Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

Catequese do Cardeal-Patriarca no 1.º Domingo da Quaresma

“A Função Sacerdotal”

Introdução

Estamos no Ano Sacerdotal, proclamado para toda a Igreja pelo Santo Padre Bento XVI. Preparamos a sua visita à Cidade de Lisboa no próximo dia 11 de Maio. Bispo de Roma, Cabeça do Colégio dos Bispos e Pastor Universal, ele vem como Sacerdote e Bom Pastor. Aprofundar o dom do sacerdócio é, certamente, uma boa maneira de prepararmos essa visita pastoral e, na Eucaristia por ele presidida, nos reconhecermos mais profundamente como povo sacerdotal, o Povo que o Senhor escolheu e continua a seguir como Pastor em ordem à santidade.

O desafio deste Ano Sacerdotal não envolve apenas os nossos sacerdotes, aqueles a quem chamamos padres; interpela-nos a todos como membros do Povo de Deus, todos os domingos convocados para celebrar a Eucaristia, com Jesus Cristo e como Ele a celebra, prestando ao Pai o louvor que Ele merece e onde se realiza a nossa redenção. Esse sacrifício de louvor é oferecido por um sacerdote, na pessoa de Cristo o único Sacerdote; mas é oferecido por todos nós que, pelo baptismo, nos unimos a Cristo. Na Eucaristia, torna-se claro que a Igreja, presidida por Cristo Sacerdote, é toda ela um Povo sacerdotal, porque faz um com Cristo, é o “corpo de Cristo”.

Nesta primeira Catequese, vamos aprofundar o significado da “função sacerdotal” a que deve corresponder uma atitude sacerdotal. Quando um sacerdote exerce o seu ministério sagrado, quando, na nossa caminhada pessoal de fé, procuramos um sacerdote, quando, como Povo do Senhor, celebramos a Eucaristia, em que consiste a atitude sacerdotal, expressa na função sacerdotal? Perceberemos que há sempre uma dimensão sacerdotal na vida da fé, quer como povo crente, quer como membros desse Povo.

Sacerdócio e Religião

1. A família humana foi, desde sempre, espontaneamente religiosa. Acreditou no ser divino e prestou-lhe culto. Esta expressão religiosa surgiu ligada à fisionomia própria de cada povo, inspirando-se tanto na harmonia da natureza, como na interioridade do homem, que pela sua inteligência procurava a verdade e a sabedoria. A figuração da divindade aparece, assim, quer ligada aos ritmos da natureza, importantes para a vida humana, como à compreensão do homem e da sua história, ligando a divindade a dimensões importantes e decisivas da vida humana. A este conjunto de manifestações espontâneas da religiosidade, que acompanharam e exprimiram a dimensão transcendente da existência humana, ao longo de milénios, chamamos “religiões naturais”. Em todas elas, de forma mais ou menos elaborada, encontramos a “função sacerdotal”.

No centro, está sempre a necessidade dos homens entrarem em contacto com a divindade, merecendo a sua benevolência e protecção, apaziguando as suas “iras”, praticando, para isso, o culto, onde avulta o “sacrifício”, isto é, aquilo que os homens oferecem à divindade, para a apaziguar ou alcançar a sua benevolência e protecção. O sacerdote aparece como um mediador entre os homens e a divindade. A própria palavra religião sugere isso: “religare”, fazer a ponte com a divindade.

Mas não é nas “religiões naturais” que devemos procurar o sentido da “função sacerdotal” e da respectiva atitude sacerdotal, mas sim no Povo da Aliança, no judeo-cristianismo, que é o mesmo povo crente, com uma unidade progressiva até à sua manifestação definitiva em Jesus Cristo, o Messias esperado pelos judeus e que vem introduzir o Povo na plenitude da Aliança.

