Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

Ainda a digerir os ecos e as ressonâncias da visita do Papa Bento XVI a Portugal, decidi revisitar um livro marcante na minha vida de estudante. Vagueava eu, um dia, pela bonita biblioteca do Seminário Maior do Porto, à procura de um novo livro que me oferecesse mais umas boas horas de agradável leitura, e, sem querer, chega-me às mãos «Introdução ao Cristianismo», do actual Papa, versão brasileira, editado em 1968. É uma sorte termos entre mãos o livro certo para o momento certo da vida. Recomendo-o vivamente a todos os cristãos. Com a clareza e a profundidade de um proeminente teólogo, O Papa Bento XVI (então Professor Ratzinger) reflecte sobre os contornos e ambiguidades de ser crente e faz uma apresentação geral do Cristianismo, defendendo a razoabilidade e riqueza do conteúdo e da vivência da fé cristã, que não nos deixa indiferentes.

No início do livro, mais concretamente no prefácio da primeira edição e na introdução, O Papa Bento XVI conta duas histórias simples, de que se serviu para reflectir sobre o valor da fé e da difícil condição de ser crente, histórias essas de que me vou ocupar neste e no próximo artigo. A primeira história é a do «Joãozinho feliz», uma boa parábola daquilo que muitos crentes católicos têm feito da fé nos últimos anos e que outros farão nos próximos tempos. Joãozinho tinha ganho uma barra de ouro com o seu esforço e trabalho. Achando que ela era demasiado pesada e incómoda, troco-a primeiro por um cavalo, depois trocou o cavalo por uma vaca, a vaca por um ganso e o ganso por uma pedra de amolar. Como esta lhe pareceu insignificante e de pouco valor, acabou por lançá-la ao rio. Livre de tudo, achou que, finalmente, tinha ganho o dom precioso da liberdade completa. Nem se deu conta de que teve um tesouro nas mãos e de troca em troca acabou por deitá-lo fora. Agora era livre, mas não tinha nada. E era livre para quê? Era ilusoriamente livre e o que o esperava agora era viver no vazio.

Muitos cristãos católicos, por vezes, olham para a fé cristã como um conjunto de princípios e valores demasiado pesado e incómodo, que em vez de ajudar a ser livre e apontar o verdadeiro caminho para uma vida totalmente realizada, pelo contrário, retira a liberdade e asfixia a vida. Possivelmente, tudo seria bem melhor sem a «submissão» à fé. Talvez esta convicção tenha nascido devido a um discurso moralista e regrador que a Igreja hierárquica adoptou durante muitos anos. A impressão, sem dúvida errada, que impera na sociedade é que a religião ou a fé é um conjunto de mandamentos, regras e proibições que são «impostas» aos fiéis. Logo, a vida é muito mais interessante e agradável sem o jugo e o fardo dos códigos religiosos. O que se fez então? Sem terem descoberto a beleza e a grandeza da fé que têm e fortemente influenciados pela mentalidade dominante, que teima em alimentar um debate enviesado e exíguo à volta da religião, muitos católicos vão cedendo à imprudência de reinterpretar a sua fé, ano após ano, até chegarem a um mínimo essencial, que mais não é que um cristianismo light, feito à medida das conveniências e apetites de cada um. Sem se darem conta estão na fase da pedra de amolar. Não demorará muito, até daquela «réstia» de fé vão abdicar, afirmando com ar solene que «já se deixaram dessa coisa da Igreja e da religião».

Quem nunca descobriu um tesouro, como a fé é, nunca o defenderá e lhe dará o devido valor. Este é o problema de muitos católicos. Por força de vários factores, dos quais destacaria um percurso catequético titubeante e deficitário e influência do discurso pós-moderno sobre temas da doutrina da Igreja Católica, colocados de forma descontextualizada em relação ao todo da mensagem cristã, nunca chegaram ao âmago do conteúdo e da vivência da fé cristã, assente numa relação viva com Jesus Cristo, caminho, verdade e vida. Quem descobre este tesouro valioso e o partilha com os outros, dificilmente abdica dele.



