Sábado, 24 de Setembro de 2011

Há sempre um ponto que me desgosta em muitos amigas e amigos católicos: é a distância em relação ao debate público e político, é o nojo fácil pela política. Isso é visível, por exemplo, no Facebook. Ali podemos ver milhentas pessoas a assumir com orgulho a identidade católica e, ao mesmo tempo, a desprezar a identidade política. Na secção "religious views", surge triunfante a palavra "católica". Na secção "political views", surge um pobre e fácil "não uso disso" ou um "são todos iguais", etc. Na revista Communio (Setembro 1988), o omnipresente Francisco Lucas Pires escreveu um artigo que é, para mim, a melhor resposta a esta pobreza apolítica de um certo catolicismo.

Nesta prosa, intitulada "Pureza de Coração e Vida Política", Lucas Pires afirma que existem duas maneiras de um cristão lidar com a esfera política. A primeira passa por aceitar que os princípios e regras da esfera política são de "outro tipo" e que, por isso, o cristão só deve ter preocupações com a salvação da sua consciência. Ou seja, o cristão deve criar uma redoma à sua volta, retirando-se assim dos debates da Cidade. Nesta via, o cristão julga-se tão puro, que não quer sujar as mãos na realidade. "Sim, sou muito católico, mas não quero nada com a política, são todos iguais".

Como já perceberam, Francisco Lucas Pires critica esta primeira via, e defende uma alternativa. Para o ex-líder do CDS e inspirador de boa parte do PSD atua l, um cristão tem o dever de lutar na Cidade, tem o dever de fazer opções públicas e políticas. Porque o leigo não é o padre a viver fora da Cidade. O leigo tem de viver no mundo, tem de produzir e/ou participar numa narrativa normativa para a Cidade, mesmo quando essa Cidade é dura e suja. Sim, a política namora com o pecado e com a mentira, mas - precisamente por causa disso - a política é o terreno propício para se apurar a "pureza de coração". Só podemos testar a nossa pureza num mundo imperfeito e duro. A redoma apolítica é uma via fácil e pouco cristão.

Portanto, numa lógica algo parecida à de T.S. Eliot, Lucas Pires diz que o cristão tem de tentar influenciar o espaço público, tem de levar os seus valores cristãos para a Cidade. O cristão não tem apenas de salvar a sua consciência: também tem de salvar a sua cultura. O cristão não é apenas um ser metafísico, também é um ser historicamente situado. No fundo, não deve existir uma separação entre a obediência moral (a Cristo, a Deus) e a vida política e colectiva aqui na Cidade dos homens. Pelo contrário: deve existir uma tensão criadora entre a ética cristã e a realidade política.

 

 

Henrique Raposo, Jornal Expresso



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Alguns olham para a Igreja apenas exteriormente, como se fosse uma multinacional. Outros consideram-na com certos interesses, como se fosse uma associação desportiva ou cultural e quando esses interesses não se realizam, criticam-na.
Seria bom, disse ontem o Papa, em Berlim, que os descontentes se interrogassem sobre o que significa pertencer à Igreja. É que pertencer verdadeiramente significa permanecer em Cristo, mesmo quando isso custa, quando é difícil e até contrário aos nossos planos. Porque na Igreja haverá sempre peixes bons e maus, haverá trigo e joio, misturados, mas Cristo é a garantia de vida e ele nunca nos abandona, garantiu Bento XVI.
A nós, compete optar se queremos permanecer nele ou não. O Papa recordou ainda como Cristo é a videira e nós os ramos. Fora dela, os ramos secam e morrem. É mesmo uma opção de vida ou de morte.