A função sacerdotal no Povo da Aliança

2. A especificidade da religião de Israel distingue-a profundamente das “religiões naturais”. A sua origem está no próprio Deus, que se revela, constitui um Povo com quem faz Aliança. A iniciativa decisiva é sempre de Deus, que nunca abandona o seu Povo. Esta origem da religião de Israel marca duas diferenças fundamentais na compreensão da função e da atitude sacerdotais: a prioridade não é posta na busca das relações dos homens com Deus, mas nas relações de Deus com o seu Povo. A este compete escutar o Senhor e seguir os seus ensinamentos, pondo-os em prática; por isso, o acento não é posto nas relações dos homens individualmente com a divindade, mas no Povo, na comunidade dos crentes, na “qahal Yahwé”; a assembleia de Deus, que é o principal interlocutor de Deus, exprimindo, assim, que é em comunidade que os indivíduos se aproximam de Deus.

Desse Povo, Deus espera que escute a sua Palavra, seja fiel à Aliança ratificada entre ambos, entre Deus e o Povo, espera, no fundo, que seja um Povo Santo, como Deus é Santo. Deus revela-se a si mesmo, é um Deus único, vivo e fonte de vida, Ele é o Criador de todas as coisas, é um Deus forte e omnipotente, a sua Palavra é forte e eficaz, realiza tudo o que diz; mas é também um Deus bondoso e amoroso, cheio de ternura e de misericórdia. Mas revela também que tem um desígnio amoroso para os homens e empenha-se na realização desse desígnio. Do Povo, Ele espera a correspondência de amor, de fidelidade, de santidade. Nada dá tanta glória a Deus como ver o Povo progredir na realização desse desígnio. A resposta que Deus espera do Povo é que escute a sua Palavra, acredite nela, e viva segundo o desígnio manifestado pelo Senhor. A fé e a fidelidade são as atitudes humanas que Deus recebe como um culto digno d’Ele. A atitude sacerdotal exprime-se na fidelidade à Aliança.

3. Os textos de Aliança definem bem a atitude sacerdotal que Deus espera do Seu Povo, o Povo com quem fez Aliança:

“Moisés subiu até junto de Deus. Da montanha o Senhor chamou-o, dizendo: Assim dirás à Casa de Jacob e declararás aos filhos de Israel: vós vistes o que Eu fiz no Egipto, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até Mim. E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha Aliança, sereis para Mim propriedade particular entre todos os povos porque minha é a terra inteira. Vós sereis, para Mim, um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex. 19,3-6).

É o texto que estabelece a Aliança entre Deus e o Povo de Israel. Por tudo o que Deus faz por ele, espera a fidelidade do Povo, que obedeça à Sua Palavra e O louve na fidelidade e santidade de vida. Esse é o verdadeiro culto que Deus espera do seu Povo, que O louve com a sua fidelidade à Aliança. E o sujeito desta atitude sacerdotal é todo o Povo. Por isso Deus o considera “um reino de sacerdotes e uma nação consagrada”. A fidelidade à Aliança constitui o Povo escolhido como um povo sacerdotal.

Isso não exclui que se exerça no culto devido a Deus pelo Povo eleito a função sacerdotal, para levar a comunidade de Israel a exprimir a sua atitude sacerdotal. Por outro lado, a história de Israel mostra que não foi fácil todo o Povo, em todas as circunstâncias, ser fiel à Aliança e, assim, prestar a Deus o louvor que lhe é devido. Podemos dizer que a infidelidade do Povo marca mais o ritmo da sua história do que a fidelidade. Adoram outros deuses, esquecem-se da Palavra do Senhor, praticam os costumes dos pagãos. A função sacerdotal tem também o sentido de levar o Povo à conversão, de implorar de Deus a misericórdia e o perdão, de suscitar no Povo a esperança da fidelidade e da santidade. A importância desta “função sacerdotal” neste chamar à conversão e suscitar a esperança de uma fidelidade como Deus deseja, leva a esclarecer e a fortalecer a instituição sacerdotal.

A função sacerdotal institucionalizada

4. A saída do Egipto, a travessia do deserto e a entrada na “terra prometida” significam uma etapa decisiva na organização de Israel como Povo. Moisés, na concretização da Aliança, lança as bases dessa organização em todos os aspectos da vida da comunidade: as leis, no código da Aliança, a aplicação da justiça e também o culto a Yahwé.