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Terça-feira, 4 de Maio de 2010

Aproximam-se dias de grande frenesim e de intensa vivência religiosa e espiritual para a Igreja Católica portuguesa. O Papa Bento XVI, pastor supremo e universal da Igreja, visita o nosso país nos dias 11, 12, 13 e 14 de Maio. É o terceiro Papa a visitar o nosso jardim à beira mar plantado, depois de Paulo VI

em 1967 e de João Paulo II, primeiro em 1982, depois em 1991 e por fim em 2000. Para muitos católicos, é um Papa menos carismático e menos popular que alguns dos seus antecessores, e talvez ainda assim pensem porque não se deram ao trabalho de ler um pouco mais sobre a sua personalidade e deixam-se ir na onda dos media. Desde há uns anos para cá, desde o tempo em que o Papa Bento XVI (então Cardeal Ratzinger) era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, antiga Inquisição, que os meios de comunicação social constroem e vendem erradamente a imagem de um homem duro, frio, cerebral e inflexível, chegando, inclusive, a apelidá-lo de «pastor alemão» e de «Panzer». Quem priva e privou de perto com o Papa afirma que esta imagem não corresponde minimamente à verdade, imagem, que nas palavras de D. Amândio Tomás, nosso bispo coadjutor, não passa de uma «estúpida contrafacção». É um homem extremamente simples, afável, de apurado bom humor, aberto, que, num primeiro momento, não exibe por causa da sua indisfarçável timidez. Como é oriundo do ensino e da cultura germânica, é amante do estudo, do saber, da reflexão, do rigor e da intelectualidade, que caldeia com a justa afectividade, valores caros a grande parte dos católicos. Faz uma vida disciplinada, é extremamente pontual, descansa a tocar piano. O Papa João Paulo II deixou marcas e saudades em muitos cristãos, possivelmente por ser mais exuberante e efusivo nos afectos e ser um peregrino do mundo, mas também era actor quanto baste. Cada pessoa tem o seu estilo. Pessoalmente acho que Bento XVI tem sido uma bênção para a Igreja, porque tem recuperado o essencial, recolocando as perguntas fundamentais sobre o homem, e tem chamado atenção para o papel da razão na vivência da fé, algo que tem sido descurado nos últimos anos, na formação católica, apesar de muitos considerarem que não tem feito progressos na vida da Igreja, mantendo-a agrilhoada no conservadorismo e no tradicionalismo.

A sua vinda a Portugal decorrerá ainda em gestão dos casos de pedofilia dentro da Igreja Católica. É inegável que tem sido a «cruz» do seu papado, com alguns excessos e mal-entendidos pelo meio, mas para os quais tem sido determinado e firme, ao contrário do que os media quiseram dar a entender. E tem feito o que nunca vimos fazer ao imperialismo, ao fascismo, ao comunismo e até ao jornalismo: pedir desculpa olhos nos olhos pelos males causados e acompanhar as vítimas no refazimento das suas vidas. Ainda está por descobrir quem é o maestro desta orquestração toda, que foi montada à volta da pedofilia no seio da Igreja Católica, que paulatinamente se foi tornando num instrumento de descredibilização de toda uma classe e de rebaixamento da Igreja Católica. Repito: são casos de uma ínfima parte dos padres e bispos da Igreja. Já se chega até ao cúmulo de profetizar um futuro de tragicidade para o Vaticano e para a Igreja Católica. Não vejo onde cabe tanto exagero. Quantos abalos a Igreja não teve ao longo da sua história e de todos saiu sempre renovada e fortalecida, como não deixará de acontecer agora. E sabem porquê? Por que é de Cristo, que venceu o mundo, e quando falo do mundo não me refiro às pessoas, mas ao mal e às forças maléficas, de forte cariz social e ideológico, que querem afastar o homem de Deus e virar homem contra si mesmo.