 

Aura Miguel, Renascença, 23.09.2011


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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

Fico impressionado com a rapidez com que os acontecimentos são esquecidos e a ligeireza com que são abordados. Os meios de comunicação social imediatamente montam as câmaras para se assistir às imagens reais de uma qualquer anormalidade social, convocam-se dois ou três comentadores de serviço, cria-se o debate, apontam-se teses, traçam-se cenários, descobrem-se mundos e fundos, mas basta acontecer uma rajada de tiros numa outra qualquer parte do mundo, que rapidamente se desmonta o circo e se parte para outra, ficando tudo muito no ar, duas ou três tiradas doadas ao vento. Enfim, o circo mediático. No inicio do mês de Agosto, uma série de motins lançou o caos e a anarquia nas ruas de várias cidades inglesas. A causa, segundo informaram, foi a morte de um jovem por parte das autoridades inglesas. A morte do jovem é geradora de indignação, é verdade, mas a reacção foi totalmente desproporcionada e sem sentido. Em democracia ou em qualquer outro regime, não é assim que se manifesta a indignação, mas pedindo o apuramento de responsabilidades e mudando as estruturas e as leis para que não se repitam os mesmos erros. Mas não demorou muito a percebermos que aquela não era a única causa dos motins. Aliás, a morte do jovem era a justificação de que estavam a precisar para colocar em marcha o vandalismo puro e duro. O que movia aqueles bandos de insurrectos, afinal, não era tanto a «solidariedade» para com o malogrado jovem, mas o poderem durante alguns dias descarregar a má sorte da sua vida, a inveja e a raiva que têm aos «ricos», o sentimento de injustiça que os invade por verem que o progresso e o bem-estar não passam pela casa deles.

Alguns, convencidos de serem senhores do mundo por alguns dias, afirmavam orgulhosamente que «estamos a mostrar aos ricos que fazemos o que nos apetece». Enfim, imbuídos dos sentimentos de impunidade e de libertinagem, outra coisa não quiseram que libertar a fúria e a cólera reprimida que as suas entranhas aprisionavam. Outros gritavam que o faziam em nome dos seus «direitos», sem se importarem minimamente com os direitos dos outros, destruindo tudo o que lhes aparecia pela frente, sobretudo lojas comercias, principais alvos da sua ira.

A grande conclusão que se retira desta injustificável insurreição de jovens é que os motins não foram actos de reparação de uma injustiça, mas foram actos de vândalos, que acirrados pela febre consumista e cultivadores da violência, espalharam estrategicamente o caos para adquirirem produtos e bens que vêm aos outros e que a televisão lhes impinge a toda a hora. O consumismo ou o não poder consumir como os outros, devidamente caldeados por uma inveja a transbordar, foram os grandes instigadores dos motins. Para azar deles, a Inglaterra não tem a justiça portuguesa, e um bom número dos autores dos motins já foram julgados e sentenciados com alguns anos de prisão, alguns dos quais serão ocupados a reconstruírem o que destruíram.

A nossa esquerda apressou-se logo, demagogicamente, a explicar que aquilo tudo resultava da injustiça e da opressão do capitalismo sobre os mais pobres, esquecendo-se que a Inglaterra tem dos sistemas de apoio e de assistência à pobreza e à desigualdade mais consistentes e eficazes da Europa.  Aqueles jovens não são uns «pobres coitados». Têm subsídios do Estado, que lhes permite ter um nível de vida minimamente digno. Só que isto para eles não chega. Quiseram adquirir bens e ter um pouco de poder dos bens sucedidos da sociedade.

Como isto mudou! Noutros tempos, organizavam-se revoltas e manifestações em nomes de grandes ideais, em nome de grandes projectos de sociedade e de ideologias, em nome de utopias e de grandes transformações sociais, em nome de convicções políticas. Agora, fazem-se revoltas por um iphone ou por um ipad, por um LCD ou por um ipod, por roupa de marca ou por uns ténis, que são o último grito da moda (as lojas de tecnologia e de roupa foram as mais afectadas). Promover mudanças sociais, lançar ideias, apresentar soluções, lutar em nome de causas dignas não importa. Importa é ter e consumir, poder divertir-se e levar uma vida na boa, nem que seja à custa dos outros.