Na longa tradição de Abraão até Moisés, a função sacerdotal existiu mas não estava ligada a uma instituição sacerdotal. Era espontânea, muito ligada à vida e aos seus momentos especiais, e era exercida pelos pais de família, pelos chefes de tribo. Não estava ligada ao templo como lugar sagrado, mas ao lugar e ao momento de acontecimentos particularmente significativos. No Génesis, na história de Abraão, aparece-nos uma figura de sacerdote, Melquisedec, que não está ligado a nenhuma estrutura sacerdotal, que é apresentado como Rei de Shalem, que pode ser Jerusalém, e que é chamado sacerdote do Deus Altíssimo e abençoa Abraão em nome de Deus (cf. Gen. 14,17ss). Na história do Povo de Israel, estabelecido na terra prometida, várias vezes os reis aparecem a exercer funções sacerdotais. Melquisedec ficará no ideal religioso de Israel como o sacerdote perfeito, desligado da estrutura sacerdotal do Templo. Ele torna-se o modelo do sacerdócio do Messias prometido: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl. 110,4) e que a Carta aos Hebreus atribui ao sacerdócio de Jesus Cristo (cf. Heb. 5,6).

Na história religiosa de Israel há, assim, uma tensão entre a estrutura sacerdotal, ligada ao Templo, e a função sacerdotal ligada directamente à iniciativa de Deus que garante tudo o que o Povo precisa para desenvolver a intimidade com o Deus da Aliança. O Messias será a concretização dessa função sacerdotal garantida pelo próprio Deus; Melquisedec é o seu anúncio; Cristo é a sua realização plena.

5. No Livro do Êxodo, que narra a estrutura organizativa da nova etapa histórica do Povo, nasce a nova estrutura da função sacerdotal. O irmão de Moisés, Aarão, é investido do poder sacerdotal (cf. Ex. 28,1) e determina-se tudo o que diz respeito ao Santuário e à liturgia. Está estabelecida a estrutura litúrgico-sacerdotal, do que mais tarde se chamará o sacerdócio levítico, porque toda a tribo de Levi ficou adstrita ao serviço sacerdotal.

A institucionalização da função sacerdotal valoriza o Templo – tenda da reunião e, mais tare, o Templo de Jerusalém. Toda a função sacerdotal se exerce no Templo, que se torna centro decisivo da unidade espiritual de todo o Povo de Deus. A separação política do Reino do Norte, na Samaria, tem na base um cisma. Os samaritanos recusaram-se a vir ao Templo de Jerusalém e criam um novo templo. A mulher samaritana, em diálogo com Jesus, faz-se eco desse cisma: “Os nossos pais adoraram sobre esta montanha (o monte Garizim), e Vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar” (Jo. 4,20).

Com a instituição do Templo, relativiza-se a função sacerdotal ligada à vida, à família, aos grupos. Esse culto ligado à vida fica mesmo proibido (cf. Lev. 17,1ss). O Templo levou a que a função sacerdotal se transformasse num poder, sobretudo do Sumo Sacerdote. Mas o seu sentido profundo continua a ser o mesmo: o culto é atitude do Povo santo, o Povo com quem Deus fez Aliança. O sacerdote preside e faz chegar a Deus o culto da comunidade, que é louvor, adoração, manifestação de obediência a Deus e de fidelidade à Aliança; é também prece pelas necessidades concretas do Poo.

            As expressões principais desta função sacerdotal são: o sacrifício, o serviço da Palavra, os actos de consagração e de bênção.

O sacrifício

6. É a principal expressão da função sacerdotal. Na sua essência é uma oferta, que agrada a Deus, do melhor que se tem. O Povo de Israel vai percebendo, sobretudo através da pregação dos Profetas, que a oferta que mais agrada a Deus é um coração puro, que pratica a justiça. As outras ofertas, como animais, os frutos da terra, se não forem expressão desse coração puro, não agradam a Deus (cf. Am. 5,21-27).

Conseguir que todo este Povo tenha um coração puro, não um “coração incircunciso” (Lev. 26,41), um “coração duplo” (Os. 10,2) é o grande desafio espiritual de Israel, o que leva o Profeta Jeremias a anunciar, para o tempo do Messias, uma nova Aliança, em que Deus promete: “porei a minha lei no mais profundo do seu ser e escrevê-la-ei no seu coração” (Jer. 31,33). E a garantir: Dar-lhe-ei outro coração e outra maneira de agir… concluirei com eles uma Aliança eterna” (Jer. 32,39ss).

