Quinta-feira, 24 de Março de 2011

 "Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança
caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da
vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com
frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também
estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na
sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como
lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha
geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se
das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram
dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos
seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração
mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida
desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de
condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso
para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro
emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos
cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o
dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em
substituição de princípios e de uma educação para a qual nãohavia tempo, já
que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra
(quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ...
A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões
Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à
borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a
pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de
adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da
luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres vpara que os filhos
não prescindam da internet de banda larga a altavelocidade, nem dos
qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de
dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por
isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque
eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram
que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém
lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas
décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por
escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na
proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país
lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a
pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio
nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que
é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e
interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não
poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que
deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou
etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre
emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que
nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como
mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi
ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe
chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a
quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e
inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no
retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem
são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem,
atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são
empreendedores, os que conseguem bons resultadosacadémicos, porque, que
inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como
se viu no último Prós e
Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons
ordenados e asubir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos
locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns
acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar noque ultimamente
ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme
convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer
melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade
não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

 

Autoria: Mia Couto 



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Quinta-feira, 17 de Março de 2011

Às Sextas-feiras à noite, passa um programa na TVI intitulado Depois da Vida, em que uma médium, de seu nome Anne Germain, nos oferece momentos de solene ‘comunicação’ com os mortos. Tenho a certeza de que já anda por aí muita confusão nas cabecinhas de muita gente, senão mesmo apuradas convicções do realismo de todo aquele entretenimento (repare-se que no site da TVI, o programa encontra-se na secção de entretenimento. Não devia estar na secção de informação?!) Quem for apanhado desprevenido, é levado a pensar que tudo aquilo é verdade. Deixemo-nos desde já de bizarrias: toda a gente sabe que aquilo é uma farsa e uma comédia, que apesar de ser muito bem feita, é ridícula. É muito boa para quem gosta de delírios e desvarios.

Lamentável o préstimo que várias figuras públicas, que gostam de aparecer por tudo e por nada, dão ao programa, não se dando conta da triste figurinha que fazem e do enxovalho a que se expõem. Quem estiver minimamente atento ao desenrolar do programa, não deixa de perceber desde logo várias coisas: a atmosfera do programa visa favorecer a expectativa e o suspense nos assistentes e espectadores; a médium exibe um ar sério e compenetrado, que não passa de um ar teatral, para lhe favorecer a observação (ele está a comunicar com os vivos e não com os mortos) e dar um ar convincente à comunicação; arrastamento do discurso para o emocional para causar mais impacto; a dita comunicação com os mortos vai sendo feita com as sugestões e as deixas que os vivos vão dando; é notório que houve um recolher de dados para dar andamento ao programa. Enfim, uma farsa muito bem feita. Houvesse mais respeito pelos mortos e este tipo de programas nem à secretária de um director chegaria, quanto mais à grelha de um canal televisivo. A médium presente no programa domina a arte da influência, da manipulação e da observação, e servindo-se delas, vai sacando o que lhe interessa e conduzindo o discurso para onde lhe convém. Tudo não passa de uma sessão profissional de mentalismo.

Ao contrário do que diz o mito, não há e nunca haverá comunicação com os mortos, a não ser que os nossos meios de comunicação atinjam um progresso impensável. É um tema que suscita muita curiosidade a muitas pessoas. Não faltam por aí pessoas que juram pela sua vida que já receberam um qualquer recado de um falecido, outras que dizem que andam a ser perseguidas por um defunto, outras que dizem que têm momentos em que sentem mesmo que estão a falar com pessoas que já partiram deste mundo. Até o mandar rezar missas anda um pouco misturado nesta parafernália pseudo-transcendental. Tenho todo o respeito pelas experiências que as pessoas fazem, mas a questão é que muitas vezes confundimos a fé com aquilo em que queremos acreditar. Normalmente o recurso a estes temas é uma necessidade que as pessoas têm de acreditar em qualquer coisa ou de justificar o que não conseguem compreender, agarrando-se a qualquer coisa a todo o custo. Muitos casos não são senão resquícios de ingratidões e injustiças ou outras situações que não se resolveram com os falecidos. O remorso, mais tarde ou mais cedo, manifesta-se e busca a sua libertação, arrastando para exercícios delirantes.  