Na senda disto mesmo, um dado curioso dos motins foi que as livrarias foram minimamente afectadas. Ao lado de lojas de vestuário, de produtos alimentares e de tecnologia completamente devastadas, as livrarias permaneceram incólumes, apenas exibindo algumas escoriações de grafiteiros. Os livros não interessaram aos revoltosos. Adquirir bens para o intelecto e para o estudo e a leitura não estavam nas suas prioridades. Isto diz muito da sociedade em que vivemos e que em parte estamos a construir. As novas gerações que aí vêm, que nasceram nas sociedades da informação, correm muito o risco de serem gerações incultas. De nada adianta ter muita informação, se não se organiza, sintetiza e questiona essa informação. Porque gerações que não lêem, são gerações que não pensam e gerações que não pensam, são gerações que não contribuem para o progresso da humanidade e para o enriquecimento das culturas dos povos.

Hoje em dia, o pensar e o reflectir está reservado a uma elite e subalternizados ao sentir e ao divertir-se. Como não podia deixar de ser, vivemos um tempo de pensamento pobre, em que a vida se reduz a um acumular de experiências e sensações que levam a não sei onde. Como dizia um colunista aqui há uns tempos, «vivemos num tempo de pensamento débil, de pós-modernidade, onde o discurso da liberdade se tornou solitário: liberdade é fazer o que se quer, desde que não se faça mal aos outros. Há a ideia vagamente difusa, ou difusamente vaga, de que cada homem é o absoluto senhor do seu destino. Este conceito de liberdade traz consigo o penhor da solidão desencantada e depressiva em que muitos homens, mulheres, jovens, crianças e idosos rapam os seus dias». Sociedades que não privilegiem a inteligência, o pensamento, a reflexão e a cultura, serão sempre sociedades pobres e áridas.

E já que de cultura falamos, não entendo o retrocesso que este governo promoveu ao reduzir a cultura a uma simples secretaria de estado. Parece que só conta para o governo trabalhar e produzir riqueza. Um governo deve ter a preocupação de pensar no conjunto dos bens que contribuem para a realização dos cidadãos. E um dos mais importantes é a cultura. Ver boas peças de teatro, ver um bom filme, assistir a um concerto de uma boa orquestra, ter bons livros nas livrarias, poder visitar bons museus, é do mais elementar para a felicidade dos cidadãos e para o rendimento e progresso do país. Tanta preocupação com o 12º ano e com a qualificação superior dos cidadãos, e depois fecham-se ou diminui-se a importância dos teatros, dos cinemas e das casas de expressão artística, como se não contribuíssem para a educação e formação dos cidadãos e uma maior amor à cultura nacional.


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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

«Gostaria muito de que as pessoas mais velhas soubessem pôr-se mais ao nosso nível. Aborreço-me profundamente ao ouvir os adultos falarem como se estivessem num pedestal e com tanta segurança. Parece que estão convencidos de que têm sempre razão e que esta afirmação é — por definição — indiscutível. Muitas vezes, quando tentamos dialogar com eles só sabem responder: “Acabou-se a conversa. Faz o que eu te estou a dizer. Tu não percebes nada disto”.

«É verdade que nós jovens, com frequência, não facilitamos muito a comunicação com os nossos pais e professores porque agimos de um modo imaturo e rebelde. No entanto, penso que a falta de diálogo é prejudicial para ambos os lados. Porventura as pessoas mais velhas não foram também jovens? Como é que se sentiam quando os seus pais e educadores lhes negavam a possibilidade de dialogar com eles? Será que já não se lembram disso?».

São palavras de um adolescente dos nossos dias que nos devem fazer reflectir. É natural que os jovens e as pessoas mais velhas vejam a vida de um modo diferente. Aliás, o contrário é que seria profundamente estranho. A vida é como é, mas a perspectiva a partir da qual os jovens e as pessoas maduras olham para ela não é, evidentemente, a mesma. E a perspectiva é o nosso modo de focar os problemas com que nos encontramos. Custa-nos admitir que existem perspectivas diferentes da nossa e igualmente válidas. O passar dos anos — se não estamos atentos a isso — pode fazer-nos perder flexibilidade e abertura interior para procurar entender outras visões do mundo diferentes da nossa.