Devido a esta consciência da dureza do coração, a liturgia do Templo valoriza os sacrifícios de expiação. Mas com o anúncio de uma nova Aliança, para os tempos do Messias, toma-se consciência da necessidade da redenção do coração: é preciso um coração novo.

Proclamação da Palavra e da “Bênção de Deus”

7. Deus atende as preces do seu Povo e responde, sobre a forma de “bênção”. Compete ao sacerdote comunicar ao Povo essa resposta de Deus, proclamar a “bênção de Deus”. Nos cultos pagãos havia o oráculo, normalmente expresso através das artes mágicas de adivinhação dos “magos” ou “videntes”.

Israel rejeita estas artes mágicas e divinatórias. O Deus de Israel é um Deus pessoal, que fala directamente ao seu Povo. Comunicar a Palavra do Senhor é função dos sacerdotes e dos profetas.

O ministério sacerdotal tinha, já no Antigo Testamento, uma dimensão profética. Devido à infidelidade dos sacerdotes, Deus envia profetas, o que mostra a importância que tinha para Deus esta comunicação da sua Palavra. Alguns destes profetas são sacerdotes, como Jeremias e Ezequiel, outros não. Surge uma certa tensão entre sacerdotes e profetas. Estes aparecem com mais liberdade que os sacerdotes, para quem o ministério da Palavra tem regras rituais:

  • A narração dos grandes feitos de Deus. Alimentar a memória é importante para a fé de Israel;
  • À luz dessa memória, o sacerdote explica a Lei de Deus. Eles são os intérpretes normais da Lei;
  • Nesta interpretação da Lei, os sacerdotes respondem às dúvidas e questões práticas dos crentes;
  • Torna a Lei compreensível e acessível na redacção dos diversos códigos.

O sacerdote aparece ao Povo como o homem do conhecimento. É o mediador da Palavra de Deus na sua forma tradicional de História da Salvação e de códigos de vida.

Quando os sacerdotes se limitaram ao culto e perderam este ministério do conhecimento e da sabedoria, a tensão com os profetas era inevitável (cf. Os. 4,4-6)

Santidade do culto e dos sacerdotes

8. O Deus de Israel é um Deus Santo. O culto que lhe presta o Seu Povo, tem de ser digno dessa santidade e exige, pelo menos, a santidade dos sacerdotes. A falta de santidade dos sacerdotes é veementemente denunciada pelos Profetas, o que se torna na principal causa da tensão existente entre Profetas e Sacerdotes. Eis algumas das principais denúncias dos profetas: contaminam o culto, misturando-o com usos pagãos (cf. Os. 4,4-11); o que leva a um certo sincretismo religioso em Jerusalém (cf. Jer. 2,26ss); violam, eles próprios, a Lei do Senhor (cf. So. 3,4; Jer. 2,8; Ez. 22,26); deixam-se levar por interesses pessoais (cf. Mi 3,11); falta de zelo pelo culto do Senhor (cf. Mal. 2,1-9).

A exigência da santidade do culto e dos sacerdotes que o oferecem, em nome do Povo, faz surgir a esperança num sacerdócio perfeito, digno da santidade de Deus, que se realizará no tempo do Messias, que inaugurará o tempo escatológico. Embora a espera de um Messias-Rei Justo nunca tenha desaparecido, surgem, sobretudo depois do exílio de Babilónia, duas expressões do messianismo sacerdotal, que se afastam daquela tradição do Messias-Rei e relativizam a estrutura sacerdotal do Templo:

* O Messias é o Filho do Homem, que desce do Céu, reúne os justos e inaugura o tempo definitivo (cf. Dan. 7). Ligada a esta visão do messias como Filho do Homem Celeste, aparece a noção de um Messias Sacerdote, contrapondo-a ao Messias-Rei, já muito adulterada pela dimensão política da vitória de Israel sobre os seus inimigos (cf. Za. 3,8; 6,qq). Nesse tempo definitivo, todo o Povo será santo e oferecerá a Deus o culto perfeito. Ele será um Povo Sacerdotal (cf. Ez. 40,48; Is. 60-62; 2,1-5).