A Igreja Católica, ao contrário do que anda disseminado pelo mundo global da internet, não aprova nem aceita a comunicação com os mortos. Quem morre entra numa nova vida e num mundo novo. E está onde Deus está. Não anda por aí a vaguear e a meter-se com os vivos, deixando-lhes recados e comunicando-lhes revelações sobre não sei o quê ou brincando aos segredinhos. Isto não quer dizer que eles estão separados de nós. Continuam unidos a nós. Mas não há comunicação, mas sim comunhão. Há um espaço próprio onde estamos com os mortos e fortalecemos a nossa comunhão com eles: a liturgia da Igreja. Sempre que celebramos a Eucaristia, estamos todos em comunhão, vivos e mortos, como diz o catecismo da Igreja no seu número 959: «Na única família de Deus, todos os que somos filhos de Deus e formamos em Cristo uma família, ao comuni­carmos uns com os outros em mútua caridade e no comum louvor da Santíssima Trindade, correspondemos à íntima vocação da Igreja». O resto são tretas. 



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Domingo, 13 de Março de 2011

 

 

 



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Domingo, 6 de Março de 2011

 

Nos últimos dias, fomos confrontados com casos gritantes de abandono e isolamento de idosos. Nada disto nos espanta. Quem está minimamente atento ao que se passa na sociedade actual, há muito que se apercebeu que estes acasos haveriam de aparecer mais dia, menos dia. A perda de valores fundamentais, sobretudo humanos, que é notória no actual ambiente social e na estrutura da personalidade das pessoas, arrastar-nos-ia, inevitavelmente, para situações de clara desumanidade e até de crueldade humana. Na cultura oriental e africana, o mais velho é a pessoa mais importante, porque tem memória e experiência, sendo, por isso, considerado um tesouro de que não se pode prescindir, mas que se deve cuidar com todo o esmero. No mundo ocidental, o mais velho é aquele que já deu o que tinha a dar, que anda a estorvar os outros que querem viver e trabalhar, não lhe restando outra coisa que refastelar-se a um canto e esperar angustiada e penosamente o dia da partida para o outro mundo. Que tristeza. No mundo oriental e africano, as gerações convivem umas com as outras, combinando-se energia e sonho dos mais novos com o sal e a serenidade dos mais velhos. No mundo ocidental, separam-se as gerações, pouco ou nada importando o calo e a sapiência vital dos mais velhos, que «já estão fora do mundo». No mundo oriental e africano, o mais velho é a fonte da sabedoria que tem histórias bonitas para contar sobre o sentido da vida e a conduta que se deve ter. No mundo ocidental, o mais velho é o tonto que ainda vive no seu tempo, não se dando conta de que a sua era já lá vai. E muito mais se poderia descrever, num exercício humilhante de aproximação à nossa decadência ocidental. Durante a minha vida estudantil na cidade do Porto, quantas vezes não vi o bafo pesado de muitos velhos nos vidros das janelas, que se punham a contemplar um mundo que pouco olhava para eles, a pedirem mais compaixão e atenção. Por vezes até se escondiam, dando a impressão de se sentirem envergonhados por serem velhos. Uma sociedade que não trata bem os seus velhos está doente.

O caso que suscitou mais discussão foi o caso de Augusta Martinho, residente na Rinchoa, Rio de Mouro, Sintra. Esteve nove anos morta em sua casa. A discussão à volta do caso, maioritariamente superficial e simplória, teve logo a preocupação de arranjar culpados. A prática imediata é logo arranjar culpados e dar sermões sobre esta escabrosa e indecorosa sociedade em que vivemos. É claro que há culpados. Os vizinhos, o Estado, o tribunal não ficam nada bem na fotografia, em certos momentos têm mesmo comportamentos inqualificáveis. Mas, reflectindo mais um pouco, não nos é difícil perceber que somos todos culpados, porque todos pactuamos com uma visão distorcida da vida (dar um valor excessivo a quem é activo e produz) e de forma activa ou omissa vamos deixando imperar o ostracismo dos mais velhos. Estes casos são sintomáticos da sociedade esquisita e estouvada em que vivemos e que todos construímos.