Todos nós, quando éramos mais jovens, olhávamos para a vida de um modo diferente. O problema é que — não se sabe por que carga de água — tendemos a esquecer-nos disto com o passar do tempo. Hoje em dia, damo-nos conta de que os nossos pais e professores tinham razão em muitas coisas que nos diziam. E que aquilo que nos comunicavam não era fruto de um autoritarismo mal entendido, mas sim da sua experiência da vida e do seu enorme carinho por cada um de nós. No entanto, há uns anos atrás, não conseguíamos perceber isto com tanta nitidez.

Termino com uma sugestão para os pais e educadores actuais: não dramatizemos assuntos sem importância. É saudável e normal que os jovens vejam a vida de um modo diferente. Podemos aprender muito com eles, ouvindo-os com um interesse genuíno. Mantenhamos o espírito aberto — sinal maravilhoso de juventude interior — e a capacidade sincera para dialogar com todos, sobretudo com os mais jovens. Assim, será muito mais fácil sabermos transmitir a “sabedoria” que acumulámos com o estudo, a reflexão e o passar dos anos, e que os jovens tanto necessitam e desejam receber.

 

P. Rodrigo Lynce de Faria



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Um dos fenómenos culturais mais interessantes da actualidade é a atitude de muitos católicos perante a história da sua Igreja. Numerosos fiéis, sem deixarem de ser devotos e dedicados, costumam alinhar com a sociedade num coro de censuras à própria instituição a que pertencem, o que constitui sem dúvida um facto insólito. Nenhuma comunidade é tão autocriticada quanto a eclesial.

Basta alguém referir as realizações cristãs no mundo para isso suscitar irritação da parte dos adversários da Igreja, o que é normal, mas também de muitas pessoas que fazem questão de se afirmar católicos praticantes, mas incapazes de ouvir esses elogios sem alegar críticas. O cânone da irritação é bem conhecido: Inquisição, Cruzadas, poder temporal do Papado, agora pedofilia, etc. O problema desta atitude não está na verdade do que afirma, que é indiscutível, mas que não se dê conta de como é descabida e injusta.

Imagine alguém que, ouvindo outrem admirar-se dos extraordinários avanços da Medicina em curas espantosas, discordasse referindo as atrocidades dos antigos cirurgiões-barbeiros e tropelias de curandeiros e charlatães. Ninguém disputa a veracidade desses casos, mas eles são totalmente irrelevantes para a discussão. O facto de se terem cometido múltiplos erros médicos ao longo dos séculos, aliás inevitáveis, e ainda hoje muitos abusarem da condição terapêutica, nada tem a ver com a justa admiração pelas ciências da saúde. Suponha que, falando-se do papel decisivo da Alemanha no combate à actual crise europeia, alguém se indignasse pelos horrores cometidos pelos nazis ou cavaleiros teutónicos. Essas barbaridades são indubitáveis, mas invocá-las a este propósito seria justamente considerado preconceito e xenofobia.

Ora essas atitudes, inadmissíveis na consideração da história de qualquer profissão, ciência, comunidade ou povo, acontecem a cada passo quando se fala da Igreja, sem que ninguém note o evidente despropósito. Pior que isso, uma avaliação justa e serena de tais críticas mostra-as também sumamente injustas.

A Igreja acumulou ao longo dos séculos inúmeros erros, abusos, conflitos, violências e injustiças. Isso é inaceitável, mas infelizmente comum a todas as instituições humanas. Só que, além disso, ela tem algo que é muito difícil de encontrar nos outros: uma incomparável história de santidade, caridade, fraternidade e heroicidade, junto com inúmeras realizações sociais, intelectuais e artísticas, sem par em instituições comparáveis. É impossível enumerar os contributos que a Igreja deu à civilização, educação, saúde, assistência e equilíbrio social, um pouco por todo o lado e em todos os séculos. Além disso gerou efeitos únicos, como a conservação da cultura clássica nos mosteiros, a criação das universidades e de múltiplas formas de arte sacra e profana, inúmeros campos da filosofia, ciência, junto com contributos na economia, diplomacia, progresso social e muito mais. A Igreja é realmente única em termos históricos.