* O Messias visto como Servo, que carrega todos os pecados do Povo e oferece a sua vida pela expiação desses pecados (cf. Is. 42,1ss). Esta figura do Messias Servo, se anuncia a figura futura de Cristo, que assumirá esta missão do Servo, refere também a missão de todo o Povo que só se purificará assumindo o sofrimento e a sua força redentora. Na figura deste Servo está anunciado tanto o Cristo Sofredor como a Igreja, que unida à Paixão de Cristo, oferecerá o verdadeiro sacrifício redentor até à inauguração do tempo definitivo. Está também ligada à assunção, pelos grandes profetas, de uma atitude sacerdotal. A relativização da instituição sacerdotal é, assim, anunciada. Será radicalizada por Jesus Cristo, que nunca se assume como pertencendo à classe sacerdotal, mas cumpre, com perfeição, a função sacerdotal, numa atitude sacerdotal perfeita. Os títulos messiânicos que Jesus prefere e aplica a Si Mesmo são exactamente esses que se distanciam do messianismo oficial. Ele é o Filho do Homem e assume completamente a missão do Servo.

Sé Patriarcal, 21 de Fevereiro de 2010

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca



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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

 

 


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O Haiti ficou destroçado por um terramoto. Por todos os cantos do mundo choveram lamentos pelas dimensões humanas e físicas da tragédia, que, sem dúvida, é enorme. Mas todos temos um pouquinho de culpa nisto tudo. O Haiti está situado entre dois continentes abastados. Durante décadas olhámos para o Haiti como um belo paraíso para passar férias de sonho e tapámos os olhos ao verdadeiro Haiti, com um governo inexistente ou manipulável, um território construído de forma anárquica, muita pobreza e iliteracia. É o país mais pobre do continente americano. A grande América, sua vizinha, o que é que fez pelo Haiti nos últimos anos? E a França, sua colonizadora? A grande ajuda, que agora lhe estamos a proporcionar, já podia ter sido dada há muitos anos, permitindo-lhe construir melhor e organizar-se melhor, evitando em muito as consequências devastadoras do terramoto. Infelizmente, a nossa solidariedade é sempre contra-reactiva. Actua depois dos males acontecerem. Muito perto de nós é quase sempre assim. Pode morar alguém no nosso bairro com uma casa muito pobrezinha, que todos vêem que um dia vai desabar. Em vez de actuarmos de imediato, vamos deixar que ela desabe mesmo. Nas muitas lágrimas que vimos a escorrer pelos rostos de muitos haitianos não poderemos deixar de sentir a dor que eles têm de, durante muitos anos, ninguém ter olhado para eles como deve ser. A tão propalada globalização, que todos os dias avança de forma avassaladora, deve, primeiro que tudo, fazer sentir aos países que devem cuidar uns dos outros.


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Desde que se deu o 25 de Abril, promoveu-se em Portugal o direito a manifestar-se por tudo e por nada. Muitos, inclusive, parece que só sentem que atingem a maioridade democrática se participarem numa qualquer manifestação contra os exploradores e usurpadores dos direitos adquiridos, assim dizem, nem que seja à custa de alguma injustiça e indiferença. Penso que já chega de indignação e de manifestações que escondem muito comodismo e resistência à mudança.