Na sua visita a Portugal, Bento XVI não deixará de apresentar as suas linhas de pensamento, que tem exposto nas suas homilias e intervenções. Entre outras, destacaria duas: a menoridade da fé de muitos católicos e a ditadura do relativismo, com o consequente abandono de Deus e da fé. É o que ele chama as «feridas» da cultura ocidental, patologias mortais da fé e da razão. É por demais evidente que muitos católicos permanecem numa fé infantil. Nos últimos anos, promoveu-se a qualificação nas competências e a formação intelectual das pessoas, maravilhados com os progressos da ciência e das artes, incentivou-se ao crescimento intelectual das pessoas, instigou-se à participação em cursos e mais cursos, mas na ordem da fé estagnámos e não progredimos. Os sinais são claros, dentro do catolicismo: muitos católicos rezam e falam de Deus como se tivessem ainda 10 ou 12 anos, não tendo ido mais além da catequese incipiente de crianças que receberam; mergulhados no superficialismo, não conseguem expressar a razão da sua fé em 5 linhas; a Bíblia é a «Senhora desconhecida», mais parecendo um livro do outro mundo, fortemente sacralizada; pouca leitura de livros de carácter religioso e espiritual; como nunca se entendeu que a fé é relação e comunhão, não se participa assiduamente nos sacramentos, nomeadamente na Eucaristia do Domingo e não se aprofunda a vivência comunitária; pedem-se sacramentos, não para se progredir na fé e como sinal de adesão a Deus, mas para se reunir a família e os amigos para mais umas horas de farra; cumprimento de tradições religiosas, não em ordem ao crescimento e enriquecimento da fé, mas em cumprir por cumprir; desinteresse pela catequese de adultos e por cursos de formação; incoerência entre o culto e a vida, atingindo, por vezes, proporções escandalosas; uma religiosidade popular arraigada na crendice, no milagre fácil e em lendas e historietas mais próprias de um imaginário infantil; superstição nas coisas mais banais da vida; imaturidade espiritual e falta de cultura religiosa, entre outros. Desenvolvemos a dimensão racional, mas paralisámos no avanço da fé e na dimensão espiritual. Quando aqui há uns tempos o Papa fez alguns reparos aos nossos bispos sobre a forma como se realizava a formação e a vivência da fé em Portugal, queria, penso eu, precisamente chamar-nos a atenção para este aspecto. É necessária mais formação e convicção e menos folclore. Já não dá ser cristão porque os outros o são. Tem que se aprofundar as razões da fé e assumi-la e testemunhá-la pessoalmente diante dos outros, com convicção, sabendo-se muito bem porque se acredita e em quem se acredita, exibindo-se uma fé madura e esclarecida e não uma fé infantil.

Por outro lado, o mundo ocidental perdeu, nos últimos anos, o sentido da verdade, fazendo-a cada um e cada tempo à sua medida, a que chamamos o relativismo. Deixou-se de procurar uma verdade objectiva sobre o homem e a sua existência, nada podendo ser considerado como definitivo e, até pelo contrário, afirmar qualquer verdade tornou-se sinal de fundamentalismo e de intolerância. Vivemos, assim, num mundo de meias verdades e ideologias da moda, à espera de um vento que as leve. Afirmar Deus e a sua verdade tornou-se quase um escândalo, a não ser que a maioria assim pense. Como tudo se tornou relativo, até ridicularizar Deus e o sagrado se tornou um direito da liberdade, afrontando-se assim um dos valores mais sagrados da nossa identidade. Numa frase sua, o Papa afirma isto de forma lapidar: «Ter hoje em dia uma fé clara de acordo com o credo da Igreja Católica é com frequência rotulado de fundamentalismo. Enquanto que o relativismo, isto é, deixar-se levar de um lado para o outro ao sabor dos ventos de doutrina, surge como a única postura adequada aos tempos modernos. Vai-se assim constituindo gradualmente uma ditadura do relativismo, que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e os seus desejos.»

Que a sua vinda a Portugal aproveite a todos os crentes, para fortalecerem e renovarem a fé. A sua vinda deve ser um ponto de partida para a Igreja em Portugal dar início a uma nova etapa no cumprimento da missão de ser testemunha de Cristo e do seu Evangelho, sem medos e complexos. Como o Papa disse aqui há uns tempos, não consegue compreender «a cobardia de tantos cristãos que têm medo da ditadura da mentalidade dominante, em que a voz subtil da consciência fica sufocada pelos gritos da maioria e que se enchem de vergonha quando a obediência à vontade de Deus é ridicularizada».



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