Finalmente, mesmo considerando o cânone da injúria, a realidade mostra-se muito diferente da imagem. A grande maioria das pessoas que enche a boca com a Inquisição, Cruzadas e afins, pouco sabe sobre elas, para lá de vulgarizações distorcidas de autores anticatólicos. A historiografia séria, sem negar as terríveis atrocidades, aliás comuns na época, mostra por exemplo que os tribunais da Inquisição se distinguiam, face aos juízes de então, pela benevolência e absolvição e que o Papado e hierarquia frequentemente procuraram controlar os seus abusos, motivados por interesse de reis. As Cruzadas foram, não uma agressão, mas reacção ao expansionismo turco, aplaudida pelos árabes do tempo, oprimidos pelos invasores orientais.

O magno ataque dos últimos séculos contra o Cristianismo mudou a face cultural do Ocidente, mas a Igreja sobreviveu e encontrou novas formas de existir e se exprimir. Numa dimensão, no entanto, o ataque foi largamente vitorioso: conseguiu que muitos católicos se envergonhem hoje da gloriosa história da sua fé.

 

João César das Neves, Diário de Notícias, 19.09.2011



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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

 

Entre os dias 16 e 21 de Agosto, decorreu a Jornada Mundial da Juventude em Madrid, na sua 26ª edição, com o objectivo de «partilhar com todo o mundo a esperança de muitos jovens que querem comprometer-se com Jesus Cristo e com os outros». A próxima será na bela cidade de Rio de Janeiro, em 2013. Cerca de milhão e meio de jovens afluiu à capital espanhola, o que confirma, mais uma vez, sem tónico de pretensiosismo, que a Igreja Católica ainda tem uma grande capacidade de mobilização e merece crédito de uma boa parte da sociedade. Recorde-se que a Jornada foi criada pelo falecido João Paulo II, após o sucesso inesperado e surpreendente do Jubileu Internacional da Juventude, em Roma, no ano de 1984.

Pessoalmente, não sou adepto deste tipo de eventos. Em multidão não se reflecte e interioriza e o crescimento na fé é muito vago. As motivações que levam à participação, sem generalizar, muitas vezes, são fúteis: ir passear um pouco, viver uma semana diferente, experimentar algo de novo, juntar mais um evento à lista dos muitos a que já se foi, divertir-se um pouco. Como D. José Policarpo alertou, corre-se muito o risco de se participar porque é engraçado, sem trazer algo de substancial à vida. A força da Igreja não passa por este tipo de eventos, mas sim pelo regresso às origens: pequenos grupos evangelizados e profundamente empenhados na Igreja, que sejam foco de evangelização e de testemunho, ponte entre a Igreja e a sociedade. É em pequenos grupos que se pode fazer uma verdadeira formação e integração e amadurecer o compromisso. O mar vive muito dos rios. Seja como for, alguma coisa ficará, desde a partilha, o diálogo e encontro de culturas, troca de experiências, estreitamento de laços e de amizades, consciencialização das necessidades e desafios que se colocam à Igreja.

As celebrações com Bento XVI foram os momentos altos da Jornada, não perdendo o Papa a oportunidade para relembrar a doutrina da Igreja à juventude ali presente, com a clarividência habitual, doutrina que vale a pena recuperar. Começou por lembrar no avião que a economia deve estar ao serviço do homem e não ao contrário. É tempo de se moderar a avidez do lucro a qualquer preço. A economia tem que ter ética, sob pena de contribuir para a desumanização da humanidade. Alertou para os efeitos nefastos do individualismo, do hedonismo, do relativismo e do consumismo, da mediocridade e da superficialidade reinantes, que têm contribuído para o desrespeito e empobrecimento da dignidade humana. Criticou a visão utilitarista e pragmática do ensino, só com o fim de preparar técnicos para o mercado de trabalho. O ensino deve estar ao serviço do gosto pelo saber e da procura da verdade da pessoa humana. Chamou a atenção para o problema de uma ciência sem limites, que julga que pode fazer tudo o que lhe apetece, colocando o ser humano ao serviço das suas experiências diabólicas. Na terra ninguém é «deus», com direito a julgar quem deve ou não deve viver (clara alusão aos atropelos à vida). Reafirmou o valor do celibato aos candidatos ao sacerdócio. Especial destaque merece-me a homilia da Missa do último dia, o ponto alto da Jornada. Uma das ideias fortes é que ninguém pode seguir Cristo, prescindido da Igreja. «Seguir Jesus na fé é caminhar com Ele na comunhão da Igreja. Não se pode, sozinho, seguir Jesus. Quem cede à tentação de seguir «por conta sua» ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele». A afirmação não podia ser mais clara.

