Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

 

 

O Papa Bento XVI visitou a Espanha. Apesar da sua velhice, o Papa não pára de surpreender e de manifestar uma frescura espiritual e uma coragem que poucos julgariam ser seu apanágio. Intelectualmente, é quase imbatível. Tem um limpidez de pensamento e um discurso assertivo, que a elite académica da Europa não deixa de reconhecer. E apesar da sua sibilina timidez, nota-se que tem aprendido a aproximar-se das pessoas, a quem não deixa de sorrir e tocar. Exibe um encanto por Cristo e pela Igreja, que não deixa de contagiar e de fazer pensar muitos cristãos na mornice da sua vivência cristã. Tinha dois objectivos claros: visitar o santuário galego de Santiago de Compostela (onde se pensa que esteve o Apóstolo S. Tiago, cujos caminhos urge redescobrir) e consagrar a imponente e majestosa Igreja da Sagrada Família de Barcelona, que agora se denomina Basílica da Sagrada Família, da autoria do catalão Antoni Gaudi.

Contudo, para além daqueles objectivos formais, o Papa teve outro objectivo, bem mais importante, como facilmente se depreende das suas intervenções: ir ao encontro de um pais em crescente secularização e laicização, que o governo espanhol orgulhosamente promove, como, aliás, está a acontecer por toda a Europa. Não esqueçamos que a Espanha tem uma grande tradição católica. Basta ver o leque de magníficas catedrais e Igrejas e de sumptuosos santuários e mosteiros que tem espalhados pelas diversas regiões. Desde há séculos que Espanha mantém uma fidelidade quase insuperável em relação ao Papa e aos princípios do catolicismo. No entanto, nos últimos anos, tem-se verificado um certo arrefecimento e afastamento para com a tradição católica, por acção da elite governativa, orientada por visões laicizadas da sociedade, e por acção de movimentos adeptos do laicismo e do secularismo, fortemente ateístas ou agnósticos.

Está hoje em marcha, um pouco por toda a Europa, uma impetuosa operação de laicização das sociedades, no sentido de libertá-las da influência das tradições religiosas (as religiões), deixando-se o espaço público para aquilo que é minimamente consensual entre todos. Mas infelizmente, laicidade tem sido confundida com laicismo. Uma coisa é preconizar a separação entre Estado e religião ou não dar a preferência a nenhuma religião sobre a vida social, outra coisa é excluir e não dar espaço à religião na vida pública, remetendo-a para a intimidade de cada um e excluindo Deus da vida social. A uma omnipresença naturalmente aceite da religião na cultura e na educação, está-se a passar inexplicavelmente para um silenciamento agressivo da religião e da fé. Laicidade é vivermos num regime em que o Estado não tem nenhuma confissão religiosa, mas respeita as religiões, num clima de diálogo e de mútua colaboração, e a dimensão religiosa e espiritual do homem. Laicismo é vivermos num regime em que o Estado, ou se quisermos, a sociedade, se organiza agressivamente à margem de qualquer influência religiosa, prescindindo das religiões e negando-lhes qualquer direito de se expressarem na vida pública, direccionando a sua vivência para a vida privada. A igreja católica aceita a laicidade. O Estado não deve ter religião e nenhuma religião, por maior ou menor que seja, tem o direito de impor a sua doutrina na vida pública. Mas o espaço público se não é dos crentes, também não é dos não crentes. É de todos. As religiões não devem ter direitos a mais, mas também não podem deixar de ter os direitos que merecem. Viver em laicidade é respeitar todas as instituições, forças e movimentos de uma sociedade, dando-lhes o direito de se expressarem na vida pública e de livremente desenvolverem a sua acção e missão.

É esta realidade, prenhe de equívocos e distorções, que tem estado no centro de muitas das intervenções do Papa Bento XVI. E em Espanha, mais uma vez, o Papa não deixou de alertar para os efeitos perniciosos e diabólicos do fenómeno da laicização e secularização (que tem enveredado, sobretudo, pelo laicismo) e para as consequências da marginalização da fé e do eclipse de Deus, nas sociedades actuais, que em muito também contribuiu para a crise, que penosamente vamos ter que suportar. Um homem que negue a sua dimensão espiritual e religiosa nunca será um homem feliz, por mais compensações que busque. É fundamental que a Europa se reencontre com as suas raízes religiosas e culturais e recoloque Deus, amigo e meta do homem, no centro da sua vida. “É uma tragédia que na Europa, sobretudo no século XIX, se afirmasse e divulgasse a convicção de que Deus é o antagonista do homem e inimigo da sua liberdade”, afirmou Bento XVI. “Deus é a origem do nosso ser, cimento e cume da nossa liberdade, não o seu adversário”, de forma que “a Europa tem de abrir-se a Deus, sair ao seu encontro sem medo”. “É necessário que Deus volte a ressoar gozosamente debaixo dos céus da Europa”.

E a quem quer reduzir abusivamente a questão de Deus à vida íntima das pessoas, sem espaço para o testemunho público, o Papa questiona "os homens não podem viver na escuridão, sem ver a luz do sol. E, então, como é possível que se negue a Deus, sol das inteligências, força das vontades e ímã dos nossos corações, o direito de propor essa luz que dissipa todas as trevas?".