No dia 4 de Fevereiro, em alguns pontos do país, vários grupos de alunos do básico e secundário saíram à rua para, segundo noticiou a imprensa, «reivindicarem a revogação do estatuto do aluno, do regime de faltas, a aplicação imediata da educação sexual nas escolas, o fim dos exames nacionais, a melhoria das condições dos estabelecimentos de ensino e a gratuitidade dos manuais escolares». Não deixa de nos causar alguma impressão ver ganapos a realizar manifestações. E ainda para mais a pedirem a revogação de algumas medidas fundamentais para um ensino que se quer rigoroso e sério. Para eles só conta uma coisa: tornar o ensino pouco exigente e fácil. O ensino tem que ser bué fixe. Se ao menos se empenhassem em levantar a voz por causa do bullying (violência praticada de forma sistemática sobre alguém para o intimidar ou rebaixar), do ensino negado a quem não tem dinheiro, da discriminação a que os pobres são votados, da existência de violência nas escolas, da má integração que se proporciona a muitos alunos, entre outras coisas, até mereceriam alguma compreensão da nossa parte. Agora, reivindicarem o fim ou mudança do regime de faltas, quando toda a gente sabe que é um assunto onde não faltam atropelos e habilidades de chicos-espertos; reivindicarem a leccionação da educação sexual, quando um bom pai ou uma boa mãe o poderiam fazer em 15 minutos semanais; reivindicarem o fim dos exames nacionais simplesmente porque é menos um sacrifício que têm que fazer, não merecem senão a nossa repulsa e dá que pensar na forma como as novas gerações olham para a vida. De que é que se têm que queixar as novas gerações? Nos tempos mais recentes, não terão existido gerações com mais apoio e protecção do que as actuais. Vivem em famílias que os sustentam até aos 30 anos ou mais; da parte da sociedade, têm toda a atenção – veja-se o número de programas televisivos vocacionados para elas e o número de iniciativas que proliferam para lhes dar mais qualidade de vida; na sua maioria, vivem num mundo abastado onde nada lhes falta, com uma panóplia de tecnologia feita ao sabor das suas necessidades; mesmo no ensino, nunca houve escolas com as estruturas e meios que as escolas actuais têm, com boas bibliotecas ao seu dispor, uma alimentação razoável, professores de qualidade. Têm todo um mundo montado à sua volta que lhes faz quase as vontades todas, a começar pelos pais, que obsessivamente, vivem em complexo de compensação (dar aos filhos o que eles não tiveram). Que mais é preciso? E o que é que dão em troca de tudo isto? Manifestações? Só falta fazer-lhes a papa toda, como popularmente se diz. Porque não começarem a aplicar o tempo em actividades e projectos interessantes e construtivos em vez de o desperdiçarem em horas nocturnas inúteis e evasivas? Já começa a ser extremamente irritante ver muita gente a exigir tudo a todos e em troca não darem nada ou quase nada, querendo levar uma vida sem exigência e só pensando no seu bem-estar. Não há sociedade que se aguente assim.



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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

 

 


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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

 

 



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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

 

 


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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

A nossa educação

Os últimos acontecimentos relativos ao terrorismo não podem deixar de suscitar a nossa estupefacção e convidam-nos a entrar pelos meandros da irracionalidade. Graças a alguma inabilidade e precipitação, Umar Farouk Abdulmutallab, um nigeriano de 23 anos, com ligações à Al-Qaeda,  não conseguiu fazer explodir uma bomba que tinha armadilhada contra o seu próprio corpo, visando destruir um avião da Delta Airlines, que fazia a ligação entre Amesterdão e Detroit, em pleno dia de Natal. O que é que moveu um jovem a realizar um acto tão bárbaro? É pobre? Não. É filho de um proeminente banqueiro. Não terá em si a revolta contra os «exploradores» dos ricos. É iletrado e sem formação académica? Não. Estudou num colégio particular inglês. Não é ou não seria um ignorante facilmente manipulável pelos pregadores do fundamentalismo. Tem tudo para ser um jovem bem sucedido e feliz. Tem dinheiro e estudos. Não lhe devia faltar nada na vida. No entanto, em segundos estava disposto a abdicar da sua vida e arrastar atrás de si um bom número de inocentes, que não têm culpa da sua vida entediante e do seu radicalismo absurdo. Os estudiosos do fenómeno do terrorismo disseram, durante vários anos, que os suicidas da Al-Qaeda eram recrutados em bairros miseráveis e ignorantes, que cresceram a cultivar o ódio e o ressentimento para com os «colonizadores» que não os deixaram sair da miséria. Não é o caso deste jovem e de outros tantos da Al-Qaeda, que viveram e conviveram em países ocidentais. Chamam-lhe o terrorista perfeito, porque por força de viver no meio de nós durante anos, jamais suspeitamos que nos atraiçoe um dia. Mas é o que está a acontecer.

