerente e determinada intervenção cívica e política. Liderou a denominada «Revolução de Veludo», em 1989, revolução pacífica que pôs fim ao governo comunista na Checoslováquia, instaurando a democracia, revolução que inspirou muitas revoluções não agressivas em muitas partes do mundo, operando-se a transição de ditaduras totalitárias para regimes democráticos. Apesar de ter sofrido muito com as muitas tentativas do regime comunista para o amordaçar, ao longo de toda a sua vida foi um intrépido e intransigente defensor dos direitos humanos e da liberdade. Liberdade que viu finalmente despontar após a queda do muro de Berlim, início do colapso do comunismo. Pelo seu carácter e pela sua conduta, e pela sua densidade humana e intelectual, conquistou a auréola de «sábio», com alguma dose de profetismo, que poucos podem exibir, sendo reverencialmente lido e escutado. É o que vos proponho fazer nas próximas linhas, que teve eco em alguma imprensa.

Quem ao de longe ou de perto foi acompanhando o seu pensamento, em que teve sempre o cuidado de alertar para os desvarios e as imprudências da Europa e um pouco do resto do mundo, - do seu ponto de vista, é esse o papel do intelectual - não pode deixar de se sentir questionado e interpelado. Numa das últimas conferências que proferiu, lançou a perturbação sobre os seus ouvintes: «Vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade», o que, na sua opinião, terá consequências devastadoras para a realização do homem e o rumo da humanidade, levando, por exemplo, a pensar que «o que é importante é que um investimento seja rentável em dez ou 15 anos: o modo como afectará as vidas dos nossos descendentes dentro de cem anos é menos importante.» As gerações anteriores à nossa, conscientes da finitude humana e escrupulosamente atentas ao futuro, tiveram sempre a preocupação de procurar um infinito e de deixarem o mundo bem organizado, assim como um legado moral às gerações vindouras. Se nem sempre o fizeram bem, foi essa a sua intenção. Actualmente, reina o curto e médio prazo, o viver só aqui e agora, sem qualquer preocupação moral, sem busca de uma plenitude ou ligação a uma eternidade, importando muito pouco o que aí vem e como viverão os que aí vêm. Não é a atitude correcta de quem se diz responsável e eticamente evoluído.

Na sua sapiência pungente, Havel não deixa de apontar um dos grandes pecados da modernidade e da contemporaneidade: o pecado do orgulho, que nos leva a ser arrogantes. Reina a «ideia arrogante de que conhecemos tudo e que aquilo que ignoramos depressa o descobriremos, porque vamos saber tudo.» Como não ver aqui uma chamada de atenção à ciência, que se tem arvorado em senhora e juíza da verdade, fazendo dos laboratórios os tribunais da verdade e nada considerando como certo e digno de ser aceite que não encaixe nas suas equações matemáticas, julgando que pode saber tudo e explicar tudo? Como não ver aqui um convite a moderar a insolência de se proclamar a não existência de Deus, como muitos ateus fazem sem a mínima reserva? O que é que sabemos ao certo da existência ou não existência de Deus? Qual é a pressa em expulsar Deus da vida e do mundo? Como não ver aqui um apelo aos tantos técnicos, especialistas e senhores doutores para que percam os tiques de pedantismo e de sobranceria intelectual, julgando-se detentores de um «iluminismo» absoluto contra as trevas? Como não ver aqui uma apelação a se diminuir a altivez da actual geração científica e tecnológica em relação às gerações ou épocas passadas, denominadas obscurantistas, que nos ajudaram a ser o que somos hoje? Continua Havel: «Nós esquecemos o que as anteriores civilizações sabiam: nada é evidente por si mesmo. Penso que a recente crise financeira e económica é de extrema importância e constitui, na sua essência, um eloquente sinal para o mundo contemporâneo.» Nos últimos anos ou décadas, o homem perseguiu insistentemente, com uma fé cega e impenetrável, o sonho diabólico de ser definitivamente senhor de si e do mundo, livre de todos os empecilhos e de todas as amarras. Rebentou a crise e escancarou-se a fragilidade humana e do mundo omnipotente que julgávamos que andávamos a construir. Perdeu-se a humildade das gerações anteriores, que tinham plena consciência de que não somos donos de tudo e que não podemos controlar tudo e que nunca se deve perder de vista a fraqueza e a precariedade do homem sobre a face da terra. A actual crise é «um aviso contra a desproporcionada autoconfiança e o orgulho da civilização moderna. O comportamento humano não é totalmente explicável como muitos inventores de teorias e conceitos económicos acreditam. Vejo a recente crise como um pequeno apelo à humildade. Como um pequeno desafio para que não tomemos nada como automaticamente garantido.» E lança o apelo urgente: caminharemos para a catástrofe se a nossa civilização não corrigir «a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho.» E mais sofrimento virá se o homem actual não abandonar a sua jactância, percebendo de uma vez por todas «quão incrivelmente míope pode ser um ser humano ao esquecer que não é Deus».

Apesar de não ser um crente fervoroso, longe disso, e de não estar inclinado para nenhuma religião – era um agnóstico, nas suas palavras, um meio crente - salienta a importância da dimensão religiosa e espiritual do homem, abertas a uma transcendência, e a importância de se viver com horizontes metafísicos: «Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos. Quanto a mim, sou apenas meio crente, pois não adiro completamente nem a um único deus, nem a uma religião revelada. Tenho, no entanto, a certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso. Estou convencido de que há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina."E conclui peremptoriamente: «A transcendência é a única alternativa real à extinção».

A finalizar, já antevendo a crise que se iria abater sobre a Europa, por causa da cartilha que inspira os governantes europeus, sublinharia numa entrevista de 2007: «O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras, reconhecendo como suprema autoridade a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes.»

Os sábios são faróis que brilham na escuridão, astros que nos ensinam a ver com mais clarividência e profundidade. Saibamos nós ter a humildade suficiente para os sabermos escutar. Paz à sua alma.