 

Aqui há uns anos, gritou-se bem alto, em alguns ambientes sociais, «Cristo sim, Igreja não». Possivelmente, queria-se manifestar algum descontentamento com a Igreja, que até pode ser legítimo. Para muitos cristãos ou candidatos a sê-lo, a Igreja, enquanto instituição revestida de autoridade, prenhe de ritos, regras e leis, desvirtua o dinamismo do Evangelho e apaga a figura de Cristo, com a sua idealidade e o seu sonho, com a sua fantasia e o seu romantismo, tornando-se demasiado solene e teológico. A Igreja corta a liberdade e a criatividade e cria fixidez, dogmatismo, monolitismo, ritualismo, rotina, uniformidade, escravidão, obediência, deveres, compromisso. Mas não haja mal-entendidos: não se pode separar Jesus Cristo da Igreja e a Igreja de Cristo. As duas realidades não são antagónicas, não se excluem, não se podem separar ou dividir. Foi vontade de Jesus Cristo criar a Igreja, sob o pastoreio de Pedro, para continuar a sua missão e perpetuar a sua presença no mundo, até ao fim dos tempos. Lá no fundo, aquele grito foi a forma de se dizer que se queria viver a fé cristã de forma romanceada, sem incarnação e sem cruz, olhando muito a figura de Cristo como admirador, pelos valores que defendeu e pela conduta moral e espiritual excepcional que imprimiu à sua vida, ficando cada um com a liberdade de o usar e moldar conforme as suas conveniências, sem se dispor a abraçar as suas exigências, ficando-se com a liberdade de o admirar, mas não de o seguir, pondo de parte o seu convite à conversão, o seu chamamento ao Reino de Deus e o seu apelo à comunhão e à unidade. Jesus Cristo ficaria assim bem no clube de Che Guevara, Gandhi, Luther King, entre outros, que inspiram, mas não comprometem.

 

Mais uma vez o Papa Bento XVI é claro: não se pode querer amar e seguir Cristo e odiar ou desprezar a Igreja. «A Igreja não é uma simples instituição humana, como outra qualquer, mas está intimamente unida a Deus. O próprio Cristo Se refere a ela como a «sua» Igreja. Não se pode separar Cristo da Igreja, tal como não se pode separar a cabeça do corpo. A Igreja não vive de si mesma, mas do Senhor. Ele está presente no meio dela e dá-lhe vida, alimento e fortaleza».  

 

Cristo está na Igreja, que, antes de mais, é sua. É o seu corpo. Não se encontra Cristo fora da Igreja. Fora da Igreja existem imagens simpáticas de Cristo, mas não se encontra o verdadeiro Cristo. Quem quer ser cristão, tem que se inserir na Igreja e aprender a crer e a caminhar com os outros que acreditam em Cristo, a quem Ele se revela e dá. «Ter fé é apoiar-se na fé dos teus irmãos, e fazer com que a tua fé sirva também de apoio para a fé de outros. Peço-vos, queridos amigos, que ameis a Igreja, que vos gerou na fé, que vos ajudou a conhecer melhor Cristo, que vos fez descobrir a beleza do Seu amor». Desiluda-se quem pensa que pode ser cristão sem a comunhão com a Igreja ou quem pensa que pode fazer uma caminhada de fé individualista.  



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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

A PERDA DO PERDÃO

 

Nos últimos 500 anos o Ocidente viveu o maior ataque cultural da história. Seguindo o magno processo contra a cultura cristã, nas suas três fases, entende-se a situação actual. Primeiro atacou-se a Igreja em nome de Deus. Depois descartou-se a divindade mantendo a moral cristã. Hoje desmantela-se a ética.