Esta nova realidade é um desafio para a Igreja. O apagamento de Deus e a indiferença em relação à fé também se deve ao contra-testemunho da Igreja e à evangelização insuficiente. A igreja convenceu-se erradamente de que a evangelização estava assegurada, mas não estava. Por isso, "a contribuição específica e fundamental da Igreja para essa Europa, que percorreu no último meio século um caminho rumo a novas configurações e projectos", é "que Deus existe e que é Ele quem nos deu a vida". Há que pôr em marcha uma nova evangelização. “O que a Igreja deseja oferecer à Europa: velar por Deus e velar pelo homem, a partir da compreensão que de ambos nos é oferecida em Jesus Cristo".


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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Escrevi no meu último artigo que a actual crise económico-financeira é reflexo de uma profunda crise de valores humanos, éticos, sociais, económicos e individuais, nas sociedades actuais. Continuando nesta mesma temática, gostaria, antes de mais, de esclarecer duas questões, que muitas pessoas já colocaram a si próprias: Mas, afinal, o que são valores? Porque é que são importantes? Pode-se falar de crise de valores? De facto, poderemos andar a falar de valores para aqui e valores para acolá e não saber bem do que andamos a falar. Sem ter a leviandade de dar uma resposta cabal e de precisão universitária, valores são fundamentos que estruturam a personalidade de uma pessoa e que orientam a sua acção e relação consigo mesma e com as outras pessoas. Cada pessoa humana exibe toda uma configuração de vida de acordo com os valores que perfilha. Quando não se têm valores, não sobressai um carácter e uma forma de estar na vida. Vive-se ao sabor das ondas e das modas e subordinado ao interesse próprio e imediato, deambulando-se permanentemente ao bel-prazer de improvisos, impulsos e apetites, sem horizonte de realização. A interiorização e assimilação de valores capacitam a pessoa humana para ser o que deve ser. Dificilmente uma pessoa humana se realiza e atinge o máximo da sua humanização sem valores. Por outro lado, a expressão ‘crise de valores’ pode ser ambígua e geradora de reservas. Nunca há uma crise de valores porque valores há sempre, podem é não ser os que consideramos inquestionáveis e fundamentais. Na nossa sociedade actual, há valores que norteiam os actos e as decisões das pessoas (ex: o consumismo, o culto da imagem, o materialismo, a ganância, entre outros). Não são é bons valores (há quem lhes chame contra-valores) e por isso mesmo, quando falamos em crise de valores, queremos dizer que os bons, os verdadeiros valores que deviam estruturar a personalidade e a vida das pessoas não imperam actualmente, mergulhando-nos num penoso relativismo moral e ético, fortemente veiculado pelos meios de comunicação social, aproveitando o desfasamento da educação familiar e a inconstância da educação institucional.

Dois contra-valores, que nefastamente deixaram marcas indeléveis na nossa cultura actual, são o individualismo e o hedonismo. Actualmente vivemos numa cultura que privilegia o individualismo. O conceito de comunidade e de pertença a uma comunidade, partilhando as suas dores e esperanças, esvaiu-se. A solidariedade é muito pontual. Nem o trabalho é entendido como solidariedade com uma comunidade. As pessoas pensam e organizam muito a sua vida em função das suas conveniências e dos seus interesses. E se investem na comunidade é porque isso lhes traz vantagens e está de acordo com o seu mundo de interesses. Cada pessoa tem tendência em só pensar em si e viver em função de si. A própria legislação tem seguido o caminho do alargamento dos direitos do indivíduo, de forma que a sua satisfação possa estar sempre assegurada. Quem é que hoje faz alguma coisa a pensar na sua pátria? Salvo raras excepções, quanto tempo se investe em viver para os outros, que não seja remunerado? Mas não há sociedades equilibradas onde impera o individualismo. A família e o casamento são duas realidades onde facilmente se verifica o contágio do individualismo.

Outro contra-valor que actualmente tem honras no coração humano e na vida social é o hedonismo. Privilegia-se tudo o que exige pouco esforço e que dá prazer, egoisticamente usufruído. Só que viver a vida em função do prazer, leva a descurar valores fundamentais: aceitação do trabalho como forma de melhoramento do mundo e de construção do bem comum (muitas pessoas hoje querem viver sem trabalhar), capacidade de viver com sacrifício e de resistir às dificuldades e de enfrentar o sofrimento, partilha de responsabilidades, celebração e respeito por acordos e compromissos, disciplina para bem servir os outros. Uma das causas da nossa baixa natalidade (que está a pôr em causa a sustentabilidade da nossa segurança social e de outros sistemas sociais), não esquecendo outros factores, são estes dois contra-valores. Constituir família e gerar e criar filhos é encarado como uma maçada para a mentalidade actual. Hoje prefere-se ter dinheiro e gozar a vida do que entregar-se aos sacrifícios de uma família. Poder levar uma vida levezinha, com poucos encargos e responsabilidades, ao sabor dos prazeres mundanos, com muitos bens materiais e muito sucesso, é o ideal de vida a que muita gente aspira. Mas é um ideal de vida incomportável.

Como não podia deixar de ser, esta urdidura de contra-valores, mais tarde ou mais cedo, teriam que nos arrastar para desequilíbrios e para o empobrecimento da vida das nossas sociedades. Se queremos, de facto, ultrapassar a crise, temos de perceber que precisamos de apostar a vida noutros valores, nos verdadeiros valores que nos dão equilíbrio e realização, e sermos mais exigentes no horizonte ético e moral das nossas atitudes, comportamentos e acções. Se não resolvermos e enfrentarmos a crise moral que, neste momento, nos atinge, qualquer operação económico-financeira não passará de mais um passo para outra crise. A maquilhagem disfarça, mas não resolve.



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