Deste caso ninguém sai ileso. Em primeiro lugar, a pessoa em si. De certeza que a senhora não tinha uma rede saudável de relações humanas. Muito do isolamento que actualmente existe é originado pela própria pessoa que o vive, que paulatinamente se vai afastando do mundo e se fecha sobre si própria e sobre o seu comodismo. Se queremos que os outros venham ao nosso encontro, também temos de saber ir ao encontro dos outros. A vida é ir colhendo o que vamos semeando. Temos de cultivar um estilo de vida saudável, assente em relações humanas e sociais sólidas, de diálogo e abertura aos outros, um estilo de vida que cimente a cordialidade e a proximidade. Neste caso podemos ver os frutos que colhe uma sociedade egoísta e individualista.

Em segundo lugar, a família. Um ou outro familiar afastado ainda tomou algumas diligências para se inteirar da sua situação, e pouco mais. Se tivesse muito dinheiro e uma casa que interessa-se a muitos, talvez a preocupação do resto da família tivesse sido outra (como se vai vendo!). A família, a quem estamos mais intimamente unidos e onde mais se dá e se recebe, tem o dever e a obrigação moral de zelar pelo bem de todos os seus membros, mais ou menos afastados. A família é a âncora necessária que dá confiança e segurança na vida e nunca pode deixar de ser essa âncora. Hoje em dia, diz-se que o dinheiro e o tempo da família não chega para tudo. Não é verdade. É tudo uma questão de prioridades. O problema é que as famílias estão obcecadas pelos bens materiais e pelo bem-estar, ficando as pessoas para segundo plano. Neste caso também podemos constatar os frutos de uma sociedade que não defende a instituição familiar e que se empenha em adulterá-la com experimentalismos jurídicos.

Em terceiro lugar, a boa vizinhança. Já era sabido que, nas cidades, os habitantes dos prédios mal se conhecem, salvo algumas excepções, mas nunca se imaginou que a indiferença chega-se a este ponto. Muitos dos prédios urbanos são autênticas escolas de desumanidade. Não existe a consciência de que os vizinhos têm o dever de se conhecerem e de cuidarem uns dos outros, num clima de sã convivência. Não existimos para sermos uma ilha. Para muitos, só há vida dentro das quatro paredes do seu apartamento. Do outro lado começa a selva. Acolhe-se mais depressa um cão que ande perdido na rua, com que o pequerrucho engraçou, do que o vizinho do lado. E tudo na maior insuspeita normalidade. Durante anos e anos, na maior tranquilidade. Que mundo estranho! Que se lixe uma sociedade em que não há humanidade entre as pessoas. 

Em quarto lugar, a sociedade, da qual todos fazemos parte. Não podemos deixar que as pessoas valham por aquilo que produzem e pelo dinheiro que geram, como infelizmente a sociedade actual as vê. As pessoas são pessoas e não máquinas de produção e pelo facto de deixarem de produzir não deixam de ser pessoas, que devem ser amadas. Chega de uma sociedade que só pensa em trabalho e dinheiro, deixando que muitas pessoas, sobretudo mais velhas, passem os últimos dias da sua vida na extrema solidão e abandono. Porque não pedir aos laboratórios farmacêuticos que se empenhem em descobrir uma vacina para a nossa obsessão por dinheiro e para o egoísmo e o individualismo?

Fenómeno interessante, actualmente, é que passamos dias e dias a proferir lamentos e julgamentos sobre as feridas da nossa sociedade, mas não mudamos nada. O que é que ficou da comiseração destes últimos dias? O que é que mudámos em relação aos mais velhos? Nada ou quase nada. De caso em caso, de tema em tema, tudo está ao serviço do entretenimento. Fala-se de tudo, comenta-se tudo, chora-se, grita-se, mais não querendo que ir passando o tempo. De resto, tudo na mesma. Assim vai andando a nossa superficialidade.

Em Ano Europeu do Voluntariado, deixo uma sugestão aos desempregados: o facto de estardes desempregados não vos impede de dar qualquer coisa aos outros. Porque não dar umas horas por dia a muitos idosos que estão mais sós?  

 



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Quinta-feira, 3 de Março de 2011

 

 

 



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