A primeira fase seguiu dois passos. Primeiro, com Lutero, Calvino e outros reformadores, agrediu-se a estrutura eclesial conservando o Cristianismo. A fé em Cristo era preciosa, apesar dos perversos eclesiásticos. Depois, através de Hume, Voltaire e outros teístas, o cientifismo deísta rejeitou a doutrina e ritos, acenando à divindade longínqua e apática d'"O Grande Arquitecto" e distorcendo a História para apagar o papel da Igreja.

A segunda fase do ataque dirigiu--se ao transcendente. Recusava-se Deus e a eternidade, pretendendo conservar as regras cristãs de comportamento social. O primeiro passo, de Feuerbach, Comte e outros ateus, quis demonstrar filosoficamente a inexistência formal de Deus na sociedade humanista ideal. O falhanço dos esforços teóricos levou Thomas Huxley, Bertand Russell e outros agnósticos ao ateísmo prático simplesmente desinteressado da questão religiosa.

A fase actual é de ataque frontal à moral cristã. Primeiro, com Saint-Simon, Marx e outros revolucionários, visou-se uma moral exclusivamente humana. Mas, como Nietzsche e Sartre tinham explicado, eliminando a referência metafísica, vivemos "Para lá do Bem e do Mal".

Para compreender os traços essenciais da atitude moral dominante é preciso lembrar o elemento novo e original que o Cristianismo trouxe à civilização há 2000 anos. Aí se situa o núcleo da luta moral da nossa era. Quando Cristo nasceu, a sociedade ocidental já possuía uma estrutura ética sofisticada. Homero, Zoroastro, Sócrates, Zenão, Epicuro e tantos outros tinham estabelecido um sistema complexo de virtudes, regras e comportamentos. No campo estrito da ética, a revelação cristã trouxe apenas um contributo: a misericórdia.

Para Aristóteles e seus contemporâneos, o perdão era uma injustiça inaceitável. A visão cristã do mundo tornou-o indispensável: "todos pecaram e estão privados da glória de Deus. Sem o merecerem, todos são justificados pela Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus" (Rm 3, 23-24).

Aquilo que a moral de hoje perdeu é a misericórdia. Em jornais, novelas, televisão e cinema encontramos valores e atitudes elevados. Mantêm-se virtudes, guardam-se mandamentos, pululam os exemplos honestos, sensatos, equilibrados. Tolera-se tudo. Só se despreza a caridade cristã.

Existem duas formas de destruir a misericórdia: eliminando o pecado e eliminando o perdão. Estas são precisamente as duas atitudes mais comuns nos dias que correm. Numa enorme quantidade de situações não se vê nada de mal. Naquelas em que se vê, não há desculpa possível. As acções do próximo ou são indiferentes ou intoleráveis. O que nunca são é censuradas e perdoadas. O que nunca se faz é combinar o repúdio do pecado com a compaixão pelo pecador.

O resultado está à vista. A moral oficial, em filmes, romances, séries e telejornais, é uma amálgama de regras, princípios e procedimentos, sem fundamento, coerência ou justificação. Do libertarismo mais acéfalo salta-se ao moralismo totalitário sem lógica ou razão. Aborto e adultério tornavam-se de crimes em direitos, enquanto tabaco e touradas passaram de hábitos a infâmias. Os enredos da moda exaltam os valores pagãos, mágicos, bárbaros, orientais, ocultistas, libertinos, vampiros. Todos, menos cristãos.

Após 500 anos de ataques à Igreja, este é o estado do Ocidente. Qual a situação da fé, com cinco séculos de agressões? Está igual a si mesma. A moral cristã perdura, 100 anos depois de Nietzsche. A fé em Cristo mantém-se, 250 anos depois de Hume. A Igreja Católica permanece, cinco séculos após Lutero. O último meio milénio não foi mais duro para os discípulos de Cristo que os anteriores. Desde o Calvário, a Igreja é atacada. Ressuscitando ao terceiro dia.

 

João César das Neves, Diário de Notícias 05.09.2011


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