O que eu mais estranho nesta irracionalidade toda, é que ela põe em causa os valores que imperam nas nossas sociedades actuais. Não ensinamos todos os dias que ser rico é ser feliz? Não ensinamos todos os dias que ter um curso académico realiza as pessoas e que ter tudo que se deseja é o cume da felicidade? É nisto que ainda acreditamos, mas, como vemos, não chega e acho que até já cansa. O que dá sentido à vida há-de ser sempre um mistério e é relativo. Este jovem viveu num país civilizado e tinha formação refinada, como é atributo dos colégios ingleses. De que lhe valeu toda a boa educação que recebeu? Isto deve-nos fazer reflectir no tipo de educação que as nossas escolas realizam e nas grandes lacunas que a nossa educação apresenta actualmente. Temos uma educação excessivamente intelectualista. A principal preocupação de uma escola ou da educação deve ser formar pessoas e não sabichões, crânios, académicos ou especialistas do conhecimento. Não basta saber muito, mas saber para interagir com o mundo, saber para estar ao serviço do bem e da busca da verdade, saber para ser e saber estar e conviver com os outros. O conhecimento é um bem que deve estar ao serviço das pessoas, para que as pessoas sejam pessoas e cresçam como pessoas. Se é certo que é fundamental formar a inteligência e, sobretudo, ensinar a pensar, não é menos importante formar o coração, formar as pessoas interiormente, inculcar disciplinadamente valores e princípios que humanizam e ensinam a ser verdadeiramente livre. Uma educação autêntica tem que ser uma educação integral, que ajuda a crescer o homem no seu todo e a ser um todo harmónico. A formação moral do ser humano nunca poderá deixar de ser um dos objectivos centrais de uma verdadeira educação, ao lado da formação intelectual. Será que o tem sido? Em alguns meios do dirigismo escolar e do Ministério da Educação, e até em alguns meios académicos, ai de quem pronuncie as palavras religião ou moral. Cai o carmo e a trindade. Não resolveremos tudo, certamente, mas damos um grande contributo para humanizarmos mais o mundo.

 

O Magalhães

 

 Todos os governos gostam de medidas emblemáticas. Já sabemos no que dá: fomos nós que fizemos isto, fomos nós que fizemos aquilo. Pronto, está bem. O actual governo não fugiu à regra. Com a altivez de ser modernista e progressista e com muito folclore à mistura, deu o «Magalhães» a muitos alunos portugueses. Alguns, infelizmente, já andam pela feira da ladra. Foi uma boa medida? Sim e não. A entrada em força das novas tecnologias no espaço escolar, mais tarde ou mais cedo, era inevitável. Sem dúvida. Estou de acordo que assim aconteça. O computador é um instrumento de trabalho insubstituível. Mas o seu lançamento em força no ambiente escolar devia ter sido precedido de um estudo das suas consequências e dentro de orientações claras. O computador, hoje em dia, não é só um instrumento de trabalho. Também é um instrumento de entretenimento. O seu uso no meio escolar implica uma nova forma de nos relacionarmos com o conhecimento, de o trabalhar e adquirir. Um estudo feito na Roménia concluiu que os alunos que adquiriram um computador dedicam menos 3 horas ao estudo por dia. Mas o pior, ao que me é dado a observar, são as consequências físicas do computador, de que todos até já seremos vítimas: os jovens e as crianças exibem níveis de falta de atenção e concentração alarmantes. O silêncio aterroriza-os. Não conseguem pensar sem imagens e sem estar a mexer em qualquer coisa. Isto é preocupante. Além do mais, o computador, ligado à internet, convida ao facilitismo. Faz-se pouco esforço por pensar e investigar. Recorre-se ao Google e pronto, está tudo feito. Ainda há dias o grande Umberto Eco – filósofo e escritor italiano - dizia que o Google está a fazer muito mal às novas gerações. E tem muita razão. Poderemos estar a formar jovens e crianças que só querem divertimento e que estão a perder capacidade de esforço e de sacrifício, valores fundamentais ao longo da vida.



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